AFRO DESCENDENTE – PIAUÍ

Crônicas

José Peixoto Noya

Há algum tempo, pouquíssimo tempo, início da década de 60, morávamos Eu, meu irmão Nestor, Zequinha de Caiçara, Luiz Cirilo (sobrinho do Padre Cirilo), Mareval (filho de Limeira de Ouro Branco), e posteriormente veio abrilhantar esta plêiade de hóspedes na pensão do Sr. José, localizada na esquina da Moreira Lima com a Rua João Pessoa (antiga Rua do Sol), o afro descendente, Piauí. Eu gostaria mesmo era de dizer o original: Nêgo Piauí, mas se o fizer, pode dar uma bela de uma “cana”, sendo assim fico com o primeiro, mesmo a contra gosto. É de bom alvitre informar que todos nós ficávamos em um só quarto, era espaçoso. Pois bem, Piauí era bastante alto, conversador, bom papo, mesmo porque o distinto era camelô. Vendia de tudo, e não era do Paraguai como hoje, me lembro bem de quando apareceram umas escovas de pentear cabelos, de forma arredondada, com uma argola em cima para que se pudesse colocar o dedo, e mandar ver, no bom sentido; era só para homens, não precisava ser homem com “H” maiúsculo. Este produto era o seu carro chefe, vendia às dúzias num só dia, e quando ele chegava para o descanso natural, vinha com os dentes arreganhados contando tudo que era de vantagem: hoje eu empurrei mais de uma dúzia de escovinhas naqueles otários, e olhe que não era do Paraguai como citei anteriormente, calcule se fosse hoje!

O tempo passou e o Piauí só chegava com os dentes de “fora”. Com o passar dos dias eis que o dito cujo começou a chegar ao nosso apartamento com a cara fechada, e com um mau humor de fazer gosto. Todo mundo estranhou, mas ninguém quis entrar em detalhes, respeitando a sua posição. Foram mais ou menos umas três semanas nesta situação “surumbática”, sem dá uma só palavra, ficando triste e cabisbaixo.

Antes do desfecho desta história, vamos apresentar alguns detalhes da pensão em que morávamos: Era um prédio velho, com primeiro andar, sendo que o piso de cima era de madeira, construção típica dos tempos idos. Na escada que dava acesso ao primeiro andar tinha um escrito, feito por moradores mais antigos, e vítimas, que era uma obra de arte: “Adeus pensão da fome, nunca mais eu venho em tu, criei ferrugem nos dentes, e teia de aranha no cu”, bonito não? Dos ocupantes do apartamento, o único que chegava mais cedo para dormir era o Luiz. Nestor, eu, Mareval, e principalmente Zequinha que praticamente só chegava quando o sol ia raiando, encontrávamos o Piauí muito pouco, pois também chegávamos tarde. Passados alguns dias o caboclo sumiu, mas deveria ter feito alguma viagem para compra dos materiais necessários para exercer sua profissão, e enganar mais otários, inclusive eu que comprei uma daquelas escovinhas, pois deixara sua mala. O proprietário era o tipo do “Seu” Nônô Correia, aquele personagem da Rede Globo, pão duro que fazia gosto. Ele notou a ausência do camelô e passou a nos perguntar se sabíamos aonde ele tinha ido, respondíamos sempre negativamente, ele balançava com a cabeça como se não acreditasse, pegava na mala, e a mesma estava pesada, uma prova de que o proprietário da dita cuja voltaria. Voltar o que? Quando completou o mês do pagamento, que era a única coisa pior do que a comida daquela pensão, o “Vassalo”, era assim que Mareval o chamava, não teve mais paciência, deu de mão a um alicate e “arrombou” a fechadura da mala do Piauí, espanto! O cidadão ficou amarelo, trêmulo, sentou-se em uma das camas, não tinha cadeiras, e exclamou: Meu Deus! Fomos verificar o que havia dentro da mala e tomamos um susto, passados alguns segundos tivemos uma crise de risos – interna é claro – senão iríamos para a rua. Adivinha o que tinha dentro? Nenhuma pista? Pois vai lá: quatro pregos, cada um enfincado nos quatro cantos da maleta até o piso de madeira, por isto pesava tanto, e o “Vassalo” engoliu por causa do peso.

Piauí enganou, não só ao proprietário, mas a todos nós. Pode ser até que ele tenha voltado, mas ainda moramos por pelo menos uns três anos, e nem sombra do Afro descendente. Pense num “xêxo”!...

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