UM URUBU FEZ COCÔ NA MINHA CABEÇA

Crônicas

José Peixoto Noya

Quase todos os sábados e, às vezes, nos domingos, me sento numa pracinha que fiz em minha residência. A praça tem a “enorme” quantidade de quatro bancos, com os nomes das minhas filhas, o meu e o da minha mulher. Ali me deixo ficar “modulando” umas friinhas ou um “Cuba Libre” caprichado, feito por mim mesmo com muita eficiência, diga-se de passagem, já que são quase cinquenta anos nesta vidinha difícil.
Ligo o som, que já tocou tantas músicas de Zezo que não precisa mais nem de CD: já sabe todas de cor. Ali também é um posto de observação onde fico apreciando aviões, que são muitos os que cruzam nossos céus, tanto durante o dia quanto à noite. Depois do anoitecer, principalmente quando temos Lua Cheia, tenho uma velha mania, talvez estimulada pelo efeito do álcool: quando sobrevoa algum eu sempre digo aos pilotos – não me ouvem é claro:
– Que Deus os acompanhe! Levem todos seus passageiros aos seus destinos sem problemas! Não passa um a quem eu não deseje os mesmos votos.
Paralelo a isto, a partir das dezesseis horas, por aí assim, começam a transitar em nosso céu bandos de urubus em busca de um abrigo antes que a noite apareça. Não sei se vocês já notaram, mas eles voam com uma elegância tremenda. Batem asas para alçar vôo e depois ficam planando acompanhando a direção dos ventos. Muita gente não os acha tão feios assim, mas creio que estas pessoas não teem espelho em casa, por isto levantam este falso!...
Estava eu, há alguns meses, entregue a essas profundas e científicas observações. Entre uma aeronave e outra eu me ligava no voo dessas aves tão queridas, especialmente para mim, velho e fanático flamenguista. Voo suave com muita elegância em suas indas e vindas. Baixei a vista por alguns segundos, adivinhe para que? Isto mesmo! Adivinhou! Fui dar mais uma bicada no copo, para acordar o pirata e seu inseparável papagaio no ombro.
Ouvi uma leve pancada em minha cabeça. Não estava chovendo nem eu havia ligado o chuveirão. Passei a mão nos restinhos de cabelos e senti alguma coisa meio pegajosa. Quando tirei a mão, verifiquei que tinha uma pasta branca, feito desodorante pastoso, só que não tinha o mesmo odor. Não ousei cheirar para tirar alguma dúvida. Aquilo que eu estava vendo era mesmo o que estava pensando? Era sim! O filho da mãe fez CÔCÔ em minha cabeça! Como não consegui localizar qual foi o infeliz que fez aquilo, xinguei a mãe de todos eles como vingança.
Não deixei nem vou deixar, é claro, de praticar o meu esporte preferido apenas por causa de um detalhezinho de nada. Mas, fico sempre de orelha em pé, aliás de olho pra cima esperando reconhecer o espertinho que tirou onda com minha cara, para dizer da minha decepção, pois eu era um admirador daquela classe voadora; mas são todos parecidos, dancei! Talvez eu venha a recorrer a um guarda-chuva.
Fiquem espertos, pois você poderá ser o próximo a ganhar uma CÔCÔZADA em plena cabeça. Até breve, e boa sorte!...

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