A sala era viva. Vivia o período matutino sob a presença do sol, cujos raios furavam janelas, esparramavam-se nas mesas, sobre as cadeiras, nos bancos e se jogavam ao chão.
Vocativo com o pescoço cheio de curvas. O rosto do Aposto era um solo rachado.
O azul-arroxeado de inquietas sandálias disputando espaços sob a mesa. O vermelho da toalha, que logo tomaria a cor do café, competia com as rosas no vaso laranja. O vermelho no sofá brincava com o azul das almofadas.
Latim, o jardineiro, falava engraçado, enquanto experimentava a rolagem infinita no celular novo comprado pelo Pix e recebido em casa numa caixinha de papelão.
– Dá licença, gente.
– Que faz aqui, Seu Latim?
Havia na sala pesados braços e mãos afeitas aos lápis e aos papéis, cujos dedos tamborilavam em dó menor. E o vermelho-alaranjado da garrafa térmica rogava passagem ao amarelo-alaranjado e ao amarelo-esverdeado das xícaras de café.
– Você é quem sabe por onde é mais longe.
A garrafa de café atravessou a sala decretando: a partir do ano vindouro, só ocuparia esse lugar se soubesse latim.
Gente, espalhafatosa como sempre, chegou à sala.
– Gente, disse-lhe Vírgula, cê é gente mesmo, Gente?
Aposto, longe da linguagem telegráfica, abria e fechava a geladeira.
– Procurava o quê, Aposto? comentou Vocativo, com um riso de canto de boca, olhando-o dos pés à cabeça; não sabia ficar calado: sempre chamando a atenção.
– O hábito da Vírgula consiste nisso, alguém gargalhou da regra, prender e adiante soltar antes de prosseguir a conversa, é sua bela tática de isolamento.
O séquito da Vírgula não lhe abandonava nem na fome nem na sede. Se lhe faltassem os Parênteses haveria os Travessões. E, igualmente, jamais lhe decepcionavam o Aposto e o Vocativo.
– A regra agora é: a partir do ano que vem, só entra na sala quem falar latim?
A nuvem da incredulidade pairou sobre a sala.
– A partir do ano que vem, só vai usar a sala se souber falar latim?
– Como assim, gente!
– Só usará a sala, a partir do ano que vem, se souber o tal do latim.
Sujeito chegou à sala sem Predicado. Ética abraçou Moral:
– Quanto tempo, minha amiga!
– Quanto tempo, amiga minha!
– É Fato?
– É Opinião.
Fato havia deixado a sala. Opinião rolava a tela.
Os pronomes demonstrativos não sabiam ficar quietos, e gargalhavam por qualquer motivo. Esse e Essa, Aquela e Aquele preenchiam a sala com sonoras gargalhadas: lembravam João Urso. Os pronomes indefinidos nasceram tímidos e seguiam tímidos Nenhum, Alguém, Qualquer...
– Toda e qualquer aprendizagem, disse Pedagogia sob a severa anuência da Didática, é contínua, e preste bem atenção, processual e coletiva. Nenhuma aprendizagem é individual, pois ninguém aprende sozinho: aprende-se sempre com o outro.
Sala cheia. Vossa Excelência encontrou-se com Vossa Excelência.
Naquela manhã, o funcionário de serviço geral atravessou a porta da sala com o copo vazio e foi direto à torneira. Encheu-o. Arrotou trigonometria. Arrotou as declinações em latim. Conhecia os heterônimos do poeta de cor, e os recitava a plenos pulmões em quaisquer ambientes.
– Aqui, não, Entretanto! disse alguém. Não atrapalhe.
Tudo tinha pressa. Em torno da mesa estavam, há pouco tempo, a turma dos pronomes pessoais. Eu falava com Tu, que falava com Ela e Ele, que batia no braço de Nós, que ouvia Me, que não largava o celular nem durante o banho, e Lhe espremia – creesk! criiissphssk! – a garrafa térmica sobre a xícara de café.
Os pronomes pessoais do outro lado da mesa. Meu tagarelava com Teu, e Nosso puxava assunto com o grupo dos pronomes de tratamento. Você sequer dava ouvidos ao Senhor, pois preferia ouvir Vossa Excelência.
– Com licença, Vossa Excelência.
– Fique à vontade, Vossa Excelência.
– Como vai, Vossa Excelência?
– E Vossa Excelência, como vai?
– Uma fatia de bolo pra Vossa Excelência.
– Ó, Vossa Excelência!
– Um cafezinho, Vossa Excelência?
– Óó!
Ora, àquela hora, o lugar não cabia mais outra alma. Acróstico chegou e cumprimentou Vossas Excelências, que não o consideravam, ele, primeiro, não passava de um Anacrônico. Acróstico espremeu-se na parede ao lado do Soneto e da Ode, que conversavam com a Elegia.
– E esse bolinho de chocolate e morango, Vossa Excelência? disse, rindo, Acróstico, mas não obteve um fiapo de palavra. Posso experimentar uma fatia?
Cordel e Verso Livre alertaram Acróstico que mantivesse distância desses Beletristas. Lírico, Épico e Dramático, num canto, não paravam de falar sobre a falência do comportamento humano.
Caligrama, a mão à boca, bocejando sem parar: há noites sem pregar o olho, sonha em acertar nos números e enriquecer de repente. Chutar a obrigação de acordar cedo, sair às pressas, atrasar-se, como de praxe, ouvir blá-blá dia a dia desde manhãzinha até o final da tarde, aborrecer-se terrivelmente e enfrentar terríveis desaforos.
Poema Concreto não tirava os olhos da tela.
– Larga essa coisa! disse-lhe Poema Processo. Vamos tomar café.
Haikai, Limerick e Rondó debocharam:
– Depois do Colosso de Rodes, procurando a oitava maravilha do mundo.
Trova e Repente apertavam a garrafa térmica, mas não havia mais café. Sátira e Madrigal contavam as moedas. Balada e Epigrama chegaram. Vilaneta discutia com Instapoesia sobre o fim da profissão. Poesia Emprosa cochilava.
Poema Colagem reclamava do salário. Poesia de Apagamento entrou na fila pra usar o micro-ondas. Poesia Visual comia pastel de vento.
Os pronomes relativos reviraram a sala. Ligados às orações e presos aos substantivos anteriores, Que não sabia ficar calado e estava sempre se metendo no meio da conversa de todos; Quem, quando não era na fala de um, era na fala de outro; Onde sempre dava um jeito de participar de qualquer assunto; Cujo era de pouca conversa com qualquer um.
Já os pronomes interrogativos Qual e Quanto nunca deixaram de trazer a nova fofoca à sala; se alguém quisesse saber o que houve, perguntasse a eles. Quem também estava no meio dos disse-me-disses.
Estrofe, sem motivo aparente, deu início a um banal bate-boca com Verso. Epopeia estabeleceu este diálogo com Métrica:
– Nem tudo vai mal. Não sei se você concorda. Pelo menos, com o vovô.
– Que houve com o vovô?
– Não soube?
– Não.
– O vovô foi sorteado.
– Sorteado?!
– Agorinha mesmo.
– Como!
– Recebeu uma mensagem no WhatsApp.
– Ah, vai atrás disso!
– Inveja sua.
– Inveja minha?
– Pura inveja.
– Sim. Mas recebeu quanto?
– Não queira saber. Ele foi premiado. Interessou-se por qual razão?
– Por nada. Não acreditava nisso.
– Em sorte?
– Não exatamente.
– “Não exatamente” quer dizer o quê?
– Esqueça.
– Puro suco de ressentimento.
– E ele vai receber alguma coisa?
– Sim. Olhe como cresceram seus olhos. Cobiça em sua cara pra qualquer um ver.
– Isso é sério?
– Seríssimo. O vovô teve que depositar um valor mínimo pra desbloquear.
– Desbloquear o quê!
– O prêmio.
– Isso não pode ser sério.
– Eles disseram tudo sobre o vovô.
– Tudo?
– Idade, CPF, endereço, CEP...
– E exigiram um depósito?
– Menos de 5% do valor. Foi pago.
– Tá de brincadeira!
– O que é 5% se eles vão depositar na conta do vovô?
– Na conta?!
– Eles sabem o banco, a agência e o número.
– Estranho.
– Não é estranho. Vovô compartilhou o print do cartão.
– Ah, sim!
– Que significa seu “ah, sim” com esse gesto? Espere um pouco. É o vovô me ligando. Quê! Na delegacia? Fazendo um boletim?
Pronome, como de fato foi dito, garboso, entrou na sala pisando forte. Mas dessa vez essa classe de Palavras não parecia substituir tampouco acompanhar algum Substantivo. Olhava pros cantos, como se buscasse dentro daquela sala as pessoas do discurso, como se quisesse posses ou posições naquele espaço e naquele tempo. Pronome Coesão tinha um sonho: substituir aquele ambiente de trabalho por seu feijão, por sua casa. Tudo o que era desnecessário, estava pronto a evitar. Ele era visto na sala como o mais iluminado.
As cortinas verdes davam a impressão de floresta à sala. O céu, naquele dia, perdeu o azul, o sol o amarelo.
Vi a semente transformar-se em árvore e ela perder as folhas. Veio esta chuva de previsão do tempo e borrou a tevê da sala com as cores primárias, que se misturaram em cores secundárias. Vi a primária e a secundária gerarem uma terciária.
– A quantas anda o Projeto Político-Pedagógico?
– Não tenho notícias.
– Pois deveria ter
– Como ter se não tenho!
– Isso é uma vergonha que envergonha a própria vergonha.
– A vergonha já perdeu a vergonha desde a época da vergonha.
– Fala da vergonha sem respeitar a presença da vergonha.
– Como se atreve!
– Como se ela não estivesse na sala.
– Fala de quê.
– Olhe como ficaram sem jeito as irmãs Anafórica e Catafórica.
– Elas não têm nada a ver com isso.
– Como não!
– Nem elas, nem o chapeuzinho do vovô.
– Mas de uma coisa há de concordar comigo.
– Não me venha envolver em seus castigos.
– Por que o Projeto Político-Pedagógico não apareceu até agora?
– Desde o fim de semana não o vejo. Depois, isso deixo às referências.
– Aprendeu a falar isso com Anafórica e Catafórica?
– Não me envolvo em certas referências.
– Já vi que juízo não cabe em toda cabeça.
– Na sua, por exemplo.
– Não envolva o Exemplo onde não lhe cabe.
– Como correm os ponteiros do relógio.
– Não envolva os ponteiros do relógio nesse assunto.
– E o Colegiado de Classe?
– Não o envolva em assuntos do Projeto Político-Pedagógico.
– Cada qual cuida do seu cada qual.
– Ainda tem café?
– Quem trouxe esse bolo recheado?
Pronome, com a boca cheia de cabelo, abriu a porta da sala.
– Indo? alguém perguntou.
– Vou-me embora pra casa
Lá, tenho panela de pressão
Lá, sou amigo do feijão e do arroz
No prato que escolherei.
Bora, bora. Vou-me embora pra casa
Aqui, já fiz o que fiz
Lá, o feijão é um café, um almoço, uma janta
De tal tempero consciente
Que a panela de feijão faz
Chia e apita e fumega
Vem no trilho qual um samba
Do samba que aprecio e apreciarei
E como sou a ele aderente
Farei palavras cruzadas
Cochilarei na varanda
Sonharei com outra vida
Andarei de jangada na praia da Pajuçara
Conversarei com imagens holográficas
Como se fossem velhas amigas
Acreditarei nelas como se gentes fossem
Em casa há mais oxigênio, madornas
É outra realidade
Não há pressa nem escuros
Diferente dos lugares sem vida humana
Habitados por baratas
Ratazanas apressadas
Esgotos entupidos, que refletem a lua
Besouros metidos a músicos
E quando o quando deixar de ser quando
Mesmo o quando sendo um quando qualquer
Essas lembranças estúpidas
Essas imagens desses lugares sem vida e repletos de luto
– Em casa eu sou amigo de mim e me vejo melhor do que sou –
Terei o feijão sempre à mesa
No prato que melhor me aprouver
E não me pergunte mais nada, pois tô indo agora pra casa.
Um punhado de personagens, nesta paráfrase, habitava bairros sem vida. O hábito de acordar cedo levado a sério. Chegar ao ponto em completo escuro era diário. Esperar o ônibus lotado e viajar em pé por horas não era incomum.
Ufa! Terminava o expediente.
– Bom descanso! ouvia-se, habitualmente, na saída.
O retorno por ruas sem vida. Praças maltratadas, e servidões jogada aos braços do esquecimento. O aperto mal permitia que cruzassem as motocicletas. Becos nulos. Ruas apagadas. Afe!
Via-se de longe, muito longe... o lugar de morada.
A chave pulava do bolso ou da bolsa, emburacava na fechadura. A porta gemia. A luz acendendo. A porta fechava-se. Rápidos, pés dirigiam-se à cozinha.
As janelas, fechadas, encobriram-se com as grossas cortinas; e uma mão invisível apagou a luz.
Vocativo fechou a aporta. E a sala, outra vez, ficou só. Sem vida.
A SALA
CrônicasMarcello Ricardo Almeida 21/09/2026 - 00h 27min
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