“O sertão é do tamanho do mundo.
Sertão: é dentro da gente.
O sertão é sem lugar”.
— João Guimarães Rosa.
Assim como Guimarães Rosa, um dos mais importantes escritores brasileiros, que imortalizou o Sertão brasileiro em sua grande obra “Grande Sertão: Veredas” (1956), o escritor santanense Djalma de Melo Carvalho também demonstrou que o verdadeiro chão não é o que se pisa, mas o que se guarda dentro de si. Em seus textos e livros, sempre homenageou o Sertão Alagoano e enalteceu a sua cidade natal.
Nascido em Santana do Ipanema, em setembro de 1938, filho de Manoel Rodrigues Carvalho e Maria Lila Carvalho, Djalma trazia em sua ancestralidade duas tradições distintas. Pelo lado paterno, os Rodrigues Carvalho fincavam raízes na zona rural, nas imediações do Riacho Gravatá, onde a agricultura moldava o cotidiano. Pelo lado materno, os Rocha Melo estavam ligados à vida urbana, representados pela avó Bilia e pelos tios Manoel e José Constantino, comerciantes respeitados na cidade.
Enquanto o destino natural parecia apontar para o cabo da enxada, foi a visão dessa avó que mudou tudo. Dona Bilia era uma mulher à frente de seu tempo e enxergou que a verdadeira colheita daquela geração viria do estudo e dos livros. Não aceitava que seus netos se limitassem ao trabalho braçal, sem qualquer desmerecimento a esse tipo de trabalho, mas ela queria algo melhor para eles: um trabalho digno, que não exigisse o desgaste exaustivo da roça. Trouxe Djalma para morar na cidade, e ele abraçou o estudo como quem encontra a própria estrada. Depois, com a mesma determinação, buscou os outros netos, um por um, até que todos tivessem a oportunidade que ela sonhara.
Djalma cresceu numa família numerosa, ao lado de nove irmãos: Gileno (in memoriam), Jarbas, Terezinha (in memoriam), Ivone, Mileno (in memoriam), José Carvalho (in memoriam), Maria das Graças, Aderval e Ademir. Uma prole típica do sertão, onde o pouco se multiplicava e a escassez era compensada pela abundância dos afetos.
Concluiu o curso primário, o ginasial e o técnico em Contabilidade em Santana do Ipanema. Mais tarde, seguiu para Maceió, onde cursou a faculdade de Direito. Embora sua mãe, Maria Lila, não tivesse formação acadêmica, era uma mulher de grande sabedoria, assim como sua Avó Bilia e, desde cedo, lhe ensinava que o estudo era o caminho para nunca precisar pedir emprego na porta de político. Como bom filho do sertão, que aprendeu a não depender da sorte, Djalma fez da inteligência seu maior trunfo e encontrou no concurso público a segurança que sua mãe, indiretamente, lhe apontava. Ingressou no Dnocs e, em seguida, no Banco do Brasil, onde construiu uma sólida carreira e se aposentou em 1991 como Gerente-Geral, na mesma agência em que havia iniciado sua trajetória como funcionário.
Provavelmente foi ali, no atendimento aos clientes, ao ouvir os inúmeros casos do dia a dia dos sertanejos, que nasceu o cronista disfarçado de bancário. Entre números e relatórios, Djalma recolhia histórias e as transformava em literatura, sintetizando com maestria o cotidiano em suas crônicas. Além disso, cultivava uma paixão por viajar: visitou inúmeros lugares, conheceu diferentes países e culturas, e de cada destino trazia não apenas lembranças, mas novos ângulos e inspirações que enriqueciam seus textos.
Ele também sempre participou ativamente da vida social e cultural. Foi sócio ativo do Lions Clube de Santana do Ipanema e de Maceió, onde militou até o fim de seus dias. Em seu sepultamento, em janeiro de 2026, a homenagem esteve à altura de seu legado: discursos emocionados, bandeiras, flores e a presença comovente de sua esposa, Rosineide Lins, então governadora do Distrito LA-3, que com suas palavras transformou o adeus em reconhecimento público.
Mas se havia uma paixão que o acompanhou por toda a vida, essa foi a escrita. Cronista de jornais alagoanos como a Gazeta de Alagoas e colunista assíduo do portal maltanet.com.br, Djalma fez da palavra sua maior herança. Sua bibliografia reúne dezessete livros, publicados entre 1977 e 2025, numa travessia que começa com “Festas de Santana” e se despede com “Lua Cheia Nascendo”. Além disso, participou de treze coletâneas e antologias, emprestando sua arte a projetos que celebraram a literatura alagoana e nordestina.
Ao longo de quase cinquenta anos de carreira literária, colheu prêmios que atestam seu talento: conquistou o segundo lugar no concurso Aurélio Buarque de Holanda, recebeu o título de Personalidade Maceioense na Crônica, outorgado pela Academia Maceioense de Letras em 2005, entre outros reconhecimentos. Somaram-se ainda onze comendas relacionadas à escrita, cada uma delas reafirmando publicamente sua dedicação às letras. Foi membro efetivo da Academia Maceioense de Letras (Cadeira nº 18) e da Academia Santanense de Letras, Ciências e Artes (Cadeira nº 27), além de sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, títulos que, para ele, nunca representaram fins em si mesmos, mas sim testemunhos de uma vida dedicada à palavra.
Lembro-me bem dos lançamentos de seus livros, realizados geralmente em Maceió e em Santana do Ipanema. De forma indireta, mas profunda, Djalma despertou em familiares o gosto pela escrita: seu irmão Mileno Carvalho publicou “Viagens e Alguns Fatos Históricos”; José Carvalho também deixou seus registros em “Meninos Danados e Levados...”; e os sobrinhos Franklin Carvalho e Edvaldo Filho seguiram o mesmo caminho, respectivamente com o livro “O Amor no Futuro do Presente” e com participações em diversas edições da “Antologia de Escritores Santanenses”. Mais do que um escritor, Djalma foi um semeador, ele plantou palavras e colheu vocações.
Seu maior legado não se resume aos livros ou artigos publicados. Sua contribuição foi mostrar, com o exemplo de vida, que a escrita é fruto de disciplina e vontade: bastam papel, caneta e uma mente dedicada à missão de registrar. Não é à toa que Santana do Ipanema se consolidou, com sua contribuição, como a Terra de Escritores Alagoanos. Djalma demonstrou que o sertão não é apenas espaço de sobrevivência, mas também de criação intelectual, um verdadeiro berçário de escritores comprometidos em narrar histórias e preservar memórias para as futuras gerações.
Djalma Carvalho partiu, mas sua obra permanece viva. Nas páginas de suas crônicas, o sertão não apenas sobrevive: ele pulsa e respira. Ele foi, acima de tudo, um cronista do sertão, um homem que compreendeu que a maior riqueza não pode permanecer apenas guardada no coração, mas precisa ser eternizada nas palavras, capazes de resistir e desafiar o esquecimento.
E como ele mesmo escreveu na crônica “O Riacho Gravatá”, publicada em outubro de 2012 no site maltanet.com.br, ao recordar a voz da avó que, ao ver a enchente do riacho, anunciava que o “riacho vinha soprando”. Suas palavras continuam soprando, e enquanto houver quem as leia, este rio jamais secará, pois sua obra é correnteza que atravessa gerações. Como afirmou Gabriel García Márquez, um dos maiores autores do século XX: “A vida não é a que a gente viveu, mas a que a gente recorda e como a recorda para contá-la.”
Maceió, julho de 2026.
Eduardo Carvalho Cavalcante
Djalma Carvalho: O Riacho que Nunca para de “Soprar”
CrônicasEduardo Carvalho Cavalcante 10/07/2026 - 23h 22min
Comentários