JORNAL DO SERTÃO

Contos

Marcello Ricardo Almeida

Talvez se passaram oito décadas. Usei este “se” sem a certeza. Usei mais como partícula apassivadora. Usei “se” talvez como pronome expletivo, digamos assim, que desse valor de realce. Um “se” sem nenhuma função sintática. E vi o prédio, que abrigou o Jornal do Sertão, em ruínas.
E um bisneto veio pedir colo. Outra noite de céu que lembrava uma ópera. Apontei-lhe a escuridão mostrando as Três Marias.
– Uma era a bisa, outra era a avó.
– Aquela era a mãe da Júlia, que foi morar na Constelação de Órion!
– A quantos anos-luz?
Iniciei no Jornal do Sertão antes mesmo de a ideia se concretizar, logo após o convite para ser correspondente do Jornal de Alagoas. E, recentemente, há cinco anos, comecei a escrever contos. Os professores de Escrita Criativa garantiram-me que ainda havia tempo. Desconfiei. Sério, com 95 anos de idade? "Não perca a esperança, contista!", resignei-me.
Ele olhava à mesa. Planejava voltar a escrever naquela velha máquina de datilografia. Talvez houvesse tempo em transcender um conto sobre o sertão.
– Você tem a certeza de que quer transcender um conto?
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– Um conto sobre o sertão?
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– Um conto?!
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– Ah, entendi!
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– Ψ
– Ω
– Eh, entendi!
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– Ih, entendi!
– ...
– Oh, entendi!
– ...
– !
– Uh, entendi!
– A mulher do bêbado, o Inveterado,
Sem aguentá-lo fétido e babão,
Convencera-o a morar no cemitério
Numa cova de sete, oito, nove palmos.
Puxara-o feito morto; o ébrio
Todo torto. Foi ele aos empurrões;
Ela levando-o ao fundo do túmulo.
Mais tarde, com uma cesta de frutas,
Passava a esposa do “defunto”.
Quem é? disse. Quem é? repetiu.
É a mulher que traz comida
Aos mortos! disse ela ao pudim de cachaça.
Rogo-lhe, senhora, faça urgente
Essa comida virar aguardente.
– Isso é um conto?
– ...
– Isso não tem graça!
As páginas, ao lado da velha máquina de datilografia, ganham vida. E ele começou a conversar com elas.
Explorava temas universais, que transitavam entre a vingança e a loucura, a traição e o poder. Ele não havia encontrado uma brecha onde usar a cunha do amor. Iniciou o texto literário, que é diferente, como se sabe, de qualquer outro, sob a supervisão a distância dos observadores de Escrita Criativa.
Em cada esquina, observadores. Era um retorno gregoriano. A cada canto um grande palpiteiro, que nos quer ensinar a escrever contos e mensagens. Não sabe cuidar da sua escrita, mas querem escrever como grandes conselheiros.
Ele – o de cabelo curto, grisalho, ar pensativo, óculos transparentes – foi à mesa. Cercou-se de livros e papéis. A cortina, à esquerda da janela, tremulava com a brisa daquela noite de ópera. Entre as páginas de um livro, ele encontrou uma carta com um selo rasgado ao meio. Era um Olho de Boi.
– “O vaqueiro e a carta esquecida” poderia ser um título?
Na carta faltava uma página. Ela falava de um segredo que poderia mudar a vida do vaqueiro. Mas o que teria acontecido com a página que faltava?
Voltou a escrever. Viajava no barulho das teclas. Atravessava o tempo.
Dentro de outro livro estava um papel com o texto "fazenda velha", escrito à mão. Comparou a caligrafia.
– Júlia não escreveu isso!
O vaqueiro saiu da sala, atravessando o corredor silencioso. A lua cheia iluminava as plantas, criava sombras misteriosas. Ele aproximou-se duma velha craibeira e encontrou um pequeno buraco no tronco. Dentro, havia um envelope com a página que faltava.
A página revela um segredo: o vaqueiro não era quem pensava ser. Era herdeiro de uma fortuna. Mas havia um preço a pagar. A página estava assinada por "Patrão", um nome que o vaqueiro não conhecia. De repente, uma voz atrás dele... "Você não deveria ter encontrado isso."
O vaqueiro voltou-se à voz. Coração acelerado.
Aquela figura na sombra se aproximou, revelando uma mulher com olhos penetrantes, cabelos escuros. Era Júlia? Vestia-se num casaco longo, segurava um objeto pequeno na mão.
"Sou Júlia, a sobrinha de Patrão", disse. Voz baixa. "Você não entende o que tá acontecendo. Essa fortuna vem com um preço. Você precisa vir comigo." O vaqueiro hesitou, confuso. "O que você quer de mim?"
Júlia mostrou o objeto: um relógio. "Patrão deixou isso. Ele disse que você saberia o que fazer."
Uma mensagem aparece no mostrador:
"Encontre-se comigo na fazenda velha à meia-noite".
O vaqueiro olhou para Júlia, confuso. "A fazenda velha? Não sei onde fica. Por que Patrão quer me encontrar lá?" Júlia olhou em volta, nervosa. "Não sei, mas acho que é importante. Patrão disse que você precisaria de proteção. Acho que alguém está atrás de você."
O vaqueiro pensou por um momento, depois assentiu. "Vamos." Júlia entregou-lhe um revólver. "Leve isso."
À meia-noite, chegaram à fazenda abandonada. O vento uivava, e folhas batiam contra as pedras. E o vaqueiro e Júlia atravessaram a primeira porteira, cautelosos.
Uma figura encapuzada os esperava. "Bem-vindos!" disse.
De repente, a lua mergulhou atrás do serrote. Quando a luz voltou, a figura do “bem-vindos” havia desaparecido. No chão, uma mensagem: "Queria saber a verdade? Fosse procurá-la na casa velha."

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