Nos meus fantasiosos sonhos, às vezes me vejo no sério ambiente de trabalho de cinquenta anos atrás na agência do Banco do Brasil de em Santana do Ipanema. Retrocedo no tempo e me vejo entre colegas, gastando os tímpanos ante o ensurdecedor barulho de meia centena de máquinas de datilografia, todas funcionando ao mesmo. Máquinas que jamais desconfiaram do seu triste destino: o lixo de ferro velho, imprestáveis, obsoletas. Depois da missão cumprida elas cederam lugar à tecnologia. Em seu lugar, de uns tempos para cá, surgiu o silencioso e sutil toque digital do mouse. Do teclado digital ao moderno monitor, o mundo ficou muito perto de todos nós, operadores, por conta da chamada Inteligência Artificial.
No outro lado do balcão – recordo-me – o salão do Banco estava repleto de agricultores e pecuaristas em busca de financiamentos, para custeio de safra agrícola e melhoramento do rebanho e da propriedade. A agência via, assim, o regurgitar de tanta gente, homens do campo, candidatos a empréstimos por intermédio do seu banco oficial, o Banco do Brasil, fomentando o desenvolvimento nacional.
Hoje, vejo nas agências do BB pequeno número de funcionários, trabalhando em silêncio, vidrados na tela dos computadores, atentos a números e mensagens, mas indiferentes à clientela lá fora, a disputar lugar nas filas de caixas eletrônicos, aparelhos sabidamente inteligentes. Servidores que se salvaram, claro, da drástica redução do quadro funcional de sua agência, por conta dos bloqueios da automação de diversos campos da atividade bancária. Outros, ali não mais se encontravam. Desempregados, estavam sem o posto de trabalho conquistado a duras penas, em concurso público. Agora, deveriam estar, de currículo à mão, lutando por novo emprego.
O avanço da tecnologia, comprovadamente substitui os humanos por máquinas modernas, os computadores. Mas, segundo o cientista social Yuval Noah Harari, autor de Sapiens e Homo Deus, ainda haverá esperança no final do túnel: “Ao menos no curto prazo, a IA e a robótica provavelmente não eliminarão por completo setores inteiros da economia.” Ora, ora, veremos.
Por outro lado, a devastadora doutrina do neoliberalismo, do Estado menor na esfera econômica e social, pregada por aí afora, se reativada ainda continuará a levar desespero ao trabalhador brasileiro, exemplo do estrago que ela produziu nessa área sensível, no final da década de 1990, com o advento do maldito PDV (Programa de Demissão Voluntária).
Pois bem. Voltemos ao passado que nos interessa agora. Ele é sabedoria, é história, é exemplo para as gerações que virão, enquanto a Terra e o Universo, indiferentes a tudo isso, continuarão o seu destino.
Um ano antes da minha aposentadoria, participei, com outros colegas com igual tempo de serviço, de importante seminário promovido pelo Departamento de Pessoal do Banco do Brasil. O seminário tinha a sigla APÓS e propunha, a exemplo de semelhantes iniciativas de outras empresas de grande porte, modernas, levar orientações, senão exemplos gratificantes, a funcionários em final de carreira para desfrutarem vida tranquila de aposentado, como prêmio após muitos anos de trabalho. Dizia-se no BB, de forma jocosa, que o seminário se destinava a funcionários com o “pé na cova”.
Lembro-me que, entre recomendações do instrutor do seminário, havia a que, enfaticamente e repetidas vezes, dizia: “Cuidado com os negócios! Vocês são bancários. Nunca foram comerciantes.”
A sigla PDV, por exemplo, levou muitos colegas do BB ao desespero financeiro. Iludidos pelo volume de dinheiro à vista, em mão, partiram para todo tipo de negócio, sobretudo o ramo de comércio. Muitos caíram, afinal, no chamado canto de sereia. Em pouco tempo, estavam, sem emprego e sem dinheiro. Uma lástima!
Verdade, a julgar pelo exemplo que se verá a seguir.
Há algum tempo, no salão de barbeiro que eu costumava frequentar aqui em Maceió, lá se encontrava sentado, quieto, trajes modestos, um senhor idoso, de cabelos brancos. A ele fui apresentado pelo proprietário do salão: “Seu colega do Banco do Brasil.”
Dando-me a mão, com aparente tristeza, disse-me o idoso: “Não. Ex-colega.”
Explicou-me, afinal, que tudo perdera ao investir o dinheiro do maldito PDV numa padaria de bairro. Fabricados pela esposa, fazia entrega de salgadinhos a lanchonetes de Maceió. Assim ia levando a vida.
Maceió, janeiro de 2019.
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