A PÁGINA EM BRANCO

Contos

Marcello Ricardo Almeida

Alimentei a máquina com outra folha branca. Os professores de Escrita Criativa bem que me avisaram sobre o vazio do papel, mas ali estava eu com os dedos travados sobre as teclas gastas.
– Mas, nesse conto, o que mais conto? disse Ele em voz alta. E os olhos rasgavam toda a escuridão emoldurada na janela do pequeno escritório. E o que farão agora Júlia e o vaqueiro?
As ideias vinham aos borbotões, como caixões d’água que se formam entre as pedras no rio: com violência e tragédia.
– O vaqueiro não era orgulhoso, diferente de Patrão. Foi o que lhe disse Júlia, que, autoritária, o deixava confuso e inseguro.
A indecisão ocupava a atmosfera da fazenda abandonada. Cercas rompidas, o mato invadiu a casa velha.
– Júlia era corajosa e determinada; o vaqueiro parecia sempre apaixonado e inocente. Patrão demonstrava ser ciumento e paranoico.
“O vaqueiro encarava a assinatura no documento amarelado: ‘Patrão’. Um nome que soava como trovão seco em seus ouvidos, estranho e familiar ao mesmo tempo. A notícia de que era herdeiro de uma fortuna no sertão, disse, mal tivera tempo de assentar antes da voz sussurrada atrás dele. – Você não deveria ter encontrado isso. Não deveria ter encontrado isso nem em mil anos! Rapidamente, vaqueiro virou-se: o coração batendo contra as costelas como um animal enjaulado. Nas sombras do celeiro, uma figura se aproximou. Cabelos escuros, olhos penetrantes que pareciam enxergar através dele. Júlia. Ela trajava um casaco longo e pesado, segurando algo pequeno que reluzia à luz fraca. – Júlia? Ele soltou a voz baixa. – Sou a sobrinha de Patrão – respondeu ela, sem emoção nenhuma. – Você não entende o perigo, vaqueiro. Fortuna, aqui, significa sangue. Você precisa vir comigo agora. Hesitante, o vaqueiro olhou para o objeto na mão de Júlia. Um relógio de bolso, antigo. – O que você quer de mim? – Patrão deixou isso pra você. Ele disse que você saberia o que fazer. Uma mensagem brilhou no mostrador do relógio: ‘Fazenda velha. Meia-noite.’ O vaqueiro franziu a testa, a desconfiança travando a mandíbula. – Fazenda velha? Eu não sei chegar lá. E por que ele me encontraria no meio do nada? Júlia olhou nervosa. – Nem eu sei, mas ele disse que era a única esperança. Alguém anda atrás de você. Sem esperar resposta, ela entregou-lhe um revólver, o cano frio em sua mão calejada. – Leve isso. Vamos. À meia-noite encontrou-os na fazenda abandonada. O vento gritava e corria, doido, o vento em crise de mudança climática zunia entre as pedras soltas. A escuridão era densa, cortada apenas pela lua crescente, que subia e descia as curvas do serrote no horizonte. Ao atravessarem a porteira, uma silhueta encapuzada surgiu entre as ruínas. – Bem-vindos! disse a figura com voz de dublador de sessão coruja. Antes que pudessem reagir, a lua mergulhou atrás de uma nuvem, mergulhando tudo em breu total. Quando a luz voltou, o espaço onde o homem estava encontrava-se vazio. Júlia segurou o braço do vaqueiro com força. No chão, no local onde a figura estava, havia só um bilhete. O vaqueiro abaixou-se e leu, em voz baixa: ‘Queria saber a verdade? Vá procurá-la na casa velha.’"
– Bisa, bisa, bisa, disse-me o bisneto, você acabou de receber um e-mail.
– Como sabe?
– Tá aqui, bisa, em seu celular.
Veio correndo, como cada criança na idade dele, que tem pressa em viver, que tem pressa em conhecer a vida. Diferente de mim, que vivi 95 anos, que vi tudo o que o bisnetinho verá. Mais cinco e serei centenário.
Olhei o e-mail.
Era dos professores de Escrita Criativa sobre o conto publicado no último domingo. Li:
Valoroso contista.
– Por que a ironia, professores de Escrita Criativa? disse Ele. Eu não me considerava contista. Jornalista, sim. Desde a época do Jornal de Alagoas onde, contratado com carteira assinada, fiz transcender o Jornal do Sertão. Ora se irei atrás do título de “valoroso contista”!
– Papai, o senhor não pode se exaltar! veio a voz da cozinha. Olhe a sua safena, homem teimoso.
– Ora!
– Papai, pare com isso! a voz dela veio cortante lá do quintal.
– Cuida da tua vida! explodiu. Tenho mais saúde do que você, do que teu marido, do que teus filhos.
– Sua safena não vai aguentar, papai.
– Não aceito ser chamado de “valoroso contista.”
– O senhor não pode se exaltar, papai! a voz da filha caçula soou firme, vinda corredor afora, e lhe acompanhava o som dos talheres. Olhe a safena.
Ele olhou a parede onde estava o desenho da Rua do Jornal do Sertão, e viu aquele desenho reproduzido em todas as escolas da cidade. Leu:
“Valoroso contista.
“O texto analisado trata-se de um conto de mistério. E parece ser sua vocação de sertanejo contar histórias de mistério. A narrativa utiliza elementos clássicos para criar o clímax. O narrador encontra-se na terceira pessoa como narrador observador, focado nas ações e sentimentos do vaqueiro (‘coração acelerado,’ ‘confuso’). Ele, protagonista, é vaqueiro, simples, que descobre uma herança e um segredo. Enquanto Júlia apresenta-se como aliada enigmática e sobrinha de Patão, que representa a figura de mistério. O encapuzado é mensageiro e antagonista que traz a atmosfera no espaço rural onde está a fazenda velha com seus porquês. O tempo é cronológico (‘à meia-noite’). E o conflito é a intervenção de Júlia que revela a fortuna ao vaqueiro, que tem um preço a pagar, e ele está em perigo. A ameaça é desconhecida. Há uma reviravolta com o desaparecimento da figura na fazenda velha, e uma nova mensagem direciona Júlia e o vaqueiro para outro lugar (‘a casa velha’). O suspense é mantido, pois a verdade continua oculta. A técnica de escrita com frases curtas utilizadas aumenta o ritmo e a tensão. Terror e mistério com a fazenda abandonada, a silhueta da mulher. Objetos enigmáticos estão presentes no relógio, no revólver. Siga em frente, valoroso contista.”
Mais tarde, Ele voltou à máquina:
Teco, telecoteco, teco, telecoteco!
Por que a verdade estaria na casa velha, disse Ele, quando a lua saiu de trás do serrote e iluminou o campo? O vaqueiro certificou-se de que o revólver estava pronto. Júlia piscou-lhe o olho esquerdo. Por que não o fez com o direito?
O vaqueiro fixou o olhar em Júlia, a testa franzia em confusão completa. "A casa velha? Por que Patrão me chamaria até à casa velha?"
Júlia, com a respiração curta, olhava às sombras, e não conseguia disfarçar a palma das mãos suadas. "Não sei todos os detalhes, mas Patrão insistiu, e insistiu muito, que só negocia se você for à casa velha. Ah! bateu com a mão espalmada na testa. Não posso me esquecer. Disse Patrão que você tá em perigo... Disse também que alguém tá atrás de você faz muito tempo."
O vaqueiro olhou a Lua como se ela fosse cair em sua cabeça e, com o impacto, ele seria soterrado pelo serrote. A mandíbula do vaqueiro travava contra a vontade. "Vamos." Júlia entregou-lhe mais munição ao revólver que o vaqueiro escondeu no bolso da calça. "Pegue. Não sei o que nos espera."
À meia-noite, a fazenda velha parecia menos hostil. O vento uivava, como um cão, as ondas folhas das árvores batiam contra as pedras, e isto abafava o som de cautelosos e inseguros passos. Ao entrarem Júlia e o vaqueiro na casa velha sob o manto de teias de aranha em todos os cômodos, que lembrava uma biblioteca forrada de livros e sem leitores, a lua iluminou os quartos, a sala, a cozinha, como se a luz procurasse alguma alma penada, disse, mas a penumbra parecia engoli-los. Uma figura encapuzada os esperava sentada numa cama de casal, como se a cama e o quarto houvessem sido preparados para o conforto e o gozo de uma lua de mel.
"Bem-vindo, vaqueiro", disse a voz distorcida, parecendo vir de todos os lugares. Sente-se, Júlia, disse como se a conhecesse de outros carnavais.
Em seguida, a lua apagou-se entre espessas nuvens d’água. Júlia apertou a mão do vaqueiro com uma força que desconhecia tê-la. A figura desapareceu na escuridão. Quando a lua voltou, uma mensagem no chão dizia: A verdade está no espelho.
O vaqueiro e Júlia se entreolharam. "Que diabos é isso?"
Júlia procurou pela casa velha. Não demorou a ver baratões lerdos descendo nas paredes. Os escorpiões atravessarem a sala. Ela encontrou um espelho antigo atrás da porta do banheiro. "Olhe isso!"
O vaqueiro aproximou-se.
Escrito no reflexo: 
Olhe para dentro de si mesmo.
O espelho embaça, revelando antiga e inesperada imagem: ele mesmo, mais jovem, rindo com Patrão em uma vaquejada. A luz da lua sobre o espelho fez a mudança. O espelho mostrou um pacto escondido há alguns anos. O vaqueiro recuou, chocado.
"O que fizemos?" murmurou, a voz trêmula.
Júlia o segurou. "Agora você sabe. O que vai fazer?"
O vaqueiro olhou para Júlia, os olhos encheram-se como uma cachoeira. "Eu... eu não sei."
Júlia o abraçou. "É tarde pra voltar. Leia." Ela revelou uma carta escondida atrás do espelho. "Patrão deixou pra você."
O vaqueiro abriu o envelope, sentindo o papel áspero nas mãos trêmulas. A letra do Patrão parecia apressada:
"Meu caro amigo, se você está lendo isso, é porque descobriu a verdade. Nós fizemos um pacto, sim. Um pacto para mudar o passado. Mas o preço foi alto demais. Agora, você é o único que pode consertar o que fizemos. A verdade está em um lugar seguro. Encontre-a e use-a para fazer o que é certo. Lembre-se: o passado não pode ser mudado, mas o futuro pode ser salvo. – Seu eterno e valoroso amigo, Patrão."
O vaqueiro olhou para Júlia. O choque estampado no rosto. "Onde diabos fica esse lugar seguro?"
Júlia sorriu, um sorriso sem humor. "Eu sei. Vamos."
O vento frio da meia-noite açoitava as folhas nos galhos pela fazenda velha, envolvendo-os enquanto seguiam para o carro de Júlia, estacionado na estrada deserta. O silêncio do trajeto só era quebrado pelo motor.
"Para onde vamos?" perguntou o vaqueiro, a curiosidade misturada com medo.
"Ao lugar que o Patrão chamava de 'O Cofre'" respondeu Júlia, com os olhos fixos na estrada, dirigindo a toda velocidade. "Lá, tudo sobre o pacto nos espera." Pisava no acelerador do veículo de câmbio automático.
Após uma hora de estrada poeirenta e deserta, chegaram a Olho D’Água dos Lírios. Júlia parou em frente a uma loja com a placa rangente: Antiguidades. "É aqui."
O dono da loja os esperava. Naquele ambiente sombrio, o cheiro de mofo era insuportável. Júlia levou um lenço ao nariz. O vaqueiro protegia-se com a concha da mão no rosto. O dono, um estrangeiro de feições marcadas chamado Tortenfanfoz, os recebeu com afagos e mesuras, e sorria de um jeito enigmático. "Ah, vaqueiro... Patrão deixou algo para ti."
Cuidadosamente, Tortenfanfoz os guiou a um porão secreto. Parecia uma câmara apodrecida, onde ninguém ousava abri-la. Após portas e portas, o dono da loja chegou àquela claustrofóbica camarinha; e, no centro, sob a luz fraca da lanterna, um caixão de madeira escura onde estava gravado na abaulada tampa a incomum expressão: AhNão. Júlia leu; logo foi abduzida pelos versos de velhas vaquejadas que, quando chegavam ao sertão, encantava o povo; cantava: “Ah, não! ah, não! Ah, não! Ah, não!/Chegou circo na cidade. Ó que afã!/O que bota grilo feliz é a farmácia/O que faz criança rir é achar graça/O que traz gozo à vida é a fachaça/O que aponta sol à praça é a manhã/O que berra o canto na manha é acauã/Ah, não! Ah, não! Ah, não! Ah, não!”
O vaqueiro não queria estar ali. Preferia àquela hora estar sentado numa cadeira de madeira, tomando café em uma bela xícara e comendo pães com queijo. Preferia um ambiente rural com serrotes verdes, árvores frutíferas, vacas gordas e cheias de leite. Cercas e cancelas que delimitaram a terra, e uma casa com telhado vermelho à esquerda. Uma mesa de madeira na qual repousava o bule prateado cheio de café recém-torrado. Subitamente, o vaqueiro foi arrancado da visão distorcida e trazido à realidade por Júlia.
Enquanto Tortenfanfoz desaferrolhava o caixão, libertava-o de cadeados. Em panos limpos, no caixão havia um diário, um relógio de bolso e uma chave de latão.
"O que é isso?" disse o vaqueiro.
"A chave abre um cofre", respondeu-lhe Tortenfanfoz.
"E o diário... – disse-lhe Júlia – acho que é seu."
“M...e...u?!” disse o vaqueiro com todas as reticências. E a curiosidade o levou a ler a primeira página. As expressões dele ganharam as cores de Van Gogh. Ele olhou para Júlia. "Não... po...de ser...!"
E ele folheava o diário amarelado. As páginas sussurravam segredos esquecidos. As anotações frenéticas revelavam o pacto sombrio com Patrão, a tentativa desesperada de subverter o passado e o preço insustentável pago por isso. A cada linha, memórias enterradas voltavam à tona: ele e Patrão, jovens, ambiciosos, famintos por poder.
Uma frase sublinhada chamou a sua atenção:
"Se alguém encontrar isso, é porque eu não estou mais no Brasil. Você precisa saber: a verdade está na casa velha. Ela é a chave.”
"O vaqueiro olhou para o relógio de bolso sobre a mesa, abrindo-o com as mãos trêmulas. No verso, uma gravação: "Festa de Santana, 1:45 da madrugada do dia 26 de julho. Encontre a verdade na igrejinha onde ficaram nos degraus as cabeças cortadas."
"Isso é um absurdo...!" sussurrou Júlia, com os olhos fixos na gravação. "O que aconteceu nesse dia?" “Isso é uma blasfêmia!” disse ao mesmo tempo o dono da loja de antiguidades, em Olho D’Água dos Lírios.
Um arrepio glacial subiu pela espinha de Tortenfanfoz, que fez o sinal da cruz três vezes: na testa, na boca, no peito. Em seguida, ele fez o gesto de quem jogasse sal às costas. "Foi o dia... o dia em que Patrão viajou." Quando Júlia tocou no braço peludo de Tortenfanfoz, recuou rapidamente a mão com repulsa; o braço dele, rijo e gelado, parecia morto.
O relógio vibrou, aquecendo-se. Uma porta secreta na parede da câmara se abriu com um lúgubre rangido.
O vaqueiro e Júlia se entreolharam. O mistério os atraía tanto quanto os assustava. Munida da lanterna de Tortenfanfoz, que se sentou pálido na tampa do caixão, Júlia avançou, revelando a escada estreita que mergulhava no escuro. O ar lá embaixo era frio e úmido. “Mas uma câmara?”
– Não quero ninguém nessa camarinha! gritou Tortenfanfoz.
Era tarde. Júlia e o vaqueiro haviam sido engolidos pela escuridão. Eles livraram-se das casas de aranha. Espremiam-se nas estreitas passagens. Eram frequentes as ameaças da escada de madeira em ceder com o peso deles dois. No fim da estreita passagem, uma sala miúda, úmida e sem vida. No centro, uma mesa solitária sustenta um álbum de fotografias. O vaqueiro, trêmulo, passou a mão sobre o álbum, limpou o mofo que o cobria e abriu-o. Eram fotos do vaqueiro e Patrão em diferentes fases da vida, mas estranhamente distorcidas.
As fotos estavam rasgadas, com partes arrancadas, e em cada página, a palavra "morte" escrita com uma escrita frenética, quase ininteligível.
Logo, o vaqueiro parou. O coração morreu por um segundo. Era uma foto dele e Patrão. A data de 26 de julho. Diante da igrejinha onde ficaram as cabeças cortadas. Eles estavam na multidão que foi fotografada diante das cabeças nos degraus da Igrejinha do Monumento.
"Encontrei" sussurrou com a voz embargada. "A verdade tá aqui."
Mas, ao virar a página, uma foto solta caiu no chão. Mostrava apenas o vaqueiro, sozinho, com a data: "26 de julho". E uma pergunta gravada no rodapé.
O silêncio na câmara miúda, úmida e sem vida tornou-se a tumba do faraó Tutancâmon. Tortenfanfoz apareceu rapidamente e gritava sem parar:
– Por isso que eu não queria que vocês fossem tão longe! ofegante. Vocês não têm o direito de profanar o que há de mais sagrado! disse por um fio de voz e desfaleceu.
O vaqueiro e Júlia ignoraram Tortenfanfoz, caído. O vaqueiro folheava o diário amarelado, e as páginas sussurravam segredos esquecidos.
Júlia, apressada, lia as anotações que revelavam o pacto sombrio entre o vaqueiro e Patrão. “Meu tio não seria capaz de tanta maldade!” desabafou Júlia. “Ou talvez eu não conhecesse meu tio!” incrédula, Júlia buscava pistas naquele álbum. “Patão sempre foi estranho!” repetiu Júlia. “Era o que se falava. Ninguém confia em Patrão!” O vaqueiro afastava-se de Júlia numa tentativa desesperada de subverter o passado e o preço insustentável pago por isso. A cada linha, memórias enterradas voltavam à tona: ele e Patrão, jovens, ambiciosos, famintos por poder.
Uma frase sublinhada chamou a atenção de Júlia:
"Se alguém encontrar isso, é porque eu não estou mais no Brasil. Você precisa saber: a casa velha é a chave."
O vaqueiro olhou para o relógio de bolso em sua mão. Abriu-o. Trêmulo. No verso, a gravação: "26 de julho, Festa de Santana.” Ele precisava ir atrás da verdade o mais rápido possível, antes que a mentira a cobrisse com as suas narrativas que mais diziam do que mostravam.
"Por que isso apareceu de novo?" murmurou Júlia, com os olhos fixos na gravação. "O que aconteceu nesse dia?"
O gelado arrepio subiu pela espinha do vaqueiro. "Foi o dia... o dia em que Patrão fugiu." O vaqueiro fitou a foto, os dedos grossos tremiam.
– Fugiu? repetiu, a voz rouca de Tortenfanfoz, que se recuperava da queda de pressão, parecendo distante. – Que diabo isso quer dizer?
Júlia tomou a imagem da mão do vaqueiro, estudando os detalhes:
– Acho que significa... que você tá morto, vaqueiro, disse, sem desviar os olhos do papel.
Ele soltou uma risada nervosa, forçada.
– Loucura! Eu tô aqui, não tô? Sinto essa camarinha, não sinto? Sinto você, Júlia, não sinto?
Júlia levantou o olhar, séria demais.
– Tá mesmo? E se for só uma ilusão? E se você for só... um fantasma?
confusa, Júlia começou a afastar-se do vaqueiro, que encarava a foto.
– Tô vivo, Júlia. Vivo. Vivinho da...
– "Vivo"? Que que isso quer dizer? disse Júlia à procura de como escapar da carinha, como fugir do vaqueiro, fugir da câmara miúda, úmida, sem vida. Ó, significa que você não tá morto? ela riu, nervosa.
– Eu tô aqui, tô respirando! a frase soou antes que Júlia o encarasse com um olhar definitivo. Como professora de História e colecionadora de ossos e causos antigos, ela sabia: o sangue nas escadas da igrejinha tinha secado há um século.
A sinfonia mecânica – teco, telecoteco, teco, telecoteco! – dos tipos de metal na folha em branco, cilindro girando numa dança lenta de velhos carnavais. Um suspiro nostálgico na Avenida Nossa Senhora de Fátima. Não parava Ele na máquina de escrever. A avenida vivia o diletantismo nonagenário a transcender o conto da próxima semana.

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