Há algum tempo, pouquíssimo tempo, início da década de 60, morávamos Eu, meu irmão Nestor, Zequinha de Caiçara, Luiz Cirilo (sobrinho do Padre Cirilo), Mareval (filho de Limeira de Ouro Branco), e posteriormente veio abrilhantar esta plêiade de hóspedes na pensão do Sr. José, localizada na esquina da Moreira Lima com a Rua João Pessoa (antiga Rua do Sol), o afro descendente, Piauí. Eu gostaria mesmo era de dizer o original: Nêgo Piauí, mas se o fizer, pode dar uma bela de uma “cana”, sendo assim fico com o primeiro, mesmo a contra gosto. É de bom alvitre informar que todos nós ficávamos em um só quarto, era espaçoso. Pois bem, Piauí era bastante alto, conversador, bom papo, mesmo porque o distinto era camelô. Vendia de tudo, e não era do Paraguai como hoje, me lembro bem de quando apareceram umas escovas de pentear cabelos, de forma arredondada, com uma argola em cima para que se pudesse colocar o dedo, e mandar ver, no bom sentido; era só para homens, não precisava ser homem com “H” maiúsculo. Este produto era o seu carro chefe, vendia às dúzias num só dia, e quando ele chegava para o descanso natural, vinha com os dentes arreganhados contando tudo que era de vantagem: hoje eu empurrei mais de uma dúzia de escovinhas naqueles otários, e olhe que não era do Paraguai como citei anteriormente, calcule se fosse hoje!
O tempo passou e o Piauí só chegava com os dentes de “fora”. Com o passar dos dias eis que o dito cujo começou a chegar ao nosso apartamento com a cara fechada, e com um mau humor de fazer gosto. Todo mundo estranhou, mas ninguém quis entrar em detalhes, respeitando a sua posição. Foram mais ou menos umas três semanas nesta situação “surumbática”, sem dá uma só palavra, ficando triste e cabisbaixo.
Antes do desfecho desta história, vamos apresentar alguns detalhes da pensão em que morávamos: Era um prédio velho, com primeiro andar, sendo que o piso de cima era de madeira, construção típica dos tempos idos. Na escada que dava acesso ao primeiro andar tinha um escrito, feito por moradores mais antigos, e vítimas, que era uma obra de arte: “Adeus pensão da fome, nunca mais eu venho em tu, criei ferrugem nos dentes, e teia de aranha no cu”, bonito não? Dos ocupantes do apartamento, o único que chegava mais cedo para dormir era o Luiz. Nestor, eu, Mareval, e principalmente Zequinha que praticamente só chegava quando o sol ia raiando, encontrávamos o Piauí muito pouco, pois também chegávamos tarde. Passados alguns dias o caboclo sumiu, mas deveria ter feito alguma viagem para compra dos materiais necessários para exercer sua profissão, e enganar mais otários, inclusive eu que comprei uma daquelas escovinhas, pois deixara sua mala. O proprietário era o tipo do “Seu” Nônô Correia, aquele personagem da Rede Globo, pão duro que fazia gosto. Ele notou a ausência do camelô e passou a nos perguntar se sabíamos aonde ele tinha ido, respondíamos sempre negativamente, ele balançava com a cabeça como se não acreditasse, pegava na mala, e a mesma estava pesada, uma prova de que o proprietário da dita cuja voltaria. Voltar o que? Quando completou o mês do pagamento, que era a única coisa pior do que a comida daquela pensão, o “Vassalo”, era assim que Mareval o chamava, não teve mais paciência, deu de mão a um alicate e “arrombou” a fechadura da mala do Piauí, espanto! O cidadão ficou amarelo, trêmulo, sentou-se em uma das camas, não tinha cadeiras, e exclamou: Meu Deus! Fomos verificar o que havia dentro da mala e tomamos um susto, passados alguns segundos tivemos uma crise de risos – interna é claro – senão iríamos para a rua. Adivinha o que tinha dentro? Nenhuma pista? Pois vai lá: quatro pregos, cada um enfincado nos quatro cantos da maleta até o piso de madeira, por isto pesava tanto, e o “Vassalo” engoliu por causa do peso.
Piauí enganou, não só ao proprietário, mas a todos nós. Pode ser até que ele tenha voltado, mas ainda moramos por pelo menos uns três anos, e nem sombra do Afro descendente. Pense num “xêxo”!...
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