O tempo estava às avessas. Isto foi notado pelos noticiários publicados entre os meses daquele ano, e amplamente debatido nas praças de Olho D’Água dos Lírios e na Vila de São Gabriel.
A imagem de Zémambembe. Com ares de rei, Zémambembe na parede.
Nos últimos dias, Joça andava circulando Dona Bagatela com petições de que lhe contasse quem foi a sua mãe e talvez algum fiapo da biografia de seu pai, apesar de ele ser uma incógnita. Na voz pausada de Dona Bagatela, um pai desconhecido era um enigma, um problema de difícil solução
Ao fim do eclipse, em lugar de Dona Bagatela, a sua filha Afável e o genro estavam a menina Bagatela com a inseparável boneca velha e cheia de remendos e a tia Simplicidade vomitando um histerismo nunca estudado na psicanálise:
Você vai apanhar, Bagatela.
Apanhar não!
Traga o rabo do tatu.
Da última vez não pude ir à escola com manchas no corpo.
O rabo do tatu, Bagatela! Não argumente.
Não faça isso de novo, tia Simplicidade.
Desobediente. Estou preenchendo a ausência da tua mãe. Se tua mãe estivesse em meu lugar, faria o mesmo. Bagatela, você nunca vai ser nada na vida, você não vai ser gente, sua orelhuda. Uns contravapores, um tanjo de carroceria; só essas coisas lhe podem consertar. Destrambelhada. Inútil. Tem uma coisa muito séria dentro de você. Mas o rabo do tatu vai lhe consertar. Você é um pedaço de gente, e, quando baixa o santo, ninguém lhe segura. Não sei por que estou conversando duas horas. Cadê o rabo do tatu? Traga o rabo do tatu! És uma coisinha sem valor. Pedaço de gente desprezível com as mesmas manias do tio Zémambembe. Zémambembe, o Açodado, filho de Zémambembe, o Lerdo, neto de Zémambembe, a segunda pessoa de Seu Ninguém. Tua mãe lhe devia ter abortado!
Que significa abortado?
É um problema sério, seriíssimo, de rejeição. Com medo de tudo e de todos. Vou-lhe explicar o que é aborto. Aborto é contaminação química que chega à cadeia alimentar pelo alimento, sua abilocil. Por isso nosso mundo está cheio de abilocis iguais a você.
Eu não sou abilocil!
Vai chorar, abilolada? Fica me olhando com essa cara de deboche, esse bico, fecha os olhos, os deixa apertados e começa a derramar suas lágrimas de crocodilo. Sabe que isso me comove pra cachorro. Pare de chorar. Vem dá um abraço, aqui, em sua tia-mãe, vem querida. Você é igual a mim, querida. E nós só precisamos de amor, de comida e de casa.
Isso me deixa confusa.
Sua boba. Bobinha. Vá lavar a louça; vá. A pancada lhe doeu?
Doeu, sim, senhora.
A pancada lhe serviu?
Serviu, sim, senhora.
Ande rápido. Vamos preparar a festa de Natal. Quero ajuda para montar a árvore. Mas, se quebrar uma bola, apanha. Na escola, minhas crionças que me fazem arrancar os cabelos; em casa, Bagatela que deixa louça suja, quarto desarrumado, banheiro sem asseio, criação sem comida. Bagatela, eu a quero ver no borralho. Não confunda essas minhas mudanças de humor. Seu tio Zémambembe é um incrédulo e um ateu, por isso foi levado daqui nas cordas; saiu do bem bom, em nossa maravilhosa Vila de São Gabriel, e hoje não sai nem com reza braba de Olho D’Água dos Lírios. Nunca vi uma criança tão linda igual a você em minha vida. Nem se reencarnasse 1001 vezes, com absoluta precisão, querida minha, eu encontraria uma pedra tão preciosa assim. Aliás, minha bonequinha querida, estou sentindo o cheiro de Zémambembe nessa casa, aquele cheiro inconfundível. Seu tio vivia em casa, depois que voltou da guerra, falando sobre a ilusão da eternidade. Eu vou bater com a cabeça na parede, Bagatela, como fiz com Zémambembe.
Não, tia.
Bagatela, ó tá sofrendo! Pobrezinha. Óóóóóó! Rogue ajuda à baronesa, sua prima rica. Quem sabe, ela escuta, lá, na Corte Imperial ao lado da nobreza e das memórias dos Pedros. As louças te esperam. Vai lavar e secar e guardar. Engula o choro. Engula. Entupa-se! Com banana e bolo enganam-se os tolos. Bagatela, você veio pra cá para comer feijão comigo e, quem come feijão comigo, sabe como é. Se você começar a me incomodar muito, eu vou levar você para conhecer Piaçabuçu.
Onde fica Piaçabuçu?
Mostre o que está escondendo, aí, atrás. Ou quer mais castigos? Você teve uma pequena amostra grátis. Deixo você ajoelhada nas pedras com um pote d’água na cabeça até escurecer. E não tem Natal. Cadê o rabo de tatu? Eu mesma vou procurar o rabo do tatu e lhe dar uma boa sova.
Ttti-tia.
Menina cretina! Manina maluvida. Bagatela, maluvida! Maluvida Bagatela... Menina maluvida. O que tu escondes, Bagatela, com as mãozinhas pra trás?
O que tem aqui é leite, ti... ti... tia.
Leite?! Pra que leite? Leite é caro.
Eu tenho um...
Passe logo, logo, logo, logo pra cá esse copo de leite. Quente? Ainda por cima quente, menina Bagatela? E não gagueje. Deixe, deixe de conversa fiada, sua malandrona! Aonde ia levar esse leite quente?
Pro gatinho.
Que gatinho? Aqui, não tem gatinho. Quem cria gato é fruxa. Está me chamando de fruxa, está? Não. Não? Acho bom. Você quer ser uma fruxa, é, Bagatela? Sua mãe tinha mesmo um jeito estranho. Sua mãe, igual ao seu tio Zémambembe. Nessa falímia, aliás, todos calçam 45. Falímia, porque não é família. Falímia é uma família falida. Sua mãe tinha a mesma mania de falar com espíritos e não gostar da igreja. Se fosse noutros tempos, ela seria banida da Vila de São Gabriel. Mas, você, menina, se depender de mim, terá educação bem diferente. Você vai puxar a mim e não a sua mãe.
Cadê mamãe?
Essa mamãe, que você tanto fala, se foi. Tá me vendo rir? Ó Bagatela, ah Bagatela! Se eu tivesse essa beleza, arrasaria quarteirões.
Ma?
Olhe pela vidraça da janela e veja a quantidade de abilociloides nas ruas.
Vai chover, tia Simplicidade?
Só mesmo rabo do tatu ensinava essas criaturinhas a ter educação, falava papai, mais ou menos assim, aprendiz do vovô, aluno do pai dele, que herdou do avô. Você vai aprender a obedecer aos mais velhos. Menina mal-educada essa Bagatela. Minha educação, Bagatela, você já a conhece: é a pedagogia do rabo de tatu. Vou ensinar o que é trabalho; o verdadeiro significado da palavra.
Uma nuvem escura gigante pairou sobre a longeva Alhures e chegou a alcançar a Vila de São Gabriel. Isto por si só é preocupante. Apenas um fecho iluminava a tia Simplicidade e a menina Bagatela. Ao lado de ambas apareceram Dona Bagatela e Afável. Dona Bagatela falou:
O tempo é um tatu gigante, e agora eu sei. O mundo era nada até ontem; depois, saiu das trevas para a luz. Logo o mundo vai ficar tão aceso que vai cegar o povo. A cidade não era nada, quando você nasceu, Afável. Agora, o mundo é essa revolução por minuto. Que barulho é esse?
Agora eu sei. É Joça ouvindo RPM no último volume.
O breu voltou a cobrir a Vila de São Gabriel. Tia Simplicidade e a menina Bagatela entreolharam-se. E quando a luz pôs fim à escuridão, só restavam no ambiente a tia Simplicidade e a menina Bagatela. Dona Bagatela e Afável tinham sumido. Tia Simplicidade soltou o vozeirão:
Hoje, acordei ouvindo a voz de Vicente Celestino. Ah, como dormi bem!
Xô, galinha!
Não quero ver nenhuma pena de galinha no chão, Bagatela, não quero ver um fio de cabelo sequer. Como canta essa coleirinha. E o galo de campina? E o papagaio parece que não quer se dar bem com a arara. Bagatela, aonde a senhorita pensa que vai com esse “xô, galinha”? Traga lenha para atiçar o fogo. O fogão a lenha está esfriando. Como são animados meus canarinhos. Canta, meus queridos, canta!
Troco água das gaiolas, tia Simplicidade?
Ontem, a senhorita não rezou. Já rezou, Bagatela? Vá rezar, Bagatela. Em minha casa tem que orar, Bagatela. Se não orar, não come; se não orar, não veste; se não orar, não dorme; se não orar, não vive, Bagatela. Vai orar, menina, vai orar. Agradece, Bagatela, agradece. Ajoelhe-se, Bagatela, ajoelhe-se. No milho, Bagatela, no milho. Pai Nosso, que estás... Vamos, menina! Ave Maria, cheia de... Começa duma vez, menina, vai, vai até o fim. Salve, Rainha, mãe de... Vamos, minha filha, vamos. Creio em Deus Pai... Ó que espelho lindo que eu tenho em casa. Não é à toa que sou chamada de Dona Memória. Tenho de cor as histórias da Vila de São Gabriel. Sempre tive medo de me esquecer, por isso fico na cabeça repetindo o que ouço. Ganhei muito e ainda ganharia mais, muito mais dinheiro me lembrando das coisas que o povo esquece. Sabia, Dona Bagatela? Vem cá, sobrinha. Vem, vem cá, Bagatela. Ó minha Bagatela. Com essa minha memória privilegiada, privilegiadíssima, eu enxergo o amanhã. Você poderá ser assim, Bagatela, se eu lhe ensinar e permitir. Como você pode ver o seu futuro? No presente, porque, como dizia o Padre Vieira, o presente é futuro do passado e o mesmo presente é o passado do futuro. Esse é nosso espelho do tempo presente: memória e história. Entendeu? Não. Você vai entender se eu lhe permitir que entenda.
Entender o quê?
Com essa cara, Bagatela; ó que carinha! Eu tenho vontade de passar o dia apertando suas bochechas. Isso, isso vai dar muito trabalho! suspirou. Seus estudos vão ser poucos, Bagatela. Estudar pra quê? Pra lhe apanhar escrevendo cartinhas? Eu não vou admitir. Fora da escola, vai cuidar melhor da casa.
O cachorro parece que não comeu, tia.
Cachorro cego. Faça o cachorro parar de latir. Bagatela, ó menina. Olhe a autoridade máxima, aqui, quem é. Eu. Bagatela, ó menina. Faça esse cachorro calar a boca, que não aguento mais latidos. É o gato? Você pôs um gato, aqui, em casa, foi, Bagatela? Você ainda não apanhou para largar o choco. Seu ranho, sua ranhentinha, limpe logo essa cara. Eu não vejo motivo de choro, por causa de cascudos que nem doeu o nó de meus dedos.
Ti...
Agora, vou colher alguns tomates. Tomate gosta de calor. Esse é o tempo certo. Vou comer camarão na moranga.
Ti...
Para com esse choro! Uma hora dessas, tua mãe deve estar num lugar bem feio, aquela arruaceira desrespeitadora de santos com manias de inventar coisas. A oração da cabra malhada foi ela quem criou, sabia?
O que é oração da cabra malhada?
Não mude de assunto. A senhora quer dar uma de Joana ou de joaninha? Vem pra cá, Dona Inocência! Acha que estou esquecida, menina Bagatela? Eu fui ali, eu voltei aqui, mas não estou esquecida. Conte-me tudo. Não me sonegue nada. Não me esconda nada, senão vai ser levada ao castigo, no porão. Jogo você no quarto escuro cheio de sapos, ratos, baratas, pulgas... E, olhe bem, três a quatro dias sem comer nada, nem mesmo água eu vou levar.
Ti...
Vou descobrir, Bagatela. Vou descobrir por que você tem agido assim. Levante a cabeça, Bagatela! Não encare sua tia, atrevida! Este tapa na cara é para você aprender a não me olhar desse jeito. E se chorar alto vai levar mais. Tapa não doeu nem em mim. Fale, fale, fa...
Eu não fiz nada de errado, tttia Simplicidade.
Não grite. Não sou surda. Fale baixo, baixinho. Eu vejo. Seus olhos estão me revelando que você queria que eu, sua tia, morresse agora mesmo, não estão? Caísse tesa.
Não.
E agora que eu te levantei pelas orelhas? Estão ou...?
Eu onto, conto, canto.
Pode começar. Desembucha.
Tio Zé.
Zémambembe?! Duvido. Du-vi-dê-ó-dó. Zémambembe está aí? Fugiu? Irei devolvê-lo, hoje mesmo, nas cordas. Os muros altos de pedras prometeram que Zémambembe não iria mais fugir. Fugiu. Fugiu? Fugiu. Sua cara não nega. O cachorro sentiu o cheiro de Zémambembe e não me disse nada. Eu mato esse cachorro!
O cachorro não, tia Simplicidade.
Suponho que Olho D’Água dos Lírios tá relaxando pra eu poder levar mais presentinhos, mais lembrancinhas, mais tomates, quando eu for lá. Onde está o Mambembe, Bagatela?
Ele escapou dos muros de pedras onde estava escondido com os olhos de fora. Vamos ter uma conversinha com o tio Zémambembe, Bagatela. Quero ouvir da boca dele sobre aqueles malditos cadarços e a gravata vermelha de bolinhas azuis. Ah, Bagatela, aqui está o titio! Zémambembe, Ó Zémambembe... É você mesmo?
É o tio, tia.
E o que é isso em sua boca, menino?
Ele estava comendo sua farinha.
Eu só voltei por amor.
É a minha farinha, seu...?
Sua farinha? Sim.
Olhe a cara dele toda suja.
A minha farinha açucarada dos docinhos de Natal?
A farinha que a tia guardou na lata colorida.
Qual é o seu partido, Zémambembe?
De todas as colorações.
E o que faz, aqui, em casa?
Saudades.
Saudades têm idades. Não tens mais pra ter saudades.
Quis dialogar com as ruas.
Dialogar com as ruas, Zémambembe?
Um olhar sobre a Vila de São Gabriel.
Um olhar sobre a Vila de São Gabriel, Zémambembe? Não acredito nem em 1001 anos o que acabei de ouvir da sua boca. A minha Vila de São Gabriel, Zémambembe? Ó céus! Ó vida! Ó incredulidade! O que vejo na minha casa, na véspera de Natal...
Chega de agressões... Sou eu... Seu prisioneiro... E a menina?
Eu amo esta criancinha, Zémambembe.
Não precisa sufocar Bagatela de beijos e abraços.
Tenho mais amor por Bagatela do que você por mim, Zémambembe.
Tu és pior do que os muros de pedras em Olho D’Água dos Lírios.
Ninguém poderá amar Bagatela mais do que eu, Zémambembe.
Começo a acreditar quê...
Nenhum devoto poderá amar mais o seu santo.
Ninguém pode sentir tanto ódio.
Esta criaturinha é uma santa.
Eu ouvi tudo, Si...
Ouviu? Não ouviu nada. Ouviu o quê?
Solte a menina Bagatela.
Venha mais perto da tia, Bagatela do meu coração.
Quero passar o Natal com vocês.
Aqui em casa? Ó céus! Ó vida! Ó incredulidade! Desista, Zémambembe.
Pode me levar de volta a Olho D’Água dos Lírios, mas não maltrate mais Bagatela.
Agora mesmo, Zémambembe. Agora mesmo.
Se minha liberdade significa sacrificar essa criança...
Ninguém vai sacrificar ninguém.
Prefiro morrer nos muros altos de pedras a ver e ouvir o que vi e ouvi.
Bagatela, querida minha, se cuide enquanto eu levo seu tio de volta.
Mas... mas... mas... sou seu marido, Simplicidade. É Natal, Simplicidade. Me deixe ficar, Simplicidade.
A...b...l...o...c...i...l. Tire as mãos de mim. Eu grito. Ouviu? Eu grito!
Essa casa foi construída pra você, Simplicidade.
Agradecida, Zémambembe. Agora, vamos.
Sempre nos amamos tanto, Simplicidade. Não foi?
Nunca soube. Não demore, Zémambembe. Alguma coisa pra levar?
Tem outro cafajeste, tem? Olhe minha cabeça.
Que tá escondendo na cabeça com toda essa farinha?
Chifres. Chifres, perfídia, chifres! Chifre é o que eu tenho aqui.
Minha nossa! Credo em cruz. E tá nascendo também flores. Um jarro de flores.
Tô usando um disfarce pra não morrer de vergonha.
Me deixe ver essa merda, Zémambembe.
Não venha! Tem outro homem, Simplicidade? Confesse.
Confesse? Era só o que me faltava.
Tem. Eu vi.
Ora, Zémambembe dentro da minha casa...
Sua casa?
E eu sem saber.
Sem saber?
E você, Bagatela, uma alcoviteira.
Não envolva a menina Bagatela nisso.
Não deixe, Bagatela, sua tia jogar seu tio em Olho D’Água dos Lírios. Não sairei amarrado daqui outra vez, Simplicidade.
Feche a casa, Bagatela, quando eu sair.
Eu sou, Simplicidade. Pra que essas cordas?
Você não é ninguém.
Nãããooo me provoqueee, Sim...
“Me provoque, me provoque, me provoque...” só é o que sabe dizer, “não me provoque, não me provoque, não me provoque.”
Simplicidade, eu nunca me repito,
eu me repito sempre.
Eu ando em linha reta; mentira.
Eu ando em círculos. Porque
morro desde que nasci. E nada
é mais monótono que acordar,
levantar, comer (nem sempre).
Sair. Trabalhar. Voltar. Sair. Trabalhar.
Que é a mesma coisa:
nascer,
reproduzir,
morrer – nem sempre.
Não me provoque, Zémambembe, com essa cantoria de feira.
Si, a palavra está cansada;
agora, chove em seus dias.
Omisso, o cemitério
derrama-se-lhe lágrimas de barro.
Olho D’Água dos Lírios afoga-se
de enxurrada em enxurrada.
Pra que tanta água?
Se a vida lhe dá chuva,
faça dela uma cisterna.
Faça dela o quê?
Um rio de areia, de pedra e nenhuma água. Nunca se provoca mudanças climáticas sem arcar com as consequências, Simplicidade. Não, nãooo, nããããão misture o lixo orgânico com plástico. Não serei um monarca mambembe?
Seu grito, Zémambembe, assustou nossa criancinha.
Não faça isso ao tio. Não, não, não!
Não, sobrinha, deixe a tia, que com ela eu me entendo.
E você, Bagatela, eu acerto os pandeiros quando voltar de Olho D’Água dos Lírios.
Não se agride um sangue azul!
Tá vendo, Bagatela? O seu tio teve outra crise. Ainda bem que tenho forças para dominá-lo. Você, Zémambembe, é homem de poucas patacas e nenhum vintém.
Me solte, me solte, filha do capeta! Filha da po...li...!
Vamos, Zémambembe.
Vá, tio, com a tia.
Você está me traindo, Bagatela?
Deixe a menina fora disso.
Não, tio.
Eu estou com fome.
Tia Simplicidade bebeu todo o leite.
Ao menos tem...?
Habemos papa.
Não, não vou. Vou. Não fico mais aqui. Fico? Não, não fico mais. Casa que não tem nada. Que casa é essa? Antes tinha. Vamos, vamos, Simplicidade; vamos, antes que anoiteça em minha cabeça. Você me prende, eu me solto. Não sou um de seus pássaros. Não nasci pra gaiola. Vou fugir. Vou procurar uma ilha pra governar. Vou morar oculto. Ganhar mar. Montanhas moldadas por velhos vulcões. Cultivarei jardins. Plantarei sonhos em vasos de barro de louça. Beberei vinho, cachaça em copo de vidro grosso. Plantar jardins, cultivar simplicidades no Atlântico Sul, numa laguna onde o Sol nunca se põe. Farei vasos arrancados da minha própria cabeça.
Você precisa dos remédios, Zémambembe.
Pajens, rápido, minha espada. Vou decapitar esse dragão.
Depois que receber seu medicamento, Zémambembe, vai dizer que nunca fez nada disso. Vamos, Zémambembe. Vamos. O Natal é festejado entre as paredes de pedras, as grandes e altas paredes de pedras. Vamos esperar a chegada do Seu Noel, seu amigo. Você vai receber presente.
Hummmm...!
Que cabecinha essa do Zémambembe!
Huuuuum...!
Se você não for medicado, pode até matar-se sem saber que se matou.
Aaaaaah...!
Vamos, Zémambembe. Não se demore. Não me atrapalhe. Vai querer que eu lhe amarre, como fiz da outra vez? Morte! Vida de morte.
A morte é a eternidade. A única com pontos de contato entre começo e não-fim é a morte. Eu criei a eternidade em minha cabeça sem precisar de religião que a criasse por mim. Porque viver com Simplicidade é muito pouco. Eu não morro, pois sou eterno dentro de mim. Como os santos foram. E o medo inventou o mal. E a insegurança pôs a culpa no diabo. Eu não vivo para a morte, eu vivo para a vida, e isto sua tia Simplicidade não engole. Simplicidade Mangação não caía nessa. Ela só aprendeu a engolir orações, palavras repetidas, gestos imitados. Uma hora terei que atravessar a ponte; mas, a ponte me espera. Vim, vi e deixei minha marca no mundo. A minha alma sofre.
Porque você é um homem doente e sem fé.
É assim mesmo, sobrinha Bagatela. Só nos resta chorar, quando não se pode acreditar mais nem em sua própria família, quando não se pode acreditar mais em pessoas que são a semelhança umas das outras. É cada um com a missão. Aperte bem essa boneca ao peito, Bagatela, e não se esqueça: é cada um com uma missão. Mas a missão pode ser mudada, amada sobrinha. Você vai ver. Mudo minha missão. Quando eu mudar minha missão, fujo de lá, daquele lugar sombrio, fedorento e cheio de ratos; pego você e vamos pra longe e nunca mais ouviremos a voz da Simplicidade.
Bagatela estreitou os braços finos quais canetas esferográficas – com toda a força que conseguira – a boneca velha e cheia de remendos, e chorou. Ela viu o tio Zémambembe ser conduzido para fora de casa; quem o levava era a tia Simplicidade.
Essa foi à hora na qual a solar Vila de São Gabriel, que guardava o silêncio nos cômodos do interior da casa, na Rua dos Quebraqueixos, mergulhou nas profundezas da escuridão.
Quando a luz reuniu valentia para iluminar outra vez a casa, a menina Bagatela havia desaparecido. Na casa, apenas Vitorioso e a mulher Afável.
Carregada de malas chegou Joça indagando aos patrões onde levar a mudança de Dona Bagatela. A mesma boneca velha e cheia de remendos da menina Bagatela estava nos braços de Dona Bagatela, que a apertava carinhosamente ao peito e chorava sob a ironia da filha:
Ainda com essa boneca, mãe?
Vocês vão ficar, aí, assistindo ao meu enterro, seus brutos?
Ela não larga essa boneca. Vai, mãe; vai tranquila. O destino de todos nós é esse, pra quem não morre cedo. Às quartas-feiras e aos domingos a gente vai lhe visitar, falar das novelas, dizer poemas uma à outra, pôr as fofocas em dia. Se precisar de alguma coisa, é só ligar. Tem o número. Seu quarto vai ter muitas flores. É a vida, mãe Bagatela, como dizem os franceses: “Est la vie. Nous crions”. Essa história não podia acabar diferente. Deixe lhe beijar de novo. Posso ficar com essa boneca puída? Não. Tá bom. Como pode, né? Quantos anos essa sua bonequinha, mamãe? Essa boneca da mamãe é mais velha do que eu.
Mesmo?! É verdade. Quando a gente namorava, já conhecia essa boneca toda estourada. Parece que veio da guerra. Pela cara, ela recebeu muitos remendos na vida. Vais ficar com ela, Afável?
Se a mamãe deixar.
Acho bom, amor. Quem sabe, um dia nossa filha brinque com ela.
Hoje, não se fabricam mais bonecas como antigamente.
E se levar pra um colecionador?
Não tinha pensado.
Ele deve querer pagar bela fortuna.
Vamos indo, minha sogra. O carro, querida, não espera.
Espera.
Vamos, mãe.
Suas traíras! Ficaram falando em prazeres inferiores.
Que prazeres inferiores?
De que ela tá falando?
É assim mesmo, minha filha. Só resta chorar, quando não se acredita mais na própria família, quando não se podem acreditar mais em pessoas que são a semelhança umas das outras. É cada um com uma missão.
Por que apertar tanto essa boneca, mamãe?
Aperto.
Vou ficar com ciúme.
Não vai chorar também, vai, Afável?
Vocês acham que fizeram o que tinha que ser feito.
Se apresse, Joça, com essas malas.
Até Joça, hoje, lava a alma.
Cuidado com a boneca.
Nesse jogo, fui a velha da boneca de pano. Não passei disso. A pergunta que eu faço é saber por que tanta identificação de verbo, que me obrigaram na escola e em casa? Por que tanta identificação de sujeito e predicado? Isso tudo me valeram de quê! Minha nossa! Nossa minha! Bem que fui avisada pelo tio Zémambembe.
Quem foi Zémambembe, mamãe?
Não sabe quem foi Zémambembe?
Ninguém, aqui em casa, sabe quem foi esse Zémambembe.
Que afronta sem-vergonha! Arrotar na minha cara o desconhecimento do tio Zémambembe. Esse mundo tá mesmo perto de se acabar. Faça-me o favor. Olhe o quadro na parede. Não saber quem foi Zémambembe. Ele, s-i-m-p-l-e-s-m-e-n-t-e foi um dos criadores da Vila de São Gabriel.
Nunca ouvi falar, mamãe. Sinceramente. Nem mesmo na escola. Sabia, Vitorioso, quem foi esse personagem que a mamãe falou?
Amor, qual foi o nome mesmo? Sequer eu ouvi. Preocupado com o carro, não ouvi o que vocês conversavam.
Zémambembe, seu estúpido!
O carro espera e não vou gastar mais dinheiro com a senhora, Dona Bagatela. No dia da visita, a gente conversará melhor. E por que não a levo de ônibus, né?
Não puxe assim as minhas coisas, Joça.
Saíra Dona Bagatela atrás de Joça. Vitorioso gritava de euforia:
Que maravilha! Finalmente, conseguimos realizar nossos planos.
Não precisa prender minha respiração com esse beijo, Vitorioso.
Finalmente, livre dos credores! Livre! Livre! Vou poder voltar a andar nas ruas. Livre, livre, livrinho. Estamos livres das dívidas, Afável, pra podermos contrair novas dívidas e continuar o ciclo vicioso, porque o mundo não pode parar. Nasci de novo. Sem pecado. Agora, não tenho mais dívidas. Sou um homem novo, um novo homem. Sei lá!
Aperte minha mão pra selar o nosso acordo.
Meu signo é a Balança: ora tô em cima, ora fico embaixo.
A euforia de Vitorioso, porém, tinha pernas curtas, pois em seguida Dona Bagatela voltou com policiais. Dona Bagatela beijou Vitorioso e disse-lhe:
Agora, os senhores da polícia civil conseguiram as provas. Prendam e arrebentem o desgraçado que queria me passar à perna. Esse é o bandido. Os senhores me orientaram de como deveria armar o flagrante com ordem do juiz e esse é o canalha. E me fizeram apresentar provas contra o canalha? Apresentei. Digam ao delegado que jogue esse gigolô almofadinha na cadeia e mande a chave pra mim.
Adeus, investidor selvagem!
Essa que está se despedindo do investidor é minha filha, mulher desse sem-vergonha, desse cara de pau safado!
Afável, amor, não me deixe levar pra cadeia!
Solte meu braço.
Minha vida sempre foi de galho em galho. Afável, eu lhe peço de joelhos: não deixe. A sua mãe não pode fazer isso com a gente.
Vai, querido. Boa sorte.
Eu não guardo rancor, minha sogra. Não sou rancoroso nem ressentido.
Vai, querido. Boa sorte.
Mã.
Mama.
Mãe.
Mamãe, será que ele não poderá ter uma segunda chance? Não faz isso, mãe. Ele não guarda rancor.
Quem? Esse é o sujeito mais vingativo que eu tive a infelicidade de conhecer.
Ah, eu ia me esquecendo.
Esquecendo o quê, sogrinha?
Só um pouco. Vou buscar.
Os senhores ouviram minha sogra. Esperem um pouco, senhores.
Leve essa lembrancinha com você, Vitorioso. Baralho novo. Quem sabe, na cadeia, você refaça sua dignidade. Recupere-se. Volte a ser meio homem. Estou perplexa, Afável; estarrecida com tudo isto que vocês me aprontaram.
Mã.
Mama.
Mãe.
Não me venha com isso de mã, mama, mãe.
Mã.
Mamãe sabe que Vitorioso é um dândi, um flâneur. Olha a cabeleira dele, mamãe, olhe os bíceps.
Manda ele enfiar tudo isso no...!
Mãe, considere as costas largas do Vitorioso.
Costas largas ele que ofereça ao Coisa!
Mamãe! Fale baixo, mamãe. Olhe as mãos dele como são grandes.
Isso ele resolve na delegacia.
As tatuagens, mamãe.
Para, Afável. Para!
A senhora vai arrepender-se amargamente.
Tá me ameaçando?
Isso não se faz, mamãe.
Não enche!
Mãe, Vitorioso só lhe fez o bem. Veja. Observe. Não é um caixote, ele é um caixão.
Toquem o Caixão adiante.
Mama.
Mãe.
Ei, policial! Espere um pouco, aí, com esse vagabundo, porque eu quero propor a esse... Caixão. Proponha um dos seus jogos ao delegado e realize o sonho de ser milionário novamente. Quem foi rei, né...! Nunca se sabe. O mundo anda mesmo às avessas.
BAGATELA, MALUVIDA!
ContosMarcello Ricardo Almeida 08/03/2026 - 20h 49min
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