A PENA DA CORUJA

Contos

Por Marcello Ricardo Almeida

Descortina-se o sol do sertão rapidamente; rapidamente são abertas as janelas, nas casas; não menos do que rápido, as espigas de milho, colhidas nos quintais, extraídas da palha, os grãos levados ao ralador; ligeiro, como quem rouba do coração o amor, crepita a lenha no fogo, e ferve o leite, e corre a água quente sobre o pó, fumega o café, o queijo coalho na mesa, e o vaivém da espiga faz surgir os pratos na manhã do sertanejo. Vovô beija vovó, não com a breve fagulha que o vento apaga; abraçam-se os velhinhos cheios de afetos, e abre-se o dia com o canto do sabiá-laranjeira. A réstia de sol, na cozinha, toma a casa, banha o terreiro onde as galinhas ciscam grãos, caçam insetos, bicam frutas caídas dos pés de acerola, de manga, de goiaba, de umbu, de graviola. Corre vovô os dedos na viola, vovó cria o mote, glosa vovô no mote de vovó. As figuras deles, numa moldura de vidro abaulado, decora uma parede na sala de estar; as imagens realizadas pela arte de um lambe-lambe, no sábado de feira, na frente da igreja; o artista retocou o bigode e o cabelo, que remoçou vovô, e caprichou nas maçãs, no rosto de vovó. Aqui, estou outra vez, e, outra vez, leio o jornal. Corro nos trilhos das linhas silenciosas, miúdas e repetitivas; vejo, outra vez, as aranhas minúsculas correrem nas letras, quando não há aranhas, vejo-as nas extremidades do jornal, no início, no fim das notícias. Penetro na informação, sedento; mergulho cada vez mais, cada vez mais, cada vez mais em busca de profundidade, e os pés tocam o chão; as aranhinhas não param de ir e vir.
Inda tás vivo, velho? ele disse. Vovô considerou imoral a atitude do andante, que passou em sua rua. Vovô não tolerou o "Inda tás vivo, velho?" cubou a malquerença na pergunta. Vovô nunca foi rancoroso, mas a atitude foi espúria, e ele não tolerava traidor, tampouco corja fã da covardia. Onde está o pudor dessa gente! cuspiu Vovô. Fosse atrás do safado! sentenciou na fumaça do palheiro feito de folhas de trombeta. Não deixasse o cuspe secar.
Fui atrás do humorista, mas ele se perdeu na multidão do sábado; a feira engoliu o pândega. Fiquei à caça do engraçadinho, porém não o encontrei mais na cidade. A ousadia estava por conta. Covarde, covarde, covarde! Agredir o homem e a velhice... Não encontro palavras. Covarde, covarde, covarde! Vá vilipendiar a vila de onde partiu, covarde e vil. Vovô não dobrará a espinha, como nunca a dobrou. Vovô não deixa ficar pedra sobre pedra. Não aceito agressão, e repudio ataques. Isso não passará impune, Vovô. Acordei. As folhas do Diário de Santana protegiam o rosto do sol que chegava da Microondas. Atravessei a rua; entrei no bar de Bach; procurei uma sombra na primeira aresta. O bar cheio; uma manhã com cheiro de cerveja e sarapatel.
Antes, no varandão de meu avô, lia as notícias adormecidas, no Diário de Santana. Às vezes, a prensa atrasa; o jornal chega tarde às ruas, nas vozes alucinadas dos jornaleiros. Todos os continentes receberam nomes femininos; o jornalismo também deveria recebê-lo. Na preguiçosa de lona, encontrava-me eu neste devaneio, relendo velhas notícias, vi descer um azulão, ouvi as algazarras de outro, era o corrupião. Vi chegar à algarobeira um cardeal-do-nordeste. Logo um periquito-da-caatinga e, mais tarde, bico-virado-da-caatinga deu cambalhota. Vi também um chora-passado e um caboré saltitante, como se comemorasse o fim das luzes misteriosas que amedrontaram, na madrugada, vindas da microondas no topo da serra para além do Panema. Vi, muitas vezes, Eufemística rondando o bar de Bach. O que fazia essa belezura? Buscava notícias. Fazia perguntas, pesquisas, elaborava o trabalho de conclusão de curso, foi o que disse. Eu a conheci melhor numa mesa; ela falou de São Paulo, falou de seu medo ao horror cósmico. Eufemística carregava no olhar o que ela dizia temer: o horror inexplicável e impossível de ser contido. Bebi com Eufemística todas as cervejas, armazenadas no quarto das bebidas, sob a tosca placa de madeira PROIBIDA A ENTRADA. Mais cerveja, Eufemística? Aceito se ela for servida acompanhada com o tal sarapatel de vocês! Traga mais cerveja, Bach, e traga sarapatel. 
Quando fugi de casa, porque não quis herdar o bar de meu pai, ele deixou que o destino me trouxesse de volta a Santana. Voltei em um mês assim lusco-fusco, um agosto como esse. Morreu Getúlio em agosto, Elvis também morreu. Cauby cantou nesse bar, sabia? Cantou. Nesse bar cantou Gonzaga. A sanfona ficou exatamente nessa mesa. Quando papai estava daquele lado do balcão, Altemar Dutra e papai jogaram cartas naquela mesa vazia. Papai tocou violão com Waldick Soriano, recém-saído da Bahia. Naquela mesa de canto, rabiscou papéis o paraibano José Lins. Papai perguntou o que Zé escrevia? Histórias de cangaceiros. Nesse balcão, papai escreveu letras de música. Gonzagão bebeu pinga com papai em um sábado assim como hoje. Hoje, papai, velhinho, não sai de casa. Em casa, mamãe zela por papai. Todas essas fotos mostram papai nas serestas. Papai, com a idade em que eu me encontro, era um menestrel.
Bach, o dono do bar, planejava aumentar o pé-direito, mudar os móveis, rebocar as paredes, pintá-las com cores de auroras, forrar o espaço de quadros com os primeiros Portinari santanenses e as primeiras Malfatti, guardar em redomas os originais dos primeiros Guimarães, as primeiras partituras de Lobos, os violões dos primeiros seresteiros, as chuteiras dos primeiros Garrincha, versos dos primeiros Castro Alves e dos primeiros Augusto dos Anjos. Bach, com o seu pano encardido sobre as costas, quando só, o que era incomum em razão do zum-zum-zum no bar, herança do pai, buscava motivos que impressionassem Ironia. Ele a olhava passar no outro lado da rua, na outra calçada, ela sequer via se ali tinha um bar; apesar do zum-zum-zum, das moscas, dos bêbados, das algazarras, das brigas, do cheiro de sangue no sarapatel.
Quarenta séculos ainda nos contemplam? A imaginação não seria nada sem a imagem! disse o maior amigo do dono do bar, que se aproximou do balcão e pediu um copo de pinga, coincidentemente quando o vento trouxe da rua uma pena de coruja que circulou o quadro "Marmundaúguabalagoas" dos jangadeiros, na Pajuçara. 
Nos fundos do bar, na frente da casa de meu avô, o Panema treme no perene ronco. Os sapos hibernam. As corujas dormem emaranhadas nos maranhões das cercas de avelós.
Hipérbato, assíduo cliente e o mais religioso, era assediado pelo dono do bar com pedidos de odes, sonetos, uma ou duas trovas, talvez um haicai que enaltaça a beleza de Ironia. Talvez assim ela olhasse pra mim, Hipérbato?
– E por que não lhe dedicava, disse-lhe Hipérbato, um dos seus livretos de cordel?
– Ela veio do Sul, Hipérbato. Gente do Sul, não sei, não. Poesia de cordel é coisa nossa, Hipérbato; criação da roça, que veio esbarrar na rua. Não sei, não.
Bach escalou as serras que circundam Santana, por trechos de versos, coivaras de elisão, escansão, explorou o bioma da caatinga, usou os pés métricos e, com tônica mais átona, usou troqueu, com átona mais tônica usou jambo, com tônica mais átona mais átona usou dáctilo, com átona mais átona mais tônica usou anapesto. Chamou peste muitas vezes, outras tantas gritou peste. A poiesis perdeu o brilho nos olhos de Bach. Em sua testa brotou adjetivos à vontade, não menos advérbios; contrariou a escrita criativa, e mais disse do que mostrou; abusou dos gerúndios; a sua arte se apegava à fonética: a única fonte que lhe saciava a sede definitiva; a jornada do herói foi um decalque do Filho do Homem em suas escritas; e o arco da Ironia desgostou os seus versos tantas vezes rabiscados. Ele sabia que o soneto não dava; tropeçou várias vezes nas oxítonas, respirou fundo nas paroxítonas, e reclamou das proparoxítonas. Dizia-se exímio na escansão dos versos de cordéis amplamente debatidos com o cego alfaiate Alexandrino, mas os poemas fixos pareciam iguais e de iguais não tinham nada. Caneta, papel de embrulho, lápis, folha de caderno, afundou a ponta, furou o papel, não saiu nenhum verso de amor e amizade. Se na primeira estrofe exultava o povo, na segunda lhe negava os direitos fundamentais. Tentou a balada, caiu no fosso das três oitavas, saiu do abismo, cambaleou nas palavras, mergulhou no poço, riscou o papel. Pulou a trova e a sextilha, porque a figura da Ironia não se encontrava par, a rima arranhava a língua, o ritmo perdia o fôlego. Lembrou-se do rondó; talvez ela não entenda, talvez se desgoste, talvez me odei, talvez me chame de...! Desistiu do rondó. Acalmou-se, mas por instantes. As pausas nas falas perderam a linha. Desembestou a praguejar, quebrar canetas, lápis, rasgar folhas. Deixou rondó, foi ao rondel; riscou, olhou as telhas, fumou além do habitual. Desistiu também do rondel. Não quis cometer um haicai. Foi no vilancete; virou, mexeu, saiu. Rabiscou uns versos em pantum. Se disse inspirado e suou muito mais do que pudesse imaginar que a inspiração lhe desse tanto trabalho. Optou pela ode; exaltou Ironia como em nenhuma outra época Ironia foi exaltada; ela perderia a graça, não chegaria ao terceiro verso; parou, rasgou a folha, queimou o papel. Partiu decidido a enfrentar outro tipo de poema fixo que agradasse a bela Ironia. Deixou ode por elegia, elegia por écloga, elegia era muita tristeza; foi de écloga ao epitalâmio e fez versos de casamento com juras eternas. Parou de tentar. Bach fez alguns versos satíricos, desistiu da sátira. E acabou por desistir de tudo com o poema fixo madrigal.
Santana é uma cidade para além do tempo. O vento da rua trazia a pena e, de assalto, ela entrou no bar. Naquela manhã, Bach passava o trapo imundo sobre o balcão. Olhava o sol que iluminava as frestas nas portas de seu comércio, na rua da casa de meu avô. 
Entre os lábios, Bach espremeu a melodia do Frevo do Reencontro. Uma pena de coruja dançou no ar. O telhado desenhado a bico de pena.
Nas mesas, Antítese jogava cartas. Hipérbole bebia vinho. Antônimo jogava conversa fora. Exagero esvaziava outra garrafa. Anáfora falava sobre os cabras de Conveniência, lembrou o dia 28 de julho, quando Conveniência trocou tiro, na Serra da Camonga, com Lampião, Corisco e Labareda.
As imperceptíveis correntes de ar brincavam com a pena de coruja sob o chapéu do telhado, no bar. Ora um sopro a levava ao norte, ora ao sul. Pairava sobre Repetição, entre os copos vazios na mesa de Antítese. Levantava voo. Ora tomava a mesa de Metonímia, que nunca se afastava do bar, ora da Dona Troca, que jogava truco.
Hipérbole dobrava-se com as piadas de Inversão. Ninguém se importava com a pena bailarina. O bailado da pena de coruja parecia uma mandinga mandada por Ironia ao dono do bar. A pena ora ia ao oeste, ora ao leste. Tomava a direção nordeste, ora sudeste. Subia. Ia ao noroeste. Descia. Rumava ao sudeste. Hipérbato bebia cerveja. Inversão, encostado ao balcão, conversava com Bach. As moscas tomavam o balcão, as garrafas, os copos vazios e os cheios, como se tivessem sido atraídas pela putrefação. Personificação relia e chorava, pela undécima vez, a notícia que lhe chegou de São Paulo sobre a sua amiga de infância que se autocarbonizou, na Praça da Sé. 
O sonho acabou? perguntou Noentanto; e o dono do bar, com ares de povo, respondeu-lhe que o sonho ainda não saiu da cama. No balcão, Graduação pedia outra garrafa. Eufermismo compra cigarro. Sequência contava o troco. Conotativo cochilava. Elipse espalhava sobre a mesa e embaralhou as cartas. Omissão anunciava a candidatura à vereança. Pleonasmo falava sobre o vício do padre. Redundância queria voltar a Maceió. Eufemismo foi morar em Arapiraca, ganhar a vida com fumo, acabou de voltar a Santana. Onomatopeia soprava a fumaça do cachimbo. Polissíndeto comentava com Bach sobre os jogos do campeonato. Conjunções chora na porta do bar, esmola aos fregueses um pedaço de pão.
– Não como há três dias!
Mais passou com uma bola debaixo do braço. Mas desceu em direção ao Panema. Porém veio ao bar onde comprou o que o padre evitava comprar ao ver o estabelecimento entupido de gente. Contudo jogava bozó por moedas miúdas. Portanto carregava caixas. Todavia ficou parado em uma das portas estreitas, na entrada do bar, e não tirava o olhar das gaiolas que ornavam as paredes nuas, na rua de meu avô. Entretanto conversava com Assíndeto sobre o novo circo em Santana. Os músicos, funcionários públicos, passaram na frente do bar tocando o Frevo do Reencontro.
Longe dos olhares dos clientes, o dono do bar chamou Metáfora prum canto. Tem notícias de Ironia? perguntou-lhe. Quê! não entendeu a pergunta de Bach. Ironia! repetiu, e fez gestos de segredo, rogou-lhe silêncio.
Mais tarde, Bach especulava sobre o futuro. E falava sobre o ódio que o povo demonstrava pelo povo. Depois do futebol, as conjunções coordenativas adversativas se encontravam dentro do bar, falavam de gol, de frango, de pênalti, de roubo, de perdas e ganhos, bebiam cachaça, bebiam cerveja com tira-gosto de sarapatel. Mas trocava informações com Mais. Mas, a corrupção, disse Mais, é o exílio. 
Alto, com uma garrafa vazia e um copo na mão, Exagero começou a falar alto:
– Vovó tinha saudades do voto censitário! Vovô tratava vovó com rigor, justamente por causa da língua da vovó. Vovô era um pândega. Vovó dizia que quando vovô acordava com a pachorra... Ele sempre foi um desorganizador de métodos. 
– Vocês, aí na porta, chutem esse bêbado lá pra fora! exigiu Bach. O bar não tolera bêbados.
Exagero jogou a garrafa no chão, espalharam-se os cacos. Ao chão foi a vez do copo. Exagero foi com o dedo na cara do dono do bar, e com a outra mão cheia de dinheiro de notas graúdas:
– Compare ele com o que ele diz quem ele de fato é! disse e espalhou a dinheirama no balcão. Ligeiro, Bach recolheu sem deixar cair nenhuma moeda. 
A pena, que havia estacionado num caibro, soltou-se. Voou.
– Ele é isso! berrou Exagero. Ele não abre a mão nem pra se despedir. 
– Bote esse bêbado pra fora do bar! insistiu Bach aos berros.
Naquela noite, Bach foi dormir sem se livrar do medo.
Será que Ironia, perguntou Bach ao travesseiro, era mesmo líder da Associação das Aranhas?
No silêncio, Bach ouviu na feira o vaso sem vazo, e apreçar sem apressar, que arrocha quando arroxa só se serrar sem cerrar. Mais tarde, dentro da madrugada, Bach ouviu a lagartixa mexer a cauda e, na cozinha, o barulho da calda. Ele ouviu o conselho ao concelho e disse: Vai do estrato ao extrato, se for ao paço no passo. Perguntou ao travesseiro se a descrição na discrição é, e se discente é decente, e se eminente é iminente. Sentou-se na cama. Folheou o Diário de Santana. Perguntou-se se imergir é emergir, se inflação é infração, se recrea ou se recria. Palavras homófonas zumbiam. Ele ficou uma mutuca. Uma pena de coruja no criado-mudo. Bach repetia palavras diferentes como se existissem com a mesma grafia. A pena mexeu-se. A língua de luz no vidro da lamparina tremeu. 
E se Ironia fosse a líder da Associação das Aranhas? disse e viu correr nas pernas e nos braços uns bichos miúdos e sem cor. Os pequenos músculos, nas pernas e nos braços, eretores de pelos levaram Bach a esfregar as mãos espalmadas sobre os braços e sobre as pernas como se ele quisesse livrar-se dos arrepios anarcocapitalistas, e esfregava as mãos com força sobre os braços, sobre as pernas, revezava, voltava aos braços, regressava às pernas numa tentativa em evitar que os seus pelos se eriçassem. 
Não era possível que Ironia fosse a líder! 
Ironia era capaz de surpreender a própria linguagem; às vezes, ela evitava até os asnos dizerem asneiras. Bach soube, no bar, não se lembrava de quem, era por alguém que falava com o olhar baixo e raramente o erguia, que a líder da Associação das Aranhas uma vez deu voz humana aos burros cansados de relinchar estupidez. Ironia era capaz de tudo.
O dono do bar plantou os joelhos no chão. Baixou a cabeça e chorou. Não acreditava que Ironia liderasse o que ouvia falar na cidade sobre ela ser a líder.
– Por que você faz isso comigo, Ironia, por quê?
Durante as diversas tentativas em criar um poema fixo à Ironia, Bach disse seiscentas mil pestes; cada erro, uma peste. Ele contou. Viu o rito da Associação das Aranhas, que se reunia duas vezes ao ano, em trages de louva-a-deus. As seguidoras da seita pagã puniam os homens maus. Bach temia ser um daqueles homens. Batia no peito com uma palmatória, afligia-se, autoflagelava-se com juras de que não era um homem mau. Vinha-lhe a imagem de Eufemística com os dentes no quarador, Eufemística no bar, Eufemística à procura de entrevistas sobre Santana ser o epicentro do lampionismo, Eufemística trazia novidades da amiga Ironia, Eufemística crente de que Bach arrastava uma asa em sua direção, Eufemística frustrada, Eufemística à procura de vingança, Eufemística brava, Eufemística odienta. Bach riscava Eufemística das paredes em seu quarto, lavava o cheiro de Eufemística em seus lençóis.
Exatamente, há uma semana, Bach foi apresentado oficialmente à Ironia pelo amigo comum Eufemismo. E eles conversaram sobre a morte trágica de Eufemística, nas investigações que não avançavam, nos artigos publicados no Diário de Santana, sobre "a beleza e a morte que se encontravam no tema mais poético de Poe", no luto que a cidade rapidamente esqueceu. Neste ponto da conversa, Eufemismo apresentou-lhes um compromisso de improviso, e se foi; deixou Ironia e Bach sozinhos; eles ficaram sem jeito, no começo, falaram sobre a previsão do tempo, o zodíaco, o fim da TV, o fim da história e do rádio, as festas de Santana, a Festa da Juventude, os carnavais passados, as procissões, as enchentes do Panema, os urubus, o sumiço das abelhas. Ironia evitou falar das aranhas. Ambos subiram, desceram as ladeiras na cidade, a conversa descambou, retornou à morte de Eufemística.
– Não sabia que ela foi encontrada nua! comentou Bach.
Ironia demonstrou surpresa com a informação do dono do bar. 
– Juro!
Bach havia pintado o bigode. Cabelo repartido ao meio. Fechou a camisa até o pescoço. Ergueu a calça além do umbigo. Engraxou os sapatos. 
– Considero você um meteoro.
– Como assim! pasmou Ironia.
– Era verdade que, no mês passado, você me mandou um recado por Eufemismo?
– Que recado! riu. Bach perdeu-se no sorriso dela, que era de cinema. 
– Que queria ter uma conversa entre mim e você.
– Nunca!
– Eufemismo me paga.
– Quê!
– Só pensei uma coisa, mas já me arrependi e evitei de autocondenar a alma ao fogo do inferno.
– Ah!
A euforia acelerou o coração de Bach. Eles andaram lentos, e acabaram diante dos cartazes do cinema.
– Quer pipoca? 
– Não! olhou um cartaz. Vamos entrar?
O convite de Ironia fez correr água nos braços de Bach; a sudorese intensa o fez perder a mobilidade dos braços. O coração ganhou uma sombrinha de frevo e ensaiou os primeiros passos em frenética aceleração.
– Tá tremendo por quê? 
Ele não encontrou resposta ao porquê dela. Bach demonstrava estar em pânico; tremeu ao ouvi-la falar como Eufemística foi encontrada morta. Ironia censurou Bach por ter caluniado a memória de Eufemística. Surgiu nele uma expressão estranha e os dedos agarraram com força o vestido dela. 
Ironia demonstrou não ter achado estranho o comportamento inesperado de Bach. Livrou-se dos dedos dele em seu vestido. Voltou ao assunto de antes. Disse-lhe que atuava com treinamentos individuais em Santana, desde que voltou de São Paulo. Ensinava pessoas a recuperar o equilíbrio emocional e ter objetivos. 
– Você era coach ou coaching?
– Digamos que sim! sorriu, e tirou da bolsa um pequeno espelho, verificou os lábios, os seus dedinhos voltaram ao interior da bolsa de couro e dela trouxeram um batom, que foi direto aos lábios, sorriu ao espelho e devolveu o batom e o espelho à pequena bolsa. Ironia fechou os braços sobre o próprio corpo, e riu. 
Em Santana, as noites de julho eram frias.
– Você quer um sorvete de flocos? propôs o dono do bar. Enterrou a mão no bolso e segurou a carteira. Papai foi pai de homens! 
Bach parou. Estava no passado.
– Você tem coração de pão doce, Ironia, ouvi muitas vezes dos vizinhos de sua mãe.
– Você conhece mamãe? Mamãe não lhe conhece.
– Vi só algumas vezes, de longe. 
– Você, agora, ficou a cara de um vizinho nosso.
– Que vizinho! 
– Um que diz: Se papai fosse o meu pai, eu teria o valor da coragem e a dureza de um diamante. 
O dono do bar demonstrou arrependimento das conversas. Foi ao vendedor de sorvete. Temperou a garganta:
– Eu compro balas, se você quiser. Prefere algodão-doce?
Bach escorregou, falou que foi criado temendo o futuro. 
– Como assim! 
– Passei a vida toda atrás do balcão; enfrentei todas as crises econômicas, todas as ameaças de guerras. 
Bach não tirava a cara das cores nos cartazes. Olhou Ironia, disse-lhe:
– E por que deixou São Paulo?
– Láááá..., tudo ou é tudo ou... E nada é obrigado a ser o que é: nada.
– Isso é a cara de São Paulo.
– Muita gente saiu de São Paulo, quando foi noticiada a perseguição doméstica em massa por algoritmos que fizeram de 1984 um conto de fadas.
Bach segurou-se, balançou como se fosse cair.
– Ficou tonto de repente?
– Foi só falta de ar.
– Em São Paulo conheci uma pessoa assim. Mas o medo é natural. Quem nunca experimentou? Basta compreendê-lo! terminou Ironia de falar, e segurou nas mãos geladas do dono do bar. Essa minha amiga de São Paulo morria de medo do desconhecido. Você não queria acabar como terminou a vida de Eufemística, queria? brincou. Bach não aprovou a brincadeira. No caso de minha amiga Eufemística, que era do interior de São Paulo, e, como todo mundo sabe, veio a Santana fazer uma reportagem sobre o fim do cangaço, o medo era causado pela cidade grande, porque de onde ela veio se acreditava em mula sem cabeça. Na escola, o professor tinha medo por causa de predisposição genética ou experiência passada. No jornalismo, o medo era outro. Eufemística queria ser jornalista. 
Ele sorriu. Ela desaprovou o sorriso com certa repugnância. Bach passou a mão no cabelo, conferiu se estava dividido ao meio. Estava. Tranquilizou-se. E correu os dedos nas pontas do bigode.
– Não vamos ao cinema? quis saber Ironia. Foi alguma coisa que eu lhe disse sobre a morte de Eufemística?
As pessoas começam a entrar na sala de cinema. Ironia e Bach ao lado do carrinho de pipoca. Ela com um saco na mão, ele preso aos cartazes.
– Tá passando algum filme em sua cabeça?
Ele não lhe respondeu que um obstáculo o impedia de se aproximar. Calado, Bach fundiu Ironia e personagens desenhadas nos cartazes. Bach queria que o amigo Eufemismo estivesse ali com eles, na frente do cinema; ele era o único, no bar, que lhe mostrava as pontes, que lhe apontava os navios. Bach, feito o cavalo do huno Ática, onde pisava, apodrecia. A família de Bach o acusava de ser um destruidor de pontes, um sujeito cujo passatempo era afundar navios. Bach via nos cartazes espalhados nos corredores do cinema as diferentes vezes nas quais perseguiu as amigas de Ironia à procura de motivos que lhe chamassem a atenção. As motivações do dono do bar eram as mais estúpidas. Mas não a ponto de provocar a morte de Eufemística, não era, não, Bach?
No letreiro luminoso do cinema estava escrito A Vida Só Valia a Pena Ser Vivida se Fosse Composta. O néon mudava as cores como uma árvore natalina.
– Não vai querer sorvete de flocos?
– Ficou louco!
Os dentes do dono do bar tinham um amarelo patriótico.
– É verdade o que Cícero disse sobre o escravo? esperou a resposta dela, que lhe disse:
– Não seja infantil. Eu lhe conto, lá dentro. O filme já vai começar.

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