Literatura - Um Natal sertanejo

Literatura

Por João Neto Félix Mendes

Aquele ano foi, sem dúvida, o meu melhor Natal de todos para o menino João. É o mais simbólico e, por isso mesmo, inesquecível, entre tantos. Revirando os esconderijos abissais das minhas memórias que se encontram distantes e perto ao mesmo tempo, sempre o encontro reinante ainda que silencioso, fragmentado e embaçado. É estranho: sinto que sou seu, porém não me reconheço na imagem. O que nos une é a imanência que permanece intensa e vibrante. Ainda que, como criança, não entendendo o sentido intrínseco do Natal, era influenciado pela força invisível das tradições e pelo entusiasmo religioso da minha família.

Nossa casa era pequena, mas suficiente. Antes de se chegar à calçada do passeio público, havia um pequeno jardim, atravessado por um passadiço que dava acesso à rua de nome de Santa. Naquela manhã meu pai trouxe uma caixa enorme que despertava minha curiosidade. O clima já era de Natal!

Não tenho palavras para descrever a surpresa e a alegria que tive ao constatar que eu havia ganho de presente, um velocípede vermelho. Um modelo diferente do tradicional. Na parte de trás tinha uma pequena plataforma que simulava um bagageiro, quase no nível das rodas traseiras, mas era apenas enfeite. Mal cabia um tijolo comum. Parecia ser maior do que realmente era. Os pedais tracionadores eram integrados à roda dianteira. Eu fiquei maravilhado pelo presente e imensamente feliz.

Foram dias em êxtase! Eu dormia e acordava com o brinquedo ao lado. Porém, o ser humano é volúvel e eu queria ultrapassar as fronteiras do portão da minha casa. Eu queria guiar, pedalar em todo o passeio da calçada. Aquele trecho da rua era uma grande ladeira. A descida seria muito boa, mas a subida seria um sufoco que tirava a graça do brinquedo. Enfim, nem tudo são flores. A solução seria buscar alternativas e andar nas ruas laterais e planas.

Eu começava a olhar e a fazer descobertas do mundo do meu jeito particular, observando tudo ao redor. Agora seria necessário extrapolar os limites das calçadas. As imediações das ruas ainda pareciam um sítio, visto que a avenida Martins Vieira, que cruzava nossa rua, estava inacabada e dali em diante não havia calçamento somente chão de piçarra vermelha esburacado pela força das enxurradas de verão. Na rua que se formava não havia sequência contígua de casas. Ainda eram evidentes resquícios de capoeira, mato rasteiro, ervas e arbustos.

Ao adolescente era permitido se afastar um pouco de casa. Não havia nenhum problema. Eu me deslocava com o triciclo para o meu local predileto de passeio e lazer. Antes da chegada era obrigatório percorrer e apreciar toda a extensão da cerca de arame farpados que protegia o quintal da casa de seu Diógenes Wanderley. Sobre a cerca crescia e se alastrava a trepadeira nativa melão-de-são-caetano, embelezando o caminho. Eu gostava de olhar o contraste das cores e de saborear as sementes vermelhas e adocicadas do pequeno fruto.

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