FELIZ DIA DO PROFESSOR
Na sala de aula
É que se forma um cidadão
Na sala de aula
É que se muda uma nação
Na sala de aula
Não há idade nem cor
Por isso aceite e respeite o meu professor
Batam palmas pra ele, que ele merece…
(Anjos da Guarda – Leci Brandão)
Quero iniciar esta crônica afirmando que não sou adepto a essa coisa de “dia disso, dia daquilo”, pois acredito que, na sua maioria, são registros de um mundo meramente capitalista.
Mas, mesmo não sendo adepto, a história que vou contar hoje faz uma inevitável conexão a isso.
Ontem, 14 de outubro de 2025, vendo a televisão, vi uma cena de uma novela que me chamou atenção. Não foi quem matou Odete Roitman, não, viu! Foi uma cena em que uma simples babá, vendo a dificuldade de sua protegida na disciplina de Matemática — especificamente na operação de divisão — pegou um bolo e, ludicamente, mostrou à menina como se faz uma divisão. Algo simples, mas comemorado pelas duas.
Então, hoje, acordei com o desejo de contar um causo verídico e interessante.
D. Maria da Conceição Malta Rodrigues, ou simplesmente D. Nininha, esplendorosamente, minha mãe, minha alfabetizadora, meu amor incondicional, minha guardiã nesta existência — ou tantos adjetivos que se queira dar — é uma professora por excelência. Atuou por mais de 25 anos na docência e ainda hoje é reconhecida pelos seus alunos por onde passa.
Certa feita, eu estava na cidade de Olivença, para o sepultamento do corpo do vereador Esdras Vilela, quando fui apresentado pelo companheiro Onofre ao prefeito de Carneiros, à época o Luiz Nobre, ou Luizão. Na expressão, Dr. Onofre disse:
— Conhece esse aqui? É o Maltanet.
Luizão olhou para mim e disse:
— Conheço sim, ele é o filho da minha professora, D. Nininha.
Eu vibrei com isso.
Pois bem, feita a apresentação de D. Nininha, vamos ao fato que disse ser interessante.
D. Nininha e seu José Fontes, meu saudoso pai, eram assíduos frequentadores e evangélicos da Assembleia de Deus Missão, aqui em Santana do Ipanema. Ele, um violonista oriundo das canções sertanejas raiz, e ela, coordenadora de um coral de mulheres.
Como toda professora é cuidadosa, ela preparou uma pasta — dessas com plásticos internos — e datilografou todos os hinos do coral. Lembro-me, como hoje, dela sem nenhuma capacitação em datilografia, mas com muito amor, datilografando apenas com os indicadores, cada linha, cada frase, cada verso dos hinos para a honra e a glória do Senhor — assim ela dizia. Nas apresentações, as pastas faziam sucesso.
Mas sempre digo que o reclamador de plantão está presente em tudo.
D. Nininha fez as pastas para todas as irmãs, indistintamente, inclusive a irmã Zefa (vou usar esse nome sempre). Irmã Zefa era analfabeta, mas sentia-se feliz por glorificar a Deus — e mais feliz ficou quando recebeu a pasta, mesmo sabendo que não faria uso total dela.
O inimigo, sempre rondando, aprontou uma com essas duas irmãs. Uma reclamadora de plantão, e quem sabe com uma pontinha de inveja (não sei), certa feita falou para a irmã Zefa:
— Parece um burro olhando para uma igreja.
Referindo-se, claro, à pasta.
Imaginem vocês a decepção.
Irmã Zefa devolveu a pasta a D. Nininha e disse que sairia do coral. Não fazia mais sentido. Mas a educadora deu a volta por cima. Não aceitou o pedido da colega e lançou uma proposta divina:
— Irmã, por que a senhora não aprende a ler?
Irmã Zefa, muito triste, disse:
— Nessa idade, irmã Nininha? Ninguém aprende, não.
Mas a educadora, com toda a calma e amor do mundo, arrematou:
— Minha irmã, nós moramos perto, eu gosto de conversar com a senhora; então, podemos aproveitar esses momentos e eu vou passando alguns conhecimentos, e com certeza a senhora aprenderá.
E aí vem aquela expressão que os evangélicos dizem e que derruba qualquer argumento: “ISSO PARA A HONRA E GLÓRIA DO SENHOR.”
O fato é que, muitas noites, vi as duas irmãs — na mesma faixa de idade — conversando, e o mais interessante: nos diálogos, uma chamava a outra de “senhora”.
E o amor e a dedicação de ambas fizeram com que, um belo dia, a irmã Zefa, pulando de alegria, verbalizasse a grande frase:
— Irmã Nininha, eu já sei ler! Hoje, ao passar na rua, li algumas placas e estou muito feliz com isso.
Para a crônica não ficar tão extensa, deixo na mente dos amados leitores a possibilidade de visualizarem a transformação na vida dessas duas senhoras. Irmã Zefa não estudou muito, não foi para a escola, mas aprendeu a ler e escrever seu próprio nome.
Todos os dias 15 de outubro, ela faz questão de ligar para sua professora e desejar:
“FELIZ DIA DO PROFESSOR.”
Muitas vezes presenciei ela levar presentes para sua alfabetizadora.
Portanto, eu acredito na força da EDUCAÇÃO e finalizo como iniciei, na epígrafe desta crônica:
“BATAM PALMAS PRA ELE… ELE MERECE.”
Santana dos meus amores, Dia do Professor, outono de 2025
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