Colunistas: Páginas Viradas

Literatura

Por Djalma de Melo Carvalho

A primeira coisa que faço no início do ano é trocar de agenda. Essa tarefa, cuidadosamente executada, leva-me bom pedaço de tempo no primeiro dia do ano.

Faço-o, vivendo, ainda, os bons momentos da festa de Natal e os melhores flagrantes da virada do ano-bom.
A cada anotação feita na nova agenda, reluto em destruir a página antiga. Como conservador, faço isso com tristeza e, por que não dizer, saudade das boas coisas que ali foram anotadas e que ficaram para trás. São páginas viradas, recheadas de registros de compromissos honrados, reuniões realizadas, projetos de viagens e festas. Festas que marcaram horas de lazer, encontros com amigos, boa conversa, drinques, boa música, vida vivida. Em fim, o gostinho de saudade sentido nas páginas viradas.

É, também, o grande momento de reflexão. De elevação do pensamento, de grandeza do espírito e da alma. De íntima e reservada prestação de contas, na calada da noite, no leito, no sagrado recesso do lar. Reflexão diante das desigualdades, das diferenças, das injustiças sociais.

A agenda é o roteiro de uma vida medida em determinado espaço de tempo. Também repleta de anseios, aspirações e realizações. Até de decepções, de desencontros, de lamentos, de ansiedades, de sonhos não realizados ou parcialmente realizados. De promessas não cumpridas e de palavras não honradas, num mundo cada dia mais complexo e hostil. Numa sociedade cheia de artimanhas.

A nova agenda dá-nos a ideia de recomeçar tudo. Recomeçar tudo com entusiasmo, a par do clima de amor e de paz expresso nas mensagens natalinas e de ano-novo. A nova agenda dá-nos a ideia de que a vida tem sentido e continua repleta de esperança. Esperança de um mundo melhor, de harmonia, de entendimento entre os homens. De homens que esqueçam a guerra e possam construir uma sociedade mais humana, fraterna e justa.

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