Já foi conhecida por Olho D’Água dos Bredos, posteriormente Rio Branco e hoje, de forma definitiva, chama-se Arcoverde, por ter sido berço de seu mais ilustre filho o Cardeal Arcoverde. Sem conhecê-la pessoalmente, considero-a como se fosse uma cidade irmã-gêmea de Santana do Ipanema, no estado de Alagoas – meu torrão natal – por conta de sua similaridade no que tange aos seus costumes, à fidalguia de seus filhos e por ter dado origem a grandes contadores de “causos”, que tanto enriquecem nosso anedotário. Sem contar que também vem de lá o famoso compositor João Silva.
Nos idos de 1968, Sarapó (um de meus onze irmãos), tendo sido aprovado em concurso do FSESP, cumpriu estágio probatório na unidade do referido órgão na cidade em foco. Ali ele fez boas amizades e tornou-se atleta de um time de futebol denominado Comércio, inimigo ferrenho do Eutrópio Freire. Talvez pelos comentários elogiosos que o mano fazia, passei a denotar, desde então, verdadeira simpatia por aquela comunidade sertaneja.
Depois da minha chegada ao Recife conheci muitos arcoverdenses, todos da melhor estirpe. Deixa-me uma impressão de que pode até ser que existam por lá – como em qualquer parte do mundo – alguns “cabinhas de peia”, mas não chegaram ao meu conhecimento. Apesar do receio de cometer injustiças, em face da memória que anda meio “veiaca”, posso citar alguns sertanejos daquele rincão, pelos quais sinto um profundo apreço. Pessoas como Moacyr Magalhães, Antônio e Eury Pacheco, Antônio Luiz Borba Cunha, Paulo Soares, Toínho Quinto, Zé Romero, Zé Olímpio, Giovanni Nunes, Grace Zooby (filha de Leonardo Pacheco), entre outros.
Segundo me foi dito, para não fugir à regra das cidades interioranas, Arcoverde tinha, também, no seu período romântico, um “senadinho” que era o local onde as pessoas da chamada terceira idade, das mais variadas vertentes sociais, se reuniam todas as tardes para “colocarem os assuntos em dia”, como também para “malharem” a plebe ignara.
Contou-me o Moacyr, a quem me referi acima, que um cidadão do lugar – que, por uma questão de ética, permito-me omitir o nome – encaminhou para o Recife um de seus filhos para estudar, pois queria, a todo custo, ter um doutor na família. Dito e feito. O estudante concluiu o curso de Direito, retornou à terra natal e ficou um bom tempo sem nenhum quefazer. Um dos freqüentadores assíduos do fatídico senadinho abordou o novel advogado e detonou:
- amigo você foi estudar em Recife, fez curso superior e a gente só vê você “encangando grilo”, sem fazer nada? Porque você não faz como o filho de um compadre meu? Foi prá São Paulo, entrou na polícia e já é cabo. O interlocutor, demonstrando aborrecimento, rebateu a galhofa afirmando que era bacharel em direito.
O abordador “voltou à carga”:
- tem nada não! Você chega lá caladinho. Entra na polícia e quem sabe se um
dia você não chega a ser um sargento?
Recife-abril/2007
História publicada em 30/04/2007
Comentários