E os jogadores de cartas obrigavam Simplicidade a repetir:
Les Joueurs de cartes.
Falar “Les Joueurs de cartes” era uma viagem ao passado, voltar à época do seu avô. Ouvi-lo, na soleira do lar, na calçada alta, cantar a cada crepúsculo:
Não basta saber rimar
No feitio da rima rica.
Domine a morfologia,
E atenção nessa lírica
Pra criar a rima, a dica:
E, adiante, ei-la velhice.
Outro dia, uma criança.
Que é o tempo? Estultice.
Repare bem ser adulto.
Eu sou matuto de roça,
Juiz e jurisconsulto.
O tempo vai de viagem.
E, sem dar fé, ei-la foice
À geração de coragem.
Outra geração foi-se.
A sala de estar, antes pequena às conversas, algazarras, piadas, gritaria, agora ampla, amplíssima, com as proporções do mapa-múndi, mais, do universo! resmungou Dona Bagatela, como se tentasse se soltar das presas do passado.
O longevo casarão completamente sem ninguém. Nem o papagaio que, quando o primeiro morreu foi substituído por outro, sempre estava se balançando no poleiro numa vã tentativa em puxar conversa, jogar conversa fora.
Completamente, o tempo perdeu o acanhamento. Volto. Devagar. Passo o pano sobre a poeira nas fotografias.
Tia Simplicidade, onde eles estão? Parecem vivos. Presos naquele último Natal. O passado demolido. Joça! Por que ela não me escuta? Joça! gritou com toda a força da voz que lhe restava. Continua desleixada. Xícaras ficaram como as deixei. Não adianta chamá-los. “Maluvidos,” como dizia a tia Simplicidade.
O porta-retratos sorri. Só faltava essa! Os dedos no verniz descascado da mesa; eles em cada marca de copos apagam as conversas.
A luz da viatura girava. Mais um fato direto e sem emoção para quem ficou dependente da pressa à caça de som, movimento e inusitadas sensações.
A vida continua, sogra. Entregar-se é só um começo. Não se esqueça de me levar mimos, Afável querida.
O clique metálico das algemas selou o velho e banguelo destino.
A chuva molhava o túmulo da tia Simplicidade, ali perto.
Faça de nossas lembranças um lugar seguro, Vitorioso. Espere, Vida.
Vitorioso tropeçou ao procurar o equilíbrio com as mãos presas atrás das costas. O olhar da rua empurrava-o para dentro da viatura.
Afável segurou-se aos braços de Dona Bagatela. Joça admirava de longe, apoiada ao cabo de vassoura e a pá aos pés, a boca da lixeira aberta.
Dois policiais seguraram os braços de Vitorioso, molemente, com passos curtos, desleixados, em direção ao banco traseiro da viatura. O carro ameaçava aos pulos.
Algemado, ele deixou a casa da sogra. Afável, mulher do preso, filha única de Dona Bagatela, correu aos prantos atrás de Vitorioso.
A chuva tamborilava no telhado com uma preguiça secular.
Dona Bagatela, na porta do longevo casarão, entortava a boca, chutou na porta e se foi sandálias adentro sentar-se diante da televisão; levantou-se e, debruçada no largo peitoril da janela, comentou:
Sem rima, o mundo para. Não demora, o tempo finda. Foi apresentado o Mote. A voz está com a Glosa.
A senhora é perversa, dona. Diz aqueles versos.
Qual?
Aquele da muié do bebum.
Aquele?
Acho tão escalafobético.
Minha sonetada, Joça? Credo!
Bem que desconfiei.
Desconfiou, foi?
Sou pisciana, Dona Bagatela, e meu mundo é festa.
Que está dizendo, Joça?
Nada, Dona Bagatela. Não digo nada pra não ir com Vitorioso.
Supus, Joça.
A senhora tramou tudo com o delegado no dia daqueles ladrões, não foi, Dona Bagatela? Por que tanto ódio?
Vá fazer o seu serviço, Joça.
Ó sim, senhora! Sim. Sim, senhora, sim. Mas como aprendi com a menina Afável, Dona Bagatela, eu lhe digo congratulation!
Gracias, Joça! Muchas gracias!
No poleiro, o papagaio acompanhava com o balanço de querer saber tudo à sua volta. Joça voltou ao que fazia no longevo casarão. Afável trancou-se no escritório, igual aos hábitos infantis. O vento, que soprava, levou a chuva. Após silêncio constrangedor, Dona Bagatela disse:
Dispenso congratulation na língua de Goethe, quando a preferência minha é a língua de Machado. Dispenso, Joça, como dispensei o chofer de praça que o golpista do meu genro contratou para me levar ao asilo de velhos doentes. Sua hipócrita sem caráter! Não preciso de parabéns. A história não tem pressa. O tempo, depois que alcancei essa idade, passa lento feito o mel no pão durante o inverno. Não me canso em repetir o que falava a tia Simplicidade. Aquela, sim, senhora, sim, sabia das coisas, sim. Joça, essa vida se atravessa de passo a passo e não de pulo em pulo. Quem pula é sapo.
Afável havia girado a chave pesada e grossa na bocarra da fechadura, o estalo metálico selou o escritório. Sem acender as luzes, ela se encolheu no vão estreito entre a escrivaninha e a parede, puxando os joelhos contra o peito até que o queixo repousasse sobre eles. Nas sombras e cheiro de papel antigo entre pilhas de originais dos romances manuscritos encadernados por Dona Bagatela, a respiração para de repente, de repente mimetiza o silêncio das personagens presas nos romances de amor desiludido, carros velozes e discos voadores nos blocos de gelo perpétuos.
As almas do outro mundo que tapem os ouvidos da tia Simplicidade. Tia, você tinha razão. Gente tem saliva de dragão de komodo. Vitorioso achava que ia me expulsar da minha própria casa. Mancomunou-se com essa uma que se fechou no escritório, viu, mancomunou-se com a mulher Afável, viu...
E, afinal, o que é mancomunou, Dona Bagatela?
Vá fazer o seu servicinho, Joça.
Dona Bagatela, que diabos é mancomunar?
Cala a boca, papagaio enxerido!
Não fale assim com essa personagem que não faz mal a ninguém, Dona Bagatela.
Cale-se você também, Joça. Acha que vou sair daqui? Vitorioso achava. Quem saiu foi ele. A tia Simplicidade, que tinha religião, diferente desse papagaio enxerido, que só sabe balançar-se nesse poleiro, costumava dizer. Se eu saísse daqui, viu, não ia, viu, nem olhar para trás, sua Medusa despenteada e cheia de outros adjetivos. Não vou ficar paralisada, viu. Só por olhar para trás, Orfeu não pegou na perséfone da Perséfone. E a senhora de Ló, disse a tia, só em querer olhar para trás, virou uma pamonha de sal. E para de fazer papagaiadas, Joça, viu, senão ia com Vitorioso, viu. Para, viu, com caras e bocas, viu. Não sou inútil. Não é à toa que nasci sob o signo do Escorpião: se facilitar, eu ferro.
Aqueles beijos que a senhora distribuía com o Dr. Vitorioso se acabaram em quê, Dona Bagatela?
O sol voltou forte. Era como se não houvesse chovido. O vento balançava as folhas das árvores alegres no jardim da mãe de Afável. Dona Bagatela tinha se acostumado aos caprichos da filha única presa ao escritório que se tornou um emaranhado de sombras. Afável encolhida. As cortinas pesadas de veludo foram puxadas até que o sol fosse apenas um fio pálido riscando o tapete, como a luz que entra por baixo de um chapéu. Móveis de carvalho projetavam uma caverna. Silêncio interrompido no tique-taque do tempo. Afável com a cabeça sepultada entre os joelhos. Pilhas de pastas e livros formavam muros ao redor de Afável.
Aliás, Joça, o meu querido pai, que eu não o conheci, era Peixes. Dizia o tio Zémambembe, aquele homem era mesmo desse signo. O querido pai andava pela Vila de São Gabriel como se tivesse um rei na barriga. Joça, vem cá. Vem cá, Joça. Há até uma fábula que o meu querido tio Zémambembe me contava. A avó, mãe do meu pai, era dos apólogos; o avô era das fábulas. A Vovó Velha contava ao tio Zémambembe que uma casa de camisa impedia a entrada de um botão. “Por que, senhora Casa, esse impeditivo ao Botão?” assim questionou a Tesoura. A Casa resistiu, culpou a Linha, esta culpabiliza o Nó por imprudência, imperícia e negligência. Já Vovô Velho contava a história da aranha. Disse ele que uma aranhinha desse tamanhinho, que tinha medo de atravessar um riacho com água pela boca, pediu que o peixe lhe carregasse nas costas ao outro lado. Esse liso resistiu. Mas o diabo atenta. Não atenta, Joça? Não tenha dúvidas. Resistiu, viu, muito, muito mesmo, Joça, viu. E a pequetitinha insistiu. Sabe como é, Joça. Preste atenção. Psiu! Com medo de ser ferroado e morrer, o peixe fugiu dela. Sendo peixe, ele não queria ser exemplo de nenhuma moral. Porém o destino já tinha selado que ele morreria pelo sim. Mas depois o safado voltou. Acho que ele se arrependeu em não dizer sim à Dona Aranha. Ela subiu nas costas dele e ficou feliz como nunca. No meio das águas, o peixe glub, glub, vush, vosh, burp, burp, ele levava aquela aranhinha pichututinha cabeludinha nas costas. Chegou à outra margem, o peixe ui recebeu a ferroada, e morreu.
O papagaio inclinava o bico de um lado para o outro, esticando o pescoço a cada estalido na sala. As suas garras apertavam a madeira enquanto as penas da nuca se eriçaram, e os olhos, pequenas contas douradas de pupila pulsante, fixaram-se em qualquer sombra que cruzasse o corredor.
Dona Bagatela conversava com a sua velha boneca. O passado da menina Bagatela ia e voltava. O passado da tia e do tio estava impregnado nos corredores, nos músculos, no solo, nas veias, no solado dos pés, na palma das mãos, nos rebocos, nos olhos, nas telhas da casa, nos móveis, nos cheiros, em pratos, panelas, no ranger das portas deslocadas do lugar pelo vento.
A vida solar na Vila de São Gabriel cochilava e as moradas de seu povo eram ossos enterrados no chão. Dona Bagatela, quando era menina, não largava por dinheiro nenhum a boneca cheia de remendos cujas linhas de suas costuras foram de fios de cabelo humano.
Empoleirado, o papagaio não parava. Frenético, girava a cabeça. Olhos miúdos, brilhantes. A cada passo de alguém, ele dava um pequeno salto lateral. Emitia um estalo rápido com o bico, como se analisasse o ambiente.
Antes que findasse o sol, Dona Bagatela, na cadeira de balanço preferida, levantou-se. Trouxe da estante “A cordilheira Mahalangur Himal.” Releu algumas páginas. Ela passou da cordilheira Mahalangur Himal às “Crôficas de Tiagens ao Everest” com entusiasmo e voz alta:
“– Que foi isso, B. Hata, isso foi uma pena?
“– Pena?! gritou. Cadê? gripou. Deixeuver. Não. Isso não era uma pena.
“– Não?
“– Não. De onde veio?
“– Caiu das suas costas.
“Quem transformava um pêssego num maracujá era o tempo. A amiga B. Hata falou das dores nos ossos para Gigi Pii, e chorou como se fosse uma chuva. Disse-lhe que sofria, como Sofia Pii, amante da Filosofia, também sofria com as tosses horríveis. Reparou isso nela? Sim. Horrorífica, para ser, porque achava apropriado ser mais exausta. Depois comentou sobre as suas viagens. Conheci, como você conheceu, Ãoão de Zãozão, na região histórica da Astúcia, país de quadros de cinema.”
Joça passava pano nos móveis. O papagaio cochilava.
“Anuir, disse, é infinitivo das formas conjugadas. Ou não, B. Hata? Caíram em profundas gargalhadas B. Hata e GiGi Pii. Afundaram nas formas conjugadas anui e anuiu com gosto e vontade. Uma não dava aprovação à outra nem se lhes abrissem diante dos olhos buracos de minhoca. Acho que vou fazer um livro com minhas crônicas de biagens, disse B. Hata. Ao que GiGi Pii anuiu, como se anuir fosse fácil no infinitivo do verbo anuir. Tudo aqui nesse pen drive promíscuo e eu procurava onde pôr; eu queria introduzi-lo onde coubesse e fazê-lo derramar-se num suporte de texto. Será um livro temático, GiGi Pii. Conversei com um editor fajuto duma editora chinfrim e tenho certeza de que terei grãlivro de lições pra adotar em colégios baratos. Estive onde os continentes emendaram os bigodes. Olhasse em meu Orkut, GiGi Pii, senão no Face. OK. Melhor no WhatsApp. Em qual dessas bolsas deixei o Smart? Que coisa, não, GiGi Pii! Recebeu o E-mail? Agora deu! E esse Insta? Você recebeu as minhas mensagens no celular durante a viagem. Recebeu ou não as recebeu, GiGi Pii? Eu, de minha parte, deixei de ser preconceituosa, e você não, sua maledicente! Vou fazer mais um Blog. Não era o certo eu ter dado essa volta? Era o certo. Estava com Linkedin? Cê não soube do tamanho do Myspace, GiGi Pii! Eu queria só me comunicar com pessoas de maneira breve, tipo Twitter ou coisa assim. Como tudo ficou pequeno, cada vez menor. Engraçado, amiga B. Hata. O pai e o pai do papai viram menos filmes se comparada à prateleira dessa estante; comecei com VHS, fui pro DVD, passei no Blu-ray, e me acabei no HD. Cê nunca me mandou nenhum MSN durante a viagem. Viu como eu fazia com Widget? E Podcast? Nem lhe falei o que houve com Wiki! Essa tosse era quem me atrapalhava durante a viagem! Éramos amigas desde a data em que você foi Mamãe Ganso. Tá lembrada disso? Sim. Meu livro? Um sucesso. Imagina, GiGi Pii Ralho, um livro de crônicas de biagens. Isso é inédito, GiGi Gi. Eu, GiGi, ia lançar moda. Livro daqui: um brinco. Depois, o mundo todo sempre quis me imitar, você soube. Vai ver, GiGi Pii Ralho. Queria um título, assim, tchan! Pensei em pedir verbas ao Tchantchantchan, GiGi, com um projeto feito às pressas. Queria aparecer nas redes, quebrar a Internet, rádio, tevê e jornais com este título “Só Riso.” Na Internet, B. Hata? A Internet era um mundo de bactérias para ser visto por microscópio. Microscópio? Ó como assim, GiGi Pii Ralho? A Internet, B. Hata, era o vasto mundo do Chapeleiro Maluco; melhor, a Internet é terra de Tweedledum e Tweedledee. Ambas diante do Orkut aberto de B. Hata, que aproveitava a vida governando o condomínio, na Rua do Postigo, 209, como se fosse a sua própria carne congelada. Dessa vez, GiGi, estive em Santana-Sem-Água-E-Sem-Luz, andei de jegue, e pesquei de garrafa com farinha no Panema, e bebi pinga com Miúda. Conheci Maçayó, onde o Gogó da Ema foi enterrado. De avião, GiGi Pii Ralho, subi até Muriço e fui fotografada na Ponte Buarque de Macedo, lá, a minha sombra foi projetada na ponte como se fosse a sombra duma generala de pijama que comemorava a vitória.
“– Hein, GiGi Pii? Fala alguma coisa. Por que ficou bicuda? Invejosa! Não falava com os pobres?
“– Como vão os pobres? Falar o que, B. Hata?
“– Qualquer coisa.
“– Qualquer coisa?
“– Falou?
“– Falei.
“– O quê?
“– Qualquer coisa.
“– Você não prestava, GiGi Pii Ralho! Dormi, GiGi, na casa de taipa, berço da religião dos povos antigos. Visitei a cama dos primeiros amantes da História, anteriores a Heródoto de Halicarnasso.
“– Esteve em Carnasso?!
“– E vi, que regalei, quando a bala se acabou e não restou nem o mel no papel do confeito. Um papelão! Achou que eu estivesse mentindo? Mas, pulando de assunto, eu queria continuar firme como síndica no 209. Tinha chance? Me acusaram de ladra. Vão ter que provar nas barras da Dona Justa. Eu adorava esse condomínio. ‘Síndica era uma engolidora de facas’, foi o que me disseram na reunião de condomínio, elogiada candidata e espetada na espinha durante o exercício da função; um poder sem poder tiranizar os moradores no prédio. ‘Síndica, você é uma patriota despatriada’, foi o que me disseram, ‘uma dona-joana sem coroa, um dom-quixote sem sonho; síndica, você é um barril de pólvora com um demônio fumando cachimbo’. Ainda me chamam de azeda e eu perdi a maçaranduba do tempo, lá em Diritiba. Não sei se queria continuar firme como síndica no 209. Queria viajar; conhecer o Brasil, Estado por Estado, cidade por cidade e, em cada município, eu ia experimentar a estadia, procurar lugares típicos para fotografias e publicá-las em minha Home page. Por que você não viajava, GiGi? Nas cidades que visitei havia uma placa enorme na entrada:
“RESPEITEM OS TURISTAS; NÃO JOGUEM CASCAS NO CHÃO.
“– Nessas cidades que me receberam de braços cruzados para dar sorte, GiGi, outras placas menores existiam indicando os itens a serem fotografados em praças e os preços, em casas com pinturas frescas, em ruas de pedras-sabão, em igrejas mudas, em sumitérios comunicativos, em lojas de R$ 1,99 com produtos made in China. Era um sonho ser síndica do condomínio, mas, porém, talvez eu não fosse continuar no 209. Uma vez síndica, GiGi Pii, sempre síndica? Não lhe saberia dizer. Quase 48 blocos e gente pra chuchu me dizendo o que fazer e escrevendo sugestões ao técnico da Seleção Brasileira, ao presidente do País contra a minha administração. Sempre fui econômica e silenciosa. Economizei alimentação; atravessei toda a cidade de Jãojão com um único sanduíche de rodoviária embrulhado na boca do estômago e, durante o sacolejo do trem de subúrbio, quente e lotado, o sanduíche ameaçava voltar ao balcão do boteco. Fiquei hospedada duas vezes onde sepultaram Jim Morrison. Estive no castelo que foi palco das reuniões do partido-partido. Em Longaterra, nas universidades, li dois ou três gibis e tomei chuva. Enchi essa garrafinha como lembrança de minha visita a Longaterra, uma ilha no Paidicífico.”
Foi exatamente nesse ponto que Dona Bagatela encerrou a página.
A “biblioteca” de Dona Bagatela era extensa e cabiam todos os livros empilhados debaixo da televisão: lugar sagrado.
Em seguida, ela releu os poemas em letrinventadas “Não ama a Vila de São Gabriel quem não tem coração à poesia.” Esse mundo sem poesia não era mundo, mas desmundo.
Rever Olho D’Água dos Lítios, vizinha a Olho D’Água dos Lírios, significa uma viagem ao centro do coração e vinte mil léguas às cavernas cerebrais, 80 voltas ao mundo afetivo na misteriosa ilha de Xaxanã cujo acesso só acontecia depois de cinco semanas em um balão e, na descida, era hora de atravessar o fluxo amazônico em uma jangada high-tec. Dona Bagatela estava feliz porque saciava a sede com água potável e natural como a luz do sol pela manhã em sua janela, no quarto do último andar.
Diante da tevê, Joça e Dona Bagatela reuniam-se com reverência para admirar o mundo e fazerem prognósticos sobre a vida. Depois que Vitorioso foi recolhido ao banco dos réus e condenado, Afável transferiu-se da universidade para outro município. Se não admirava enxurradas epidérmicas, enchentes de informações que escorriam da tevê, Dona Bagatela pulava numa página a outra dos seus livros sob a tevê com uma habilidade de Tarzan.
Os galhos das árvores, no jardim de Bagatela, mexiam folhas e algazarra.
Os janelões de vidro eram açoitados pelas folhas das jaqueiras.
Nenhuma tara era mais cara à Dona Bagatela senão reler “Os Nwtzhys.” O zumbido do vento contava lorotas ouvidas apenas na cabeça branca de Dona Bagatela. E, dos amontoados livros debaixo da telebestagem, Dona Bagatela apanhara outro romance do mesmo autor de “A nova metafísica dos abestantos.” Concluiu a sua odisseia linguística refolheando “Os Nwtzhys.”
Na cristaleira, atrás de Dona Bagatela, o Jornal do Sertão dormia próximo ao adjetivo inoxidável. O Jornal do Sertão publicou o este nanoconto, naquele dia, “A peluda elipse narrativa da vizinha brilhava em noite de lua.”
E naquela escuridão primordial na qual se encontrava uma ou duas vezes ao ano, Dona Bagatela falava com aversão que em todas as famílias tinha uma Simplicidade em alguma parte da casa. Prosseguia Dona Bagatela como se as suas palavras sobre a tia Simplicidade fossem uma chave dourada girando até à exaustão qual doença nervosa, um transtorno sem remédio. Nesse ponto, ela obrigava-se a traduzir a arrevesada língua ectoplásmica da tia Simplicidade:
Estour indo... Estour rindo... Estour linda... Estour finda...
Dona Bagatela, livre da exaustão na arrevesada língua ectoplásmica da tia, recuperava o fôlego com água gelada. Demoradamente fabulou para não sentir mais aquele gosto das palavras da tia Simplicidade.
As folhas das jaqueiras mantinham o silêncio necessário.
Joça puxara a cadeira, quando o dia ainda não era dia.
No primeiro dia, o homem criou o cinema, disse Dona Bagatela, e Joça prestava-lhe atenção. Foi no segundo, que esse homem filmou a guerra e, no terceiro, a fome. No quarto, ele e outros se reinventaram.
Joça ouvia-lhe com entusiasmo.
Preste atenção.
Tô... pres...tan...!
No instante em que me encontro aqui, Joça, há, em algum canto, alguém torturado por causa de um mero palito de fósforos.
Dum palito de fósforo, Dona Bagatela!
Um palito de fósforos, Joça.
Tô pasmada.
Pasma?
Há outra palavra?
De fato.
Adoro o fato.
Prefiro opinião.
Fato de boi ou de porco.
Dona Bagatela viu a velha boneca de pano cheia de remendos sobre uma cadeira. Passou a mão sobre ela com o coração partido. Trouxe-a ao colo com as duas mãos para ela não acordar. A sua voz forte e decidida perdeu o vigor, e acariciou o ralo cabelo daquele amontoado de trapos.
Não era mais Dona Bagatela que estava ali, agora era a menina Bagatela.
A tia Simplicidade saiu do quarto com os olhos faiscando:
Só foram umas palmadas pedagógicas, Bagatela. Não chore. Não quero ouvir os seus miados.
Os dedos fininhos da menina Bagatela tocaram na tesoura da Vovó Velha.
Solte isso, malcriada! disparou a tia Simplicidade, como se temesse uma reação violenta da menina.
As mãos de Bagatela tremeram ao tocar os remendos da boneca.
Não me venha com esses seus choros. Não mordi você. É melhor apanhar de mim, agora, para não apanhar da lei amanhã. Punição física? Não. Eu nunca fui a favor. Não, minha querida. Maus-tratos? De jeito nenhum. Agressividade? Jamais. Se me desrespeitar, eu sacudo você até lhe desmontar. Se eu der um soco derrubo uma parede. Você é uma dessas: chupim. Eu não sou violenta. Eu explodo. Esse é o meu temperamento. O seu tio Zémambembe me conhece. E bem antes do seu tio ser levado amarrado dessa casa, eu o esperava chegar do trabalho para lhe contar as suas travessuras, sua traquina. Ele vinha nervoso, arrancava a cinta e começava a bater; batia até cansar. Mas me parece que você se esqueceu disso. Não foi? Naquela época, você levava mil chineladas antes de dormir. Mostre se tem algum ferimento. Mostre-me. Mostre-me agora.
A menina Bagatela não desviou o olhar das costuras tortas na boneca:
Eu juro, tia, quê...
Vai apanhar na boca se jurar. Aah...! Hã-rã! Não havia? Tá certa? Vamos, não fique aí. Largue essa boneca ridícula. E venha me ajudar. Preciso guardar as compras. Estou de braços moles. Não é fácil carregar todo esse peso com a idade que tenho. Ai, meus braços! Bagatela, pegue esses livros. Que é que a senhorita fez? Mas nem pra isso serve, Bagatela? Varreu a casa? Passou o pano no chão, nos móveis? Alimentou as criações? Foi buscar água? Eu não acredito, Bagatela. Olha só! Solta essa boneca ridícula, Bagatela! Não vou falar outra vez.
A mãozinha da menina sobre pano gasto, cada nó da costura, imperfeição por imperfeição recebia um carinho. A bonequinha toda remendada.
A tia Simplicidade cantarolou:
O poeta Perrault advertiu,
e isto há mais de 300 anos:
a Chapeuzinho Vermelho,
só, será vítima de enganos.
Dona Bagatela passou os pesados braços na leveza daqueles trapos que cobriam a boneca. Acalentou o peso leve do que restava do molambo. A menina Bagatela disse:
Bonequinha, amanhã eu vou crescer. Um dia, eu tive, como você tem agora, 3 anos e ½ e, depois, cheguei aos 5 e ½. Tenho oito. Vou pular pros 19, quase 22 e, depois, quando chegar aos 30 e mais, 40, 50, 60, vou ser dona do meu nariz. Ninguém vai mais olhar pra mim, eu com 80 anos de idade, e dizer que eu não sou flor que se cheire. Se eu puder, se eu envelhecer, ninguém mais vai bulir com você, minha bonequinha.
A ponta dos dedos redesenhou fio por fio na desfigurada boneca.
A tia Simplicidade prendeu a menina Bagatela por uma das orelhas:
Deu pra conversar sozinha, foi? Ficando igualzinha ao tio Zémambembe. Venha cá, Bagatela. Ó sua peste! Parece lagartixa sacudindo a cabeça em cima do muro. Ah, uma pedra, aqui, agora, e eu te acertava o juízo, menina! Se fez as suas obrigações, basta responder: “Fiz, sim, senhora”. Mas se me desobedeceu, sabe o que te espera. Não sabe? Sabe, sim. Preste mais atenção ao que te digo, peste. Olhe para mim, peste, quando eu falar.
Poucos fios restaram no topo da cabeça da boneca.
Não ensinarei nunca a essa peste a ser gente, meu São Grabriel?
Ai!
Ou aprende por bem ou aprenderá por mal. Isso, aí, só pode tá na lua.
Ui!
Feche a matraca. Menina mal-humorada.
Ai!
Qualquer coisa chora.
Ui!
Maluvida, agora, chore com gosto, porque apanhou. Olha só. Quando tem motivo, não chora. Que está esperando, hein, menina Bagatela? Tire isso daí! Alinhavou as roupas?
Ali-alinhavei, si-sim, senhora, ti-tia Si-Simplicidade.
Deve tê-las deixado que nem as tuas ventas, como diz a comadre Amélia. És surda, menina? A senhora é surda? Não estás ouvindo que querem derrubar a porta? Ei! Vai ver quem é que tá batendo. Psiu! Não levante a sua sobrancelha para mim, Bagatela, quando eu falar com você. Dessa vez, não quero ver seus joelhos fraquejarem, Bagatela. Você não para de choramingar feito um cão de caça. Seque essas lágrimas. Limpe o nariz. Essas rugas de expressão em meu rosto são por sua causa, Bagatela. Ouviu? O galo cantou. Antes dele cantar de novo, quero ver a casa limpinha. Nunca lhe queimei. Queimei? Ei! Volte, aqui, menina. Espere. Não vejo nem um olho roxo em você. Pensa que vou lhe agredir para você querer correr e esconder-se embaixo da mesa? Não ponha as mãos no rosto, menina. A Bíblia manda castigar meninas assim. Eu conheço a história de Abraão, que quase matou Isaque. Quer mais? Você sempre foi indesejada.
Eu não ia me esconder debaixo da mesa, tia.
Não?
Indesejada é o quê?
Ainda, por cima, respondona. Vai ver. E não grite por socorro. Não quero vizinho batendo na minha porta. Eu vou sair de casa, vou trabalhar, e quem vai cuidar da casa é você, Bagatela. Você está bem crescidinha. Com essa idade, eu fazia o almoço; se não fizesse, ah, se eu não fizesse, apanhava da mãe e dos irmãos. Bagatela com oito anos, não é mais criança. Queria morrer? Hoje mesmo vi outro enterro de criança. Eu perco o controle com você, Bagatela. Comigo ou você aprende ou diz por que não aprende, Bagatela.
T-t-i-a...
A tia sabe tudo. Lembra-se daquele dia em que você mentiu e eu enchi a sua boca com pimenta? Ah, está lembrada! Vai querer que eu encha a sua boca de pimenta de novo, Bagatela? Vai? Escuta. Estou falando. Bagatela, você não vale nem o pão que come. Você é o tomate podre da cesta; você é a semente ruim. Não vou perder a minha autoridade com você, Bagatela. Minha autoridade precisa ser respeitada. Ninguém vai passar por cima da minha autoridade. Está me ouvindo? Exijo que, quando me pedir a bênção, me beije a mão. E me beije a mão demonstrando respeito. Você entendeu? Sua... Sua...! É o que eu espero. Odeio crianças pegajosas. Fique longe de mim, Bagatela. Se não me obedecer, se não dançar conforme a minha música, eu arranco o coro das suas costas e faço nascer outro. Não é assim que a banda toca, menina. Ei, ei! Ei, estou-lhe ensinando as regras do bom viver. E você, aí, acariciando essa boneca. Jogue esse lixo fora! Está batendo nas costas da boneca com que intenção? Quem bate nas costas é traiçoeiro; tapinha nas costas é sinal de falsidade. Essa gripe ainda vai virar um resfriado, Bagatela. Ó menina, está conversando o que com esse molambo? Tem que ter cabelo na venta, sua sonsa, se quiser viver nessa casa. Comigo, Bagatela, toda alegria acaba em dor.
A tia Simplicidade era fogo, Joça, e não pregava prego sem estopa.
Era mesmo, Dona Bagatela?
Ela odiava a família do tio Zémambembe.
Era mesmo, Dona Bagatela?
Odiava, Joça. Principalmente a Baronesa Kuaanddussiphoddenn.
Essa ali, Dona Bagatela?
Essa ali, Joça. Ninguém nunca buliu nas carnes, ancas, mamilos, pernas, nos braços, nas costas, no rosto da tia.
Dona Bagatela! a revelação forçou Joça a levar a mão à boca.
Nem mesmo o tio Zémambembe, sem ter o troco.
Dona Bagatela tocou nos trapos da boneca de pano. Naquela manhã, a menina Bagatela apanhou da tia. Simplicidade nunca aprovou os desaforos do tio Zémambembe, que deixava na pia a berinjela gelada na tigela de ágata.
Depois da chuva de violência, tia Simplicidade cantarolava:
Motorista imprudente
É pior que dor de dente.
Um chofer anacoluto
No volante causa cisma.
O juízo dele se abisma,
Segue rua sem projeto;
Infringe leis, só conflitos,
Vida alheia desconsidera,
Diz o erro ser tão bonito.
Esse é o chofer esquisito.
Toda paz tritura e lacera.
No trânsito é um detrito.
Motorista imprudente
É pior que dor de dente.
No outro lado da Rua dos Quebraqueixos, Dona Matriarca acompanhava insistentes gritos a fugirem do longevo casarão do Seu Zémambembe e da Dona Simplicidade.
A comadre Simpliciade, disse Dona Matriarca na porta de casa, estar com o azeite nas canecas. Nem o diabo suportava.
Dona Matriarca acomodava-se na cadeira de balanço na calçada. Ela não podia perder o circo de graça.
Sentava-se outra vizinha ao lado dela; Dona Matriarca cobrava-lhe:
Mulher, ficasse de trazer a receita do biscoito de nata para a neta. Trouxe? Trouxe nada! disse sem desviar os ouvidos do longevo casarão.
As samambaias tombavam do peitoril da janela sobre a calçada da Dona Matriarca, que se orgulhava das suas folhagens. E o azul-turquesa nas paredes vibrava ao sol pôr. Outras vizinhas e vizinhos arrastavam cadeiras de ferro pela calçada, porque ninguém perderia o espetáculo da Dona Simplicidade. E rápido havia o aroma de café nas calçadas, migalhas de bolo de laranja, risadas. Todos felizes. A menina Bagatela aos gritos. Zémambembe corria nu pelo jardim. A tia Simplicidade aprisionava a sobrinha por uma orelha. Dona Matriarca afundava o amanteigado biscoito na xícara.
É porcelana, comadre?
Não haveria de ser? disse Dona Matriarca passando a mão nas pernas e limpando o farelo.
Dona Bagatela olhava o que sobreviveu da boneca de pano. Joça olhava Dona Bagatela. A menina Bagatela não tinha como discernir. A tortura tinha uma língua poderosa, ela se chocava com língua da Rua dos Quebraqueixos, choque de cabeça com cabeça e de corpo com corpo; e ninguém sabia mais a quem pertenciam às coxas, os braços e as bocas abertas e contorcidas em dores.
Pensamentos sobre mortes diferentes e violentas ficavam lhe comendo o juízo aos poucos e bebia a derradeira gota. A menina Bagatela acuada.
A leitura de que a vida era uma metade de manhã perfumosa não era falsa desde a raiz dos cabelos, Bagatela. Aprenda isso enquanto lhe houver tempo. O mundo que conhecíamos estava próximo de terminar. Apocalipse está vindo, e ouço o tropel dos cavalos.
Bagatela!
Sim, senhora. Senhora, sim. Tia?
Tia Simplicidade andava em volta do longevo casarão feito rotweiller, disse Dona Matriarca. Atravessava Dona Simplicidade o portão, fiscalizava toda a horta, cada pé de couve-flor, beterraba, alface. Aquela espantalha do inferno, que não espantava ninguém. Reclamava do limoeiro sem limão, falava mal da laranjeira por causa das suas flores miúdas e as suas raízes sobre a terra, e não perdoava a jaqueira com jacas miúdas.
As auréolas dos seus seios umas pinturas de carne, gritou Zémambembe. Nu. Corria pelo jardim, como se fosse o primeiro homem na Terra. Eu as vi muitas vezes! repetia o marido de Simplicidade.
Tia Simplicidade, acocorada, dava lições aos pés de tomate e repolho:
Uma voz nunca se muda:
Pena escreve se sente
Num traço bem eloquente.
Quem a beleza revela?
O mestre a rima lapida
Com força de uma lida
Faz da vida uma capela
Pelo brilho da mente.
Pois arte sempre ajuda
Nessa trilha que é vivida.
Em seguida, tia Simplicidade, observada de longe pela menina Bagatela, enterrava o vestido entre as coxas:
1º) U-ma | voz | nun- | ca | se | mu- (da) = 7
2º) Pe- | na es- | cre- | ve | se | sen- (te) = 7 (elisão em "na" + "es")
3º) Num | tra- | ço | bem | e- | lo- | quen- (te) = 7
4º) Quem | a | be- | le- | za | re- | ve- (la) = 7
5º) O | mes- | tre a | ri- | ma | la- | pi- (da) = 7 (elisão em "tre" + "a")
6º) Com | for- | ça | de u- | ma | li- (da) = 7 (elisão em "de" + "u")
7º) Faz | da | vi- | da u- | ma | ca- | pe- (la) = 7 (elisão em "da" + "u")
8º) Pe- | lo | bri- | lho | da | men- (te) = 7
9º) Pois | ar- | te | sem- | pre | a- | ju- (da) = 7 (elisão em "pre" + "a")
10) Nes- | sa | tri- | lha | que é | vi- | vi- (da) = 7 (elisão em "que" + "é")
O Professor Elisão, meu avô... Por que a tia Simplicidade insistia nisso? Vovô Elisão alimentou a família na lida da profissão. Educou toda a Vila de São Gabriel. Alcancei Vovô Elisão velhinho. Os cabelos um capucho de algodão. Era um algodão-doce a cabeça do vô Professor Elisão de Redondilha Maior. Ele veio embarcado dos Açores. Vovô nasceu na ilha Redondilha Maior, no arquipélago dos Açores. O apelido do vovô professor era Vulcão. Foi quem disse a diferença entre a silabação gramatical e a poética. Desejo de Vulcão era que todos os seus alunos dominassem a língua dos cordéis. Por quê, vovô professor? Porque isso, minha neta, era a cadência nossa. Arreparasse, ele disse, como a gente falava: em redondilha maior. Já falamos em redondilha menor; mas isso foi nos tempos médios das aventuras nos códigos da cavalaria.
Vovô perdeu-se. Por último, andava nu pelo jardim de casa. Procurava um vivente que lhe trocasse a salvação por uma costela. O avô sentado, fumava pra espantar mosquitos no bairro Maçayó. Ele soprava brisa marítima e parecia uma pintura de Cézanne.
TIA SIMPLICIDADE
ContosMarcello Ricardo Almeida 15/03/2026 - 20h 27min
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