CHUVA DE IMPROPÉRIOS

Contos

Marcello Ricardo Almeida

O azedo de restos de comida recebeu a tia logo na entrada. Ao chegar à cozinha, incômodo zumbido surgiu das panelas abertas na pia e se transformou em pequenas nuvens quando ela se aproximou.
O mormaço que sufocava deu lugar ao estrondo:
– ONDE SE METEU A PESTE DA BAGATELA! o vidro das janelas trincou dentro dos ouvidos da menina, raios rasgaram a velha casa, e fez espelhos quebrarem, como se abrissem portais ao abismo.
Ela encontrou a sobrinha encolhida no canto mais escuro do quarto, onde, com toda a sua força, abraçava a boneca de pano. Antes que Bagatela pudesse respirar, a tia avançou com o cabo de vassoura erguido, o rosto vermelho e a veia do pescoço saltada, pronta para descarregar toda a fúria do mundo.
Quando a luz explodiu, as sombras não se projetaram para longe; elas se curvam para dentro, como se buscassem abrigo.
O sol da tarde batia nas panelas destampadas, onde um tapete vivo de moscas varejeiras zumbia e se debatia contra os utensílios de cerâmica.
– BAGATELA! o grito da tia ricocheteou nos azulejos da cozinha, fazendo a poeira dançar nos feixes de luz.
No fundo do corredor escuro, a menina encolheu-se contra a parede, apertava a boneca de pano contra as costelas. O som rítmico e seco batia – plot, plot, plot, plot twist! – e denunciava a aproximação das ameaças que preenchiam a casa, a rua, a praça, o mundo.
A sombra da mulher projetou-se, agigantada. O cabo de vassoura projetou-se em riste, cortava o ar. Bagatela fechou-se antes do primeiro estalo.
Brilhos de relâmpagos silenciosos criavam imagens tridimensionais. O dia converteu-se em noite de cortar a facão. E o estridente solo de guitarra provocou preces na boca dos vizinhos da tia de Bagatela.
O chão tremia. Trovões comeram serrotes, avançaram sobre as roças, arrebentaram os arames farpados, rugiram as feras.
O som que se seguia não vinha aos ouvidos, mas ecoava diretamente ao córtex aquela voz sem palavras.
A tempestade rugia ininterruptamente. Trovões ensurdecedores e relâmpagos intensos que sacudiam a Vila de São Gabriel.
A pouca roupa, que costumavam colar ao corpo pelo suor das mudanças climáticas, desta vez pesavam sob a água intermitente. O vapor era engolido por enxurradas turvas, que arrancavam o lixo das calçadas e despencavam ladeira abaixo, arrastando o que encontrassem.
A água não apenas caía; ela devorava o caminho da roça, ganhando corpo, transformando obstáculos em cascatas. O cheiro de terra molhada atravessou sobre o aroma de confete e cerveja. Onde antes reinava o calor estático de fevereiro, agora corria um rio vertical: a chuva descia ruelas e becos em disparada, lavando as pedras com uma energia que a casa, a rua, a praça já não lembravam como era.
Difícil saber que o medo nascia antes do que os sentidos captam e processam o perigo. Quando o céu se rasgava em luz, as sombras dos móveis nas paredes pareciam esticar-se e adquirir garras, apenas para desaparecer antes que os olhos pudessem confirmar a ameaça.
A casa, a rua, a praça não apenas tremiam; encolhiam-se sob o chicote da língua do trovão, que não era apenas barulho: era um rugido gutural que fazia o ar pesar nos pulmões.
Entre um estrondo e outro, o silêncio que sobrava era preenchido pelo som da chuva fustigando a casa, a rua, a praça. Escondida, Bagatela ouvia – plot, plot, plot, plot twist! – o estalo de madeira que vinha, cada vez mais perto, cada vez mais próximo, cada vez mais em cima.
Relâmpagos rasgavam o mundo, enquanto o trovão rugia alto. 
Clarões súbitos abriam espaços, transformava-os em negativo fotográfico por breves segundos.
A cada estalo de luz, o chão sob os pés vibrava com um estrondo que parecia vir das entranhas da casa, um som tão denso que era impossível não o sentir reverberar entre os olhos, como se fosse trincar os dentes. Os pingos finos e constantes transformaram a casa, a rua, a praça em um quadro cinzento.
O tamborilar ininterrupto nas quedas d’água abafou o som – plot, plot, plot, plot twist! – e a luz sucumbiu.
A água corria em filetes e atravessava as janelas, apagava os contornos da casa, da rua, da praça, enquanto a terra convertia-se em um lamaçal intransitável.
O telhado rompeu-se em um clarão e cegou o mundo por milésimos seguido por estrondos que fizeram paredes caírem, qual uma guerra de arremesso de pedras.
O vento, transformado em um chicote invisível, vergava as árvores até o limite do estalo e arremessava detritos contra as casas. A água não caía; ela golpeava, transformando a visibilidade em uma tinta densa e escura que devorava a eternidade.
Em poucos minutos, sarjetas já não davam conta, ruas desapareceram sob uma correnteza marrom que arrastava galhos e lixo em uma marcha furiosa rumo ao desconhecido.
O breu era espancado por clarões azuis que fritavam a retina, expondo, por milésimos de segundo, silhuetas retorcidas.
A cada impacto, os dentes de Bagatela batiam uns contra os outros, com a vibração que sacudia os seus órgãos internos.
Os relâmpagos não apenas iluminavam; eles rasgavam o tecido em ângulos que a geometria humana jamais deveria conhecer.
A cada clarão, o céu assumia uma cor que não pertencia ao espectro visível, revelando por instantes a escala abismal de algo que se movia entre as nuvens – plot, plot, plot, plot twist! – algo tão vasto cujo horizonte era apenas uma dobra na pele. 
O trovão não rugia: vibrava em uma frequência que transformava os ossos em pó e certezas em gritos. Era o som de engrenagens rangendo, um estrondo que ignorava a existência como um chinelo ignora uma barata.
O cheiro foi substituído por coisas mortas.
As paredes tremiam, insignificantes, em um conflito que começou por causa da louça suja na pia.

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