Garrincha, o craque de Pau Grande

Crônicas

Fernando Soares Campos

Pau Grande é um distrito do município de Magé, na Baixada Fluminense. Foi lá que nasceu Manoel Francisco dos Santos, que pouca gente sabe quem é, mas que, se alguém explicar que se trata de Mané Garrincha, logo se identifica o cara que, com a magia dos seus dribles, fazia o adversário cair de quatro. Porém, nessa posição, ele preferia o mulherio que o assediava. Dizem que elas eram suas fãs, mas nem tanto por defender brilhantemente o Botafogo e a Seleção Brasileira, mas exatamente por ser de Pau Grande.

No lugarejo, os moradores que não trabalham nas repartições públicas dos municípios da Baixada Fluminense labutam nos camelódromos da região ou chacoalham nos trens suburbanos até o centro da antiga Cidade Maravilhosa. Entretanto, poucos dos que estão na ativa se aventuram a entrar no bar Nostalgia de Pau Grande, pois o estabelecimento funciona praticamente como um clube privado de aposentados. O boteco, como quase todos da região, mantém um aparelho de televisão permanentemente ligado, no qual a clientela só assiste a partidas de futebol e telejornais.

Na última segunda-feira, pela primeira vez, o noticiário das oito parecia ter mais importância que o dominó. A principal notícia daquela noite gerou intensa discussão entre os frequentadores do bar. Dioclécio, de apenas 72 anos (o mais jovem entre eles), tinha uma tese sobre a implicação da esquerda no Congresso com a Malu Káspita, colunista do jornal digital O Cubo. Para ele, tudo tem explicação e, assim sendo, mais cedo ou mais tarde, o misterioso caso envolvendo a Malu K. (como ela assina suas "narrativas") será esclarecido: - Por enquanto, não passa de distração para tumultuar a compreensão do ocaso do Banco Grand Mastro" – concluiu Dioclécio.

Seu Altino, 87 na cacunda, o mais velho entre os aposentados frequentadores do Nostalgia, ex-locutor da emissora de rádio mais famosa da Baixada, garantiu que tudo aquilo não passava de enganação. Foi  categórico: 

– Cortina de fumaça. Não acredito numa só palavra desse cara! - referindo-se ao âncora do noticiário.

– Nem eu, Altino, nem eu! Pra mim é tudo mutreta! - garantiu Maneco -. Esse sujeito tá escondendo o jogo. Pensa aí: O senador só ganha 46 paus. Confere?

– É o que dizem, Maneco, é o que dizem! Mas a gente sabe que, em cima disso, tem os extras, os tais jetons, e até outros benefícios. No final das contas, o sujeito leva pra lá de 80 milhas por mês – afirmou Dioclécio -. Mesmo assim eu não acredito em nada do que esse cara diz…

Otávio, que acabara de chegar, ouviu o final da discussão e quis saber:

– Então vocês acham que senadores levam, por mês, somente essa bagatela? E as emendas secretas? O ministro Sauro do STF tá tentando acabar com a farra. A grana que depositavam na conta da... da... é, vá lá que seja, da tal jornalista saía da conta de quem? 

Todos se entreolharam; em seguida, olharam para o recém-chegado e para Altino, como se elegessem este para responder a Otávio.

– Otávio, provar que o dinheiro saiu da conta de quem quer que seja é o de menos. Isso é mole, cara! É moleza!

– Mas... o que mais se tem que provar?!

– Nada! Ninguém tem que provar nada. Isso não é da conta de ninguém.

– Então, por que essa discussão toda?

– Você já viu a Malu Káspita?!

– Sim, já.

– E o que você achou dela?

– Não é bem um mulherão! É alguma coisa mais modesta.

– Mulherão, sim, senhor! Pois, pra nós, aqui onde chegamos, chega a ser divina, cara! Divina! Você acha justo aquele camarada com jeitão de boneco de gesso, como aquele senador, convencer uma mulher daquelas?!

– E daí?! Todo mundo aqui conheceu Mané Garrincha. A gente sabe que ele convencia muita mulher bonita. Isso quando estava no auge da carreira, claro!

– Tudo bem, todo mundo aqui sabe disso de cor e salteado.

– E a gente também sabe que Mané Garrincha não era lá o que se pode chamar de bonitão…

Muitos concordaram:

– Garrincha não era bonitão, é verdade…

– Bom, isso é verdade. Garrincha não era nenhum galã...

O velho Altamiro, encostado no balcão, tomou o rabo-de-galo de um só gole e entrou na conversa:

– Peralá! Garrincha não era o tipo galã de novela! Mas Garrincha era de Pau Grande!

– É isso aí, Altamiro! É isso aí! Garrincha era de Pau Grande e não dava mole! - concordou Dioclécio.

Terêncio lembrou que “dinheiro compra até amor verdadeiro”.

Honório, dono do Bar Nostalgia, pegou o controle remoto, apontou-o para o aparelho de TV e clicou em desligar. Fez-se um tremendo silêncio no boteco. Usando o pano que sempre trazia pendurado no ombro, Honório limpou a tampa de uma velha vitrola e abriu o trambolho eletrônico. Escolheu um disco de Nelson Sargento, passou o pano nos dois lados, ajeitou os velhos óculos, franziu a testa, aguçou a vista e leu o repertório. Colocou o disco na vitrola, escolheu uma faixa e abriu o volume. O boteco se encheu com os acordes do violão de Nelson Sargento. Em seguida, toda Pau Grande estava ouvindo a música "Falso amor sincero":
 
O nosso amor é tão bonito
Ela finge que me ama
E eu finjo que acredito
O nosso falso amor é tão sincero
Isso me faz bem feliz
Ela faz tudo que eu quero
Eu faço tudo o que ela diz
Aqueles que não se amam de verdade
Invejam a nossa felicidade. 


Os fregueses do Bar Nostalgia ouviam em silêncio. Todos se lembravam de Mané Garrincha, que, como todo mundo aqui agora sabe, era de Pau Grande...
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Fernando Soares Campos é psicanalista e escritor, autor de Adeildo Nepomuceno Marques – Um carismático líder sertanejo, em parceria com seu irmão Sérgio Soares de Campos. Fernando também assina três outros livros de autoria solo: Deus e o Universo Holográfico é o mais recente, publicado pela Editora SWA, Santana do Ipanema-AL.

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