O Bloco do Urso famoso pela sua tradição nos carnavais de Santana do Ipanema foi uma agremiação que, pela forma como se apresentava ao público conseguia extrair sorrisos dos foliões e espectadores. Com a sua marchinha própria cantada incansavelmente conseguia levar a alegria a todos que o viam passar. O que caracterizava o bloco era uma pessoa ou voluntário em traje de urso tendo uma corda amarrada à cintura onde um domador biriteiro o conduzia pelas ruas da cidade visitando diversas residências que o recepcionava com bebidas e tira-gosto durante o tríduo momesco; alguns instrumentistas sequenciados por um violão, um cavaquinho, uma sanfona do tipo pé-de-bode, um pandeiro e um bombo todos num entrosamento incontestável, além de dez ou mais componentes . Os anos foram passando e com eles a idade de alguns foliões que já não possuíam energia para alimentar os prazeres do bloco, levando a uma alteração dos seus componentes. Lembro-me que certa vez, possivelmente no carnaval de 1962 quando um cidadão por nome de Zé Nogueira, conhecido na cidade pelas constantes entradas na “Cadeia Velha” face a profissão de larápio que exercia, se apresentou como um postulante ao cargo de urso do bloco. Coincidentemente neste ano o domador foi um funcionário do DNER conhecido por Tacinho que por sinal havia desempenhado o papel de urso em alguns carnavais passados ainda na gestão de Seu Carola um velho e conceituado farmacêutico que existiu em Santana tempos atrás. Acontece que nesse ano Seu Carola foi o domador do urso Tacinho que após longas horas de bebidas e diversas iguarias foi acometido de uma forte dor de barriga, daquelas que prenunciam a famosa caganeira sem direito a flatulência. Não deu outra, Tacinho já sentindo o gosto de “bosta” na boca dizia com a voz trêmula para o seu domador, ------ “Seu Carola urso que cagar e Seu Carola no ritmo de gozação respondia, urso não casa, sai prá lá urso”. Esse apelo se repetiu por quatro ou cinco vezes quando o urso foi obrigado a fazer as suas necessidades ali mesmo.
No domingo de carnaval o Bloco do Urso ganhou as ruas da cidade cantando sua marchinha que dizia mais ou menos assim:
“Como foi e como é, o Urso Preto veio na barca de Noé (Bis).
Todo mundo já dizia que este urso não saia,
Este urso anda na rua com prazer e alegria.
Mas como foi, e como é o Urso Preto veio na barca de Noé.” (Bis)
Acontece, porém, que entre uma casa e outra dominava a bebida principalmente a cachaça de montão, o domador Tavinho já puxando um fogo violento era conduzido pelo urso que cada vez mais se mostrava encorpado. Lá para as tantas o urso levou um tombo que arrastou o seu domador ao chão. Ambos caídos e em estado de sonolência, quando alguns dos presentes observaram no interior da roupa do urso uma grande quantidade de copos, facas, pratos e até saca-rolha. Tudo isso o Zé Nogueira havia arrecadado nas casas onde o bloco entrou sem que fosse notado.
Anos depois, precisamente em 1967, segundo dia de carnaval, quando o Bloco Pau D’arco não conseguiu reunir os seus “elementos” em razão do excesso de bebidas no dia anterior, os remanescentes, eu (Remi), Nego Basto, Paulo Ventão, Motorzinho, Sílvio de Jandira e Benedito Cego resolveram se filiar ao Bloco do Urso que no momento estava concentrado na Movelaria Brasília cujo proprietário era o Valter de Marinheiro, vizinho ao Bar da Pitu de Mário Pacífico onde estava se preparando para sair as ruas. Chegamos à sede provisória do bloco por volta das dez e meia na qual fomos bem recebidos pelo Valter. Cachaça comendo no centro, tira-gostos diversos ao estilo de Valter de Marinheiro, tais como, talhadas de melancia, torreiro (torresmo), jaca, imbu, limão e uma jarra de leite. Apenas seis entusiastas do Bloco do Urso se deliciavam com duas garrafas da famosa Pitu. Entramos no clima, uma dose entre tantas quando de repente observei o sanfoneiro sentado no chão com a concertina no colo ao recanto da parede entre duas camas. Nesse momento falei para o Valter, hoje o bloco não vai sair porque o sanfoneiro está arriado. Foi quando o comandante Valter de Marinheiro pediu-me que fosse até a Drogaria dos Pobres de Genival Tenório pegar com o mesmo dez envelopes de sonrisal. Foi rápido, trouxe o medicamento entreguei ao Valter que prontamente os colocou em uma lata de um litro contendo a metade com água. A fervura logo dissolveu o produto. Valter me pediu ajuda, segurei o sanfoneiro pelos braços suspendendo-o enquanto o parceiro despejava todo liquido efervescente na boca do suplicante. Pronto, missão até ali comprida, quando em fração de minutos o puxador de fole deu três arrotos consecutivos pondo-se em pé. Foi quando eu falei para o Valter, “ele pode não tocar, mas já conseguimos deixá-lo em pé”.
Agora era a vez de tentar um voluntário para vestir a roupa do urso. Só depois de várias tentativas, conseguimos um, quem? Motorzinho. Mas, um problema logo surgiu, a roupa era muito grande para ele. Como solução imediata foi vestir a roupa ursídea em Motorzinho tendo o cuidado de dobrar e amarrar as mangas e as pernas da “beca ursulina”. Tudo resolvido iniciamos pela Rua do Sebo rumo às casas mais anfitriãs cantando a marchinha que até hoje soa em meus ouvidos:
“Como foi e como é, o Urso Preto veio na Barca de Noé (Bis).
Todo mundo já dizia que este urso não saia,
Este urso anda na rua com prazer e alegria.
Mas como foi, e como é o Urso Preto veio na Barca de Noé.” (Bis)
Aracaju/SE, 02/03/2011
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