O destino age para divertir-se! disse Simplicidade. Zémambembe sorriu.
A juventude nos ensinou a sermos loucas, Abantesma, disse Simplicidade ao espelho. E hoje não nos reconhecemos mais. Desconheço o seu paradeiro e você desconhece o meu.
Amizade em Olho D’Água dos Lírios não havia outra que fosse comparada à amizade entre Abantesma e Simplicidade. Meninas ainda, e discutiam na saída da escola:
Como se saiu na prova de Matemática?
O problema, Sim, é a escola contratar para ensinar matemática quem não sabe matemática.
Como se saiu na prova de Geografia?
Me perdi completamente nos pontos cardiais. E passei essas duas provas puxando o cabelo. Deixei a sala cabeluda e fiquei quase careca. E só em lembrar disso puxava de novo com força e arrancava tufos e tufos. Olhe esse...
Para! pedia Abantesma. Se acalma.
A brincadeira com palavras entre ela se elastificou:
Aba, como identificar?
Identificar o quê, Sim?
As marcas linguísticas em um poema?
Ora, ora, ora! debochou. É só procurar vocativos, com os poemas velhos; e marcas de oralidade nos poemas jovens.
E gírias não contam?
Talvez alguma variação linguística.
Ah! protestou Abantesma chutando latas no caminho entre a escola e a sua casa, que era vizinha à casa de Simplicidade. Quero ver sentido no conto de fadas.
Quer dizer nexo de tempo, Aba?
Não só isso.
Quer dizer oposição e finalidade?
Ah! chutou uma pedra. Não só isso, Sim.
Em resumo, era uma vez.
Eu quero dizer, Sim, que o mal nunca deixou de ser velho, mas a sedução era sempre nova.
Isso é oposição e contraste, Aba.
Foi o que eu disse.
Você disse? Não ouvi.
Disse.
Vamos deixar de disse me disse!
E se o herói viola as regras?
Que herói?
Do conto de fadas.
Que aguente as consequências, porque a bomba vai explodir no colo dele.
Você é cruel, Sim.
E não é?
Você não falou da coragem.
Que coragem?
A coragem do herói, nos contos de fadas, porque sem ela ele não alcança a magia.
Como encontrar a informação explícita na fábula?
Agora vem você com fábulas! Qual moral disso tudo?
Não...
Sua fajuta, não sabe achar as palavras-chave!
Não me ofenda.
Quem pensa que é?
Eu sou eu.
Que veio da Vila de São Gabriel. Quem nasceu na vila pode dizer que é...
Nasci aqui em Olho D’Água dos Lírios.
Quem nasceu em Olho D’Água dos Lírios?
Eu.
Eu também.
Simplicidade, mamãe disse que vocês moram em casa alugada. E sempre moraram, enquanto eu moro em casa própria.
Ambas se fundiram no mais apertado amplexo e rolaram pela rua. Elas só pararam no estreito entre as casas.
A professora, que vinha atrás delas ouvindo o bate-papo, segurou firme à orelha de Simplicidade e, com a outra mão, na orelhinha tênue de Abantesma, tão fina, que parecia um papel. Torceu, e disse:
Alfabetização estética passa pela utopia escolar. Uma escola sem utopia, ainda está em processo de quer apresentar-se à sociedade como escola.
Vamos correr! gritou Simplicidade ao desvencilhar-se da professora.
Livre das lâminas na ponta dos dedos da professora, Abantesma gritou:
Vamos apostar corrida!
LERLER
LERLER
LERLER
LERLER
LERLER
LERLER
LERLERLERLERLER
LERLERLERLERLER
LERLERLERLERLER
Ler é diferente de lê. Mesmo sendo quase o mesmo som.
Abantesma e Simplicidade iniciaram uma discussão sobre caligrama:
LÊLÊLÊ
LÊLÊLÊ
LÊLÊLÊ
LÊLÊLÊ
LÊLÊLÊ
LÊLÊLÊ
LÊLÊLÊ LÊLÊLÊLÊ
LÊLÊLÊ LÊLÊLÊLÊ
LÊLÊLÊ LÊLÊLÊLÊ
Sabe. Eu sou poeta da roça.
Nunca consegui estudar.
Escola no tempo da troça
Destinada aos marajás.
Aprendi versar com o bico,
Como o cantar dos sabiás...
L
L E
L E N
L E N T
L E N T A
L E N T A M
L E N T A M E
L E N T A M E N
L E N T A M E N T
L E N T A M E N T E... Como se descesse uma escada aos pulos.
L E N T A M E N T E
L E N T A M E N T
L E N T A M E N
L E N T A M E
L E N T A M
L E N T A
L E N T
L E N
L E
L
Poesia visual é isso! berrava Simplicidade.
Poesia visual é aquilo! respondia-lhe Abantesma.
As imagens circulavam entre as meninas recém-saídas da escola com as suas meias ¾. Além das disposições gráficas dos seus bracinhos de canetas. E eram recorrentes os socos no ar. E símbolos formavam os seus passos trôpegos, que à custo desviavam das poças de lama nas ruas de chão batido.
Defendo o poema de leitura linear! disse uma.
Defendo a imagem formada pela palavra! disse a outra.
Sou pela integração do texto-imagem!
Sou favorável a ruptura com o verso!
Prefiro o espaço vazio de sentido.
Você se contradisse, Abantesma.
Quem se contradisse foi você, Simplicidade.
Uso o espaço.
Uso a experiência multissensorial.
Reivindico o poema visual onde as palavras aleatórias e letras ocas voem com o voo do bacurau. Graficamente formem imagens com a representatividade do tema central do texto-verso ou do verso-texto.
Reivindico o poema sob o sol.
A silhueta de ambas se perdeu entre as casas velhas de Olho D’Água dos Lírios.
Na Vila de São Gabriel, 27 de abril, a tia Simplicidade perguntou à menina Bagatela o porquê de o seu tio Zémambembe estar sempre amuado num canto durante o aniversário da vila. E a resposta da menina foi alongar o lábio inferior.
Por que, tia, o tio fica sempre parado num canto?
Simplicidade caçava piolhos na cabeça dela. Deu-lhe belo puxavante.
Deixe o teu tio, metida. Não é da tua conta.
Ele me contou...
Calada!
Ai!
Se reclamar de novo ganha outro puxavante.
Mais tarde, a menina Bagatela procurou saber sobre o amuamento do tio com a Vovó Velha. Esta disse-lhe:
Este menino conheceu Dona Zá Olha, que vivia na sacada dum sobrado a tocar duas cordas de violão. Pra encurtar o romance, eles meteram um filho neste mundo. Vivia Zémambembe derretido pelo sambudinho, que cresceu e virou gente. O pai enganado. Trinta anos depois soube, no aniversário do filho, que o peste sempre odiou o traste do genitor, que culpava a genitora e por ela era acusado de culpa. Sempre que o teu tio se lança a ruminar, menina, rejeitado por quem dedicou todo o amor paterno, é levado pela brisa do amuamento, fica macambúzio e sorumbático.
Soru quê, Vovó Velha?
Vá caçar o que fazer, menina metida. Não é da tua conta.
Correu Bagatela. Foi fabular com a boneca de pano costurada por lã grossa pelos dedos nodosos nas mãos da Vovó Velha.
A Vovó Velha não me quis contar, bonequinha, a tia Simplicidade também me ocultou sobre o paradeiro da tristeza do tio Zémambembe. Mas eu sei, bonequinha. Eu sei tudo. O filho desnaturado do tio se transformou num bacurau. Eu sei. Você também sabe, bonequinha. Sabe. Eu sei que você sabe. Vamos conversar. Ah! Tá com sono? Eu vi. Durma, bonequinha, durma. Prometo não fazer barulho nem dar tapa na cara, com faz a tia Simplicidade comigo. Juro. Não vou bater nunca na sua cara, bonequinha. Durma.
Zémambembe até que tentou ignorar as crises de nostalgia com o tal menino. Aparentemente não logrou êxito. Passou a navegar entre a sanidade e a insanidade. Quando lhe perguntavam pelo primogênito, ele cuspia que se fodesse o mundo porque ele não se chamava Edmundo Iracundo.
Se têm ruas que são ruas, têm outras que são becos. E há becos que são morte. Na Vila de São Gabriel, qualquer bêbado ministrava aula de poesia visual. Alagoas ficou impressionada com as aulas e as viagens dos bêbados à França, as suas correspondências com Apollinaire, os caligramas. Decorava um museu francês o caligrama “Triângulo” de Simplicidade quando nova, bêbada e perdida de amor por Zémambembe, que dedicava a vida à poesia de cordel.
Zémambembe, depois que conheceu Simplicidade, rabiscou a canivete as árvores centenárias no jardim da Baronesa Kuaanddussiphoddenn. Começou a escrever poesia visual até nas telas da sua consorte Simplicidade.
Na Rua dos Quebraqueixos, na Vila de São Gabriel, no longevo casarão, Dona Bagatela conversava com o genro Afável.
DONA BAGATELA: Isso é assunto meu e dela.
AFÁVEL: Por que não conversamos amanhã? Amanhã trará um novo Natal.
VITORIOSO: Ainda não acredito que é sua mãe quem está aqui.
DONA BAGATELA: Não. Estou na igreja, animal!
AFÁVEL: Mamãe, ouça. Essa hora é hora da senhora tá na cama.
DONA BAGATELA: Na cama?
VITORIOSO: Na cama.
AFÁVEL: Dormindo e não andando por aí igual a um fantasma.
DONA BAGATELA: Tá me chamando também de fantasma?
VITORIOSO: Fantasma? Quem lhe chamou de fantasma aqui?
DONA BAGATELA: Fantasma é a vida de vocês.
AFÁVEL: Vitorioso, não fale mais nada.
DONA BAGATELA: Fale, fale que eu quero ouvir.
VITORIOSO: Só queremos que a senhora vá pra uma casa de repouso.
DONA BAGATELA: E essa não serve pro meu repouso?
AFÁVEL: Não nos leve a mal.
DONA BAGATELA: Não nos leve a mal? Querem me chutar, e pedem pra pu...
VITORIOSO: Não tome decisões precipitadas, minha sogra.
DONA BAGATELA: Não me chame de minha sogra. Demônio!
AFÁVEL: Não é isso. É só isso.
DONA BAGATELA: É só isso o quê?
VITORIOSO: Só isso.
AFÁVEL: Joça tem nos ditos que a senhora, ultimamente, anda no mundo.
DONA BAGATELA: Que mundo?
VITORIOSO: No mundo... Falo, Afável? Ah, que se fo... No mundo da lua.
DONA BAGATELA: Na lua só tem lunático. Quero Marte.
AFÁVEL: Pra que Marte?
DONA BAGATELA: Vagabundos! Pra encontrar marciano; mandá-los virem aqui guerrear, seus golpistas! Querem tomar o casarão que Vovó Velha deixou e o tio Zémambembe perdeu, e eu, por um argueiro no olho da sorte, recuperei com o fim da tia Simplicidade, a Maldita. Vou à Justiça, seus estelionatários, falsários, criadores da falsidade ideológica ao invés de criarem crianças...
VITORIOSO: A senhora não anda no mundo da lua, anda? Não acredito.
DONA BAGATELA: Quem anda no mundo da lua é Joça.
JOÇA: Velha linguaruda.
DONA BAGATELA: Aquela... Quando sair daqui eu vou ter uma conversa séria.
JOÇA: Venha, bruxa maldita.
DONA BAGATELA: Aquela fofoqueira disse o quê? Qualquer dia, puxo a língua.
AFÁVEL: Sem violência, mamãe... sem violência.
DONA BAGATELA: Quem prega a violência são vocês.
AFÁVEL: Não diga nada, Vitorioso.
DONA BAGATELA: O que atrapalha uma vida humana é outra vida.
AFÁVEL: Mãe Bagatela, a economia da cidade não é proporcional ao bolso dos seus moradores.
DONA BAGATELA: Não tenho nada com inflação nem com FMI. Economia da cidade? Vem me falar. Não me fale nessa palavra “economia”. De economia em economia, uso os dois lados do papel; o fósforo queima o palito até virar carvão vegetal; o palito de dente, eu uso as duas pontas. Reaproveito até as pedras que chegam no feijão. Vocês deveriam agradecer por não morarem em casa de porta e janela. E vocês vêm me falar em economia!
AFÁVEL: Arquimedes só conseguiu mover o mundo com ajuda de uma alavanca.
DONA BAGATELA: Não conheci Seu Arquimedes. Mas sei que formiga quando quer se perder cria asas.
AFÁVEL: Vitorioso, eu não já lhe pedi pra não se meter entre mãe e filha?
DONA BAGATELA: O que essa ameba tá ruminando, aí, hem, Afável? Diga a esse pamonha que o canudo de urbanista e o papelucho de engenheiro civil não lhe serviram muito bem.
VITORIOSO: Quer ser entendida, Dona Bagatela. Não sabe que o Arquimedes pediu a ajuda de uma alavanca para mover o mundo, e as cidades querem motivos pra quê? Elas vão crescer até estourar, e Le Corbusier nem sequer imaginou isso em sua visão plana, em sua planta livre. Como dizem os alemães: “Ist das Leben. Wir Weinen”. Sua mãe, Afável, não entende que nenhum modelo serve à cidade que vai e volta sozinha. Ela reclama de prédios sendo construídos em volta de sua casa e não entende.
DONA BAGATELA: Não entende o quê, seu tapado, incompetente?
AFÁVEL: Dá pra ficar calado só um instante?
DONA BAGATELA: Vou ensinar a esse sarnento o que é uma guerra. Com essa cabeça cheia de pensamentos pecaminosos. O leite vai secar logo, logo. Eu vou jogá-lo numa terra arrasada. Ele acabou com a nossa família, Afável. Esse destruidor de mundos. Essa política de tirar até a última gota de leite do peito da vaca é o que enche os bolsões de miséria. E mais, seu doutor de araque Vitorioso: seria bom para a minha saúde mental eu me acordar e não encontrar mais meu genro. Cruz credo! Ele anda à noite toda em minha casa só de cueca.
AFÁVEL: De cueca, Vitorioso?
VITORIOSO: Quando?
DONA BAGATELA: Sempre.
AFÁVEL: De que a mãe tá falando?
DONA BAGATELA: Que vergonha! Isso não tem futuro. Isso foi um trovão? Já caíram barreiras com toda essa chuva. Vocês ouviram? Tem gente desabrigada. A sua sorte, Vitorioso, ó Vitorioso, é que você tem o colarinho branco. A minha vontade era sujar esse teu colarinho branco. Devia era se envergonhar.
VITORIOSO: Se envergonhar de quê, sogrinha?
DONA BAGATELA: Tire a palavra sogrinha desse esgoto.
VITORIOSO: Piada. Isso é piada de mau gosto a essa hora da madrugada.
DONA BAGATELA: É vergonhoso ter que ficar submisso ao contracheque da Afável. Que marido fraco! Não se faz mais casamento como se fazia antes.
VITORIOSO: O casamento, disseste bem, é na saúde e na riqueza, na fome e na pobreza. Há no Brasil uma Corte Suprema.
DONA BAGATELA: O que mata um cristão não é a fome, nem a doença, senão a falta de vergonha, seu imundo do inferno! E a humilhação é mais mortal do que veneno de cobra. Você acordar e dormir com uma ideia fixa, um só pensamento: não fui nada nessa vida. Não lutei, também não perdi. Perdi... perdi por não ter lutado. Miséria! Não me rendo a vocês dois. Dois carniceiros! Olhe. Levantou-se. Vai beber. Encha a cara, covarde. Esconda-se, esconda-se atrás da bebida. Delirium tremens. Escrevi um soneto pra esse pudim de cachaça. Como uma mulher se casa com um traste desses?
VITORIOSO: Não admito ser chamado de delirium tremens.
DONA BAGATELA: Delirium tremens, delirium tremens delirium tremens delirium tremens delirium tremens delirium tremens delirium tremens delirium tremens delirium tremens delirium tremens delirium tremens delirium tremens...
AFÁVEL: Vocês dois querem parar?
DONA BAGATELA: Isso só sabe fumar, beber e chupar balas de hortelã. Não dá. Malandrão. Deveria era levar bordoadas de todos os lados. Sou capaz de arrebentá-lo com essa cadeira de ferro.
AFÁVEL: Calma, mamãe.
DONA BAGATELA: Calma, quando eu tô bêbada.
VITORIOSO: Todo mundo tá com sono.
DONA BAGATELA: Sai, sai. Eu mesma vou sozinha. Ninguém vai me fazer calar. O cara não dá um prego numa barra de sabão. Ainda põe a culpa na política do FMI. Como se o FMI soubesse que ele existe. O FMI te conhece, cachorro? Traste ruim, golpista, vai procurar emprego, porque eu não nasci pra sustentar vagabundo. Se eu fosse saudável, eu te pegava pelo colarinho e pelos fundilhos e te arremessava ao outro lado da Rua dos Quebraqueixos. Faria você se afogar no rio. Atirava esse imundo por essa janela. Ai, se eu tivesse tido a sorte de nascer com saúde! É que minha saúde vai e volta. O teu destino tá traçado, Vitorioso, nas cartas do meu baralho. Sai daqui ó diabo do inferno! Não me venha tirar pra dançar tango. Não danço tango com você. Tua sorte é que eu vou com essa tua cara. Senão mandava aqueles desocupados do Beco das Garrafas Recicladas conversarem com você. Aposto como iriam lhe convencer a deixar a minha casa. Bato nas paredes desse casarão, porque ele é meu. E vocês? Deveriam ir morar num loteamento clandestino e, lá, erguer o seu barraco e construir a vida.
VITORIOSO: Achei que não ia mais parar de falar.
DONA BAGATELA: Nem comecei ainda.
VITORIOSO: É isso que essa distinta senhora deseja.
DONA BAGATELA: Você ouviu isso, Afável?
VITORIOSO: Ela berra tão alto que estremecem as cores da casa. As cores dessa casa combinam muito bem com seu aspecto sinistro, Dona Bagatela, e essa sua vida sombria.
DONA BAGATELA: Esse país é assim mesmo.
VITORIOSO: E onde é melhor?
DONA BAGATELA: Na Ilha de Socrota, o velho é respeitado.
VITORIOSO: A senhora sofre do Complexo de Caramuru, que só valoriza o que é de fora. Mesmo quando o que vem de fora não é bom.
DONA BAGATELA: Haja paciência.
VITORIOSO: Se aja dessa maneira; haja paciência.
DONA BAGATELA: Gosto de ouvir sotaque estrangeiro. Por que não?
VITORIOSO: My name is Vi.
DONA BAGATELA: Debochado!
VITORIOSO: Tudo gira em torno da insegurança. De como se ganhar, de como se perder. Essa é a política de vida. A oferta de emprego encolhe um pouco a cada dia.
DONA BAGATELA: Ouviu isso, Afável? O que te mantém em pé é gemada com vinho quente.
AFÁVEL: Mamãe, agora, chega. Nos deixe dormir. Olhe o relógio.
DONA BAGATELA: Não me venha mostrar isso. Não me empurre, não me.
AFÁVEL: Ajude aqui, Vitorioso.
DONA BAGATELA: Não quero ajuda de Vitorioso nenhum.
VITORIOSO: Espere. Vou ajudar.
DONA BAGATELA: Não se atreva.
AFÁVEL: Vou chamar Joça pra me ajudar.
DONA BAGATELA: Eu mesma vou andando com essas pernas doentes.
VITORIOSO: Não sou nenhum feitor de escravos pra me olhar com essa cara.
AFÁVEL: Vamos, mamãe.
DONA BAGATELA: É sim!
VITORIOSO: Tá bom. Agora vá se deitar.
DONA BAGATELA: Perdi o sono.
AFÁVEL: Joçaaaaaaa...! Me ajude aqui.
DONA BAGATELA: Joça? Aquilo tá roncando na frente da televisão.
VITORIOSO: Por que Joça não responde?
DONA BAGATELA: Hoje, quero ver televisão.
AFÁVEL: Será que Joça deixou alguma coisa na cozinha?
VITORIOSO: Apague a luz.
AFÁVEL: Está mais calma, mamãe?
VITORIOSO: Sua mãe tá mesmo é precisando com urgência de uma clínica de repouso. Falei com uns amigos e eles vão me indicar um local bom pra cachorro.
AFÁVEL: Só vamos voltar a falar nisso após o Natal, Vitorioso.
VITORIOSO: Será que dá pra apagar a luz e seguir seu itinerário?
AFÁVEL: Tá incomodado?
VITORIOSO: Que achas de o padre beber em serviço?
AFÁVEL: Venha, mãe. Hoje foi um dia daqueles.
VITORIOSO: Volte. Sua mãe vai sozinha.
DONA BAGATELA: Me solte. Eu vou sozinha.
AFÁVEL: Não vou mais varar a madrugada discutindo se mamãe vai ou não vai pra uma clínica. Minha paciência se esgotou com você, Vitorioso.
VITORIOSO: Meu coração nunca mais será o abrigo de amores perdidos, como diz o meu samba do peito, nem lagoa intranquila... Soube, Afável, o que fizeram com as lagoas Mundaú e Manguaba?
AFÁVEL: Mãe Bagatela sofreu tanto com a morte da tia Simplicidade. Foi a única mãe que a mãe conheceu. A mãe mesma da mãe Bagatela morreu cedo, ela não chegou a conhecê-la. A tia Simplicidade morreu tarde. Gostava tanto de mim. Foi quem me levou ao primeiro dia de aula. Como posso esquecê-la? Ficava até tarde vendo TV comigo. Coisa que mãe Bagatela não fazia, a tia Simplicidade fazia. Eu queria chamá-la de vozinha; ela preferia tiazinha. Nunca conheci mulher mais vaidosa. Sempre no salto e um espelho à mão. Ajudava nas minhas atividades de escola. Uma mulher inteligentíssima. Aliás, mulheres dessa família não há do que se queixar. Se eu tinha dúvidas na Língua, lá estava tia Simplicidade; se a dúvida era na História, Análise Sintática era só gritar, tia Simplicidade vinha correndo ao meu socorro. Aquela foi uma santa. Foi diretora de escola. A engenharia é coisa dela. Por mim, passava a noite inteira lembrando da tia; ela não sai de minha memória. Que história linda. Acompanhou os meus estudos do primário ao pós-doutoramento. Protestava contra a estrutura escolar errada. A criança sente o cheiro bom do caderno novo, do lápis, da borracha; sempre uma expectativa tão grande esses primeiros anos escolares; mas logo aparecem cobranças, as tabelas periódicas na ponta da língua, as fórmulas, os macetes, os esquemas, as áreas de escape não existem, existem os filósofos, as provas, os trabalhos, os castigos, os medos; e você chega à universidade achando que vai encontrar o bicho de sete cabeças, e não é assim tão feio. Não demora, aí, vem a especialização, o mestrado, dissertação; doutorado, a tese... o pós-doc. Tudo mamata. Simples como deveria ser a vida, sem estresse, sem angústia, sem ansiedade, sem pressa, como deveria ser a escola. Não sei a quem eu saí pra conversar tanto. Vitorioso já adormeceu e nem me esperou. Quando começo, não paro; e sinto até vergonha de mim mesma.
DONA BAGATELA: Acabou. Há limite pra tudo. É só isso. É pra isso que se tem filho. Quanto mais como cocada, mais choro. Deixe de gulodice, mulher. Ganância. Ignorância. A TV atravessa a madrugada mostrando um pedaço de carne desse tamanho, como se carne fosse cultura, temperando uma coisa que todo mundo é obrigado a comer, senão morre. Não tem mais jeito. Deveria ter jeito de uma mãe não derramar mais lágrimas. Tô estragando tudo. Olha isso: a minha roupa encharcada. Quando criança, a filha vive dando trabalho, adoece, corre, cai. Chora. A gente corre, ajuda, lambe a ferida, oferece doces. Só Deus sabe. Até promessas as mães fazem pros filhos não morrerem. Noites em claro. E, no dia seguinte, parece um zumbi; nem consegue trabalhar direito; o dia fica sonolento. Melhor seria se morresse. Quando crescem? Os pais velhos. E os filhos logo fogem pra algum espaço novo na cidade, procuram um lugar; deixam os velhos. Ainda bem que o pai dela já não está mais aqui. Não ia aguentar. Ver isso? Não. Todo esse trabalho só porque tive filha única. Melhor seria se tivesse mais. Uma tulha. Uma ruma de gritos, de choros. Ia ser melhor? Não ia resolver. A briga seria mais feia. Não podemos morar com filhos. Que castigo é esse? Prender os filhos debaixo das asas. Quando são crianças queremos logo que cresçam, parem de gritar. Se crescerem e virarem demônios? Nem sei se todos agem assim. Devem. Por isso nem tanto mar, nem tanto terra. Por isso tanto velho se suicidando. Devia beber veneno pra rato em lugar de comer cocada na frente da televisão. Sou forte. Não vou à porta de armários procurar veneno. Meteram a porta na minha cara. Essa hora tão aí; silêncio pra eu não os escutar. Vou baixar o som da televisão. Desgraçados! Não quero veneno. Quero vida. Isso não me mata. Devia me jogar debaixo dum ônibus. Pra quê? Pra casa ficar aí? Não. Isso não. Que filme é esse? Só tem porcaria. Daqui a dois anos passa o cometa. Quero ir no rabo do cometa. Vou viajar pelo espaço. Conhecer outros. Deixar a Terra. Fugir com Halley.
CIPÓ: Entra duma vez, Escaravelho! Que ladrão vagabundo e cagão é você?
ESCARAVELHO: Ó Cipó, essa casa é casa mal-assombrada. Só vim porque disse que era moleza; qualquer um podia entrar, sair sem ser visto.
CIPÓ: Só tenho medo dessa veia.
ESCARAVELHO: Desligue a televisão.
CIPÓ: Deixe, deixe; gosto desse seriado: Don Muamba. É melhor passar a chave nos quarto, enquanto termina o filme.
ESCARAVELHO: É maluco? Nos quarto queu quero entrar e levar o que tiver. Desligue a TV. Essa vai ser a primeira queu vou levar. Tem até controle remoto e videocassete. Veia forgada. Não acha, Cipó?
CIPÓ: Espere, Escaravelho. Essa é a melhor parte do Don Muamba. É quando ele negocia com o banco. Não desligue, senão eu te arrebento, eu te mato.
ESCARAVELHO: Será que essa veia vai acordar? Acho que não. Quero ver. Eu vou bater palma bem alto. Assim, assim ó. Agora... mais alto, mais alto ó. Dentro do ouvido dessa veia ó. E ela nem se mexe. Deixe bater mais forte, mais forte ó. Ela tá roncando. Não acorda ó.
CIPÓ: Paaaaaaara, Escaravelho? Para de bater palma no ouvido dessa veia.
ESCARAVELHO: Quéisso! Esse tipo de tratamento é minha especialidade. É... acho que vou parar de bater palma. Já tô com as mão doendo. Quero fazer uma visitinha aos quartos.
CIPÓ: Vou com você, Escaravelho.
ESCARAVELHO: Você só fala alto. Fale baixo, Cipó.
CIPÓ: Ladrão medroso morre de fome. Tem que roubar no grito.
ESCARAVELHO: Não me decepcione, Cipó. Você é frouxo. Não quero mais sociedade com ladrão igual a você. Aqui vai ser o último trabalho. Depois do Natal, vou fazer tudo sozinho. Sozinho, entendeu?
CIPÓ: No Natal passado você disse o mermo.
ESCARAVELHO: Natal é a melhor época pra roubar, assaltar, perdoar, fazer tudo. Tá todo mundo feliz, cheio da grana, 13o no bolso, comida em casa e muito presente. Olhe essa TV. Vale uma nota. Tem que ter grana pra tirar uma dessas da loja, Cipó. Essa eu pego depois. Vem comigo.
CIPÓ: Não pise no meu pé.
ESCARAVELHO: Tá tremendo por quê?
CIPÓ: E vou saber, Escaravelho? Ali é a cozinha. Volto já!
ESCARAVELHO: Traz uma bola de sorvete. Estranho isso aqui. Será que essa veia não tá morta? E se tiver morrido é porque morreu. Começou a roncar. Tá viva. E ronca feio. Ronca tanto, que parece motoca. Ó veia, veia! Ela assovia e canta. Como pode! Será que levo primeiro a TV? A TV não. Acho que sim. Tão nova e tão bonita. Levo ou não levo? Que tá acontecendo comigo? Nunca fui isso nem disso. Que susto! É um espelho. Espelho desgraçado! Vou te quebrar em pedacim. E, aí, Escaravelho? Eu sou aquele do filme: Don Muamba, com esse sorriso, eu vou conquistar essa veia. Por isso vendo jornal. Como alguém com essa cara de ladrão que faz vender jornal, vender revista, vender iogurte na televisão, vender bolacha recheada, creme dental, absorvente, sabonete, não quer meter a mão no alheio? Vou fazer o que tem que ser feito e escambau. Vim aqui, papai, pra levar o que não é meu, mamãe. Cipó na cozinha comendo queijo. Aquele rato...! Traga a minha bola de sorvete, Cipó! Minha barriga tá queimando, seu traste.
DONA BAGATELA: O senhor fugiu de novo, tio? Que é que o senhor faz aqui, tio Zémambembe, com esse espelho na mão? Corra rápido; vá-se esconder, tio. Que tem na sua cabeça? Saia daí. Fuja. É perigoso ficar, aí, tio Zémambembe. Tia Simplicidade pode acordar. Ela vai descobri-lo aí.
ESCARAVELHO: Essa veia é tantã. Vou... fugir... daqui...
DONA BAGATELA: Dorme, dorme. Dor...
CIPÓ: Tome seu suco de laranja.
ESCARAVELHO: Eu pedi pipoca.
CIPÓ: Não foi limonada?
ESCARAVELHO: Cerveja.
CIPÓ: Trouxe vinho.
ESCARAVELHO: Ah...! deixa essa água aí. Não em cima da TV, seu cagão!
CIPÓ: Vou beber essa caipirinha. Fiz especialmente pra você, meu amigo.
ESCARAVELHO: Vamos fazer a limpa e cair fora, dono de banco.
CIPÓ: Não sou dono de banco. Dono de banco é o Don Muamba da série de TV.
ESCARAVELHO: E você?
CIPÓ: Que tem?
ESCARAVELHO: Parece um pimentão.
CIPÓ: Verde?
ESCARAVELHO: Não.
CIPÓ: Amarelo?
ESCARAVELHO: Não.
CIPÓ: Vermelho?
ESCARAVELHO: É.
CIPÓ: Não sei. Qual foi mesmo a primeira pergunta que fiz?
ESCARAVELHO: Essa veia é maluca.
CIPÓ: Ela acordou?
ESCARAVELHO: Conversou comigo.
CIPÓ: Disse onde esconde a aposentadoria?
ESCARAVELHO: Mandou fugir.
CIPÓ: E você?
ESCARAVELHO: Fugi. Depois percebi a burrice, voltei.
CIPÓ: Que conversa, Escaravelho. A veia continua dormindo.
ESCARAVELHO: Dormindo? Dormindo.
CIPÓ: Você mesmo, Escaravelho, bateu palma nas orelha dela.
ESCARAVELHO: Até puxei os cabelo ó.
CIPÓ: Ao trabalho. Bucho cheio, mão lavada, pé na bunda.
ESCARAVELHO: Cipó, Cipó, juro que a veia acordou e começou a me puxar pelo braço, a fazer careta, a me mostrar uma boneca, a dizer tio Nãosseioquê, tio isso, tio aquilo. Não ouviu?
CIPÓ: Não.
ESCARAVELHO: Vou cair fora.
CIPÓ: Que cair fora!
ESCARAVELHO: Essa casa tá cheia de fantasma. Na cozinha, você disse.
CIPÓ: Eu não disse nada.
ESCARAVELHO: E isso agora?
CIPÓ: Foi um gato.
ESCARAVELHO: Os carro, na rua, fica passando e jogando as luz aqui dentro.
CIPÓ: Não enrola, Escaravelho.
ESCARAVELHO: Vai ficar, aí? Agora é você que tá batendo palma pra veia?
CIPÓ: Ela dorme como pedra.
ESCARAVELHO: Tá, tá bom. O medo já foi.
CIPÓ: A cozinha tá cheia de panettone.
ESCARAVELHO: Panettone?
CIPÓ: Dá uma olhada.
ESCARAVELHO: Isso me dá água nas bochecha. E que barulho foi esse, Cipó? Eu ouvi. Tu não ouviu?
A menina Abantesma, tanto quanto a menina Simplicidade, foi absorvida pelo tempero do tempo. Distanciaram-se e se reaproximaram muitas vezes.
Abantesma passou a ser identificada por Dona Abantesma e Simplicidade por Dona Simplicidade. Donas de quê? Dos destinos alheios.
Os hábitos de Abantesma e Simplicidade eram compartilhados desde os primeiros trabalhos escolares. Elas pulavam da cama, corriam, pulavam o muro, uma entrava na casa da outra como se fosse a sua.
Se Abantesma conhecia todos os segredos nas gavetas de Simplicidade, a recíproca era idêntica. Uma não queria comer pão com ovo em casa, porque não tinha o mesmo sabor do pão com ovo na casa da outra.
O muro entre as casas delas podia ser derrubado, pois dia após dia elas derrubavam alguns tijolos ao pularem o muro. Os riscos a lápis de cor que tinham na casa de uma coincidiam com a casa da outra, não riscados por cada uma em sua casa e sim Abantesma que riscava na casa de Simplicidade e vice-versa.
Sentadas no chão, sob o sol do final de abril, elas brincavam:
Quem come gato fica agateado?
Quem come abelha vira favo?
Quem come coelho é acoelhado?
Quem come onça se torna bravo?
Quem come burro acaba burraldo?
Quem come mosca voa zoado?
Quem come grilo fica grilado?
Sinonímio, pai de Simplicidade, conversava com a esposa Antonímia:
Lembra-se daquela vez?
Qual? respondeu-lhe Antonímia cortando as unas dos pés com uma faca de ponta. Foram muitas.
Quando Simplicidade e Abantesma escalaram por causa da Mixórdia.
Como esquecer!
Não sei como a navalha foi parar nas mãos da Simplicidade.
Ai!
Que foi?
Quase decepei o dedão do pé.
A briga por causa da Mixórdia, que estudava na mesma sala de aula das duas, Abantesma cortou um dedo e logo ameaçou decepar a própria orelha. Simplicidade deu um corte profundo na própria língua, e vomitou sangue por um mês.
Nossa filha não se desgruda da pequena Aba.
Parecem duas preciosas xícaras da nossa coleção.
O silêncio entre elas parece a eternidade do universo.
Um dia, essas mãos firmes estarão trêmulas, Sinonímio.
Uma não dormia enquanto a outra não dormisse.
E aquela vez, não me esqueço, a pequena Aba, numa provocação à Sim, deu um soco na pedra da calçada. E a nossa Sim escalou a insanidade com um murro num caco de vidro. Elas voltaram da escola com as mãos sangrando.
A nossa Sim não saía da sandália plataforma. Quando procurava a minha sandália, tava com ela.
Simplicidade pulava amarelinha desenhada por Abantesma. Amarelinha ficava na calçada até a próxima chuva apagá-la.
O propósito do destino é aplicar peças! disse Simplicidade. Zémambembe sorriu com a cabeça no colo de Simplicidade, enquanto fogos de artifícios subiam na comemoração da Vila de São Gabriel no dia 27 de abril.
CALIGRAMA
ContosMarcello Ricardo Almeida 27/04/2026 - 08h 36min
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