Desde os primeiros módulos do Curso de Formação em Psicanálise Clínica, tomamos conhecimento de que Sigmund Freud desenvolveu específica teoria sobre a estrutura mental humana. Inicialmente, ele apresentou à comunidade científica da época teoria baseada na "divisibilidade" daquilo que ainda denominamos “indivíduo”.
Nos primeiros quinze anos do século 20, Freud dedicou-se a pesquisas e estudos embasados nos procedimentos até então por ele aplicados nas sessões de atendimento a seus clientes.
Freud acreditou ter identificado determinada estrutura da mente humana, o que ficou conhecido como “primeira tópica freudiana”. Nesse primeiro momento, o pai da psicanálise entendeu que a nossa mente se estruturava sob a disposição de elementos aparentemente circunscritos em determinado espaço mental. São eles: consciente, pré-consciente e inconsciente, sendo este último o “espaço psíquico” mais amplo, enquanto a “área” pré-consciente atuaria como instância intermediária entre o consciente e o inconsciente.
Mais adiante, por volta dos anos 1920 e 1923, Freud reconsiderou a teoria estritamente topográfica, conforme exposto na primeira tópica. Daí, elaborou a segunda tópica, que bem poderia ser denominada “Em nome do Pai, do Filho e do Superego”, visto que esse novo modelo topográfico freudiano se assemelha a uma trindade psíquica equivalente ao que se verifica em conformidade com o dogma cristão que apregoa a crença em três pessoas divinas. Aqui, estaríamos tratando da Santíssima Trindade Psicanalítica: Pai (Ego), Filho (Id) e Espírito Santo (Superego).
Transferência somática e vínculo terapêutico
Para a condução do processo psicoterápico, há necessidade do estabelecimento de um vínculo paciente/terapeuta, de forma que se estabeleça um clima de intimidade entre ambos. Certamente, essa intimidade diz respeito a um tratamento pautado em mútua confiança e recíproco respeito entre os elementos que formam o par analítico.Transferência somática e vínculo terapêutico são procedimentos que expressam conceitos fundamentais para melhor compreender e harmonizar o trabalho no setting analítico.
A transferência somática refere-se àquilo que acontece quando, em determinado momento, o analisando, diante do terapeuta, manifesta por este alguns sentimentos e emoções que se expressam por meio de sensações físicas, como, por exemplo, arritmia cardíaca, súbito rubor facial e até mesmo gagueira, como se estivesse submetido a circunstância estressante.
O vínculo terapêutico exerce uma função essencial para o êxito do tratamento. Tal relação refere-se a específico relacionamento, em que o paciente, desvendando-se, pode se abrir para aquilo que desconhece existir em si próprio e, dessa forma, conceder a si mesmo a oportunidade de experimentar o estranho, o insólito, mesmo que lhe pareça excêntrico, desconsiderando limites que nunca foram estabelecidos por você mesmo, mas entendendo que não se trata de um vale-tudo, pois não vale continuar repetindo os mesmos erros, numa inútil tentativa de acertar. Ou seja, conforme Albert Einstein, "Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes".
A Psicanálise dispõe de diversos meios e técnicas que se exprimem por palavras, sensações, gestos, imagens, entre outros meios, cada qual aplicado de maneira específica, apropriada para o atendimento de cada caso. Portanto, reconhecendo que é possível que não exista, em todo o nosso Planeta Terra, duas pessoas exatamente iguais (quando nos referirmos aos aspectos psicológicos, as nuances devem ser infinitas), assim sendo, o emprego de métodos diferentes sobre pacientes que apresentam os mesmos transtornos mentais, deve considerar, entre outros, o estado emocional do paciente, seus problemas familiares e sociais, além da específica dimensão do distintivo afeto do qual ele está acometido.
É provável (acredito) que os transtornos mentais que ocorrem com maior frequência por entre a população brasileira estejam identificados com depressão, demência, deficiência cognitiva induzida e bipolaridade (transtorno afetivo bipolar).
Sujeito Suposto Saber e Efeito Orloff
Entendo que, em caso de transferência e vínculo, a figura paterna idealizada pelo analisando pode não ser exatamente a reprodução daquilo que é (ou foi) seu pai biológico ou qualquer outra "paternidade" especificamente identificada.Acredito que o cliente pode estabelecer o vínculo por meio da projeção de “uma representação paternal” sobre a pessoa do analista, ou seja, enxerga no terapeuta traços físicos, posturas, talvez até mesmo o estilo de se vestir, tudo evocando apenas “uma forma paternal de ser”, inclusive, ser autoritário, como ocorre com muitos pais. Nesse sentido, o indivíduo idealizado pelo analisando não precisa ser propriamente o seu genitor ou qualquer outro personagem real que ele conheça. Certamente, em sua visão e consequente analogia, no seu esforço para comparar e até mesmo equiparar o analista a um pai, podem estar implícitos traços do seu próprio pai (caso o cliente o tenha conhecido e convivido com ele) ou com a sua própria maneira de ser pai, caso o seja.
O que pode despertar tanto a atenção do cliente pelo seu terapeuta a ponto de ele almejar se tornar como este? Por certo, estando o cliente movido pela ideia de que o seu terapeuta é a personificação da genialidade humana, o elemento que tem poder de transformar sua vida, fazendo desaparecer os transtornos psíquicos dos quais ele é acometido com frequência, enfim, seu terapeuta é para si aquilo que em psicanálise denomina-se “Sujeito Suposto Saber”.
É provável que alguns pacientes observem o seu terapeuta como se estivessem mirando-se no espelho e vendo ali refletida a imagem do próprio analista lhe dizendo: “Eu sou você amanhã”. Dessa forma, identificando-se com o terapeuta como sendo o seu “sonho de consumo”, o modelo de alguém que faz o outro se sentir mais seguro, elevando a sua autoestima, afastando de si os medos infundados e, de certa forma, encorajando-o para o enfrentamento aos desafios concretos.
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Fernando Soares Campos é psicanalista e escritor, autor de “Adeildo Nepomuceno Marques – Um carismático líder sertanejo”, em parceria com o seu irmão Sérgio Soares de Campos. Fernando também assina três outros livros de autoria solo: “Deus e o Universo Holográfico” é o mais recente, publicado pela editora SWA, Santana do Ipanema-AL.
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