BLOQUEIO CRIATIVO

Contos

Marcello Ricardo Almeida

Chovia como se a noite estivesse em prantos.
“Eu vivi uma geração que tratava a Literatura com palavras, como se fosse possível simples palavras serem transmutadas em literatura.”
Era densa à noite, e Ele procurava as palavras na aridez de espinhorentas e pedregosas terras do bloqueio criativo. Por hábito, o seu diálogo com a Olivetti do Brasil tinha início sempre àquela hora com os dedos nas teclas gastas.
“Literatura exige a digestão de palavras.”
Ele olhou a noite de chuva através da janela emoldurada de personagens.
“Justiça seja feita à literatura.”
– No, no, no! protestou Tortenfanfoz ¿Y tú, vaqueiro. ¿Eres un extranjero, acaso un Quijote? No, no, no!
Na primeira gôndola das estantes de canela, Ele passeou o indicador nas lombadas das edições universitárias.
“Não basta o poder social, este só se põe em pé se conter o institucional.”
Os olhos eram mais rápidos. “Tom Sawyer” conversava com “Moby Dick”, e “A Ilha do Dr. Moreau” com “Quincas Borba”.
A chuva persistia. Acelerados persistem os dedos nas teclas gastas. Era a chuva que se misturava ao som das teclas, na máquina de escrever. Houve o momento em que o som no escritório parecia os dedilhados em cordas de violão acústico de suaves acordes. O andamento era lento e melancólico. O papel era arrancado do cilindro e a velha máquina gemia; o papel amassado, descartado; vinha outra folha substituir a anterior.
“E esperei em vão a mensagem por Whatsapp dos professores Teo e Xô. Ao menos, na semana passada, por orientação da Escola de Escrita Criativa, recebi e-mail de Fi de Beque. Mas, essa semana, a batalha foi com o ponto de vista e o fluxo de consciência; um perdeu pro outro. Esperava mais do monólogo interior. A ambientação sempre uma surpresa. A apresentação da personagem Júlia merecia boas reviravoltas. Qual a surpresa? E se o céu não tava pra voo, imagine o mar pra barco? E perguntei à manipulação temporal, e a safardana não quis me responder. Estou na terceira parte da história. O que vai acontecer? No frigir, tudo era mágico. A professora Xô não era tão amiga do professor Teo, como aparentava ser, mas disfarçava muito bem.”
Chuva.
“Professora Xô pedia-me que mostrasse. Eu tinha que ver a narrativa por esse ponto. Diferente do professor Teo, que sugeria que eu dissesse.”
Raios.
“O professor era um ingênuo, na avaliação da professora Xô. Aonde ia era com o seu cão. Muda-se para a capital. Consegue emprego na Escrita Criativa. Desconfio que Teo alimente uma paixão recolhida por Xô. Mas ele é incapaz de conviver com a perda e, principalmente, com a ilusão. Teo é um delirante. Acaba num hospício.”
Os raios iluminam o escritório e – Ele admira o conflito no céu – a janela, ao invés de ser fechada, é mantida aberta.
“Cada qual tolerava cada qual por causa de narrativas superficiais.”
Os raios retalham o firmamento.
“Teo é só um náufrago nessa Escola de Escrita Criativa. Se for comparada a ele, a professora Xô é uma cientista que faz experiências com a língua; e ousa criar palavras híbridas. Ele está ilhado a ela.”
O grito do trovão estremece “A Ilha do Dr. Moreau” e “Quincas Borba”.
“Na Escrita Criativa, fiquei lembrado como narrador não confiável. Que me importa! Não via nisso nenhuma desmotivação. ‘Escuta. E por que não escreve metaficção?’ disse-me a professora. ‘Metaficção?’ Teo, que ouvia a conversa de Xô por trás das cortinas, assegurou-me que adorava a estrutura narrativa como desenvolvi na segunda parte da história de Júlia e do vaqueiro. Desconfiei desse adorava, que tinha semelhança ao valoroso contista do e-mail passado. E vi nele um grandessíssimo filho da... WhatsApp do Teo e Xô? Nenhum.”
Voltou a sinfonia mecânica – teco, telecoteco, teco, telecoteco! – dos tipos de metal na folha. O cilindro girava numa dança de velhos carnavais. E o suspiro nostálgico, na Avenida Nossa Senhora de Fátima, voltou.
O vaqueiro parado. O ar parecia denso, difícil de respirar. Ele apertou os próprios braços, sentiu a aspereza da camisa, a carne firme. Não sou fantasma.
Júlia ficou surpresa. E começou a formigar-lhe das pontas dos dedos dos pés às pontas dos dedos das mãos.
O vaqueiro via nos olhos de Júlia a surpresa. Ele era fantasma? Começou a formigar-lhe alguma coisa, o vaqueiro viu. Como ele possuía esse poder? Não era o medo dele, era a sedução. Estava apaixonada? Após a hora de estrada, a deserta Água dos Lírios.
Rangiam argolas de ferro na placa: Antiguidades. Não parava: Skreeeech! Krrrreee...! Depois: Squeak! Em seguida: Ching! Alternavam-se entre o grito fino e depois longos gemidos de ferro com ferro na noite densa.
O formigamento persistia.
Desespero. Paixão. Faltava-lhe coragem? Precisava sobreviver.
Ruuuum! este som vinha dalgum lugar naquela camarinha cujas paredes, Júlia viu, sorrateiramente se moviam. Ruuuum, ruuuum, ruuuum! Paredes feitas de largos tijolos que caíam ao abrirem fendas no reboco de barro.
O vaqueiro olhou em direção à porta de saída: poeira subia das frestas enquanto as paredes de madeira da sala rangiam, inclinando-se para dentro. Júlia gritou, apontando para o teto que parecia fechar-se sobre a cabeça deles:
– Que tá acontecendo?!
Neste momento, Tortenfanfoz:
– Que, que, quê! E o que é que isso, aí! Que é que tá acontecendo? Que é que isso, gente! Que é que tá acontecendo, aí? Que é que foi? O que é, afinal, que tá acontecendo?
– Nada, senhor! atalhou o vaqueiro. Nada, Sr. Tortenfanfoz.
Um rádio empoeirado acendeu as luzes sem que ninguém o tocasse. Era como se estivesse programado. E dele saiu um ritmo alegre e descontraído como o estilo pop tradicional, mas que lembrava um toque vaudeville:
morreram 20 baleias
do tipo cachalote
e uma garrafa sem rumo
morreram afogadas
de desgosto e insatisfação
e uma garrafa sem rumo
20 baleias gigantes
e uma garrafa sem rumo
aonde se foi a alma
dessas baleias ao morrerem
aonde se foi aonde
e uma garrafa sem rumo
aonde se foram seus destinos
e uma garrafa sem rumo
elas gritaram o grito da dor
que bebe insegu-
rança
presa em uma garra-
fa
sem rumo
e canta dó
e fala si
na clave de sol
mostrou a minha tevê calada
20 baleias cachalotes
e uma garrafa sem rumo
Em seguida, porém, o empoeirado calou-se. As luzes apagaram-se. Outra vez, as luzes voltaram:
morreram 20 baleias
do tipo cachalote
e uma garrafa sem rumo
Desta vez, o ritmo era rápido, alegre e saltitante.
morreram 20 baleias
do tipo cachalote
e uma garrafa sem rumo
– Um allegro giusto! resmungou Tortenfanfoz para surpresa de Júlia e do vaqueiro, que não entendiam nada de ritmo, tampouco desse “allegro giusto.”
O rádio seguiu com as mudanças de ritmos. Foi de allegro giusto para um ritmo que lembrava as batidas marcadas e compasso composto com andamento rápido. O empoeirado fez miar os violinos dentro daquelas luzes coloridas. E com eles vieram os instrumentos de sopro e percussão enérgica:
morreram 20 baleias
do tipo cachalote
e uma garrafa sem rumo
E o velho pareceu perder a voz em meio a poeira. Não saiu mais nenhuma nota. O rádio emudeceu-se. Mas logo surge um ritmo rápido e ternário. O ritmo era intenso síncope e seguido pelas cordas de criativo mariachi.
Perguntou Tortenfanfoz à Júlia e ao vaqueiro:
– No, No, no! voz irreconhecível, que lhes parecia doce ¿Y tú, vaquero ¿Eres un extranjero, un español? A mesma questão fiz desde o princípio dessa jornada burlesca e anti-heroica.
Foi quando o vaqueiro agarrou a foto na mesa, os seus dedos trêmulos:
– Acho que é a verdade... Eu não sou...
O teto colidiu com o chão. O impacto foi surdo. Escuridão total.
Bip... bip... bip... O som rítmico e irritante foi a primeira coisa que sentiu. Com dificuldade, o vaqueiro abriu os olhos ofuscados pela luz branca e fria. E as mãos presas por faixas a lençóis. No quarto, o cheiro de antisséptico queimava as suas narinas; era como se o cheiro de antisséptico penetrasse nos poros feito um carrapato.
– Que experiência horrível! disse o vaqueiro. Eu não tava morto? esperou a resposta. Eu não era um fantasma?
– Bem-vindo de volta! disse uma voz ao lado.
O vaqueiro virou-se, tonto. Era uma mulher de jaleco branco, no peito uma placa dourada onde estava escrito Dra. Júlia. Ela sorriu-lhe. Anotou algo em uma prancheta azul.
– Onde... cadê a foto? a voz do vaqueiro saiu rouca. Júlia? O relógio?
A Dra. Júlia franziu a testa, a caneta para no ar:
– Senhor, não faça nenhum gesto brusco.
– Que houve, Dra. Júlia?
– O senhor dormiu por anos.
Acreditando ainda ser o vaqueiro que esteve na câmara secreta da antiga loja de Tortenfanfoz, em Olho D’Água dos Lírios, olhou as próprias mãos pálidas, magras, diferentes. Ele viu-se preso ao quarto cuja luz àquela hora mostrava o magenta na cor-pigmento primária e cor-luz secundária. E a cabeça pareceu um círculo cromático.
– Mas Júlia tava lá...! murmurou o vaqueiro, sentindo o mundo de mentiras dissolver-se em seus olhos, e viu a mentira ser substituída pela verdade. Eu senti o cheiro de lavanda no vestido dela...
Dra. Júlia fechou a prancheta. Antes de deixar o quarto, disse-lhe:
– É só isso. Não havia nenhuma Júlia, senhor. Fique tranquilo. Apenas a sua mente é a caixa vazia. Esperamos vê-la preencher o vazio de cem anos. 
O vaqueiro não respondeu com palavras. Apenas afastou o lençol branco, revelando as pernas trêmulas, e forçou os pés descalços contra o linóleo frio do hospital. Os dedos apertaram as palmas das mãos até as juntas ficarem brancas.
O janelão no quarto revelava a escuridão da noite. Na mesa de cabeceira, exemplares de Melville, Mark Twain, H. G. Wells, Machado de Assis e Cervantes.
Ignorando o protesto da Dra. Júlia, o paciente levantou-se.
O mundo mexeu, balançou, as paredes tremeram, o mundo Melville, Mark Twain, no redemoinho estavam H. G. Wells, Machado de Assis e Cervantes. E luzes fluorescentes feriram os seus olhos, mas ele manteve o olhar fixo na saída. Pulou sobre ele um monstro marinho, tentou fugir da fera em uma jangada. Ouviu a voz da Dra. Júlia. O silêncio voltou. Os corredores pareciam calmos. Ouviu o latido de um cão. A janela girou feito a pá de um moinho cansado.
Tentava livrar-se do quarto.
Viu uma jaqueta de couro surrada na cadeira ao lado e, ao vesti-la, o peso familiar do material pareceu uma armadura contra as dúvidas da Dra. Júlia.
– Eu já estou fora...? murmurou, com a voz rouca, enquanto passava pela enfermeira de plantão sem olhar para trás.
Cada passo no corredor estéril era um confronto entre a fraqueza do corpo e a ferroada da inscrição na jaqueta de couro: 26 de julho, Festa de Santana.
Ao empurrar as portas duplas da saída, o ar quente e seco da rua atingiu o seu rosto, e lhe trouxe o cheiro de carbono pulverizado da queima incompleta do diesel.
“Que diabos faço na frente dessa máquina!”
O galo cantou na Avenida Nossa Senhora de Fátima. A sinfonia mecânica – telecoteco e teteco, telecoteco! – dos tipos de metal na folha perderam o ritmo.
“Jornalista, jornalista...! Tô aposentado há quanto tempo como jornalista. Por que eu insisto em bater nessa máquina, noite após noite? E me esqueço até de mim. Eu já não tenho nada pra você. O que, Máquina, cê inda quer de mim?”
O cilindro da Olivetti não girou mais.
“Não converso mais com o bisnetinho por quê? correu uma lágrima.”
A dança do telecoteco afundou no silêncio da máquina.
“Eu sei... Amanhã, talvez, quem sabe, eu mudarei a rotina. Irei às águas de Maragogi. Caldo de cana em São Miguel dos Milagres. Ensinarei o bisnetinho a pescar, na Praia do Gunga. Iremos à Pajuçara, à Ipioca, aos Cânions do Xingó, à Praia do Francês, às dunas de Marapé. Em Penedo, café com queijo de coalho. Máquina, máquina, máquina...! Bato em você pra esquecer.”
Era o fim do frevo dos dedos nas letras móveis? Ele quis concluir aquela terceira parte. O telecoteco escreveu na folha em branco:
Em um dos bolsos da jaqueta de couro surrada ele encontrou um relógio.
No asfalto, o sol brilhava nas primeiras horas do dia.
A verdade nunca esteve naquela sala magenta na cor-pigmento primária e cor-luz secundária.
– Quem gravou essa inscrição na jaqueta de couro: “26 de julho, Festa de Santana”?
O sol não lhe trouxe o seu nome, mas iluminou a memória:
– Foi aqui que aconteceu a brutalidade. Não, não foi um acidente fatal.
O nome da vítima? Patrão: o amigo na foto.
Na casa velha, Júlia esperava-o:
– Você veio?
– Quem é você? perguntou ele, confuso.
– Eu sou a verdade. E você vai entender tudo agora.
Uma réstia de sol riscou o chão de barro batido, na casa velha.
– Você veio! ela insistiu.
Confuso e atônito, ele não parava de questioná-la:
– Quem é você? trêmulo. O que está acontecendo?
Júlia sorriu, enigmática.
– Eu sou a verdade pra você.
– V...o...c...ê?! ele engasgou-se.
– E você tá prestes a descobrir tudo.
Na casa velha, estabeleceu-se completo silêncio. Era como se fosse iniciar uma inesperada tempestade. O tempo mudava. Os ventos agitavam as folhas. O vento ao atravessar as pedras, na fazenda velha, ganhava vida; ora lembrava o choro de uma criança, ora um gato. As nuvens agitavam-se sobre o serrote e cobria o céu de completo luto.
Ninguém nasceu
na ilha dos ciclopes
ninguém nascera
pra viver a vida inteira
na mesma rua
ouvindo o cantar dos mesmos
sapos
e o piar das velhas corujas
vou nadar com a baleia cachalote
andar des
calço so
bre a are
ia das praias
areia fofa da praia
da Praia Pajuçara
namorar na praia na
frente do rádio calado
na cozinha colorida e aromática
nos corredores de formigas
da casa comprida
em seus quartos em seus banheiros
seus janelões rasgados sobre o mar
deixe a baleia cortar água
saio da avenida nossa senhora de fátima
deixe-a em silêncio
essa rua antiga
que guarda escuros
e oculta espectros estranhos
desses da meia-noite
cujos cães os acompanham aos uivos
no mar não há fantasmas
há garrafas sem rumo
com mensagens quais náufragos
levadas por correntes marinhas
que não aprisionam ninguém
libertárias correntes
onde navegaram as conquistas do passado
levadas por outras correntes de ar de gaivotas
de garças de albatrozes de fragatas
cultivarei júlias
júlia aristocrata
aristogata júlia
ve
nha
an
de júlia ande sem pres
as
pressa deixe-a pra amanhã
que viaja nos saborosos dias
você sorrindo
e o seu cabelo
você sorrindo
e os seus mimos
você sorrindo
é lindo
você sorrindo
ter
ra
qui
ensa
vialactante
desesperante
usurpassante
você sorrindo
e o seu corpo,
você sorrindo
e a co
ragem indo flu
indo
Inseguro, ele caminhou em direção à porta, e, prontamente, Júlia o seguiu. Ele impulsionado pelo medo, ela por mera curiosidade.
– Você é real? ele voltou à pergunta.
Ela, com um sorriso sereno:
– Tanto quanto você.
O choque foi imediato.

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