Expansão do ensino superior transforma realidade de comunidades em Alagoas

Educação

Por Por Eduardo Almeida e Severino Carvalho (*)

Campus Sertão da Ufal funciona no município de Delmiro Gouveia

Apesar das deficiências, interiorização promove educação inclusiva e supre carências de áreas distantes

O Sertão virou mar. Mar de conhecimento. Mar de esperança. Mar de transformação social. E a responsável pela mudança não foi a água tão desejada pelo povo sofrido da região, mas as salas de aula da universidade, que chegaram até comunidades habituadas a fazer escola no roçado e que não conseguiam escrever a própria história.

Concretizada em 2006, a interiorização da educação superior beneficia atualmente mais de 6 mil estudantes no estado. A Universidade Federal de Alagoas (Ufal), que, até então, estava limitada à Maceió, agora conta com mais 34 cursos, distribuídos em seis unidades, de dois novos campi. Não só o Sertão é beneficiado, mas também o Agreste e a Zona da Mata.

A ideia de levar o ensino a regiões distantes de grandes centros teve início em 2003, com um programa chamado Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). De lá pra cá, muita coisa mudou, mas problemas estruturais e até mesmo curriculares ainda afastam alunos das salas de aula. O balanço feito pela gestão, no entanto, é positivo.

"O Estado brasileiro está resgatando uma dívida histórica com estas populações, tardiamente, mas está resgatando. Gostaríamos que estivesse com um ritmo e com uma qualidade melhor. Mas está resgatando como é possível. O ponto principal é a democratização do ensino superior. O Estado está enfrentando os desafios", diz o vice-reitor da Ufal, José Vieira.

Os cursos oferecidos no interior tentam atender, basicamente, às demandas locais, como a formação de professores e de engenheiros. Mas também são ofertadas vagas nas áreas de Ciências da Saúde e de Exatas. A "menina dos olhos" da expansão é Medicina, primeiro e único curso de graduação na área implantado no interior, com sede em Arapiraca.

"A interiorização permitiu que comunidades carentes tivessem acesso a cursos considerados de elite, como é o caso das engenharias e de medicina. A universidade pública passou a atender a um segmento desprivilegiado socialmente e isso tem um impacto grande para as regiões que são beneficiadas. É inegável que o processo, apesar dos desafios que nos impõe, representa um avanço enorme", explica Sandra Regina Paz, pró-reitora de Graduação da Ufal.

Rosineide Gonçalves (à esquerda) saiu do campo para as salas mde aula (Foto: Cortesia/Assessoria)



Do roçado na zona rural de Água Branca ao curso de Engenharia Civil

O sorriso no rosto da universitária Maria Rosineide Gonçalves, de 25 anos, deixa claro que a vida dura no campo ficou para trás e que a enxada deu lugar aos livros. Filha de um pedreiro e de uma dona de casa, a estudante cursa Engenharia Civil no Campus Sertão e diz que sonha em ter um trabalho que dê a ela e à família uma vida digna.

"Não penso em ser rica, como muitos. Quero apenas ter a oportunidade de conquistar um trabalho que me permita um futuro diferente, com dignidade, e que eu possa cuidar dos meus pais. Se eu conseguir isso, não estou realizando só o meu sonho, mas o sonho do meu pai, que é ver todos os filhos alfabetizados e empregados", ressalta a estudante.

A caminhada para chegar à universidade foi longa. E não só porque ela precisou percorrer diariamente cerca de quatro quilômetros a pé para chegar à escola onde concluiu o ensino médio ou porque viaja cerca de 40 quilômetros por dia, entre ida e volta, para chegar até o campus universitário em Delmiro Gouveia.

"Sou de uma família de 14 irmãos e só ingressei na universidade no ano de 2010, porque não tinha condições para estudar em outro local. Terminei o ensino médio em 2007 e tive que aguardar todo esse tempo para poder fazer um curso superior", conta.

A universitária mora com a família em Água Branca (Foto: Cortesia/Assessoria)



Rosineide destaca que, além dela, mais quatro irmãs são estudantes da Universidade Federal. "A chegada da universidade no interior vai garantir um futuro diferente para minha família, porque nos permitirá ter profissões de formação. Nós vamos provar que filho de pobre não nasce apenas para trabalhar com enxada, apesar de ter orgulho dos calos que carrego nas mãos, pois foi através deles que tive força para estudar e mudar o meu futuro".

A universitária lembra que poderia ter um futuro semelhante ao de boa parte dos amigos e vizinhos, na zona rural de Água Branca, caso não tivesse tido a oportunidade. "Nenhum [amigo] cursa nível superior. A maioria não terminou nem o ensino médio. As meninas são donas de casa ou trabalham na agricultura. Já os meninos tentam a vida fora ou trabalham na roça. A única pessoa que conseguiu algo faz um curso de auxiliar de enfermagem".

Filipe Manoel saiu do Campús Araíraca para a UFS, em Aracaju. (Foto: Reprodução Arquivo Pessoal)



Alunos são aprovados em seleções de mestrado e doutorado pelo País

Quando Fillipe Manoel dos Santos, de 26 anos, ingressou na universidade, em 2007, ele não sabia que seria conquistado pelo mundo acadêmico. Grauado em Enfermagem pelo Campus Arapiraca, decidiu buscar compreender o processo educacional na área de formação e foi selecionado em um programa de pós-graduação stricto sensu da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

"Primeiro, é importante ressaltar que ter a universidade na cidade em que moro foi fundamental, ou melhor, foi o que possibilitou que eu concluísse a minha graduação. Não teria condições, nem logísticas, nem financeiras, de fazer o curso em outro local. Depois, foi devido às dificuldades e aos avanços que encontrei que eu decidi seguir a carreira acadêmica e analisar a formação de enfermeiros no Brasil", explica.

Apesar de reconhecer a importância da graduação, Fillipe lembra que foram muitos os problemas enfrentados durante a formação. "À época, a assistência estudantil era deficiente. Enfrentamos dificuldades com a falta de laboratórios, de um restaurante universitário e com poucas bolsas de assistência. Mas reconheço que foi o curso de graduação que me deu as 'luvas' para lutar por mais qualificação".

Ele ingressou no mestrado em 2014 e concluiu o programa em 2015. Atualmente ele é professor universitário e foi aprovado em duas etapas da seleção de doutorado.

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