AS CINZAS DE DANTE

Contos

Plácido Nunes

O inferno não é tão atraente assim, mas sempre nos impulsiona a vertigens e imagens capazes de atiçar a nossa vontade, os nossos desejos... Ou melhor, é um diabinho que faz da nossa curiosidade algo sobre-humano, provocando em nossas mentes medo e...
Dante tinha um sonho para quando morresse e muitos para realizar estando vivo. Queria ser cremado. Desejava conhecer muitas cidades, montanhas, rios, países inteiros. Queria viajar pelo mundo e ser conhecido. Sua vida era um inferno, mas às vezes sorria e lia seriamente as comédias de Shakespeare, Wilde e Millôr Fernandes. Fumava um a dois maços de cigarro por dia. Suas emoções nunca chegaram ao papel. Nem às amizades confidentes.
Seu pai dera-lhe o nome em honra ao escritor italiano Dante Alighieri, falecido em 1321 de malária e retratado por Boticelli em 1495, pois sonhava ver o seu menino um astro reluzente, famoso, talvez um escritor, um pintor ou um músico. Dante da Silva estava mais para Severino, sem morte ou vida, ou para Fabiano, secando de viver no ócio e nas lástimas.
Não fui seu amigo de infância. Nunca brinquei de esconde-esconde e nem de soltar pipa. Na adolescência, não fomos companheiros de farras... Voltei várias vezes embriagado, sozinho, para casa. Íamos, já com a idade a corroer nossas esperanças e a pôr desassossegos em nossas almas, freqüentemente à mesma Biblioteca Municipal. Lá, líamos tudo... Discutíamos... A tosse vez ou outra interrompia os nossos diálogos.
Depois de certo tempo, incalculável e inenarrável tempo, soube da sua morte, no dia do fato fúnebre e sombrio, por outro das Letras, o seu Arnaldo Pessoa.
Foi através do Senhor Pessoa que tive conhecimento do desejo último de Dante. E foi assim que, juntamente com amigos e conhecidos, resolvemos realizar todos os sonhos do nosso cadáver.
A cremação foi realizada e as cinzas recolhidas. Escolhemos, cada um dos dez amigos, três países diferentes com três cidades distintas. Fizemos cartas para serem enviadas a pessoas desconhecidas, explicando-lhes o motivo do envio das postagens, via sedex. E, em cada carta, pusemos um saquinho contendo cinzas de Dante. Sabíamos que ele ficaria feliz com a nossa iniciativa desconcertante.
Compreendíamos que tínhamos que fazer isso. Não sabíamos o porquê, mas os nossos corações pareciam não estar mais em nossos corpos. As nossas almas tinham perdido o tino, mas viver não é arriscar até o fim?
Jamais recebemos uma resposta das cartas enviadas. Não soubemos do que poderia ter ocorrido com Dante. Talvez tivéssemos matado-o outra vez ou ressuscitado a sua alma carbonizada como fênix. Sempre vou ao carteiro da minha casa ver se chegou alguma correspondência do estrangeiro. Volto decepcionado. Ou feliz? Não sei.
O céu deve ser o limite das incompreensões matematicamente incertas. Também não deve ser tão atraente assim. O mundo é que deveria ser outro...
--Senhor, carta dos "States"!
Corri violentamente ao portão. Meus olhos surpresos pareceram, por um segundo, as enchentes do Nilo. Minha filha escrevera para mim depois de cinco meses sem dar notícia. Acabara de conseguir uma bolsa de doutorado em Harvard.

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