... Ah! Como era linda e tão festejada em sua naturalidade, as festas de Reis em Olho D'Água das Flores. Início da década de 60, rapaz em fase de acabamento ainda com suor de menino, que não se desgrudara das brincadeiras de pião, bola de gude (ximbra), peteca (baliadeira) e das peladas nos espaços livres de Santana do Ipanema. Sempre encontrava uma oportunidade para participar dos festejos de início de ano novo naquela Humilde e hospitaleira cidade.
Olho D'Água da Flores, no dia cinco de janeiro de cada ano, abria o seu coração para dar boas vindas ao seu povo e aos visitantes, em momentos de fé, inspirada na boa ação dos três reis magos de Belém. Dia de Reis, a cidade se embelezava na pureza das suas tradições, se apresentava vaidosa como a velha craibeira com suas flores amarelas atapetando o chão no beiço do riacho. A avenida, principal via de acesso a cidade, em quase toda a sua extensão era ocupada por barracas com suas iguarias regionais, vendedores de fumo em rolo; bazais; um mini parque de diversões, composto de onda, carrocel e barcos onde a criançada se divertia livremente. Nas calçadas, as cadeiras formavam um cenário tradicional onde as pessoas se fraternizavam através das conversas agradáveis da época. Não faltava também os jogos de
azar como o bacará, o jogo de dedais, de cinto, onde o “tapia” se apresentava como um bobo ganhador, além daqueles mais divertidos como tiro ao alvo, pescarias, sinuca, tudo isso acompanhado pelos sucessos musicais de Ary Lobo e Luiz Wanderley, através de auto falantes espalhados na avenida. A igreja Matriz, na simplicidade do seu vigário ainda nos trajes de batina, estendia suas bênçãos ao povo olhodaguense rogando aos céus a proteção divina. Tudo era festa, a alegria contagiava a todos. Em meio a tanta gente num vai e vem de felicidade, os mateus com seus cantos de reizados externavam as tradições deixadas pelos seus antepassados. No entanto, um dos pontos alto da festa era o baile, realizado em um enorme salão situado na própria avenida. Muita gente vinha das cidades vizinhas prestigiar os festejos de reis em Olho D'Água das Flores. O clube ficava repleto de pessoas amantes da arte de dançar. Eu sempre encontrava algum conhecido que não dispensava o convite para que eu sentasse a sua mesa. Jarbas Carvalho e seu fiel amigo e cunhado Cabrobra, Hamilton Silva (meu cunhado, já falecido), Hugo e tantos outros, completavam a alegria do baile. O tempo passou, Olho D'Água das Flores progrediu, não é mais aquela cidade tímida do interior. Os bate papos de cadeira na calçada já não desfrutam da mesma freqüência. A festa de reis perdeu a sua doçura, a simplicidade, para dar lugar aos sons estridentes dos trios elétricos. As vendedoras de guaranás à base de corantes se foram no barco do esquecimento, levando consigo os mateus, os bazais, os vendedores de fumo de rolo, de quebra-queixo e algodão seda. Tudo isso passou como a fragrância da rosa, mas ficou em mim a lembrança do seu perfume como prova de uma época em que a felicidade sorria para todos. Sempre que passo por Olho D'Água das Flores, relembro as festas de Reis, e das pessoas que marcaram uma época nas minha idas a esta maravilhosa cidade, Edison Matias, Luiz dos Anjos, Pedro Melo e a família Silva.
Aracaju, 24/11/2006
Matéria publicada em 04/12/2006
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