O VELHO MANDACARU

Crônicas

Remi Bastos

Muitos santanenses que viveram a sua juventude nos anos 60 e 70 do século passado em Santana do Ipanema, certamente que não dispensaram a oportunidade e o desejo de realizar visitas íntimas ao cabaré de Olegário e Guiomar, o Velho Mandacaru, situado nas adjacências da Lagoa do Junco nas terras do saudoso Dr. Aderval Tenório. Ainda hoje quando passo por ali estendo o olhar saudosista para aqueles quartinhos emparedados e contíguos, atualmente despidos de sua originalidade, e lembro o seu interior na arquitetura primitiva: a entrada se fazia por uma porta estreita feita de imburana de cheiro , espécie botânica muito comum no sertão nordestino; no centro do cubículo uma cama de casal adormecida sob um colchão de capim envolvido por um lençol feito com retalhos de tecidos que refletia no ambiente um colorido encardido comum também ao travesseiro; ao lado junto a parede dois litros com água do Riacho do Bode e um tamborete de mulungu que equilibrava uma bacia de plástico e um sabonete Dorly com alguns fios de cabelo, e no alto um rolo de papel higiênico sem marca era sustentado por um cordão preso a um prego; ainda na parede lateral, à direita, uma pequena janela com vista para a Serra da Camonga e a estrada ainda de barro que dava acesso ao Povoado Areias e a cidade de Dois Riachos completavam o cenário...

Aquele quartinho o primeiro próximo ao bar onde Olegário e Guiomar davam os seus expedientes, guardam um grande segredo que certamente faz parte da história do cabeçalho da minha juventude. Foi ali nos meus dezessete anos que tive a primeira experiência sexual. A privilegiada foi uma morena ou cabocla de Águas Belas, interior de Pernambuco, de mesma idade que a minha. Era uma deusa de mulher, rosto lindo, cintura fina, perna torneada e seios mordíveis, só perdia mesmo em altura, mais ou menos um metro e sessenta e três centímetros. Aconteceu que no dia anterior eu estive no Mandacaru em companhia de Nego Ângelo que pilotava o jipe de Neco da Maravilha meu ex-professor de matemática no Ginásio Santana. Foi lá que conheci a “funiô” que por sinal havia se deitado com o Nego Ângelo à boquinha da noite por Trezentos Cruzeiros, moeda da época. No dia seguinte pedi essa mesma quantia ao meu velho pai e por volta das dezoito horas eu parti correndo com destino ao Mandacaru, tirei num fôlego só. Logo cheguei ao local soltando fumaça pelo nariz, fui direto falar com Guiomar que ao ver-me naquele estado de cansaço e bufando pelo nariz, pensou que tratasse de um acidente ---- “O que houve meu filho, o que aconteceu”? Nada, cadê aquela índia de Águas Belas? E logo apontou para o quarto número um, o primeiro do conjunto. Mal-intencionado, bati a porta e uma voz com sotaque nativo indagou: quem é? Sou eu, vim dá uma. Imediatamente abriu a porta, entrei e fiz o meu lance, Trezentos Cruzeiros. Para minha tristeza a cabocla falou, hoje só vou por Trezentos e Cinquenta. Após muita insistência a minha proposta foi aceita e consumida em fração de minutos. Somente depois de efetuar o pagamento e realizar o ritual da higiene pós-coito, partir para casa com a mesma velocidade da vinda. E durante o percurso de volta a lua curiosa surgia por trás da Serra da Camonga iluminando a estrada num cenário poético, enquanto as estrelas piscavam executando uma ode àquele inesquecível dia. Os anos passaram e o Mandacaru aos pouco foi ruindo com o tempo restando com ele apenas a lembrança de Guiomar e Olegário que viveram seus últimos dias num cabaré diversificado entre a orgia e o sexo. Outro mandacaru não surgirá jamais, assim como não se viverá uma terna juventude onde os prazeres da vida nasciam com o despertar do desejo.

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