RECREIO

Crônicas

Marcello Ricardo Almeida

Locução adverbial de modo: “disputado a tapas,” disse o sabiá-laranjeira.
– Atávico!
– Quê!
– Desça dessa árvore.
– Minha tia beijou a boca dum morto, sabia?
– Que morto, Atávico?
– Seu bisavô.
– Desça da árvore, Atávico.
Stoá passou pela estoa. Acompanhavam-na as inseparáveis Preposição de boné e a incorpórea Conjunção Coordenativa sem soltar a mão da Conjunção Subordinativa.
O real foi substituído por simidão.
A merenda esfriava no prato sobre grandes mesas de algum subproduto do petróleo. Os bancos sequer esquentaram com a pressa.
O pátio recebeu a revoada.
– Que faz aí, Hipócrita? indagou-lhe Palas Atena.
– Cumprindo meu castigo.
– E de que constitui a pena?
– Salvar minha nota com um gênero textual.
– E qual gênero o favorece?
– Crônica sobre a brevidade do recreio nessa vida. Me esforço, mas a Linguagem Simples não me favorece. Quero preencher a narrativa com essas personagens que correm e gritam. O tempo é curto e o espaço largo. Me perco no enredo.
Cada qual se acomodava em um canto.
Os polegares não se desgrudavam de telas fluorescentes. Cada turma em seu quadrado, no brevíssimo horário do recreio.
Pleonasmo, Calão e Borocoxô discutiam sobre uma questão na prova:
– É palavra de baixo galão.
– Não, Borocoxô, é baixo escalão.
– Aprendi que é baixo...
– Chulo chegou e disse-lhes:
– Vão ficar nisso e perder o recreio?
A caminho do recreio, ouvia-se:
– Não são os amigos que o prejudicam! disse o Número ao Grau.
– Não? quis saber o Grau.
– São os amigos, bobãocão! adiantou-se o Gênero.
– Tu agora entendes por que eu não tenho amigos? sorriu-lhes o Número.
Flexão, pesado e lento, cujo único passatempo era modificar substantivos e adjetivos, ficou de longe. Não se desgrudavam Número, Gênero e Grau. Este foi falar de grandezas, de aumentativos e diminutivos; Gênero preferiu falar sobre os estranhos hábitos femininos e masculinos; enquanto Número conteve-se com o que era singular, mesmo preferindo o que fosse plural.
Pleonasmo, cujo ganha-pão do pai era reabastecer prateleiras, andava de pernas bambas; e Borocoxô só falava ter visto o pai uma única vez a distância, quando sua avó apontou alguém na multidão, após o velório do avô. O pai de Calão? Vencia o dia acocorado na automecânica fazendo contas de cabeça. A mãe? No rodízio dos caixas de supermercado; a cada 90 dias, ela saía à procura de um novo emprego até ontem: autônoma, sem direitos previdenciários.
Disse Borocoxô:
– Meus pais lidam com falsa equivalência.
– Isso deve ser importante! atreveu-se o Pleo. Calão soltou uma pulha por acordar com Pleonasmo.
E a Preposição, que não cresceu igual a Substantivo, pulava corda – cujas pontas seguravam Essencial e Acidental. Nessa brincadeira de pega-pega, Ante lia gibis, Após comia maçãs que lhe chegavam naquele papel roxo de seda. Até ria, e sozinho Com jogava bola por não ser de confiança. Contra procurava briga. De chorando e Desde procurando culpado. Em com os bolsos pesados de figurinhas e Entre fazendo-lhe perguntas indiscretas. Para assobiando e Per esperando o tempo. Sob bebendo água com a boca na torneira, e Perante vendo celular. Por, Sobre e Sem no bafo-bafo. Trás anotava o comportamento dos indisciplinados.
– O que propõe o Pensamento?
– A Lógica.
– Ela não veio hoje?
– Nem hoje, nem ontem, nem amanhã.
– Ela não vem mais?
– Cansou de estudar.
Às 18 conjunções misturavam-se às 18 preposições essenciais. Rindo e brincando de bola, de hipnose, de bambolê, de peteca, de pular corda. Corriam nos escorregadores. Subiam. Desciam de ponta-cabeça. Jogavam ximbra.
Diáfora desafiava:
– Venham ver. A geleia da jiboia na claraboia.
Assimetria riu à bandeira despregada. Simetria, sisuda, amuava-se.
Aditiva Soma conversava com Adversativa Opositora:
– E...! disse Aditiva.
– Mas...! reclamou Adversativa.
– Nem.
– Porém.
– Não só.
– Todavia.
– Mas também.
– Contudo.
– Bem como.
– Entretanto, no entanto, por conseguinte.
Alternância divertia-se no bate-papo com Conclusiva:
– Ou... ou.
– Logo.
– Ora... ora.
– Portanto.
– Quer... quer.
– Por isso.
– Assim.
– Já... já.
– Pois, então.
Explicativa veio com quê, porquê, portanto, pois.
Pólis esmurrava Oikos.
– Larga Oikos, Pólis! exigiu Atena. Por que vocês brigam, por quê?
– Ele disse que a mãe dele fala grosso.
– Não foi isso, Atena.
– E o que foi, Oikos?
– Ele disse que o pai fala fino.
– Não foi isso, Atena. Eu apenas comentei que o pai dele assobia, quando fala.
– Vão, vão brincar! decidiu Atena. Eu não quero mais risadinhas nervosas ou mentiras sistemáticas.
– Foi uma tentativa de briga, Atena.
– Não lhe perguntei nada, Pólis! decretou Palas Atena. Vão em paz. Faça-se assim justiça.
“Esse era o espaço disputado a tapas,” confirmou o sabiá-laranjeira.
Porém, o recreio era breve. E o sono profundo despertado pelo demorado apito de fábrica.
No entanto, gritos e correrias compensaram essa ilusão de eternidade. O clicar da bola e o estalo seco – tclhac! tclhac! tclhac! – da corda contra o cimento; a velocidade no recreio – vaptz! vaptz! vaptz! vaptz! – a corda cortando a pressa; e pulos pesados – plact! plact! – afundando – plact! plact! – o piso afundando, alterando correntes de convecção no manto terrestre, mudando o clima e a natureza humana, corrigindo a viagem da Terra na dilatação do espaço.
Todavia, o recreio logo acaba. Corre o pega-pega, a competição de gritos.
Entretanto, o doce uso de redes sociais, cujas ondas, imperceptivelmente, chegam aos portões de Troia – ondas sempre presentes e recebidas de braços abertos.
Por conseguinte, o sinal decidiu tocar. Ele era ensurdecedor sem superar os gritos e os risos que encerravam o recreio.
Não obstante, todos, magneticamente, retornavam às salas.
Conjunção Subordinativa esperava na porta os integrantes Que e Se.
Adverbial conduzia o grupo em fila. Vinham Causa, Porque e Visto Que e Já Que e Como. Vinham Comparação, Como, Do que e Assim Como e Tal Qual. Recolhiam no amplo pátio o Contraste e a Ressalva, que encontraram Ainda Que e Mesmo Que e Por Mais Que e Embora. Condição procurava os seus Se, Caso, Desde Que e Contanto Que irrequieto e barulhento.
Conformidade esperava na mesa da sala. Entrou Conforme. Viu chegar Segundo, acompanhado de Consoante e Como. Consequência, na sala oposta, mandava De Que Modo sentar-se, sentar-se De forma Que e Tanto Que insistia em correr na sala.
Finalidade andava pelos corredores à procura de Para Que e de A Fim de Que perdidos na multidão que se espalhava. Proporção fazia a chamada:
– À Medida Que veio hoje?
– Presente.
– À Proporção Que tá na sala?
– Aqui.
– E Quanto Mais... Menos.
Tempo entregava a avaliação de mesa em mesa:
– Deixe a prova emborcada.
Atravessava Tempo entre os corredores formados pelas mesas, na sala:
– Não desafie, Logo Que antes de começar. Prova é documento, Quando. Não responda com lápis, use a caneta. Olhe pra frente, Enquanto. Cê tá careca de saber: nunca permiti nem vou permitir bate-papo com o colega durante essa atividade, Assim Que e...
Perguntou Palas Atena:
– Conseguiu concluir a crônica?
A fermentação presente na sala. Pequenas bolhas estufando. A expansão do tic-tac competindo com o tique-taque.
– Atávico ainda não desceu da árvore?
Ao retornar às atividades, cantou outra vez e outra vez, naquela tarde, o sabiá-laranjeira. Gente, o sujeito é simples – o sabiá-laranjeira, cujo núcleo é sabiá-laranjeira. Gente, este termo o – exerce a função de adjunto adnominal do núcleo. E o verbo cantou é intransitivo no contexto, indicando a ação de emitir o canto.

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