GUERRA E PAZ

Crônicas

João Neto Félix Mendes

Subi as montanhas alagoanas para cumprir a missão designada. Lembrei do ideal libertário que corre em nossas veias, herdado de Zumbi dos Palmares e tantos outros guerreiros anônimos. Ali, naquelas montanhas, há refúgio para homens e almas. No cume da reserva biológica da Pedra Talhada, estamos mais perto do céu, no ponto mais alto das terras Alagoanas, berço natal de Graciliano Ramos. O verde intenso dos montes e o azul do céu aos poucos se misturam. O Rio Paraíba do Meio percorre todo o vale, vagarosamente, contornando obstáculos até se entregar ao mar.
O que nos espera em cada dia? Quem poderá dizer? Aquela manhã parecia igual a tantas outras. Aguardava-me intenso dia de trabalho e as preocupações da lida diária. O Banco do Brasil fora minha escola desde menino. Assim, não houve outro caminho senão o do crescer. Ainda continuo aprendendo. Como tatuagem os valores humanos e profissionais são marcas indeléveis. De alma bancária sigo o itinerário.

De tanto ouvir histórias e situações dramáticas ocorridas em assaltos em bancos por aí afora, procurei me preparar, por assim dizer, para que se algum dia acontecesse comigo eu soubesse pelo menos não ser acometido pelo desespero. Foi tudo o que pedi a Deus. Mesmo na minha pequenez, fui atendido em dobro.
Naquele dia de verão intenso, após quarenta minutos de tiroteio dentro e fora do banco, saímos como reféns numa situação desesperadora de fogo cruzado. Eu, consciente que de minhas ações dependia a minha vida, dos colegas de trabalho e clientes, mantive-me forte, apesar do medo, num monólogo que demorou uma eternidade e que me revelaria que a vida, nada obstante bela e grandiosa, não é mais que um instante de sopro divino personificado numa gota fugaz de porção existencial.

Percorremos os montes quebrangulenses que se apresentavam, agora a contragosto, carregando os tinos e desatinos. “Só resisti porque nasci num pé serra e quem vem da minha terra resistência é profissão.” (Accioly Neto) Caminhamos tanto pra lugar nenhum que passei a duvidar se chegaríamos a algum lugar. Aquela árvore que eu via ao longe na serra e que desejava vê-la de perto, agora era real; “vede o pé de ipê: apenas flora, revolucionariamente apenso ao pé da serra.” (Belchior)

Caminhada, silêncio e sede. Ávido por água e vida. Fechei as portas da exterioridade. Entardeceu. Desejei que o dia se entregasse a noite para eu esconder o assombro. Queria a beleza da noite, seu esconderijo casual e seus mistérios. Trituro a sombra e a escuridão com lampejos de prata nascente tornando tudo mais límpido; a terra, incontáveis estrelas, constelações e o espaço sideral imenso, que a despeito de tudo e mesmo que a gente não perceba, seguem rumo ao equilíbrio.

Lembrei da família, dos amigos e da harmonia do universo. Tudo estava infinitamente claro, apesar da escuridão. Atestei minha ignorância e limitação. Reafirmei, no diálogo silencioso comigo mesmo que fiz o melhor que pude. Aquilo que deixei de fazer, não foi por falta de vontade, mas por não saber de outro jeito.
Eis que passou uma estrela cadente. Fiz rapidamente meu único pedido: que o dia terminasse bem, mas que se aquele fosse o último, que meus gestos fossem em favor dos meus companheiros de agonia. Reafirmei todos os meus princípios, revigorei minhas crenças. Estava pronto para o epílogo.

Enfim, de tanto caminhar sem rumo por quilômetros noite adentro, chegamos ao vilarejo São José, na Serra da Mandioca. Encontramos água, gente amedrontada e recolhida. Todos nos olhavam, mas não víamos ninguém. A vida foi se rejuvenescendo aos poucos. “Você não sabe o quanto caminhei pra chegar até aqui. Percorri milhas e milhas antes de dormir e não cochilei. Os mais belos montes escalei, nas noites escuras de frio, chorei, sonhei...”( Toni Garrido) Mais um dia de trabalho se vai. Terminei o dia, com fome, sede, cansaço e esperança de dias melhores. Quando o resgate chegou, saímos do esconderijo incidental e nem percebemos que ali era uma pocilga desativada. Desfalecido, evoquei o canto dos guerreiros que voltam pra casa: “Clareia manhã, o sol vai esconder a clara estrela ardente, pérola do céu refletindo seus olhos...” (Flávio Venturini)

Um provérbio popular afirma que dentro de nós há dois cães bravos em permanente luta: um de paz e outro de guerra. Vencerá aquele que eu alimentar mais...

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