O TRABALHO NÃO ME TIROU A INFÂNCIA, DEU-ME RUMO

Pe. José Neto de França

Uma cena criada por IA, a partir de uma foto minha quando eu tinha por volta dos 9 anos, despertou lembranças profundas da minha infância.

Desde muito cedo, por volta dos 8 anos, comecei a trabalhar. Em Santana do Ipanema, carrocei na feira-livre, engraxei sapatos, vendi picolé, cocadas e frutas de porta em porta. Aos 11 anos, trabalhei em um bar e, dos 14 aos 16, na Casa O Ferrageiro. Mais tarde, em São Paulo, fui balconista de padaria e funcionário do Banco Econômico. Depois disso, tornei-me professor, padre, escritor e nutricionista integrativo.

Mas hoje quero falar do trabalho na infância.

Nunca fui obrigado por meus pais a trabalhar. Pelo contrário: sempre tive liberdade para escolher. Optei pelo trabalho ainda menino porque desejava ter meus próprios “trocadinhos”, de forma honesta. Vindo de uma família pobre, eu sabia que não podia exigir nada deles.

Com o que ganhava, comprava material escolar, às vezes um lanche na escola (quando sobrava), ia ao matinê de domingo no cinema, comprava uma roupa simples nas bancas da feira — sempre a prestação — e, semanas antes do São João, começava a juntar dinheiro para os fogos de artifício.

Pensava também na minha família. Mesmo sem nunca terem pedido ou exigido nada, sentia alegria em ajudar, quando podia, na compra de algo comum para todos.

Guardo com carinho uma lembrança especial: ainda carroçando na feira, passei em frente à Casa O Ferrageiro e vi, na vitrine, um conjunto de cálices simples. Para mim, eram lindos. Pensei em presentear minha mãe. O preço do conjunto estava além das minhas possibilidades, mas descobri que poderiam ser comprados individualmente. Cada cálice custava quase tudo o que eu ganhava em um dia de trabalho. Fiz uma promessa a mim mesmo: compraria um por um até completar uma dúzia, nem que gastasse tudo o que ganhasse.

Comecei no sábado seguinte. E, por graça de Deus, nas 12 semanas seguintes consegui ganhar um pouco mais. A alegria da minha mãe ao receber o primeiro cálice — e depois cada um dos outros — foi algo que jamais esquecerei.

E aqui faço questão de dizer algo importante: que me desculpe o Conselho Tutelar dos tempos atuais (naquela época nem existia), mas o trabalho nunca me impediu de brincar, ler, rezar e estudar. Nunca fui reprovado. Sempre passei por mérito. Até hoje, não sei o que é reprovação — seja na escola, em concursos ou vestibulares.

O grande problema dos nossos dias não é simplesmente a criança trabalhar ou não. O problema está em um sistema e, muitas vezes, em famílias que não incentivam responsabilidade, esforço e estudo. Vivemos uma realidade de aprovações automáticas, que empurram adiante verdadeiros analfabetos funcionais — pessoas que “passaram de ano”, mas não foram realmente formadas.

E isso, para mim, é um dos maiores absurdos do nosso tempo.

Pe. José Neto de França
Sacerdote, Nutricionista Integrativo e Escritor.

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