Tudo era teatro. Nada mais, nada menos.
– Quanto?
– Só até hoje, o preço é esse aí na capa. Cartão ou Pix...?
– Ainda aceita dinheiro?
No outro lado do balcão, a jovem riu.
– E essa capa?
– Tem atraído leitores.
– Esse azul é mesmo diferente com essa lua. É a lua ou é o sol?
A jovem riu de novo ao devolver o troco.
– É o mais vendido na feira, senhora.
– E esse título?
– Na ilha de Xaxanã?
1.
Fragmentos de paralelepípedos.
Já dizia Nostradamus: “Nós tratamos, mas não cumprimos.”
Atravesso a ponte. No ônibus, vejo da janela um mar verde-garrafa e sem tamanho.
– O que seria da vida se não fosse a morte?
– A senhora vai levar esse outro livro também?
– Posso pensar?
Era sonho. Joana e o Dr. Xique-Xique Macambira brilhavam em tamanho real, quer na ilha de Xaxanã ou no continente. Ambos no cartaz do espetáculo. De longe, via-se o néon. Em toda a parte, eles apareciam na luz, desapareciam nas sombras.
Na ilha de Xaxanã, não amanhecia por amanhecer, porque a manhã não se permitia vir de qualquer jeito. Quando o céu se rajava de azul, riscava-se de carmim, pintava-se de branco e depois com o seu amarelo-canário, amanhecia. Sob estas cores, no horizonte, meu expediente de trabalho de vigia noturno era concluído – desde que não estivesse chovendo. Como chovia na ilha! Não era à toa que a geografia da ilha de Xaxanã acompanhava o desenho da arca.
Ponto de ônibus.
O povo começava a chegar; logo embarcava. Janelas abertas, e nenhum banco onde pudesse jogar o esqueleto. O coletivo avançava pelas ruas.
O Dr. Xique-Xique Macambira e Joana – impressionantes as imagens.
“Urgente.”
“Morte na família.”
“Não se atrase; viesse hoje mesmo!”
Mais tarde, no trajeto ao trabalho. Uma eternidade.
Imaginando o que não era nem poderia ser.
Os passos afundavam na ilha de Xaxanã sempre cheia de cigarras que se transformavam, diante de meus olhos, em ciganas. A cada rua, a cada beco, a cada esquina, a voz de uma cigana falava comigo.
Ontem, antes de ir trabalhar, entrei aqui; adquiri gosto andando neste caminho, na ilha de Xaxanã. Vi a habilidade dos funcionários com liquidificadores triturando cubos de gelo, vi as polpas congeladas extraídas de saquinhos plásticos com o rápido manuseio de facas amoladas, vi os olhares de pessoas entrando e saindo, vi os frutos arrancados da casca e atirados ao abismo na boca do copo de liquidificador. Fiquei no Casarão Temporis Fructus planejando ter um trabalho assim.
Lá fora, o ar das lojas, no final da tarde, espalhava-se cheirando a plástico reciclado. O ar tomava as ruas por onde deixava meus passos. Pensava no xarope usado no suco de frutas; aquela coisa fazia uma revolução na barriga devorando os restos da tarde, indo noite adentro. Não adiantava passar a mão sobre a barriga, friccionar a mão sob a camiseta tentando me livrar da revolta no estômago. As pessoas intoxicaram o tempo. Na ilha de Xaxanã, em toda a parte farmácias, farmácias e mais farmácias se comparadas às igrejas.
Vi tijolos ruídos nas paredes com impressão de natureza-morta. Rua larga e comprida, parava no silêncio defronte à casa da bela Joana e daquele seco Dr. Xique-Xique Macambira. Algumas experiências tinham o poder de conduzir ao irreconhecível. O prédio com tijolos à mostra; os tijolos à mostra desenhavam a arqueologia, na ilha de Xaxanã, há pelo menos quatro séculos. Desse lado da ponte, a vista era a pintura da paisagem. Fui feirante, antes de ser vigia. Foi tanta coisa que o tempo queria apagar o que fui. Não me apagava. Tinha tempo para lembrar de tudo antes do fim. Uma hora, nesse paiol de pólvora; tudo aqui era bum! uma zona morta. Estou de volta à Pio XII. Quantas vezes, nossa, quantas vezes meus pés atravessaram essa praça! Os desocupados esticam as pernas. Nossa! Como quero jogar o esqueleto nesses bancos cobertos pela figueira.
Voltando de outra noite de vigília.
O ônibus começou a entrar na Ponte Manoel Baptista.
Via-se, no outro lado, os ferros na Ponte Maria de Vovô, consumidora de tanto ouro, de tempo, tanta gente, promessas, imagens. O néon contornava as imagens: ora Joana, Joana, Joana, ora Dr. Xique-Xique Macambira, ora Dr. Xique-Xique Macambira, ora Joana.
A vida era mesmo uma grande decepção que se ligava entre a ilha de Xaxanã e o continente que se conurbava com outros municípios numa fome de pressa.
Ora Joana, ora Dr. Xique-Xique Macambira.
Eu estava morrendo, mesmo sem ter vivido.
O latão chocalhava, chocalhava, chocalhava avançando de engulho em engulho dentro da lentidão, na João Retrô. E conheci o nome que fez terra entre a ilha de Xaxanã e o continente, este João Retrô.
Seguia viagem relendo Gênesis, não soltava o primeiro livro, ora indo ao trabalho, ora voltando. Passei anteontem na banca e comprei o último número da Turma da Mônica. Atravessava noites de chuva lendo Tex, Jonah Hex; ficou uma pilha, assim, no último porão onde morei de aluguel.
Passavam lentos os carros na ponte.
E era tudo tão irreal, e tudo era tão livre, e era tudo só inconsciência.
Lá embaixo, um mar sem tamanho. Daqui, posso ver. Parada, a canoa pescava. Sol esverdeando o Atlântico. Céu verde-garrafa. Um barco a vela não tinha pressa. Em meio às imagens, eu transitava outra vez do continente à ilha, outra vez da ilha de Xaxanã ao continente por semanas, por meses, por anos. A paisagem mudava pouco. E, no silêncio da breve viagem, as ideias giravam.
Passei uma eternidade imaginando peripécias.
2.
Na matriz da paróquia, um viajante do tempo, como eram chamados na ilha de Xaxanã os sem-teto, quis saber se a família de Deus ainda estava em guerra. A contenda entre os parentes, uma velha que tinha um terço à mão percorridas as contas pelos dedos e um manto azul na cabeça branca, respondeu-lhe, num murmúrio, era sem fim, meu filho, era sem fim. E o viajante do tempo não parou de puxar assunto com a velha que fazia orações de olhos fechados e a cabeça pendida ao chão. Quem desejasse morrer afogado, voltaria à velha murmurar, se mantivesse longe das águas, senhor. A senhora na igreja fazia o quê? Não era pergunta que se fizesse a uma senhora. O que fiz? Rezava, igual ao senhor; fazia pedidos a Deus, igual ao senhor. Queria morrer em paz, supondo que era o que o senhor também queria. Eu não tinha trabalho, o trabalho era escasso, senhora. Li, senhora, que ontem roubaram a nossa penitenciária. E o que o senhor veio fazer na igreja, que não parava de falar? Queria só acompanhá-la nas orações, senhora. O senhor queria o quê? O feijão dobrou de preço, senhora; não fazia questão de arroz; carne, de vez em quando; não podia ficar sem os ovos. Estava escrito, senhora: gente andava aí na cidade fazendo mudanças nas leis. Não tinha nada a ver com isso, senhor. Senhora...! Não me tocasse, não me tocasse com essas mãos! – e, rapidamente, arrancou os joelhos plantados no chão, levantou-se e saiu. E me dê licença, por favor.
Deixei o cheiro de mofo às costas ao atravessar as portas altas e pesadas. Aquele odor do passado ficou lá atrás, à frente, Praça Pio XII, repleta de pombas esfomeadas. Na praça, eu recuperava o fôlego antes de chegar ao destino do ônibus Ilha de Xaxanã/Continente.
Ah, as moscas! a criança protestou à mãe, que a ignorou. Nada melhor do que elas saboreando o doce das frutas, liberando sua gosma sobre o alimento por ausência de outra maneira. Nas calçadas, vendedoras apregoavam preços, afugentando moscas.
Vivíamos em uma época em que máquinas devoravam homens. Paredes grossas, nos prédios públicos, ao lado da praça, preservavam as imagens de uns quatro séculos. Nos murais dos artistas, corpos baratos comercializavam produtos banais. A gente sonhava em percorrer a longa Rua das Lembranças. Tínhamos sorte em alguns meses do ano, quando artistas mambembes traziam à Rua das Lembranças um novo espetáculo.
A amoladora de facas na porta do mercado, vendedor de chips oferecia o produto diante da loja de ferragem, povos originários teciam cestas na calçada da igreja, barracas ofereciam bugigangas, toldas dos feirantes emprenharam os ouvidos da gente com promessas e bons preços. Minha cidade era uma galeria de arte aberta ao público durante o dia. À noite, sempre foi assim, quase não se via ninguém por essas ruas, elas transformavam-se em lugares evitáveis.
Em cada pessoa um grilhão.
Gente, gente, o que procurava? a velha cigana interrompia o movimento nas ruas. E a sorte procurando um pote de ouro no outro lado do arco-íris.
A cigana segurou a minha mão com a firmeza de outra mão. Vi nela as mãos de Joana. A cigana correu, avidamente, com o indicador nas linhas, na palma da mão esquerda, ali, viu meu destino apressado. Decifrou a sina na vida que levava. Apertava a minha mão, dando a sorte nas palavras. Me disse, em troca de moedas, querendo de mim o que não tinha, que eu não era feliz sendo o que era. Feliz? Quanto tempo não ouvia essa palavra! Felicidade encontrava-se em mim se eu fosse outro, um outro eu, a cigana falava me convencendo a derramar em suas mãos mais moedas de um real.
Era meu ônibus.
Embarquei.
Ameaças de bloqueios? Não hoje; estradas não foram desbloqueadas. E, das janelas, eu via sobre a ponte os velhos espigões, as pessoas distantes, os carros parados, e carros voltando a se moverem lentamente. Cada pessoa distraía-se olhando a própria imagem refletida nas mãos sob a cabeça caída e olhos fixos na velocidade das informações que apareciam, quadro a quadro, e desapareciam sem deixarem ruídos.
Voltei ao trabalho, atravessando a longa Ponte Manoel Baptista, e voltava na Ponte João Retrô, ao lado da Manoel Baptista. O vaivém de sempre, no dia a dia mudava aos poucos o povo, mas ficavam as mesmas imagens. Eu lia. Olhava as janelas velozes sobre aquele mar verde-garrafa sem tamanho. Me distraía com a lembrança de bem-te-vis caçando grilos, na Praça Pio XII.
Chegava ao destino.
Deixei Cajueiros das Areias, tomei a Rua dos Tamoios. Não ia perder a cabeça, indo outra vez rumo à Rua dos Açoites, onde me assaltaram no final da tarde, no mês do meu aniversário. Ruas multiplicavam-se. À noite, aquela parte da cidade se transformava. Os prédios magricelos e espremidos entre outros, que eram tantos, deixavam as ruas estreitas, corredores sombrios. Eu andava nas ruas onde pessoas dormiam nas calçadas sob pedaços de papelão, durante o dia. Anoitecia, e aquelas vidas deixavam as camas nas calçadas, e ganhavam os becos, os tambores de lixo.
Mais tarde, atravessei a Agbar de Cima, fui de ponta a ponta. À procura de que, santo Deus! Revia as casas, os prédios cansados distribuídos no centro da ilha de Xaxanã, que viviam no ritmo do coração. Lugar onde nasci e vivi todos esses anos.
Por aqui ficaram os passos apressados, e a cada dia eles insistiam em voltar. Da Maria do Carmo à Rua do Asilo. Joana morou nesse prédio aqui em frente. As mamas densas de Joana desciam essa rua. Os passos dela me conduziam ao extremo gozo. Podia seguí-los. O corpo lambido de sol descendo à ladeira, no vestido florido e curto. Joana em forma de V dos pés à cintura, dali, em forma de A. O vento no cabelo trançado balançando nas costas, na bunda ligeira em direção ao mercado público, à barraca de mel onde trabalhava. Olhos rasgados e grandes, profundos quanto uma lagoa de peixe. E a boca de Joana! Navegava dentro daqueles olhos. Diferente do vaivém das que desciam os degraus, a calçada alta. Perambulei de mão em mão, na Praça Pio XII. Outras saindo onde se derramaram em ofertas, em dízimos, com um véu azul na cabeça branca e olhos pios nas ruas. Joana era um riso espalhado nas imagens de néon, na ilha de Xaxanã e no continente. Era por beleza assim que valia a pena lutar. Nada alarmava mais se comparada à realidade. A beleza doía, Joana; era uma beleza cobiçada e dolorosa. Como podia prever o fim do mundo diante de beleza assim? Ruas contornadas por sombras de prédios tombados pela memória.
3.
Atravessando a Ponte Manoel Baptista dos Arcos Azuis.
E se eu não fosse eu? Um barquinho solitário entre as águas, no Atlântico. E se eu fosse outra coisa e não essa coisa que eu sou?
Voltava, outra vez, sobre a Ponte João Retrô de São José das Cordas.
E se eu tivesse consciência? Mas consciência não tenho. Eu não sei. E se eu tivesse? Mas eu não sei o que é. O que poderia ser? Não faço ideia. Ouço dizer que é o que eu não entendo o que seja. E se eu ganhasse na loteria? Outra vez, o cheiro de mofo às costas ao atravessar as portas altas pelas quais atravessava, todas as tardes, vozes saindo de onde se derramavam ofertas, vozes sob um véu azul na cabeça branca e olhos pios nas ruas. E se eu fosse rico? Às vezes, eu era aquele barco. Um risco na imensidão azul. Eu me sentia aquele casco, eu me sentia aquela proa. Às vezes, só às vezes, eu era o bombordo e o boreste. Geralmente, eu era o convés. E se eu fosse rico? Eu era a quilha que navegava naquela embarcação vista do alto da ponte. E se eu fosse apenas um leme – um leme sozinho. Um leme sozinho tinha algum poder? E poderia ganhar muito dinheiro, mas as ondas me jogavam dum lado a outro. E eu me sentia sem rumo e sem dinheiro. E se eu fosse o timão? Eu era o timão. Talvez o mastro, e talvez as velas. Eu era as velas e, ao mesmo tempo, eu era o motor. Eu não era nem o mastro, nem as velas, nem o motor. E o que eu era? Mas talvez, nossa, peraí, fosse só a âncora. Não. A âncora não. Não? Isso não. Eu era mais. Mais? Mas mais o quê? Os cunhos. As bombas de porão. Eu não servia pra ser essas coisas. Não nasci pra caminhar por calçadas sem fim, na ilha de Xaxanã, com a mão grudada na parede, com medo de cair. Esfregando, deslizando a mão nas paredes das casas, dos prédios. Eu não poderia ser só isso. Carniça à espera dos carniceiros? Não. Não era possível. E se eu morresse amanhã? E se eu não morresse? Talvez, nossa, eu morresse. Talvez, nossa, eu não morresse. Peraí. E se a ponte terminasse? E se a ponte caísse? Se a ponte sumisse? Mas a ponte não some. Mas a ponte não cai. Peraí. Aonde eu vou? E de onde eu venho? O que tô fazendo aqui? Tô desempregado de novo? E o que eu comerei amanhã? E se amanhã não existir? Como posso ter certeza? E se a ponte acabasse, e eu não conseguisse chegar ao final desse dia? E se eu fosse somente as cordas? Acho que eu era as cordas e nada mais além.
No calçadão da Rua das Lembranças, as atrizes e os atores montavam o cenário. Eles deviam ter sido moldados assim desde o útero. Fiapos de vozes de atrizes e atores rasgavam o silêncio. Destruí o prefácio e o posfácio; no chão, não era confete, eram o prefácio e o posfácio. Um ator interpretava o Dr. Xique-Xique Macambira. Depois dessa, o partido acabou! disse o ator com breve gesto. Não. Nenhum partido se acabava em corações. E como sabia? perguntou-lhe a atriz que interpretava Joana dos olhos de água doce. Não se acabava, disse, porque sonhei com Papai Noel. E ele ainda existia, Dr. Xique-Xique Macambira? a atriz que interpretava Joana quis saber. E eu já estava de volta ao quartinho, no porão da casa da velha que atravessava as portas altas de madeira com um véu azul na cabeça branca e olhos pios nas ruas. Já era tarde. Encontrei café gelado e um bolo de copo. Vi a velha com um pano amarrado à cabeça – lembrava um pirata de circo da minha infância – ela ria e contava moedas; quando não atravessava a praça, deixando as portas altas com um véu azul na cabeça branca e olhos pios nas ruas, contava moedas, e as moedas iam de uma mão à outra.
– Silêncio! – repreendia o pirata de circo da minha infância. – Era hora de Vale a Pena Ver de Novo.
Acorda, querida. Quê! Dormindo até tarde. Hoje não é domingo? Hoje? É segunda-feira. Já? Dia 5 de janeiro. E o Dia de Santos Reis não é hoje? Dorme e fala, enquanto dorme. Não. Sim. Perdi a hora. Não. Onde deixei...? Tênis. Sim. Jogado na sala, depois do jogo. Bom dia, vizinho. Bom dia, Apolônio. Continua exercitando-se, Tuca? Uma corridinha em torno da quadra pra manter a forma, vizinho. Aí, gostou do jogo de ontem? Sem comentários! Aonde vai nessa pressa, Tom? Alcançá-lo. Amor, já de volta? Café com ovos mexidos. Quer mais? Na cozinha, querida, onde a felicidade acontece. Dorremifá, tu vais com as outras? Benedictus, serás o benedictus! Por que não para de contar dinheiro? Como perdia tempo com isso. Psiu! O nosso pirata de circo governava a pensão como se guardasse um deus na barriga. Comia peixe frito, com a mão no pirão d’água, e lambuzava o sofá novo, cinza, pesado, desconfortável. Paguei tão caro por esse sofá. Não valia uma moeda. – Perdeu o sentimento, foi? Não, não, não abuse, inquilino. Minha paciência não era mar sem fim. Aliás, não ficou de sair, ir morar só? Sei lá! Devia dois meses. Se saísse sem pagar, eu mandava alguém atrás do atrasado.
Saí sem responder à figura com aquele peixe frito e pirão d’água, apesar da resposta ter-me chegado à garganta. Acendi outro cigarro, e saí, deixando a porta aberta. Fui descendo a ladeira, desviando os buracos, as poças de lama, a sujeira deixada pelos cães. Lá estava a ponte. Lá estava a outra. Mais outra ali. E a outra nascia daquele lado. Como se fazia ponte ultimamente. Os braços do continente e da ilha eram as pontes. Abraçava-se a ilha ao continente com medo de se perder mar afora. O gatilho era ficar só. Vinha a enxurrada de coisas nunca vividas, que eu acreditava ser verdade. Eu estava indo embora outra vez. Alcançando o asfalto, na rua principal, fui entre uma calçada e outra, na rua larga onde foi construída uma praça central em todo o percurso da rua. Passava na rua onde a peça de teatro era apresentada por artistas mambembes. O melhor era fingir, fazer planos, mesmo sem nunca os alcançar, disse a personagem. No teatro de rua: – Não lhe cabia esse direito. Não? Não podia tirar a vida de quem dela deveria cuidar. Ele carregava a morte nos olhos. Você nunca viu isso? Não. Como! Entre trancos e barrancos, a gente surgiu. Lá em casa era a antevéspera do inferno. Na escola, a extensão de casa, quando a professora ficava repetindo nos dias de prova: “Ó vós que entrais, abandonai toda a esperança!” A cantilena, naqueles dias, parecia sem fim. Alunos entrando na sala e a professora repetindo “ó vós que entrais.” Da mãe? Pouco, quase nada. Dr. Xique-Xique Macambira, interpretado pelo velho ator, falava com gestos grandiloquentes. Joana, a Jovem, falava, no palco de rua, carregada de alvoroços e simpatias. Teve o que merecia ter! disse. Algum ter, que teve, não sei como teve, não perguntasse como teve, mas teve, vingou, disse, e outros se foram enterrados no quintal da mulher com aquele véu azul na cabeça branca e olhos pios nas ruas. Lá, tinha espaço às plantas daninhas que se criavam como a natureza criou abacaxis e pepinos.
4.
Andar no centro de Xaxanã, àquela hora, vi a peça no calçadão. Um salto, logo após a chuva. O sol não era agressivo. Na cozinha: – Por que o pão não tá crescendo? – Não sei, mãe. – Como poderia cumprir o prazo com vocês dois o tempo todo brigando? Quando decido escrever romance, aparece-me crônica; antes de começar a escrevê-la, tropeço no teatro de rua. Vocês dois são o quê! Fosse, Xique, fosse ver se o pão cresceu, Xi! – Você tinha dois filhos. Mandasse o outro. – Respeitasse a mãe, fedelho dos infernos! – e cobriam-se os céus de maldições. – Não me desafiasse, demônio parecido com teu pai. – Sempre me falaram que eu era parecido com a mãe. – Ó Xique, não me desafiasse, Xique! – derramava-lhe rápido, longos, pesados cocorotes. – Fosse à escola, demônio! – Acabei de chegar. – Fosse, fosse estudar! – De novo? – Se quisesse ser gente! – Preferia morar na casa da vó e do vô. – Ó não me desafiasse, Xique! Sobre a mesa, se eu quis, como quis, de fato quis, criar vocês, atravessei dias na poeira da farinha espalhada e os ingredientes indispensáveis ao pão caseiro. A massa acanhada na bacia de alumínio. O fermento ainda aberto e o óleo lambido nos dedos; as fibras, os grãos que lhe davam aspectos extraterrestres, e a água morna onde as mãos mergulhavam. Viver imprestável, emendar e remendar panos de diferentes cores, panos de diferentes tamanhos. Era uma colcha de retalhos que nunca terminava. – Como, como disse, mãe? – Disse o que disse! – Não quero ficar com as mãos grossas de amassar pão. Crepitava a lenha. Na mesquinhez do fogo não era produzido o calor necessário. – Que programação aborrecedora! Alguém ainda ouvia rádio?
5.
No aeroporto. Na sala VIP.
Não era fácil livrar-se das fotografias na parede, todos com a cara enfiada nelas. Imagens em toda a parte fizeram sombra, que forçava o corpo a desistir da viagem. Os artistas apresentavam-se no calçadão da Rua das Lembranças?
Uma funcionária informou sobre o atraso sem lhe apresentar o motivo. E um braço ergueu-se. A jovem foi ao encontro do chapéu de palha toquilla, sorrindo:
– Desculpe, Dr. Xique-Xique Macambira, ainda não temos previsão.
6.
No ponto de ônibus próximo ao calçadão da Rua das Lembranças.
O medo, sempre ele. Os oceanos ainda salvariam as baleias? Essa coisa me apavorava como a tela do cinema. Não conseguia pensar direito com vozes dando voltas na cabeça. O porão, a velha com um véu azul na cabeça branca e olhos pios nas ruas, a voz da velha, o vaivém, aquela a cara de pirata de circo da minha infância, os gestos com o lenço colorido amarrado na cabeça, o cheiro de peixe frito, o pirão d’água, os buracos de lama, a ladeira, as casas com roupas estendidas na porta da rua. No quintal. – Em nome de Jesus, tire a sua bananeira que tá umedecendo a minha parede. – Antes de sua chegada, a minha bananeira já existia. – Sou uma mulher de Deus. Senhor, acredita? – Ah, é! – Em nome do que é mais sagrado, serás tragado pelo fogo eterno. – Quê! – Estou profetizando. – Não acredito. – Incrédulo do diabo! – Para com isso! – Hei de vê-lo coberto de vermes, seu desgraçado! – Não acredito nisso, daí. – Porque és homem sem fé. – Uns fedem pouco. – O diabo virá te buscar essa noite, em nome de Jesus. – Mas a bananeira vai continuar onde se encontra. – Não, não vai. – Vai. – Não vai. – Vai. – Não, não vai. – Vai. – Não vai. – Vai. – Não, não vai. – Vai. – Não. – Vai. – Não vai, diabo! – Vai. – Vou chamar a polícia. – Chame. – Tô ligando. – Ligue. – Hoje mesmo será algemado, conduzido ao inferno. – Isso, daí, só existe em tua cabeça. – Minha parede... – Que tem tua parede? – Olha pra isso! – Não vejo nada, sua louca! – Louco és tu, desgraçado sem coração. Me encheu a casa toda de lesmas. – Isso, daí, não é comigo, senhora. Nunca foi. – Ó tô contigo por aqui! – É? – Em nome de Jesus, não me tire do sério. – Eu? Ela recém-fugida do Saco das Pitangas, no Chão Batido; ele, morador na Rua dos Remédios, onde nasceu e foi criado onde foram o seu pai e o seu avô. Encontraram-se no extremo sul da ilha de Xaxanã, onde as baleias encalham e morrem. E foi assim que vovó conheceu vovô. Toda a conversa deles provocava tempestades no universo.
No teatro de rua, os mambembes interromperam uma das fases.
7.
Mambembes iniciaram outra fase, agora na antevéspera das audiências. Conversava o ator que fazia o papel do Dr. Xique-Xique Macambira com a atriz que interpretava a bela Joana, no intervalo da audiência com os serventuários da Justiça. Carregava o Dr. Xique-Xique Macambira sempre uma gosma de fogo no estômago. O Dr. Xique-Xique Macambira tossia. Tossia e fumava, fumava e tossia. Vocês me desculpem! Não me livrei ainda dessa maldita mania maldita. Não me pergunte por quê.
Não eram as ruas largas e iluminadas, com calçadas amplas e lojas com paredes de vidro; elas eram estreitas, escuras, esburacadas, cheias de poças de lama. Morros não tinham calçadas, nem casas largas, altas. Tudo era miúdo, espremido, sem pintura, portas mirradas. Nos ermos, Joana caminhava como se adivinhasse chuva. Caminhadas noturnas de Joana lembravam aquele cara que se alimentava de sapatos velhos jogados. Não sabia? Deveria, pois, saber. Era o alimento favorito. Os sapatos velhos da história do comedor de sapatos? Sabia desde a faculdade. E quando perguntavam ao homem qual era a melhor parte, respondia que eram os buracos.
8.
Outros olhos seguiam o véu azul na cabeça branca da minha senhoria de olhos pios nas ruas. Dr. Xique-Xique Macambira? Só o nome do maldito império no período em que Jesus andou no mundo. Impedido pelo volume no abdome, Dr. Xique-Xique Macambira ficava de pé enquanto os fiéis ajoelhavam-se ao sinal do celebrante, naquelas primeiras horas da manhã. Olhos cerrados, Ave-Maria tantas vezes repetidas por Dr. Xique-Xique Macambira. Os pães, recém-comprados, foram deixados no banco da igreja, ao lado deles queijo colonial e presunto. Os olhos abriram-se admirando as imagens de gesso que ornavam os altares. Quando o avô comprou as terras, ele a batizou de Sem Fim, disse o Dr. Xique-Xique Macambira misturando Ave-Marias. E vovó nunca soube dizer se Sem Fim caracterizava tamanho, distância ou o quê de onde vivíamos até à propriedade. Não ficou cerca em pé nem floresta. Tudo foi arrasado em Sem Fim, depois dos grãos e do gado de corte. Dr. Xique-Xique Macambira fez o sinal da cruz na testa, na boca, no peito. Dr. Xique-Xique Macambira foi deixando o lugar. A terra girava em torno do Dr. Xique-Xique Macambira em uma velocidade cada vez maior, como se, na expansão do universo, tudo estivesse com pressa. Tudo tão minúsculo, e se apresentava sendo tão enorme quanto inútil. Voltou-se ao altar-mor o Dr. Xique-Xique Macambira com breve gesto reverencial. Se foi, e chegou à rua, e chegou à Praça Pio XII onde o sol a pino derretia o tempo.
9.
Outra fase dos mambembes, na Rua das Lembranças. Era madrugada.
Lânguida. A ilha de Xaxanã dormia.
Levante-se! soou metálica a voz naquele conhecido vocativo que me acordava antes de amanhecer. Custosamente me fui cama abaixo, tateando chinelos, esfregando os olhos, as mãos no cabelo. A ilha de Xaxanã adormecida com todas as pernas, coxas, braços. O caminhão carregado às pressas percorria ruas agitando as caixas de frutas e de legumes, que gemiam. Na direção dirigia-me ao mercado e balançava muiraquitã sob o retrovisor, na cabine. No mercado, ajudei a armar a tolda entre as igrejas São Francisco e São Gabriel. Antes de ressurgir a luz do sol que tamborilava nas águas do Atlântico, colorindo-as, chegavam senhorinhas e tiozões apertando laranjas, bananas, faziam perguntas querendo saber preços. Vida voltava a ocupar as ruas. Pés tinham pressa, bocas e mãos agitados. Ó Xique, seu merdinha! – era o grito que mexia o pêndulo, na balança. Imprestável, cê vai perder esse emprego na feira! disse sem saber que, um dia, Xique seria o enorme Dr. Xique-Xique Macambira. Outra vez, reverbera nas paredes da São Francisco e da São Gabriel as Ave-Marias. Dr. Xique-Xique Macambira, misturando com as suas Ave-Marias, fez outro sinal da cruz na testa, na boca, no peito, e, lentamente, deixou o primeiro banco de madeira, e voltou-se ao altar-mor lentamente com outro breve gesto reverencial. O primeiro lugar, no primeiro banco, diante do altar-mor, não podia ser ocupado por ninguém, ele pertencia ao Dr. Xique-Xique Macambira; se acaso o Dr. Xique-Xique Macambira encontrasse alguém sentado no banco de madeira cara a cara com o altar-mor, o doutor forçava com o corpo enorme, com as pernas enormes, com os braços enormes, com as mãos miúdas, a bunda empurrava quem estivesse sentado em seu lugar.
10.
A praça, o mercado público. A ilha de Xaxanã cedia, várias vezes ao ano, a rua aos artistas mambembes. A extensa e central Rua das Lembranças era o palco. O clima natural sob o sol inclemente da ilha de Xaxanã. Naquele ambiente dispersivo, as atrizes e os atores, que traíam a tradução da biografia de Joana e do Dr. Xique-Xique Macambira, com os circenses movimentos, intensas vozes, acrobacias à vontade, máscaras e bonecos gigantes, coloridos, risonhos. Joana e o Dr. Xique-Xique Macambira eram vistos de longe em diferentes lugares, na ilha de Xaxanã. O Dr. Xique-Xique Macambira, que foi Xi, que foi Xique, que foi vigia feirante, que foi vigia noturno, rodopiava, na Rua das Lembranças. O Dr. Xique-Xique Macambira, que possuía o nome longo e pomposo, em meio aos instrumentos musicais, no método Teatro-Feijão-Com-Arroz, no característico e marcante contato com a plateia orgânica, sem a quarta parede, cercava-se da dinamicidade do público heterogêneo em todas as faixas etárias. O povo era levado a participar das fases, na peça, em diferentes situações. A improvisação guiava a história com vivas dos presentes. Em toda a parte, a imprevisibilidade do texto e a surpresa na próxima fala. Não havia deixado. Os passantes atraídos pela festa de rua. O trânsito parado. O dia quente. O povo tinha pressa nas ruas estreitas da ilha. Na cenografia minimalista, os atores que interpretaram Sobaco e Chulé – na peça “Debaixo da Ponte” – apropriaram-se do ambiente simples e provisório entre os elementos espalhados na frente de uma loja, na Rua das Lembranças, um deles sob o véu azul na cabeça branca e olhos pios nas ruas e o outro com a cabeça em parafuso, repetia, indo de um lugar a outro, no palco improvisado: – E se tivesse consciência? Não tenho. Eu não sei. E se eu tivesse? Mas eu não sei o que é, eu não sei se tenho. O que poderia ser, se fosse, poderia ter?
– Gostando da leitura, senhora?
– Ah! sorriu. É você? disse, e voltou à leitura sob a figueira.
Na parte proibida da cidade, à noite. Era outra fase apresentada, na Rua das Lembranças, pelos mambembes em festa, que giravam, pulavam círculos de fogo, rodopiavam, engoliam espadas, batiam tamborins, cantavam. E Joana, confinada, fugiu do confinamento. Andava ela altas horas, percorria à toa a parte proibida, como se algum anjo a protegesse, descalça por onde prédios perderam o teto e as casas de ex-moradores as telhas, por causa de rachaduras que cresciam nas paredes, no chão. Na estranha ilha de Xaxanã, os mistérios cercam as estreitas e históricas ruas tomadas por bichos peçonhentos. Andar naqueles bairros dominados por buracos, que cabia um carro, Joana passava por habitações sem portas, sem janelas, sem telhados. Quando a mulher do tempo anunciava chuva, Joana deixava anoitecer e perambulava naquelas ruas vazias de gente, habitadas por silêncio e escuridão; primeiro, as próximas de casa, no centro da ilha; depois eram as distantes de latidos de cães, ruas e avenidas próximas às praias, aos armazéns, ao porto. Joana deixava a noite ficar densa a ponto de cortá-la à faca; asfalto afora, Joana andava com os calçados na mão. Cansada de andar, voltava à civilização. Na calçada de casa, Joana sentava-se. Era como se visse passar em sua rua a vida do povo que foi retirado às pressas dos bairros pela rota de fuga indicada na luz fosforescente dos funcionários do município. Joana ficava à espera de milagres. O céu nu de estrelas. A previsão de chuva estava errada? Os ventos mudaram a rota. A noite esfriou. Veio o barulho de chuva no vidro das janelas. Desabou o temporal anunciado pela mulher do tempo. Joana discursava repetindo passagens bíblicas. Ela falava com Deus.
11.
Ilhéus vendo o teatro de rua.
O calor derretia às pessoas. Mudança climática. Reivindicava-se bancos à sombra, no calçadão, onde sentar-se e ver o espetáculo. Entre artistas, Sencárater anunciou ao público: – Plateia perdeu o acento! – no grupo de teatro de rua, cercado pela curiosidade popular, mambembes mimetizavam a “História Desse Menino e Dessa Menina, no Beco das Sombras: Lugar de Fratricídio”. Me livrei do porão, finalmente. Fugi do cheiro de peixe frito. Não vejo mais pirata de circo com pano amarrado na cabeça. Hoje, moro no Rabo da Cachorra. Tô livre do Vale a Pena que, no último volume, me roubava meu sagrado sono. Semana tumultuosa nas lides. Na cama, o Dr. Xique-Xique Macambira atormentado por sonhos, pesadelos que o atiravam a precipícios pontiagudos, rasgava a carne e quebrava-lhe os ossos. Sentado, livrou-se do sono que conturbou o seu corpo. Conviver com pessoas não era diferente de conviver com animais. Alguém observou animais e os diferenciou conceituado de racionais e de irracionais; como se, no fim destas paralelas, o racional e o irracional não se diferenciam apenas por causa do prefixo. A vida na ilha de Xaxanã seria uma pintura, uma aquarela? Queimava ideias Dr. Xique-Xique Macambira com outro Hollywood. A qualquer momento explodiria a tão esperada revolta provocada com o novo modelo. Morador na longa Rua das Lembranças, o Dr. Xique-Xique Macambira penitenciava-se naquele pardieiro transformado em cortiço anexo a outros prédios velhos sobreviventes de quando a cidade foi pujante e, em lugar de cortiços, eram hotéis, cassinos, lojas, palacetes, restaurantes caros. No dizer de Joana, essa foi a maneira que Dr. Xique-Xique Macambira encontrou; ao invés de lavar-se, sujava-se porque sentia-se melhor. Enterrava os dedos no nariz, ia Dr. Xique-Xique Macambira naquelas ruas que cortam a Rua das Lembranças. Na ilha, dentro do oculto do cortiço, no silêncio do quarto onde Joana dormia, as noites translúcidas furavam à abertura na janela pela qual fugia o calor. Sempre foram as noites translúcidas as noites perigosas no interior da alma, nas conversas que Dr. Xique-Xique Macambira tinha consigo mesmo; dentro da madrugada, súbito, acordava olhando o nada, demoradamente olhando o teto, as paredes em volta, tentando reconhecer o lugar onde havia adormecido. Dentro de noite translúcida, como se nada acontecesse por motivo torpe ou força maior, o Dr. Xique-Xique Macambira falava a si mesmo sobre o devido processo legal, levantava-se da cama, atordoado, dirigia-se à cozinha à procura de água gelada, atrás de alívio à sede. Foi ao banheiro, voltou; tornou a ir, e voltou à cozinha, desta à mesa cheia de papéis e livros, jornais e revistas, garrafa térmica vazia de café, xícara emborcada sobre a mesa, canetas, contas a serem pagas. Tentava livrar-se da perturbação que lhe assaltava. Da cozinha, trouxe ao quarto, à cama onde Joana dormia, o martelo de amaciar bife. Sentou-se ao lado da cama onde Joana dormia. Paciente. Pacientemente. Olhava o corpo de Joana. Ela dormia. O corpo molemente. Joana linda, Joana bela qual um sonho sem nenhuma agrura. Escorregava a mão no cabelo dela, com tristeza. Grilos, em algum lugar escondido, festejavam. O Dr. Xique-Xique Macambira, ao invés de fazer amor, de viver o amor, vendo Joana dormir cheia de beleza, levantou-se, como se a vida representasse ameaça constante. Repetiu sobre o motivo torpe e a força maior, voltou ao devido processo legal, falou em prazos nos processos, foi às contestações, às defesas. Saiu em busca da faca mais amolada que encontrasse na cozinha. Viver não era complicado. E grilos recomeçavam cri! Cri! cri-cri-cri! Criiiiiiiiiiiiiiiiiii...! Complicado era pôr comida no prato diariamente. Na madrugada, aranhas teciam as suas teias. Invisíveis aranhas. O Dr. Xique-Xique Macambira procurou a caixa de fósforos; no cachimbo, não encontrou fumo, e seguiu abrindo gavetas à procura de algum Hollywood que incensava o ambiente. E saber que havia vidas que não semeiam, nem ceifam. Porque o devido processo legal, porque o motivo torpe e a força maior. Pôs a mão em um Hollywood. E acabou com ele. E encontrou mais. Acendeu-os. Adeus, Joana. Já está quase de manhã. Não foi o homem quem criou Deus, foram a fome e o medo da morte, o processo legal, o motivo torpe, a força maior, os prazos legais. Xaxanã era mais selvagem e furiosa do que se esperava da brutalidade entre os habitantes. Saiu do quarto. Voltou. Saiu. Regressou o Dr. Xique-Xique Macambira ao quarto onde Joana dormia. E o Dr. Xique-Xique Macambira, tranquilamente, trouxe a faca amolada que encontrou na cozinha. Tranquilo, sentou-se na cama. Joana dormia. Olhou-a dormindo. Na via expressa, carros pequenos e grandes demonstravam fome de madrugada. Do alto do cortiço, os olhos presos àquelas transversais que se emendaram à Rua das Lembranças e desemedaram-se. O Dr. Xique-Xique Macambira, outra vez, viajava por becos, ouvia os bichos miúdos, passava em vielas, lixo. No calor do quarto, ele via Joana dormir. Planejava deixá-la. O Dr. Xique-Xique Macambira ficou sentado ao lado dela até às seis quando a luz da manhã riscou as ondas no mar verde-garrafa. O fogaréu das cores avermelhou nuvens ralas anunciando na barra do horizonte outro dia insuportável, na ilha de Xaxanã. Ele ficou admirando o singular fenômeno do tempo, na janela. Respirou os últimos frescores da madrugada. Os peixes davam pulos dourados.
12.
Artistas de rua praticamente não mudaram o modus operandi. Quanto desrespeito falar assim dos valorosos artistas de rua! Joana riu sem saber com exatidão o significado de modus operandi. Isto foi no balcão de café, naquela padaria próxima à feira. Sentada, rindo, falando de artistas, de religião; desde o início, percebi a força dela falando com Deus. Joana, onde pisava, nasciam flores. Não saberia viver de outro jeito. Aquela vasta plantação de soja não se diferenciava de um canavial, comentei, e Joana fez pouco caso da metáfora. A imensidão era a mesma. Joana era a imensidão. Não saberia viver sem Joana.
NA ILHA DE XAXANÃ
ContosMarcello Ricardo Almeida 05/01/2026 - 12h 05min
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