ÚLTIMOS DIAS NA ESCOLA ONDE TRABALHAM CEUTO E ERAUDO

Contos

Marcello Ricardo Almeida

No calor de dezembro. A escola era uma rocha erodida.
Foi trágico o fim da Senhora Ó. Ela fez a graduação com A, E, I. No final da graduação, a Senhora Ó conheceu a Senhora A. No início, elas eram unha e carne, disse Ceuto a Eraudo. Mas a Senhora A escondia que odiava a Senhora Ó; esta jamais deu bola àquela, como falava, e como se falavam, o ódio não era a primeira das preocupações. Por sua vez, a Senhora E falava pelos cotovelos em unir a classe antes que ela ruísse, o que a Senhora I não dava nenhum aval. Já a Senhora U nunca estava nem aí, aqui, ali, e costumava ser fiel ao atraso no trabalho. Todas trabalhavam no mesmo diapasão? Não. Na sala-mor, a máscara era feita por vogais; após elas fecharem a porta da sala de aula, caía a máscara.
Nada supera o tempo, disse Ceuto a Eraudo. E a Senhora Ó nunca fora ao mar, porque morria com todas as forças. Por quê? Ora! Acontece que o sol que cintila nas águas salgadas lhe alcançou atrás do pescoço, no rosto, no busto, nas pernas, nos braços e a deixou com vincos como se um arado tivesse preparado a terra ao plantio de milho, algodão, feijão e mamona. Quando antes, a Senhora Ó era de veludo, com um rosto que parecia ter a delicadeza de um fruto na maciez e doçura, ela, não se engane, amigo Eraudo, amolecia qualquer. Mesmo vincada, a Senhora Ó, em qualquer fila de supermercado, despertava interesse e curiosidade entre os clientes que esperavam a sua vez no caixa preferencial. Não era da sua natureza, porém se fosse, bastava um estalar de dedos, e o mundo rendia grandes homenagens à Senhora Ó. Mas agora tudo mudou. Depois da Senhora Ó, outras surgiram, tatuadas, com piercings em lugares inusitados e curiosos, cortes, pinturas que seriam admiradas por Dalí. Servidores lentos em matemática e português, que ansiavam pela hora-atividade e evitava o recreio e o refeitório pedagógicos, e, quando os grupos anunciavam nas redes o salário depositado, ora, ora, ora, ora, congestionam os grupos com emojis e vídeos que surpreenderiam O Grito, de Munch. Não era incômodo fazer chacota ou mandar ajoelhar-se no milho ou cheirar a parede. O tempo mudou a rotina da Senhora Ó! enfatizou Ceuto a Eraudo, que não largava o telemóvel, como voltou falando do Porto, na visita ao empobrecido mundo antigo. Que coisa maravilhosa é o tempo, Eraudo. Ora! Na época anterior à Senhora Ó, os alunos ousados, facilmente, não se aproximavam; vinham, avistaram de longe, de longe obedeciam, e voltavam. Diferentes da realidade atual, Eraudo, onde, não apenas se aproximam, mas até os tímidos fazem gato e sapatos; nada eles esperam que aconteça e, de fato, nada acontece.
Eraudo fechou o celular. Abriu a mochila made in China. Dentro repousava o calhamaço de epigramas que se encontrava entre bolachas, canetas, livros, balas, cadernos, lápis, água, estilete, borracha.
– Ceuto, se me der licença, por favor, cara, vou mergulhar, mais uma vez, neste poço de epigramas que carrego em minhas costas.
75. A MULHER DE SEU FAZREGRA
A menina – como Seu FazRegra chamava Brainstorming, quando estava de bom humor – falava com pressa, com gestos do autor de Ninho de Cobras. Ela tinha pressa de açúcar molhado num velho cais de porto abrigo de bêbados sem-teto. Brainstorming carece disto: dos gritos histéricos e dos palavrões para exorcizar o dia; e se ela não tem isto por uma semana, adoece – não tem remédio que a faça voltar a ser. Apenas seus showmícios de cozinha com sal úmido e dentes de alho, azeite quente que lhe alfineta as mãos e braços, a faz sentir-se gente outra vez.
Um dia sem guerra e Brainstorming estará novamente enferma, sentindo-se uma palhoça esquecida na floresta. Numa incerta tarde, Brainstorming Cabelo de Anjo entrou na loja da Rua do Deserto e comprou sementes próprias aos solos áridos. Quis sonhar. No jardim, ao lado da casa, quis florir a aridez da vizinhança que mal falava uns com os outros, desconfiados. Naquele dia, Brainstorming Cabelo de Anjo foi até o fim escarafunchando a terra. Brainstorming adoecera pra valer numa tentativa de melhorar a aridez da terra. Queria dissuadir ela mesma de que não deveria ser aquilo e pra isso evitava encontrar-se com os espelhos da casa, o batom e outros luxos – se ao menos preservasse um vício, Brainstorming dizia às mãos de suas unhas roídas até o sabugo que sangrava e doía; mas não aprendeu nem a chupar fumaça de cigarro ou se embriagar na adega de Seu FazRegra.
76. A COLUNA E OUTRAS LEMBRANÇAS
Seu FazRegra, com uma xícara de café e cachimbo, admirava um álbum de Brainstorming Cabelo de Anjo entre todos os outros da sua coleção. Chorou Seu FazRegra ao rever as fotografias. Viajou no tempo.
– Meu avô, disse, era um tal cuja mulher, estuprada por um mau elemento de fala arrevés que fazia bagunça e andara no grupo da Coluna, teve o ombro amigo do meu avô, que combatia a Coluna. Li a história do Prestes. Meu avô foi vítima que engordou o grupo armado, caçou e matou na faca cega o facínora que estuprou minha avó. Meu avô tornou-se boiatiro matador de burro brabo.
Brainstorming Cabelo de Anjo, com um livro na mão e óculos meia-taça na outra, uma obra-prima aos olhos de Seu FazRegra.
Nas ideias de DonaÓ, mãe de Brainstorming Cabelo de Anjo, mulher de fazendeiro que jamais carece trabalhar, pois sempre foi senhor da terra, deita-se, levanta-se na ociosidade e sem enfiar bufa em cordão. Os ideais de DonaÓ me contagiaram profundamente, disse Seu FazRegra em suas memórias.
MariaBala, no meio deles, come que nem uma raposa. Inês, a Internetês, no meio deles, deseja e é um pica-pau de magra.
Em sua cadeira de rodas, Seu FazRegra costumava dizer, foi o que disse MariaBala, sua biógrafa, que todo mundo deveria ter um herói na família, e sentir que tem sangue de herói. Seu FazRegra, com outra xícara de café, uma figura barroca, amarga e solitária, baforava cachimbo de quando em vez, de quando em vez passava o fura-bolo nos seus DVDs de faroestes.
– Glória, aquela uma, de tanto chamar o manobrista de meia-roda, teve dois filhos com ele: MariaBala e outra que morreu com a Glória. Brainstorming Cabelo de Anjo não soltava um assovio.
Seu FazRegra se ouvia Brainstorming Cabelo de Anjo assobiar à Por uns dólares a mais e, através da janela, visse a frentista no outro lado da rua, o seu dia passava a ser um plano aberto. A frentista solitária num macacão de Posto Xaxanã, minúscula no quadro. A frentista não perdia um dia de trabalho. E Seu FazRegra via as imagens mudas, e Seu FazRegra via o trem que desaparecer no túnel da frentista do Posto Xaxanã. Seu FazRegra viaja no cinema político de Uma bala para o general, viajava nas fitas O dia da desforra, Django de Corbucci, Sartana, il Mercenario, Ehi amico c’è Sabata, hai chiuso! Giù la testa e Keoma.
Brainstorming Cabelo de Anjo num longo, melodioso, triste assobio de Por um punhado de dólares. Tamborilava na tábua de lavar roupa a trilha sonora de Três homens em conflito.
A vida de MariaBala sempre foi ajambrada de uns jeitos quaisquer. O olhar da velha DonaÓ não saía de MariaBala e de Inês, a Internetês.
Seu FazRegra com o dedo no DVD.
77. ZÉ, O CRONISTA
Um homem carbonoso e encaramujado, disse MariaBala. Inês acreditava em tudo o que saía da boca de MariaBala.
Como diria El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha:
– Estoy leyendo, estoy leyendo y analizando tu informe. El tema, el tema me parece muy interesante, muy interesate y merece una investigación.
– Ich will wissen, frisou em alemão MariaBala com uma piscadela para a amiga Inês.
– Sai una cosa? Zé quis saber em italiano.
– Ich Will.
– Why?
– I do not know.
MariaBala, como diria El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha, “El tema me parece y merece una investigación.”
78. CONSTRUÇÃO DA INUTILIDADE
Na metafísica intertextual das temporalidades de verão, na marafunda do quarto ficou Seu FazRegra perfilando o dia. No colo, uma caixa com Rastro de ódio, O tesouro de Sierra Madre, Matar ou morrer, Onde começa o inferno, Meu ódio será sua herança, O bom, o mau e o feio, Butch Cassidy and the Sundance Kid, Os brutos também amam, O homem que matou o facínora, Pequeno grande homem, Dança com lobos, Por uns dólares a mais revisitado umas tricentésimas vezes. Seu FazRegra, ao fechar a porta dos olhos, ouvia vozes se misturaram às fotografias num impressionista quebra-cabeça.
A nauseabunda MariaBala suspensa em cordas das quais fez o seu caminho, cordas que ligam o nada a lugar nenhum, disse DonaÓ. Quem sabe, cordas presas ao vazio, talvez em um ponto cego, podem ser cordas que a levem à escuridão.
O alter ego de Seu FazRegra misturado ao fumo no cachimbo e os olhos no western-spaghetti. Um reducionista que dava azo. Este era Seu FazRegra, que passou a mão no jornal do jornalista Zé, o Cronista, Cenvergonhas.
– A leitura dos textos do Zé, o Cronista, era um prato frio.
Zé Cenvergonhas acordara numa madrugada cheia de mosquitos com desejos em escrever um decálogo com o título O Etimólogo da Futebola.
– Como alguém escreve isso em plena era High-tech?
79. O LIVRO DO VIDENTE PREDECESSOR
A periodização da história tropeçou num caco de vidro que refletia o sol e misturou o descobrimento do Brasil com a Revolução Francesa, o império dos romanos com a Revolução Industrial.
Venha rápido e não escolha o que escolhi, diz a carta psicografada. Na pós-vida você vê tudo em álbum de fotografias holográficas. É o tempo em que a morte perde a casca e a vida, que está adormecida, volta a respirar: se quer reencarnar no tempo das diligências, das bigas, das cavernas ou da Era High-tech, venha, é só atravessar as imagens holográficas em sua volta. E MariaBala cheia de desconfianças.
– Tu, MariaBala, não passa de bolha de sabonete!
80. O ZÉ E A DONA DO ZÉ
ou como escrever uma crônica dialética;
ou ainda, o jeito de se embaralhar cartas.
Naquela noite quente, Zé foi ao depósito do Jornal Xaxanã, que adquiriu ativos e passivos do Jornal FastaPovo. Encontrou Dona; e ela comentou que, ao chegar à empresa, bateu os grandes olhos no Zé. Os olhos dela começaram a ser os donos dos olhos dele. No jornal, os setores diferenciavam cada um dos Zés; Zé Cenvergonhas era identificado de Zé da Dona do Zé.
Zé Cenvergonhas, quase filho de Seu FazRegra, entre os tantos que ele contava nos dedos das mãos e dos pés e, perdido na soma, voltava a somar, e voltava a dividir, por saber que ao dividir se aprende a somar, aquela conversa com a Dona, desconfiava que soçobrasse um ponto e vírgula desmilinguido e necessário. Seja boazinha comigo, Dona, e no Natal eu sento você no colo do Noel e talvez ainda boto uma coisinha mole em tua mão. Na mão do capeta, Seu Zé! Inferno. Inferno? O inferno é a casa dos teus olhos. E quem não tem ambição? É o próprio coração enterrado na curva do rio, Seu Zé! E quem não tem coração? Seu Zé, Seu Zé Cenvergonhas, o senhor é mais prum cão chupando manga num barril de pólvora fumando um puro do que um cronista do Jornal Xaxanã. Posso tomar a liberdade pra uma curiosidade que guardo no cabo da minha vassoura, Sr. José? Pois, por que o senhor é metódico, Seu Zé Cenvergonhas? quis saber a faxineira. Porque sou reprimido, Dona. O senhor já viu que no jornal as coisas andam piores? Me disseram por esses dias nublados. Eu sou, Seu Zé, torturada todo dia por aquele escovão. Não tinha percebido, Dona. O senhor, Seu Zé, me acha uma trabalhadora oportunista? Não sei. Me encaixo mais, Seu Zé, assim, como internectada ou tenho cara de trabalhadora idiota? Trabalhando num jornal eu sou, Dona, um completo verdadeiro alienado e alienante, quase alienista.
Zé Cenvergonhas pegou na mão de Dona e começou a percorrer nas linhas, chegou ao antebraço, foi ao braço, tocou-lhe o pescoço, continuou com indiferença pra encontrar tempo perdido nas gavetas de sua mesa de trabalho e prosseguir na crônica que lhe dava o mesmo trabalho da construção da muralha da China. Dona sentia-se a última romântica, o sentimentalismo derramava-se em seu suor e, para de puxar conversa com o jornalista, ela voltava a girar e a falar no sabor do frango caipira na panela de aipim, falava sobre a cabeça de alho amassada e em meia dúzia de colheres de óleo e vinagre: cebola, hortelã, colorau e manjericão que lhe esperavam pro almoço daquele sábado de sol e frio. De domingo a domingo, Sr. Zé Cenvergonhas, esse jornal era um leilão. Zé Cenvergonhas voltou à crônica. Dona retornara às profundezas dos detergentes e panos. Minha felicidade, Seu Zé Cenvergonhas, me dá medo!
81. AS QUESTÕES DE BRAINSTORMING CABELO DE ANJO
A casa preservava um cheiro azedo e bolorento. Atmosfera vazia. Personagens gravitacionavam à cabeça de Brainstorming. Ela bocejava, delirava com suspiros e alongamento de braços e pernas. Pra que ficar entediada? Seu FazRegra gostava de pegar no pé de Brainstorming Cabelo de Anjo. E se fôssemos pelas menores partes, como costumava fazer aquela esquartejadora do Roxo Riacho Pequeno? Aposto, Seu FazRegra, que, aí, nesse seu livro novo, ninguém mata ninguém, nem de raiva. Nenhuma briga? Isso cansa! Nenhum caso de arrancar cabelos do coração? Um livro de verdade deixa rastro, alguém grita: Aqui passou uma lesma! Nem que seja um desenho tosco numa caverna. O verbo desse sujeito metido é sem predicado. Brainstorming Cabelo de Anjo ficou doida com aquilo. Ela descobriu na vida, como nos livros, as personagens vêm e somem sem compromisso de dizerem onde vão. Por que a personagem não cresce? E se cresce, outra fica miudinha. Não são bruxas e pais que jogam os filhos fora que me arrastam com eles, gritou Brainstorming Cabelo de Anjo ao marido, o que me arrasta com eles é saber que cada um deve viver como se vive uma escrita romanescambólica. Seu FazRegra reacendera o cachimbo, passou o fura-bolo em VHS, DVDs e Blu-rays com os velhos faroestes, olhou através da janela a frentista no outro lado da rua. Brainstorming Cabelo de Anjo ia sendo construída de pequenas coisas. Têm pessoas que são iguais a mim: nasci no crepúsculo e continuei crepuscular a vida inteira, e nem o espelho, que sonhava em professorar numa escolinha primária, me impediu de ser o que sofro.
82. ZÉ APAIXONADO ERA CACOFÔNICO
Sob a foice das palavras, Alice foi-se. Amá-la minha sina! disse Zé. Dona cortou a conversa dele com o escovão. Zé Cenvergonhas evitava cruzar com ela nos corredores do Jornal Xaxanã. Dona ameaçava falar com o andar de cima. E por quê? Pra cessar o contrato do Zé! disse Dona. MariaBala sabia que Zé não sabia o que Dona fazia em suas costas. Diante de Zé, Dona era uma uva de boa; Zé saía do alcance dela, e Dona soltava cobras e lagartos, lagartixas e teiús para morderem o Zé e necrosar os seus relacionamentos amorosos, que eram muitos. Zé, que se fazia de José, avisava em toda a redação: Hoje, gente, convidei Alice. Ali se come bem. Vamos comer, Alice? Falei. E Alice não largava aquele livro de 64 páginas amareladas e riscadas com a letrinha dela quando jovem: “Uni-vos, uni-vos hoje e não amanhã, trabalhadores Fastapovo, uni-vos já” com uma capa com as figurinhas de pirâmides, faraós, crocodilos. Zé Cenvergonhas despedira-se de Dona; ia ver Alice, que o esperava na esquina da Pão-de-Melaço.
83. MARIABALA SAI A PASSEIO. DEIXA O HOSPITAL DO CAFÉ
– Psiiiiiiiiiiiiuuu!
– Quê!
MariaBala, porque não tinha nada pra fazer da vida, abriu uma revistinha e a folheou como se não desejasse folhear. Leu:
a) ARTISTA DA FOME
O BigodimPintadim e Sinal-de-Fumaça descobriram a farsa de Linda e O-Pai-de-Ceuto. Acalmou-se a imprensa com uma pedra em cima do túmulo sobre O Caso, pois a prisão de políticos e o caos na aviação ocuparam os jornais.
O Caso foi solucionado?
Descobriram os renomados investigadores BigodimPintadim e Sinal-de-Fumaça, que O-Pai-de-Ceuto nunca existiu, não passava de um artista da fome. A-Mãe-de-Ceuto forjou tudo. Inefável, sobrinho de Linda, não era o proprietário da Loja Fotocopiadora coisa nenhuma porque nunca foi; ele era um morador de rua. O sem-teto foi investigado pela dupla BigodimPintadim e Sinal-de-Fumaça. Inefável – foi o que ficou no relatório – era uma criatura sem sombra, que chegou à rodoviária de Fastapovo sem família, sem ninguém. Quando Sinal-de-Fumaça e BigodimPintadim foram com os papéis pedirem informações ao cartório do Vergel, descobriram que A-Mãe-de-Ceuto vivia de favores em Xaxanã. Ela veio de Frankfurt com Ceuto recém-nascido. MP peticionou o arquivamento para O Caso. BigodimPintadim e Sinal, por acaso, insistiram na investigação: Essa gente aplica golpe, some sem deixar vestígios. A cidade de Xaxanã desconhecia os detalhes que só BigodimPintadim e Sinal-de-Fumaça conheciam.
b) ORIGEM DAS ESPÉCIES
No princípio, na origem das espécies, um tiro excitara a curiosidade mórbida. A-Mãe-de-Ceuto não existiu, nem O-Pai-de-Ceuto, tampouco Inefável. O cheiro de azeite, disse Sinal-de-Fumaça, era cenográfico. Os tais cenográficos pássaros nas gaiolas aos gritos também! disse BigodimPintadim. Nem o barulho de ônibus na rua onde houve o suposto O Caso, o fumegar do revólver que tirou a vida da personagem também não. Nem tudo o que se vê ou se lê.
MariaBala parou nesta parte do livro. Ficou intrigada. Seguiu a leitura.
Linda amável, Linda gorda, Linda, que não largava o esfregão, nunca foi apagar manchas de sangue de Inefável na cozinha de casa. Larga isso, Linda! insistia em vão. Larga, mulher! Mulher teimosa. Como fui casar. E por que não fiquei solteiro igual aos meus irmãos. Vivia nesse debate sem fim com Linda sobre o sexo dos anjos, sobre vida após a morte, sobre a existência da alma, sobre a existência ou não de fantasmas, sobre o sucesso de Inefável. Ora, minha nossa! Se a vida fosse bela... Vocês e os seus desenhos na escola, e vocês correndo, fazendo a vida historiar se tudo recomeçava por essas ruas outra vez e outra vez e outra vez e outra vez, se os meus passos voltavam a essas ruas sempre cheias, logo vazias, onde os meus passos demarcam territórios. Amor, vem terminar o café. Inefável encontrou o que procurava. Chame a polícia. E me traga o meu chapéu-panamá. Já sabes como me sinto sem ele. Foi só mais um suicídio em Xaxanã. A margarina acabou de acabar? Na mesa, as moscas nunca estiveram, nem pão, nem café, nem musse. Nem comigo-ninguém-pode, nem jarro com flores de plástico. Espada-de-São-Jorge, árvore-da-felicidade também. Mas a rádio anunciara a morte de Inefável. A TV não falava noutra coisa. Aqui em casa vieram BigodimPintadim e Sinal-de-Fumaça. Em Xaxanã, nas sinaleiras das cidades conurbadas, jornaleiros não paravam de oferecer o Jornal Xaxanã, o Dia Xaxanã, a Hora Xaxanã. Mas o vento nunca bateu na velha árvore, nem o ipê lhe cobrira de flores roxas.
c) O JOGADOR
No Vale Bluesazultristerótico, no Morro da Perequita, em Bluuuöëz, a 130 km de Xaxanã, gente, que ninguém sabia se era ou de onde veio, estabelecera-se numa casa alugada. O homem, sentado na cozinha apertada, olhar distante; e a mulher, no quintal, olhar próximo, amarrava fios de náilon debaixo de um ipê onde estendia panos molhados de sangue. O casal rogou aos filhos que não se misturassem com vizinhos, nem estimulassem bate-papos com estranhos.
No morro, as casas ziguezagueiam à ladeira íngreme que dá acesso a Rua Mula Sem Cabeça. No centro, a prefeitura cochilava diante de Reis Magos gigantes.
Linda. Linda não. Ainda nem sei que nome tu irás usar; pense em algum, mulher. Medeia. Uso Medeia. Use Medeia. Que diabo de nome é esse! Tá aqui no Jornal Xaxanã. Vamos adotar Medeia? Vamos, vamos adotar. Medeia, Linda, Linda, Medeia... Não vejo diferença. Acaso tu vês? Não. Então. Medeia. Medeia, tu sabes, eu sou jogador. Levo a vida na aposta. Aposto um dia noutro. Linda. Linda não. Medeia. Podia ser Maria? Maria não. Talvez Joana. Joana não. Quem sabe, talvez Fátima. Medeia. Já decidi. Que decisão estúpida! E se Medeia não... Não o quê? Não me cair bem. É um nome de uma importância enorme. E como sabe? Tá no jornal, ora! E por que tá no jornal... Ora, não me atrapalhe! Medeia, Medeia... Não aprovei. Aprove. Não. É melhor aprovar. Se essa Medeia do jornal for uma matricida. Que ideia estúpida! Se essa Medeia do jornal for uma fraticida. Ora, de onde tirou isso! Vamos jogar, Medeia. Vamos atrás do ouro. Porque se um cara tem um carro, eu quero o dobro; se ouço a descarga do vizinho, aperto a minha até esvaziar a caixa. Quero invejar o que alcanço. Eu quero minha cara nos jornais, todos os jornais importantes. Eu me sinto bem, assim. O jogador joga, não importa o preço das fichas. Somos iguais, Linda. Ó desculpa! Ainda nem sei te chamar de Medeia. Será que dará certo? Sou um gênio. Sabes, querida, há um segredo nesta criança e o segredo é E = m2 em nossa chegada à cidade. E explicar o quê? Ainda tenho muita roupa suja de sangue. Amarre outro fio entre aquele galho e outro. Medeia, acaso sabes dizer à formiga a origem do universo? Não. Ou explicar a uma ameba o que fez Santos Dumont voar? Então, não me amole, Medeia! Vamos conhecer a cidade. É véspera de Natal. Olhe meu cabelo como ficou Lawrence da Arábia. Imitei aquele policial do BigodimPintadim. E aí, Medeia, gostou do novo visual? Esqueça teu pai, teu irmão, teus filhos, vem viver comigo. Mas, me diga, gostaste da minha nova aparência? Vai, vai, Medeia, põe beleza na janela. Mínimo é teu interesse. Não toma conhecimento da ansiedade brotada nas palavras do homem. Mas, à noite, quando o homem e a mulher iam dormir, a vizinha ao lado falava com os seus cães. Medeia e o marido, altas horas, ouviam. O pêndulo daquela voz em obediência cega ao seu humor. Em noites de lua cheia, a vizinha ocupava os cães de mimos; se a lua mudasse de gorda e emagrecesse – Psiu! Non fas barrulho, seus cagon. Medeia jurou ao marido que não perderia mais uma noite de sono com a vizinha conversando durante a noite com os cães. O marido viu o perigo nas retinas de Medeia. Capacidade ela tinha, porque Medeia era capaz de tudo.
84. TARZAN E SUA MÃE GIRAFA
Em um dos cemitérios de Fastapovo. Seu FazRegra e DonaÓ vizinhos de túmulos.
(...)
Eraudo fechou o calhamaço de epigramas lidos até o número 84. Chovia muito na rua da Escola FazRegra. Os pingos tamborilavam na janela larga e alta da sala-mor. A escola sonhou com o colegiado e foi atropelada pelo conselho de classe. Alunos avaliados, avaliados docentes? Não. Não? Mudanças climáticas, xará. Na expectativa da espera, na sala-mor, em torno de uma mesa com início e nenhum fim, as áreas do conhecimento confabulavam, como configuravam contaminadas com café, caneca, colher, copo, comida, cantos. Linguagens, pela retumbante voz de Ceuto e seguida sem lamúrias, sem amedrontamento pelas hostilidades que se tornavam comuns dentro e fora das salas de aula. Presentes Matemática, liderada por Eraudo, e Ciências da Natureza e Humanas.
– Prof...!
– Pufffffffffffffff...!
– Profs...!
– Pufffffffffffffff...!
– Prof...!
– Pufffffffffffffff...!
A troca de prof e puffff lembrava a Guerra de Peloponeso. Era como se Atenas ameaçasse o poder de Esparta. Merecia uma página escrita pelo historiador Tucídides, disse alguém da área de Ciências Humanas. Nessa lenga-lenga de prof e pufff, Ceuto percebeu a conversa oca na força do blá-blá-blá e tomou a palavra dentro da palavra que habitava a sala-mor. Seguia o zum-zum-zum com os colegas que exercitavam a antropofagia no direito de ir e vir. Se iguais perante as leis complementares e ordinárias, medidas provisórias e decretos, mesmo as portarias ad aeternum e o direito discricionário dos agentes, mundo perverso, foi dito por Ceuto, que classificou mundo como um substantivo comum, masculino e singular, e perverso como adjetivo, masculino, singular, que caracteriza mundo no mundo perverso como um sintagma nominal. Como o debate se acalorou até a temperatura máxima, não interessava saber se o aluno sabia ou não sabia se o saber era sabido; o que prevalecia era descobrir qual o ponto fraco do aluno e surpreendê-lo com bello castigo. Foi lenga-lenga, foi zum-zum-zum da sala-mor que gerou o desjuízo no juízo de Ceuto como uma ideia sobre avaliar os alunos com os conceitos dos gêneros literários da literatura maravilhosa, fantástica e mágica. Ele levaria à sala...
– Vocês sabem o que é a literatura fantástica?
– Literatura o quê?
– Literatura mágica.
– Quê!
– Literatura maravilhosa.
– Papai vai saber, Ceuto!
Ceuto deliciava-se. Eraudo fumava. A sala-mor reduzia-se a um ovo com a quantidade retumbante de vozes.
Corriam nas córneas de Ceuto elementos sobrenaturais. O ambiente e os presentes na sala-mor eram reais, exceto os eventos que povoavam à cabeça de Ceuto, coberta por um boné puído e sem direito a higienização, sob o efeito de um mundo inexplicável. E, na sala-mor, o cenário fantástico era tomado por vozes retumbantes e gargalhadas estridentes, entes estranhos, tipos kafkianos. Se elementos nas córneas de Ceuto mudavam, este ambiente fantástico cedia ao mágico. E, sem resistência, na sala-mor, tudo o que fosse sobrenatural ocupava as córneas de Ceuto, que se deliciavam entre o real e o imaginário, que jamais, por aceitá-lo com naturalidade, buscavam explicar o sobrenatural, que viam presentes os elementos mágicos naquelas emoções de retumbantes vozes seguidas por estridentes gargalhadas. E, neste realismo mágico transformada a sala-mor, as gargalhadas eram gentes, as vozes tinham a força de gigantes que influenciavam na realidade comunitária da Escola FazRegra. E demonstravam as paredes da escola iguras míticas; uma delas parecia, nas córneas de Ceuto, ser Troll. E quando elementos se descolavam do realismo mágico, mergulhavam no maravilhoso. E, na sala-mor, o sobrenatural não era questionado, tampouco problematizado entre as córneas de Ceuto. A sala-mor estava maravilhosamente povoada por heróis, por vilões, Sanchos, Dom Quixotes, por Aladins e lâmpadas mágicas. E eram permissíveis quaisquer fantasias às córneas de Ceuto, porque Escola FazRegra...
– ...Era maravilhosa!
– O que era maravilhosa, Ceuto? disse Eraudo.
Eu me associo, cheio de satisfação e riso, disse, a quem estabeleceu um método de avaliar o aluno que acerta uma questão difícil e erra uma fácil, porque assim são anuladas ambas as perguntas derivadas do mesmo enunciado. E sou defensor do faz de conta que azeita a engrenagem, pois o pacto da mediocridade é o que me diverte.
– Um incerto dia, Eraudo, disse Ceuto a si mesmo nos estreitos corredores da Escola FazRegra, eu sem saber que eu era eu, eu sonhei, com “um sonho de sonhador...” Como! Vou te contar. Os aprendizes e os instrutores participavam de um intercâmbio literário para além dos muros da escola. E o sonho começou a mostrar que eu, e apenas eu, era a presença da virtude e da sorte. E chegaram à escola ônibus e ônibus de palestrantes nacionais, estrangeiros, escritores por videoconferência em tempo real mostravam livros autorais que se espalhavam nos corredores da Escola FazRegra. Aqui, bem aqui mesmo. Alunos aprendizes contagiados pela aura literária, tornaram o sonho de um jornal escolar realidade. Começaram a chegar em novos ônibus à escola mais autores, gêneros literários de diferentes distâncias e línguas. Nas aulas, alunos e escritores conversavam a distância com autores poetas, contistas autores, autores romancistas. Estava ciente de que o sonho era realidade e não sonho. Mas era tudo sonho. Acordei.
– Não se desanime, Ceuto.
– É o certo, Eraudo!
Naquela mesma semana, a automação veio ocupar a vigilância na escola por meio de câmeras, como substituiria a mão de obra da limpeza e da cozinha, os professores e os livros. O primeiro a ser substituído foi o trabalho pedagógico. Era o lucro longe dos riscos. Já era final de dezembro. No término do ano letivo, não se falavam em desperdícios ou despesas com educação. Os alunos que perdiam o interesse em estudar, na primeira semana o sistema O Programa os desligava da matrícula. Isto representou a primeira pá de cal sobre o trabalho pedagógico de Ceuto Eraudo e Eraudo Ceuto. Como sonho, a Senhora Ó veio na terça-feira e, durante uma aula sobre equação do segundo grau, apresentou um gráfico no quadro. A turma suava ante a Senhora Ó, que combatia o fisiologismo cruzado, que respeitava a democracia na escola, que incentivava assembleias de alunos e debates éticos sobre o valor da matemática para todos. Suava a Senhora Ó ao erguer o braço na parte mais alta do quadro. A Senhora Ó no fio da navalha. As hélices do ventilador giravam com violência e, de repente, pararam de girar. Trinta adolescentes prenderam a respiração. Um, na tentativa de fugir, caiu da cadeira sem fazer barulho. A Senhora Ó, sem entender, pela primeira vez viu a sua turma em silêncio. Por que a turma ficou petrificada com a equação do segundo grau? A Senhora Ó estava feliz pela primeira vez ao observar o silêncio da turma vendo no quadro a equação. Por que a turma nem conseguia respirar? A inveja acabou, disse, não via mais o que havia de sombrio nessa turma. E a Senhora Ó tentava controlar-se com a sensação de poder sobre a turma. E a expressão da Senhora Ó demonstrou o fim da sensação de impotência naquela turma pela primeira vez. Desconhecia a Senhora Ó o poder radioativo dos odores que se manifestavam, enquanto explicava a equação do segundo grau. Cessaram risadinhas e também as imitações e os gritinhos ou bolinhas de papel voando. Os conhecimentos da Senhora Ó esconderam dela por tanto tempo na escola sobre o poder dos odores corporais. E foi assim, Eraudo, disse Ceuto, que a Senhora Ó ganhou respeito e fama. E nenhum método pedagógico, descobriu a Senhora Ó, era tão poderoso se comparado aos odores.
Além dos portões da Escola FazRegra, cirro, alto, cúmulo, estrato e nimbo criaram, com a força dos ventos, o fenômeno atmosférico feudo. Nuvens vieram como se fossem cobrir a escola por completo. O conhecimento não era mais tão importante, isto repelia os alunos ao interesse pelos estudos. O fenômeno feudo cercava a escola numa atmosfera densa e parecia extrair dela as suas essências rápida e imperceptivelmente. Enquanto a escola fazia festa com a sensação do fenômeno feudo, todos perdiam a potencialidade, perdiam a natureza humana. O fenômeno feudo exercia uma espécie de controle sobre a Escola FazRegra, e era como se aquela mudança fosse um desconhecido tipo de vida a influenciar o tipo de vida que se conhecia. E o fenômeno feudo parecia egocêntrico sobre a Escola FazRegra. Isto não era possível. Era. Não era. Era, sim. Não conseguia ver? Estava acontecendo. A busca pelo conhecimento na escola não era mais a força motriz essencial depois do fenômeno feudo, que parecia uma manifestação de raiva sobre a escola. O fenômeno feudo abraçou a escola e a controlou pelas paredes, pelas pessoas, pelos desejos, pelos medos. Ceuto disse a Eraudo que a Senhora Ó fazia falta, uma falta incalculável no cotidiano escolar. Era o cheiro da Senhora Ó que seduzia a escola, e o cheiro dela sumiu após este fenômeno feudo. Os números da Senhora Ó no quadro foram tão poderosos, disse, foi raro ter convivido com a Senhora Ó naquela época e impossível reviver o que vivi na época da Senhora Ó. As aulas da Senhora Ó eram o que me davam prazer. Ela dava o máximo em suas aulas de matemática. A Senhora Ó tinha uma sedução de acasalamento com a matemática. A capacidade de criar fórmulas mágicas e equações que explicassem o universo eram naturais à Senhora Ó, disse. Através de algoritmos, disse, os neurônios espelhos garantiram à escola mais aceleração e riqueza com as inovações, redução dos custos e otimização das horas. Qual é o segredo? disse. A Senhora Ó não soube alertar sobre o perigo do fenômeno feudo, mas esta nuvem abraçou a escola e lhe devorava por dentro pelo medo. Os novos desejos estavam presentes em todos os lugares. Professora, alguma vez sofreu preconceito? A Senhora Ó olhou com aquele olhar de deboche cheio de sedução. A sala de aula envolta no pó de giz, cujas hélices do ventilador não paravam de espalhar. O murmúrio da sala era abafado pelos olhares da Senhora Ó. A linguagem corporal da senhora Ó dava aula à falta de confiança. Os alunos com a inocência de quem explora a escola e esta, sem a habilidade necessária, não conseguiu saber tudo sobre eles, exceto a Senhora Ó. E isto fazia a escola odiar a Senhora Ó. O tom de voz da Senhora Ó dava de ombros ao ódio de gente que falava pelas suas costas, gente que planejava arrancar a Senhora Ó da sua cadeira de diretora. Ela não parava de trabalhar. Na mesa de direção preenchia relatórios. Levantou a cabeça devagar e olhou através da janela. Lá fora, o azul sem falhas, limpo. Abriu a janela e foi abraçada pelo cheiro leve de terra e folhas secas. O sorriso manso, os olhos cercados por rugas. A Senhora Ó escrevia no quadro as suas fórmulas, as suas equações. A idade não lhe atrapalha, Senhora Ó, ou não se sente cansada? Ela levou o giz ao quadro, escreveu S sobre a letra I na palavra idade com um cuidado artístico, era como se estivesse acostumada ao simbólico e, assim, fez a palavra idade iniciar-se com um cifrão. Idade era a idade, quando não se enxergava valor na idade.
A habilidade da Senhora Ó, disse a Senhora I, quase sempre silenciava a escola. Quando a Senhora Ó cessou a sua portaria, foi morar no campo. Recebeu em sua casa, por várias e várias vezes, a Senhora A, que recebia da Senhora Ó banho, cama e mesa. E, na cozinha, a Senhora A contou à Senhora I, a Senhora A abria a gaveta da pia, retirava uma faca pontuda e estudava como enterrá-la no peito da Senhora Ó, furar a sua jugular ou fazer picadinho da Senhora Ó.
– Eles ainda se acalmavam pintando Bobbie Goods? disse Eraudo. Ceuto parou, como se pensasse, e riu: 
– Eles tão no nono ano, cara!
– Foi a isso que chegaram?
– Eles esperavam por comandos e não por ideias.
– Todos vieram pra comandar?
– Perguntasse ao professor Sun Tzu.
– A violência como regras, cara. Os discursos toque-toques, meu. 
– Transformaram a sala de aula em Cassino, de Scorsese, e as apostas eram altas.
E um iPhone de mão em mão. Ninguém andava naqueles corredores sem passar a mão nas dobráveis paredes de néon. Eles ouviam a voz: homo homini lupus.
– O homem não é deste planeta! disse Ceuto. Ele é híbrido com qualquer monstruosidade do espaço. 
– O homem é filho de Deus! rebateu Eraudo.
– Já discutimos isso, amigo, na graduação.
– Mas não concordo que Ele seja uma invenção.
– Essa coisa da qual viemos, mais atrapalha do que ajuda.
– Criamos a Filosofia, a Ciência...
– Pra não sermos sufocados no chorume da ignorância e do pesadelo.
– Não quis dizer pecado? disse Eraudo. Porque entre pecado e pesadelo são três letras.
– Antes que se inicie o Armagedom, vá pra sua aula de matemática e eu sigo a caminho da língua. 
Ontem, as coisas aconteciam e a equipe diretiva mantinha a sete chaves. Hoje, as coisas acontecem e são escancaradas como um troféu a ser exibido ao mundo.
– Nada supera o tique-taque, que é o maior dos horrores.
Antes, o que a escola tocasse se transformava em ouro. E hoje? Cuidado com o que se deseja. Porque, rapidamente, a Escola FazRegra se deslocava a um horizonte de eventos. A luz desapareceria na escuridão perpétua. O túnel aberto sugava a realidade. A atração gravitacional sugava o conhecimento à queda final. No colegiado, desse ano, a docência rotulava os alunos de maneira tão vil que envergonharia à própria vergonha. Não se falava sobre o avanço da aprendizagem ou a redução dela ou estagnação. Falava-se sobre mazelas dos alunos e das famílias. Ano a ano, o ritual era idêntico. Ninguém erguia a voz em defesa de alguma ética na escola. As teses apresentadas diagnosticaram nos alunos diferentes CIDs. A escola demonstrava ter perdido o rumo do ensino baseado nas referências da matriz curricular durante o letivo ano. Pois o aluno A, anunciava-se, chegou de Marte há uma semana; e ele não sabe ser o ser que deveria ser. E a aluna B? Veja essa imagem na parede e as nódoas no histórico. Era aluna que influenciava toda a escola? Ó que inferno! No conselho de classe desse ano, a realidade só se apresentava naquilo que se falava, isto transformou os batimentos cardíacos pela respiração dos presentes, além de modificar a pele (o maior órgão humano), e alterar o paladar.
Recreio. Os alunos disputavam à tapa um lugar na mesa do refeitório.
– Furar tua mão com caneta.
– Quebro teu nariz.
– Façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies.
Docentes fotografavam os alunos pelas costas e postavam nos grupos da escola. Sala de aula: Um laboratório do nada.
– Façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam!
– João batendo em Pedrito de chinelo.
Márcia batia com as mãos espalmadas na carteira.
– Angelina vai mesmo provocar uma guerra de aviãozinho de papel?
– Equipe diretiva, socooooorro! Socoooooorro, equipe diretiva!
– Preciso de ajuda. Preciso de ajuda! Preciso de ajuuuuuuda!
– Façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam! 
– Assunção não para de dizer palavrões e palavrinhas.
– Façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam!
– Preciso de ajuuuuuuda!
– Orientação, venha ajudar.
– Façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam!
O capitalismo de plataforma tinha pressa em acumular moedas. Não bastava apenas rir uma vez, era obrigação rir sempre, não um riso de lâmpada amarela, só se aceitava o riso fluorescente. A sala de aula era um campo minado. Todos os passos representavam perigo. Todos exigiam likes e views na Era da Visualização. Sem curtidas não havia engajamento, sem views não havia alcance de conteúdo. Era o sorriso de fluorescente congelado quem permitia andar no fio da navalha. Uma mãe atravessou o portão de ferro que separava a escola da rua. Façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam! Os pés alcançaram a sala de aula: O laboratório do nada. Ela não trazia risos de flores tampouco se preocupava com views ou likes e joinhas; apenas segurou o filho pelo colarinho e lhe mostrou os quatro cantos. – Ora, ora, ora, ora! Façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam! Cerrou as portas, as janelas de vidro. A nenhum colega do filho foi permitido participar do quadro de exceção. Ouviam-se, lá fora, os gritos e os lamentos. O filho rogava ajuda sem ser socorrido; a mãe lamentava cada momento sofrido, desde as dores do parto jamais esquecidas. A equipe diretiva, fora da sala de aula, lutava contra as paredes dobráveis de néon. – Mais! Mais! Façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam! A porta e as janelas, na sala, sem saberem qual equação usar ou palavra mágica e entrar na caverna na qual entrou Ali Babá. Um ousado professor quebrou o vidro, rasgou-se, caiu. Façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam selfies, façam! Laçaram a equação da Senhora Ó, e ela deixou a escola numa cadeira de rodas, o coração na boca e as cores no rosto sumidas. No capitalismo de plataforma, o trabalho não era trabalho, era vitrine. A sala de aula com alunos à espera de líder, feito os estranhos Didi e Gogo à espera de Godot. Reuniram-se os pedagogos, que tropeçavam na pressa da docência e na angústia da pedagogia. Na temperatura de dezembro, ora eles professoravam nas áreas de conhecimento, orientadas pela Base, ora sentavam-se numa crise que se alternava entre o choro e o riso. Ceuto e Eraudo atravessavam os corredores de paredes dobráveis de néon na FazRegra. E falavam do Líder que foi divina barbaramente torturado e vítima da pena capital. Os alunos festejavam dezembro, outro reencontro aos gritos, numa sessão de berros, numa competição de quem conseguia perder a voz com tantos gritos que superavam Tarzan de árvore em árvore. Alunos atentos a uma voz que pudessem seguir. Os cadarços nos tênis dos alunos nunca eram amarrados. O corpo docente tatuava-se nas paredes dobráveis de néon. As cabeças, que preenchiam as salas, tinham sempre um corte novo que lembrava uma pintura cubista. Os olhares eram capazes de acumular riquezas inimagináveis.
– Por que você odeia tanto a Senhora Ó? disse a Senhora I.
– Porque não vou com a cara dela! disse a Senhora A.
– Simples assim? disse a Senhora U. Não havia outro porquê em relação ao hate?
– Ela disse que dava visualizações! disse a Senhora E. Afinal, vivemos na Era dos Olhos.

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