Blogs: Mumbaça: onde a fé encontra a memória

Literatura

João Neto Félix Mendes - www.apensocomgrifo.com

Santuário de Bom Jesus do Pobres, Mumbaça, Traipu AL

Há lugares que não moram no mapa, mas na memória. Mumbaça, povoado de Traipu, é um desses cantos que parecem sussurrar histórias antigas ao ouvido de quem se atreve a escutá-las. Desejei visitá-la por muito tempo como quem busca um pedaço guardado de si mesmo. O arruado quilombola secular recebeu o nome de árvore nativa que havia no lugar, segundo a tradição oral.

A estrada de terra que levou até lá não tem placas nem promessas. Depois de percorrer vinte quilômetros de asfalto, anda-se mais vinte quilômetros de estrada de terra batida, poeira, encruzilhadas e dúvidas. Mas também de lembranças. Enquanto o carro avançava, eu tentava imaginar o trajeto que meu pai fazia nos anos 1970, quando era contratado pela prefeitura para iluminar e animar os festejos do padroeiro. Leuzinger da Rocha Mendes(1918-1985) — ou Liô, como era conhecido — enfrentava o caminho com coragem, mesmo sendo deficiente visual. Para ele, desafio era sinônimo de vida.

A festa do Bom Jesus dos Pobres, que acontece entre 23 de janeiro e 2 de fevereiro é mais que tradição: é fé que pulsa. Romeiros chegam em caravanas, agradecem, exaltam e deixam ex-votos como provas de milagres vividos. Um dos salões da igreja parece um relicário de esperanças. Segundo o historiador Tobias Medeiros, tudo começou com o padre Francisco Correia, que esculpiu a imagem do padroeiro e orientou a construção do santuário no século XVIII.

Naquela época, meu pai levava um grupo gerador a diesel, gambiarras, amplificador, alto-falantes e toca-discos. No seu jipe Willys de quatro portas, apelidado de Bernardão, guiado por Dema de Zé Sabão, na companhia do eletricista Zé Izidoro, vencia as longínquas estradas sertão afora. Era uma equipe pequena, mas movida por um propósito maior: fazer a fé ecoar.

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