Ano-Novo como uma satisfação a ser realizada impedida pelo desejo, isto foi o que escreveram Na, Tal Etc. nos muros da escola após a notícia da cessão do contrato. Ansiavam pelo Ano-Novo, desde a semana passada, os amigos Na, Tal Etc. Uma escola, disse, dificilmente não se parecia com a Caixa de Pandora. Na, como era conhecido na FazRegra, era o manto da Educação Básica com todas as filosofias pedagógicas mix da contemporaneidade, do tradicionalismo. Já Tal, um verdadeiro faz de conta, seguia à risca o Pacto da Mediocridade. E, para não se estender, esbarrava em Etc. E todos ansiavam pelo Ano-Novo, sim, certos de que o ano velho seria substituído, quão a água sobre a pedra, e o novo e luminoso ano nascente ora chegaria em festa. Outros meses reapareceriam a partir de janeiro e seguiriam até o mês do Natal. Na ria que se acabava com Etc. e Tal durante a contagem do último salário, 13º e férias. Os professores humanos da FazRegra deixaram a escola tocando bumbo, batendo pandeiro aos gritos, cantando hinos de guerra.
No outro lado da ilha Xaxanã, Erauto não tirava a mochila das costas com o calhamaço de epigramas, disse Ceuto ao conversar por telefone com Na, Tal e Etc. por vídeo chamada, nem quando ia dormir.
– O que passou a preocupar o docente matemático foi a memória? disse Iaiá. Com Iaiá estava Ceuto; aliás, Ceuto não largava Iaiá.
– Memoricídio. A memória, Ceuto, ela foi morta. Existiu e não existia mais, pois deixou de ter sentido “Afinal, Ano-Novo. Não. Não tinha nada a ver com isso. Era de ser incomodada como incomodava a lembrança de Ó-Férlia. A-Mãe-de-Ceuto incomodava tanto O-Pai-de-Ceuto que o fazia fugir de casa frequentemente. Ele se enchia e saía de casa pra encher a cara. Era Ano-Novo. Ia bebemorar. Não. Não tinha nada a ver.” Eraudo fechou o calhamaço de epigramas. Marcou com a folha do periódico Xaxanã o epigrama 113. A memória perdeu a graça completamente, Ceuto.
No outro lado do mundo:
Arte, ouviu Psiu Dônimo, perguntou:
– E quanto irá custar esse bolo de morango com cobertura de chocolate? Haverá cocada de leite?
No refeitório da última reunião do ano, na FazRegra:
– Eu tenho opinião, sabia! disse Moi.
– Desconfio de quem tem opinião! disse Filógino.
– A corrupção sempre existiu, sabia!
– Me embrulha o estômago falar um palavrão assim neste ambiente. Por favor, por favor...
– Eu tenho religião, sabia?
– Eu tenho medo.
– Não exagere. Falei sobre o que nos espera na próxima aula.
Fora do refeitório:
– Os segredos acabaram-se, não foi?
– Ninguém se preocupava com a própria nudez.
No parque infantil da Escola FazRegra, a funcionária Diatópica fumava e Diastrática, naquele longo recreio pedagógico, falava da Família Flexões. Elas tinham observado os gêmeos de gênero, que eram Menininha e Menininho, além dos gêmeos de gênero comum, que eram as crianças e os estudantes, e havia também os mais velhos, os graus, uns eram diminutivos, outros aumentativos e, óbvio, os normais. Uma delas riu com deboche sobre o Singular e o Plural, estes faziam parte do número das correrias, quedas e escoriações. Adiante estavam Escabrosa Zerada e Mortandela.
E a dedicação dos professores, na Escola FazRegra, no último dia letivo apoteótico. Todos reunidos longe da sala-mor, distantes das salas de aula, eles estavam no salão das assembleias. Grupos dedicados à decoração, eram balões de festa, doces, salgados, bebidas; e as piadas perdiam-se entre sonoros risos e alegrias.
– Eraudo, você terminou de ler?
– Devo terminar hoje, Ceuto.
– Leia.
– Leio.
– A leitura da literatura, ouvi dizer, é um direito humano tridimensional.
– Li muito durante minha hora-atividade.
– Tá próximo do fim?
– Acabo ainda hoje.
– Só lhe restam essas páginas?
– Quero desconstruir o que foi feito no próximo epigrama.
113. IÁ, IAIÁ, NHA, NHANHÁ, SINHA, SINHÁ, SIÁ
No RH do jornal onde O-Pai-de-Ceuto prestou o primeiro e o único serviço, com registro na CTPS, antes do pé no freio jogá-lo ao sofá do sogro ao lado de Linda com quem ficou o resto da vida:
– A luz não é a escuridão, aprenda isso de uma vez, a escuridão não é a luz. Você me ouviu? Você não pode roubar. Você me entendeu?
– Mas você rouba.
– Porque eu posso.
O-Pai-de-Ceuto, no passado, preso à juventude, sentado na praça, ouvia na FM:
Lá vem Ó-Férlia — gritavam –
Vinha ecoando pela rua,
O povo tremia de medo
Como quem foge da pua.
Corria debaixo da cama
Pra escapar da sorte sua.
O chão calava os passos,
Vento prendia a respiração,
Meia hora de silêncio
E sem lei, sem proteção.
Só saíam devagarinho
E quando o ar pedia perdão.
Pois Ó-Férlia tinha cheiro
Que ficava na memória,
Não era flor nem perfume,
Era sinal da sua história.
Cheiro de medo antigo
Grudado na trajetória.
Como Brancaleone outrora,
Também tinha seu batalhão,
Um exército invisível
Feito de voz e opressão.
Não marchava com armas,
Mas com fama e maldição.
Ninguém ousava desafiá-la,
Nem olhar nos olhos seus,
O respeito vinha do medo,
Não das promessas de Deus.
Ó-Férlia era um destino
Que o povo nunca escolheu.
Não era santa, nem sombra,
Nem mito sem carne e dor,
Era mulher feita de ferro,
De silêncio e de rancor.
Carregava nos ombros
O peso de ser seu senhor.
E assim ficou na lembrança
Da rua, da cama, do chão:
Ó-Férlia, a mulher temida,
Rainha sem coroação.
Era a mulher que era,
Trágica como a solidão.
Lá vem Ó-Férlia — o grito
Cortava a rua à navalha,
Casa fechava as janelas,
Coração virava mortalha.
Quem ouvia se enterrava
No escuro frio da palha.
Debaixo da cama o povo
Rezava sem fé nem voz,
O tempo virava pedra,
Trinta minutos atrozes.
Ninguém era mais que nada,
Todos eram pó de nós.
O ar ficava pesado,
Cheiro grosso, entranhado,
Não era carne nem terra,
Era o medo condensado.
Ficava colado aos muros,
No corpo, no chão pisado.
Ó-Férlia vinha sozinha,
Mas nunca vinha sem ninguém,
Tinha um exército oculto
Que não se via também.
Como Brancaleone, mandava
Sem dizer “Vá!” ou “Vem!”.
O respeito era imposto
Como faca na garganta,
Não vinha de admiração,
Vinha da dor que não canta.
Quem cruzasse o seu caminho
Dormia com a alma em manta.
Ela não pedia espaço,
Ela tomava o lugar,
Onde passava morria
O riso, a vontade, o ar.
A rua ficava órfã
Sem coragem de chorar.
Ó-Férlia não era lenda,
Era carne feita de fim,
Era mulher sem perdão,
Sem “depois”, sem “talvez”, sem “sim”.
Era a noite andando viva
Carregando Ó-Férlia, enfim.
Lá vem Ó-Férlia — o grito
Rasgava a carne do dia,
As portas batiam sozinhas,
A luz perdia a ousadia.
O chão suava presságio,
E cada rua apodrecia.
Crianças viravam silêncio,
Cachorro esquecia de uivar,
Santo caía da parede
Com vergonha de olhar.
Quem ficava de pé tremia
Até a alma se ajoelhar.
Debaixo da cama o povo
Virava bicho sem nome,
O tempo cheirava a morte,
O ar roía como fome.
Meia hora era um velório
Sem corpo, sem sobrenome.
O cheiro vinha primeiro,
Podre, antigo, enterrado,
Não era carne nem lixo,
Era o medo destilado.
Ficava preso aos pulmões
Como pecado guardado.
Ó-Férlia passava lenta,
Pisando sombra e lembrança,
Tinha um exército de mortos
Marchando na sua andança.
Como Brancaleone, mandava
Com os olhos cheios de lança.
Ninguém ousava cruzá-la,
Nem cruz nem reza a segurava,
Quem ousou virou história
Que ninguém mais comentava.
A rua engolia o nome
E a terra se encarregava.
Ela não era mulher,
Era aviso, era sentença,
Era a fome da desgraça,
Era a praga sem crença.
Onde Ó-Férlia respirava
A vida pedia dispensa.
E quando o silêncio voltava
E o cheiro, enfim, se ia,
O povo saía aos pedaços,
Menos gente do que havia.
Ó-Férlia não levava corpos —
Levava o que ainda vivia.
Não se gritava seu nome
Depois que o sol se escondia,
Dizia-se só em cochicho:
“Ela anda…” “Cuidado…” “Vigia”.
Pois Ó-Férlia não gostava
De boca cheia de ousadia.
Quando alguém ousava avisar
— Lá vem Ó-Férlia — em pavor,
A rua virava cemitério
Antes mesmo do andador.
Cama virava esconderijo,
Respirar virava horror.
Diziam que não era viva
Nem morta por inteiro,
Que andava entre dois mundos
Arrastando o seu cheiro.
Cheiro de coisa errada,
De tempo preso em desespero.
Primeiro vinha o fedor,
Depois o frio na espinha,
A luz piscava três vezes,
O cachorro se recolhia.
Quem olhasse pela fresta
Nunca mais dormia.
Ó-Férlia não andava só,
Nunca andou, nunca andará,
Tinha um exército invisível
Que ninguém ousava encarar.
Sombras sem dono e sem túmulo
Que aprendiam a mandar.
Como Brancaleone antigo,
Virou poder sem governo,
Mandava sem levantar voz,
Com inferno mais enfermo.
Quem cruzasse seu caminho
Sumia em rápido enterro.
Há quem jure que ela passa
Quando a rua fica vazia,
Que se ouvir passos sem dono
Não é gente, é profecia.
Ó-Férlia não mata o corpo —
Apodrece a alegria.
E até hoje em certas casas,
Se a noite pesa demais,
As mães puxam os meninos
Pra debaixo dos lençóis.
Não por medo do escuro,
Lá vem Ó-Férlia… Medo atroz!
Pois Ó-Férlia virou lenda,
Mas lenda que ainda anda,
Não morreu, não foi embora,
Só mudou de demanda.
Quem duvida, espera à noite:
A rua ainda se lembra… e manga.
Não foi o diabo que veio,
Nem santo em procissão,
Foi Ó-Férlia atravessando
O risco da salvação.
Quando o nome era ouvido,
Deus fechava a mão.
— Lá vem Ó-Férlia — diziam
Como quem reza errado,
O sino parava no meio,
O padre ficava calado.
Até o Pai-Nosso engasgava
No peito do ajoelhado.
As casas viravam igreja
Sem vela e sem proteção,
Imagem chorava sangue
Pregada na escuridão.
Cruz caía da parede
Com medo da tentação.
Debaixo da cama o povo
Confessava sem perdão,
Pecado antigo voltava
Sem chance de absolvição.
Meia hora era o purgatório
Antes da condenação.
O cheiro não era de morte,
Nem de enxofre ou caixão,
Era cheiro de promessa
Que quebrou a obrigação.
Cheiro de alma vencida
Que perdeu a redenção.
Diziam que Ó-Férlia andava
Sem bênção e sem contrato,
Que onde ela respirava
O céu virava ao contrário.
Anjo perdia as asas,
Santo virava relicário.
Ela tinha seu exército
Feito de fé que caiu,
Gente que rezou demais
E mesmo assim se partiu.
Como Brancaleone, mandava
Com poder que Deus não viu.
Quem ousou fitá-la
Dormiu sem acordar igual,
Não morreu de corpo inteiro,
Mas ficou sem sinal.
Vivo sem graça divina,
Andando no mesmo mal.
Ó-Férlia não era mulher,
Era castigo tardio,
Era o erro esquecido
Voltando feito arrepio.
Era Deus cobrando a conta
No silêncio mais frio.
E até hoje quando a rua
Fica muda em oração,
Ninguém chama seu nome
Nem pede explicação.
Pois Ó-Férlia não vem do enfermo —
Mas a falta de Deus irmão.
Não foi fome nem foi guerra
Que fez Ó-Férlia cair,
Foi o fogo da luxúria
Que ninguém quis extinguir.
Prazer virou juramento
Que não soube resistir.
Rezava com boca santa,
Mas com o corpo em perdição,
Jejuava pela manhã,
À noite quebrava o sermão.
O pecado fez morada
No altar do coração.
Diziam que Ó-Férlia ardia
Sem chama nem claridade,
Que o desejo era corrente
Arrastando a humanidade.
Onde passava, deixava
Vergonha e infidelidade.
— Lá vem Ó-Férlia — gritavam
Como aviso e confissão,
O povo corria aos quartos
Pra fugir da tentação.
Debaixo da cama o medo
Era a única oração.
O cheiro vinha primeiro,
Quente, denso, sufocado,
Não era flor nem perfume,
Era corpo profanado.
Cheiro de promessas quebradas
E prazer amaldiçoado.
Ela andava com seu exército
Feito de carne sem freio,
Almas presas ao desejo
Sem céu e sem devaneio.
Como Brancaleone, mandava
Com olhar que era um meio.
Cruz virava só madeira,
Vela apagava sozinha,
Quem encarava Ó-Férlia
Sentia a fé bem fininha.
O corpo mandava na alma
E a culpa vinha vizinha.
Quem tocou sua presença
Não morreu, mas se perdeu,
Viveu preso ao próprio corpo
Que nunca mais obedeceu.
A carne virou castigo
Que Deus não esqueceu.
Ó-Férlia não era mulher,
Era a luxúria em figura,
Era a prova viva e podre
Da falha da criatura.
Onde o desejo mandou,
Não sobrou fé nem cura.
E até hoje quando a noite
Fica quente sem razão,
O povo fecha as janelas
E aperta o coração.
Pois Ó-Férlia ainda anda
Punindo a carne em perdição.
Não foi faca nem foi bala
Que fez Ó-Férlia se perder,
Foi o gosto do dinheiro
Que não cansava de crescer.
Cobrar dor virou costume,
Emprestar pra ver sofrer.
Começou com poucos juros,
Um favor, um “Deus lhe pague”,
Mas o ouro foi criando
Dente, garra e ferroagem.
Cada moeda cobrada
Mais padres-nossos não agem.
Rezava com a mão direita
Enquanto a esquerda contava,
Prometia prazo curto
Que jamais respeitava.
A fé virava contrato
Que só ela assinava.
— Lá vem Ó-Férlia — gritavam
Quando a noite se fechava,
Quem devia se escondia,
Quem devia se enterrava.
Debaixo da cama o medo
Era a dívida que ficava.
O cheiro vinha primeiro,
De ferro, mofo e caixão,
Cheiro de moeda antiga
Misturada com aflição.
Era o fedor da miséria
Virando condenação.
Diziam que Ó-Férlia andava
Com livro invisível na mão,
Anotando cada débito
Da carne e do coração.
Não perdoava atraso
Nem aceitava oração.
Seu exército era feito
De almas penhoradas,
Gente que vendeu o dia,
A noite e as madrugadas.
Como Brancaleone, mandava
Com promissórias cobradas.
Cruz virava só madeira,
Santo desviava o olhar,
Pois Deus não entra em casa
Onde o lucro manda rezar.
Quem encarava Ó-Férlia
Sentia a fé penhorar.
Quem caiu na sua rede
Não morreu, mas definhou,
Trabalhou sem colher fruto,
Rezou e nada adiantou.
A dívida passou pros filhos
E o tempo nunca quitou.
Ó-Férlia não era mulher,
Era a usura em castigo,
Era o dinheiro cobrando
Juros até do abrigo.
Onde ela punha o passo
Nem Deus ficava consigo.
E até hoje quando a rua
Fica muda ao entardecer,
O povo conta as moedas
Com medo de anoitecer.
Pois Ó-Férlia ainda cobra
O que ninguém pode devolver.
Ó-Férlia fez a promessa
Com a mão sobre o dinheiro:
— Se eu enriquecer ligeiro,
Vou a Juazeiro inteiro,
De joelhos, pela estrada,
Aos pés do Padre Romeiro.
Padre Cícero escutou,
O céu ficou de vigia,
Mas quando o lucro cresceu
A fé dela encolhia.
O juro virou caminho
Que a promessa não seguia.
Emprestava com veneno
Chamado necessidade,
Cobrava dor por atraso
Sem sombra de caridade.
Cada moeda era um passo
Que ela negava à santidade.
— Lá vem Ó-Férlia — gritavam
Quando a conta ia vencer,
Não era gente chegando,
Era a dívida a descer.
Quem devia se escondia
Sem ter como se benzer.
Juazeiro ficou longe,
O joelho nunca tocou
O chão quente da promessa
Que o orgulho atravessou.
O dinheiro virou santo
Que Ó-Férlia idolatrou.
Diziam que numa noite
O castigo se assinou:
O chão chamou por seus joelhos,
Mas ela nunca chegou.
A estrada veio sozinha
Buscar quem não caminhou.
Desde então Ó-Férlia anda
Arrastando penitência,
O joelho nunca sangra,
Mas sangra a consciência.
Onde passa cobra dívida
Com cheiro de decadência.
O cheiro vem de promessa
Que apodreceu na intenção,
De reza feita em interesse,
Fé usada em barganhação.
É o fedor do juramento
Que apanhou maldição.
E até hoje quando a noite
Fica quente sem razão,
O povo escuta um arrasto
Vindo da escuridão.
Não são passos indo à fé —
É Ó-Férlia pagando a promessa
Sem nunca chegar ao chão.
Cruz cai da parede torta,
Vela chora sem perdão,
Padre reza e sente o peso
Da promessa em negação.
Pois Deus cobra o que é Dele
Sem juros, mas com correção.
Ó-Férlia não é mulher,
É promessa em rebeldia,
É joelho que não dobrou
Pagando na eternidade o dia.
Quem promete a Juazeiro
Não negocia com a romaria.
Seu exército é de devedores
Que morreram sem quitar,
Almas presas em carnê
Que nem reza pode fastar.
Como Brancaleone, manda
Sem precisar ameaçar.
114. NHONHÔ, SINHÔ, IÔ, NONÔ, NHÔ, IOIÔ
Cativo, O-Pai-de-Ceuto foi vendido do curtume da viúva Custódia ao Malê. Este entregou um carro de tração humana com o qual O-Pai-de-Ceuto trabalhava na cidade e ajudava Malê a acumular moedas, que circulavam na barbearia do barbeiro Malê. A viúva ensinou que homem era nhô e poderia ser nhonhô, nonô, iô, ioiô e até sinhô; mulher era iaiá ou iá, nhanhá, sinha ou sinhá e ainda até de nha.
O-Pai-de-Ceuto seguiu a pé, acorrentado. Foi puxado por um carro de boi ao município Diacrônico, longe da ilha Xaxanã.
115. ALUGA-SE AMA
Malê alugava o cativo O-Pai-de-Ceuto e dele sugava até os menores dos seus ossinhos, obrigando-o a serviços gerais; e com ele às vezes seguia uma cativa ama de leite que lavava, passava e chuleava. Malê exibia a sua escritura: “...Saibam quantos este público instrumento de alforria e de liberdade virem que no ano de nascimento de nosso Senhor Salvador...”. Há alguns anos, Malê comprou a sua alforria. As guerras, os escravizados nus e as lembranças do breu no porão do navio que navegava o Mar Tenebroso não se perdiam no esquecimento de Malê, elas reapareciam na memória que teimava em renascê-los. O sono, que o medo não deixava rir, os maus-tratos, a ração jogada pela apertada abertura na escotilha, a morte entre mijo, fezes, estupro, a viagem por semanas na esfinge de Babel, a carga humana se distanciava das casas em Rebola, Congo, Monjolo, Mina, Benguela, Cabinda, Quilda, Angola. O comércio oferecido às ruas caladas, estreitas de povoados em lugares distantes e cobertos de poeira, arraiais vivendo de extrativismo, vilas orgulhosas, cidades, províncias nas três Américas irmãs quais as filhas de Lear.
116. ASSEMBLEIA DE CONDUTORES DE RIQUIXÁ
Câmeras acompanhavam catadores que varavam noites empurrando um carrinho de supermercado de rua em rua com as mãos em latões de lixo. Tiravam o lixo de uma rua e levavam à outra. À noite inteira nessa transação; trânsito que só se encerrava na manhã do dia seguinte, quando os condutores de riquixá iam de rua em rua. O-Pai-de-Ceuto, entre a Praça da Assembleia e a Praça da Liberdade, cercava-se. Ele viu como foram mortos os seus “amigos” Fur e Par. Ali, disse às sandálias em pandarecos, tava Mãemagra, condutor de riquixá importante. Foi Mãemagra quem me ensinou tudo o que eu sei. Adiante, O-Pai-de-Ceuto viu Pacruz, irmão de Mãemagra. Ergueu o braço em direção a Pacruz, fez um gesto de reverência, mas não lhe foi retribuído; envergonhado, guardou o gesto dos outros condutores de riquixá na assembleia. Quando disfarçou a vergonha que passou com o braço levantado em respeito a Pacruz, pediu um cigarro ao amigo Peitim, que o foi negado. O-Pai-de-Ceuto perguntou a Fófu se tinha cachaça. O-Pai-de-Ceuto dizia em casa estar entre os amigos. Todos eram velhos “amigos”, quase parentes. Não demorou, riu O-Pai-de-Ceuto, sem saber do que ria, com o cunhado Frutruco, com outro riquixá de cócoras chamado Piá, saiu Piá ao ver O-Pai-de-Ceuto puxar converssa:
– Ontem à tarde, Vossas Mercês acaso não viram? Huum...! Vossemecês não sabiam, é? Aah...! Vosmecês não viram, ãh? Vancês não viram, uh? E vocês viram? Ó ocês não viram nada, nada? Cês viram o ônibus que espremeu nossos “amigos” Fur e Par até eles botarem os bofes pra fora? Ês tinham certeza de que não foi de nada o nada mesmo, mermo, memo?
117. AÇOITADO
O juiz de fora decidiu a punição ao mestre-escola pela materialidade das provas, e não pelo marco do Romantismo na Europa.
– Não, não, não. Era essa vida só parte pequena daquela? Nunca, nunca soube quantas vidas precisavam ser vividas, disse o algoz ao açoitar, pra que a vida fosse de fato bebida de gole em gole.
Pou! pum! tum! pou! plaft! ploc! Escorriam grossas tiras de sangue e suor. Costas latanhadas. O mestre-escola amarrado ao pelourinho. O algoz agitava o forte braço, que se alongava com o chicote, sobre o lombo nu. Pof! plaft!
– A sentença ao mestre-escola era consequência do tempo desmontável, disse o algoz por ordem do juiz de fora em sua fundamentação. Filho caçula da Dona MalWadeza, a famigerada Mão de Prata, que esnobava de todos em casa, na rua, no bairro, na cidade, no mundo.
Afinal, acaso quem não temia a Dona MalWadeza, Mão de Prata? Quem não temia, afinal, a Dona MalWadeza, Mão de Prata, já morreu. O mestre-escola nas correntes.
– Como gostava de castigar o mestre-escola!
Pof! plaft! Ele era descascado pelos açoites do algoz de aluguel usando o chicote e a língua ao desferir pancadas. Era pou! pum! tum! pou! plaft! ploc! Teria o algoz sido aluno do mestre-escola? E, na praça de redonda forma com três degraus construídos com tijolos e pedras, o mestre-escola recebia o vaivém do chicote. Amarrado o mestre-escola a um tronco com dez palmos de altura e três argolas de ferro encravadas. Preso à esfera de arco. Ao tronco foi esquecido o mestre-escola sem calças. Deixaram públicas as suas partes. Era um suplício de dez pernas, confeccionado com bimba de boi. Deitavam-se e levantavam-se açoites ao mestre-escola. A carne do mestre retalhada. Toda a cidade encontrava-se na praça central a admirar. O-Pai-de-Ceuto viu. Antes, O-Pai-de-Ceuto bateu papo com “amigos” condutores de riquixá; no trajeto de casa, coçou um carrapato que lhe roubava sangue; encheu a boca de cachaça, cuspiu no vampirinho medonho e terrível; mastigou fumo, pôs nele a pasta e viu o vampirinho medonho e terrível lutar com as suas forças; foi com jeito que O-Pai-de-Ceuto, unhas-de-cava-chão, libertou-se sem deixar uma das partes do vampirinho medonho e terrível presa à sua carne. Três dias sem sentar a planta do pé no chão. A cama do carrapato necrosou. O pé ficou um pão. A pena, disse o algoz em sua atividade, era o mal justo contraposto ao injusto no crime representado. O-Pai-de-Ceuto interrompido pelo castigo que sofria o mestre-escola. Parou o seu riquixá diante das palavras proferidas pelo algoz. Viu o suplício. Cada açoitada arrancava uma vírgula, um ponto final no lombo do mestre-escola. Demonstrou O-Pai-de-Ceuto o estranho jeito de picar a mula, todavia foi empurrado cara a cara com a coincidência em um tempo perdido e não achado, e se viu, ao dobrar a esquina da Igreja de São Cristóvão, diante do quadro em cores vivas que expunha pesadas e severas pancadas seguidas por choro de gente grande acompanhada por demorados urros, impertinentes rogos de clemência e barulhento ranger de dentes. Reconheceu-se O-Pai-de-Ceuto. Ele era mestre-escola? Este foi casado com Custódia, de quem foi cativo desde cedo. Rápidas corriam sobre as pedras da rua as dores do século, e elas estavam apenas no início do fim dessa novela. Na janela via-se toda a praça, os saguis de galho em galho. Lia o juiz de fora, que não se baseava em romances epistolares nem em compadrios – pois aprendeu a ser poeta romântico, chorou baldes de palavras lidas em seu universo subjetivo "Die Leiden des jungen Werthers" e o imaginário objetivo iluminou-se diante das páginas "Os Sofrimentos do jovem Werther."
(...)
Eraudo comentou com Ceuto:
– Um dia, em um programa de TV, um neurocientista disse que o cérebro se revestiu de camadas. Eu, pessoalmente, nunca acreditei. Se fosse comparar o cérebro a uma cebola, não tinha como não comparar o tempo da escola e o lugar no qual ela se encontra. Veja o caso da Escola FazRegra... Era uma novela que lograva a cavalaria.
(...)
O-Pai-de-Ceuto atravessou a rua à frente do seu riquixá, foi à outra, foi à outra, e dobrou a esquina. E se distanciou da praça na qual esteve com outros catadores. Chegou à outra praça, e à outra, e à outra; lá viu – foi como se tivesse rasgado uma das camadas de uma cebola. Ele passou as costas das mãos nos olhos. O-Pai-de-Ceuto esfregou a manga da camisa sobre os olhos. Em uma das mãos trazia uma manga roída. Mediu a manga do terreno com os olhos, estava diante da surpresa do mestre-escola outra vez, e outra vez, e outra vez, e outra vez. Por mais que O-Pai-de-Ceuto tentasse libertar-se da praça, do quadro de algum renascentista tardio, do juiz de fora, da sentença, do castigo, do algoz, do mestre-escola, outra vez, O-Pai-de-Ceuto estava diante do quadro, outra vez, e outra vez...
118. QUANDO A MULHER CEGA QUIS ESCRITORAR
E outro Ano-Novo estava na próxima esquina, e O-Pai-de-Ceuto até podia vê-lo. O-Pai-de-Ceuto passava com o riquixá diante da residência da mulher. Na parte inferior do edifício, a barbearia entregue às moscas. Vinha o riquixá puxado por tração humana. O-Pai-de-Ceuto parou em busca de um respiro. O sol ia alto. Dezembro de completo estio se aproximava de janeiro. Contava moedas o Malê na barbearia. No andar superior a mulher que queria escritorar, Quero escrever livros de lutas, Porque se todos escrevem, eu também, Traga-me lápis e papel, Quero escrever com o meu sangue, Não, Melhor, não, Quero computar a minha dor, Quero falar por meio das minhas veias abertas, Escreverei minhas mentiras e ideias que trago no ventre onde me geraram, Escreverei novas narrativas, Por quê? Se Papel escreveu O Quatorze aos 15, Eu escreveria Sessenta e Nove aos 100, com as mesmas tintas, pra mim ou é oito ou não invento, Não enxergo, Mas não sou analfabeta funcional, nem absoluta.
119. MALÊ, QUERO VÊ-LO
A cidade, lugar para a discussão política, não é praça e nem ágora; agora, melhor lugar é a barbearia; nela há participação do debate. O palavrão é terapia. Posso soltar alguns presos na consciência?
120. O CANTO DA FRIGIDEIRA
– Quando você ouviu falar no remorso sentido pela coruja ao despedaçar um rato nas garras e no bico? disse Afim, que nutria a leitura à literatura. Havia algum constrangimento do açougueiro ao matar, retalhar a carcaça, da carniça bovina fazer comércio, pôr uma manta do animal abatido no churrasco? disse Afim, que veio à novela com esta natureza. Como ele gostava de comer palavras fritas cujo cheiro subia nas conversas alheias da barbearia. Adorava o canto da frigideira, o cheiro, o calor e as palavras que saltavam no azeite quente.
121. O HOMEM DE R$ 0,25
Linda acusava o seu sedutor – homem de R$ 0,25 – com quem substituíra o marido, por tê-la contaminado com alguma doença venérea. Em lugar ermo da Liberdade. O indivíduo da sarjeta, bêbado e violento, a devolvia a acusação. Não sem lhe reclamar do fogaréu vindo na tarde quente de dezembro findo, um quase janeiro.
122. ASMÁTICOS DE DESEJOS
Quis sair de casa, descer lanços de escada, atravessar barbearia, ganhar a rua, ir aos supermercados, ficar em pontos de ônibus, ouvir o povo.
123. ASSUNTOS TRAVÉS DE REVESTRÉS
Empolgou-se O-Pai-de-Ceuto. Um barulho de superar fogos durante o Ano-Novo. O catador garimpava palavras sem pés nem cabeça.
– Forma frases ordinárias.
No pescoço, uma figa de madeira pra espantar mau-olhado. Um dente de alho.
124. FUTEBOLA
Barbearia era um ovo de cheia. A partida de futebola paira diante de olhos nervosos dos frequentadores, Não, não, não concordo, Por que, Como é burro esse... Isso não se faz, O três-cinco-dois tá superado, Será que não entende, Marca, marca; recua, recua, O quatro-quatro-dois eu não faria, Falta um homem ali, falta um ali, Cadê? O bafo do barbeiro, a torcida, o apelo por gol, as pernas-de-pau da zaga, os frangos na grande área, a rua. Dá-lhe, Bola! Esse time não tem goleiro, Dá-lhe, Bola, A equipe técnica tá na retranca, O dono do time foi comprado, Dá-lhe, Bola, Dá-lhe, Bola. Enquanto a tesoura, no ritmo há anos, Tá vendo? Ninguém ouviu o apito final. Somente a ingratidão. No meio das feras...
125. OS MOTOQUEIROS PASSAVAM, PASSAVAM CARROS
O-Pai-de-Ceuto marcou uma assembleia. Um ônibus apressado moeu os ossos de Fur e Par. A assembleia foi dissolvida. Bô preparava a feijoada; Bicuda e Bacamarte ampliavam o batuque com instrumentos improvisados: garrafas do lixão, pedaços de ferros, latões, caldeirões amassados. Por que véspera de Ano-Novo atraía tragédias? Mos pedia voto à chapa de Bolacha. Bufim, Oi, Paidoizafi influenciavam, ofereciam vantagens em nome da candidatura de oposição. Ano-Novo nem chegou e já foram espremidos Fur e Par. Boibumbá dizia-se já eleito. Seu pandeiro não parava. Os corpos de Fur e Par no asfalto quente. As vozes não paravam: Boibumbá já ganhou! Boibumbá já ganhou!
126. CHAPÉU-PANAMÁ
De um ponto longínquo, os óculos do homem de chapéu-panamá.
127. PENSE NUMA PENSÃO PENSADA E REPENSADA CUJA RESPOSTA FOI NÃO
Uma parede cega. Um corredor. Quartos ao lado anoréxicos, esquálidos: buracos espremidos. Todas as manhãs, uma fila aguardava os que queriam usar o único banheiro. Manchas escuras de fungos nas paredes. Quartos com olhos semiabertos. Um ranger de sapatos, um arrastar de chinelos. E O-Pai-de-Ceuto, vendedor itinerante de classificados de jornal, ia de Xaxanã a outras cidades. Ele saía, beijava as crianças, abraçava Linda, prometia voltar. O-Pai-de-Ceuto não poderia mais negligenciar a própria saúde. Na próxima vez, ele iria ao médico. A saúde não era das melhores. A idade já não o ajudava. Não queria mais trabalhar com as vendas de classificados. Ninguém era de ferro. Voltaria em breve. Queria ver futebola todos os dias, na TV. Eu viveria agora só de pernas pro ar!
128. VERMES
Quem disse que eram dispensáveis os vermes? O de chapéu-panamá sabia que, dentro de casa, cada um percorre estranhos caminhos.
129. O CAMINHO É D’ÁGUA E A NOITE É ESCURA
Difícil descrever como foi a vida de Linda e O-Pai-de-Ceuto. O amor entre eles nasceu ao som de estranhos instrumentos.
130. TORTURA
Nunca saía da sua cabeça. Meio-dia e O-Pai-de-Ceuto com o seu chapéu-panamá.
131. OS VEROS DO PEQUENO ABELHUDO
Não me provocasse, senão quebrava essa tua cara feia! gritou o homem de chapéu-panamá. Aprendi, pois, com velho compadre Alexandrino Escansão. Na cabeça do brocha, E o tempo envelhece, E as unhas crescem, O seu pinto amolece, E a sua mulher é só, Uma figura na parede, Esguia uma lagartixa, Se alimenta o tempo, De moscas e baratas, E na vidraça estala-se, A cauda do vertebrado, Por mais que esbraveje, Brocha não tem cajado, Logo deixa de pacotilha, Logo nada mais adianta, Tentar na concha da mão, Acalentar o seu pássaro, Seu fim será usar crachá, Quem tem um sexo morto, Não existe outro caminho, Desista de ir ao mundo dar o troco, Tudo o que se faz é pouco, Acalenta o acalentado, sonha com os seus guardados, Toca no sumiço do quarto, Fim da TV e do rádio, O teatro está marcado, O mercado fecha as portas, E agora mais nada importa, Por que não viveu o não vivido, Por que deixou o tempo passar...
132. O HOM&CIDA
Debaixo dos olhos ou do braço, dado a leituras de jornais, o hom&cida de chapéu-panamá vê-se sempre com um desses jornalecos de banca, lendo-o.
133. NO LOTAÇÃO
Não saía da cabeça do homem de chapéu-panamá:
– Xaxanã tá cheia de clausídicos clausidicando o clausidicável.
134. ESPETÁCULO
– Será que o povo vai às compras?
– Mas o Natal já passou.
– Mas o Ano-Novo não.
135. ENEIDA PEDIU O LATIM DE SEU VIRGÍLIO
Em dado tempo, “a arma virou o cano.”
– Não falei! disse o homem de chapéu-panamá.
136. PLACEBO
A-Mãe-de-Ceuto avançava sobre O-Pai-de-Ceuto com uma colher de pau. Machucava-o, pois no Natal não recebeu sequer beijo, uma boa-noite de carinho, um cheiro em lugares cujos feromônios afloram fáceis. Ela carregava a mão no sal, mesmo ele sendo renal. Os níveis de creatinina lá em cima. Provocava-lhe o aumento do mal-estar sem dó. Quando eu morrer, ele disse-lhe, você pode até cobrir as sobras num trapo e jogar terra em cima. Nesta casa, disse O-Pai-de-Ceuto, vocês amam as suas correntes. Todos vocês são vítimas preferenciais do Conde Drácula. E sofrem do Paradoxo do Conde? Não! Sofrem do Paradoxo do Drácula.
(...)
Na frente da escola. Moi falava com Filógino:
– Lembra-se do Ivan?
– Lembro.
Na escola eram muitos os docentes de Literatura. Moi e Filógino falavam de um dos irmãos Karamazov.
– Ivan disse "se Deus não existe, tudo é permitido."
– Cê viu o preço do tomate, Filógino?
– Ninguém mais consegue pagar o aluguel, Moi.
Aquela era a hora, nas salas de aula, em que Eneias carecia do encontro com o pai Anquises.
As áreas do conhecimento comunicavam-se nos grupos virtuais da Escola FazRegra, que eram muitos:
"A exagerada concupiscência antecipa as idades que festejam Dioniso e Baco. Dionisíacos em depravação total e as bacantes como Baco gosta. Eles não se sentam à moda do figurino. Orientação, please, s'il te plaît, per favore, komm bitte, kom venligst..."
"Sansão tá se estapeando com Dalila."
Orientação:
"Boooom diiiia, pessoal. Ó gente, não se esqueça que amanhã será a Festa da Família. Participe. Traga um quilo de café, um pacote de pão; qualquer coisa serve. Não deixe de participar. A participação é pedagógica."
Supervisão:
"Ocês não têm domínio de sala? Controlem as suas feras. Parem de pedir ajuda em todas as línguas."
Em seguida, emojis de indignação. Na sequência:
"Aceito pedido de ajuda só se vier em aramaico, grego ou latim."
Uma das áreas do conhecimento:
"Au!"
Outra área:
“Uau!”
Noutra:
“Ufa!”
Na sequência, outra área:
"Elas tão fazendo piruetas. Uma no colo do outro."
Aproximava-se Psiu Dônimo na escaldante calçada de cimento da Escola FazRegra. Planejava em voz alta como aumentar o pecúlio:
– Meu pecúlio ficou pequeno. Não acreditava. Cabia na minha mão. Miúdo e triste. Somia em minha mão. Engelhou. Foi robusto, eu me lembro. Musculoso. Tornou-se nada. Coisa morta. Já foi grande e inacreditavelmente forte. Minguou. Como chegou a essa cedilha! Pobre e esquecido. Não passava duma vergonha agora entre os dedos. Era um verdadeiro morto dos ventos uivantes. Pessimista, aparentemente, sem remédio. Vou dar uma volta por cima de tudo isso, meu pecúlio. Esperasse. Não perdia por esperar. Venderei calças, bolos de morango, calda de chocolate. Anunciarei a troca de bolos por Pix. Quem não pagou, manda Pix nesse e-mail ou nesse CPF ou nesse nome. Meu pecúlio vai subir. Será fortalecido novamente.
(...)
137. CATADORES
Pretzéis de chocolate e avelã faziam-no lembrar-se dela, nua, em poses diante do espelho: ia parar de comer pretzéis, não ia? As curvas pediam cautela. A rota era um tobogã, com altos e baixos, ladeado por pinheiros nas montanhas em volta, no sobe e desce. As curvas. Os precipícios. Desenhos das montanhas lembravam pinturas de Toulouse-Lautrec. Espécie figurativa espalhada no sobe e desce do relevo. Estilo caricatural das árvores. Preso ao gigantesco, formas pictóricas do artista que pintou o interior das casas fechadas da Des Moulins. E artistas do instante: expressões nas telas “Bailarina Loïe Fuller nos bastidores”, “Mulher de luvas verdes”, “O divã”, no tapete asfáltico. Misturavam-se matizes, traços, cores, tonalidades, pretzéis de chocolate e avelã. Imagens em movimento de pretzéis.
138. BATE-PAPO
Kokorot indagou ao meio-irmão:
– Gostou?
– O-Pai-de-Ceuto perdeu o emprego como vendedor de classificados?
Linda sacodiu O-Pai-de-Ceuto. Ele despertou:
– Os meus sonhos essa noite me massacraram, Linda. Eu não encontrava em lugar nenhum meu chapéu-panamá. Me sinto nu sem o chapéu-panamá, que veio do Equador.
(...)
O patrimonialismo da coisa pública foi abafado com a automação escolar. A equipe diretiva foi tirada à força das paredes da Escola FazRegra. Foi durante anos e anos a equipe diretiva que mandou e desmandou e, sem que esperasse, saiu fumus boni iuri da lâmpada aquecida. Como se lamentava e se maldizia a equipe diretiva ao ser substituída pela automação. Argumentaram sempre que só estava na escola por diletantismo. Nunca ela precisou trabalhar. Não sejamos hipócritas, disse o sistema automatizado, só trabalha quem precisa. Se veio aqui, não fez um bom trabalho... rua! A equipe diretiva da Escola FazRegra confundia o público e o privado. Usava a equipe os recursos da escola como se fosse dela. O desejo da equipe diretiva humana era perpetuar-se no poder. E foi esta equipe diretiva humana substituída a tempo pela equipe diretiva automizada, que não ia misturar o público com o privado e vice-versa. Era o fim do nepotismo puro e do nepotismo cruzado, também chamado transverso, era o fim do nepotismo direto, como preferia a equipe diretiva humana, e o fim do nepotismo indireto, nepotismo presumido chegou ao fim com as máquinas que supervisionavam o trabalho dos funcionários na Escola FazRegra. O poder arbitrário da equipe diretiva humana chegou ao fim, neste último capítulo da novela. O poder pessoal passou a ser da máquina remota. O clientelismo foi encerrado nas salas de aula com os docentes contratados ao bel-prazer da equipe diretiva humana. Os que estavam fora do guarda-chuva da equipe humana, reclamavam da falta de impessoalidade. Essa equipe que foi dispensada pelas máquinas saiu acusada de corrupção estrutural. Parecia uma herança histórica que chegava ao fim. Mas, em algum lugar oculto, na Escola FazRegra, permanecia viva a herança patrimonialista. Eraudo e Ceuto demonstraram o resultado das sessões de bagunça, desordem e violência na escola que os contratou. Ceuto, no último dia de aula, deixou a escola decidido a abraçar o suicídio com o reconhecimento da grotesca realidade nas escolas. Eraudo também autodestruído. Era o fim da escola que se conhece. Era a perda de tudo o que sonhou ter. Escola FazRegra estava presa à tragédia prevista com o fim. Fenômeno Choveu dirigiu-se à Ação Comeu, que disse ao Estado Ser, que falou à Ocorrência Verificar, que desaguou no Desejo do Querer. Após isso, restaram ao campo semântico da escola os grunhidos que se repetiam feito praga sobre uma roça de feijão-de-corda na Teoria das Cordas. E Eraudo, que devolveu a Ceuto o calhamaço de epigramas, disse que o universo é mesmo o resultado de membranas – não a matéria, como nos quiseram fazer acreditar – que fluem por narratividades esporadicamente demonstráveis e desmontáveis. Os discursos morais, sempre eles. E os preços que me esperam nos corredores do mercado da próxima esquina, aqui perto de casa? Meu pai morreu depois dos 80. Oitenta anos fazia uma vida derreter. Ele disse que era só imprimir ilusões e enganar o corpo. Enganou? Derreteu feito açúcar na xícara de café. Ceuto não conseguia dormir em razão das demandas na Escola FazRegra desde as férias do primeiro semestre. Realidade pra quê? ele ouviu. Quem poderia ter falado se Ceuto estava só? Simplifique! sugeriu aquela mesma voz ouvida anteriormente. O sono ocupava a vigília sem a consciência perceber. Ceuto entendeu isso muito cedo. Nunca lhe adiantou provocar o sono por qualquer meio, e ele evitava os fármacos ou química, até chá. O sono aparecia ao ter vontade de aparecer e, Ceuto sabia, sumia do corpo no momento em que entendia o corpo saciado de sono. Ceuto só entendia que estava dormindo quando acordava. Não ficava na cama, não olhava o teto, não se deixava iludir. Levantava-se. Pronto. Apareceu diante de Ceuto a aceleração dos memes. Terá sido o abraço e o aperto embaixo recebidos de Cida? Não. Talvez o que sobrou da ceia de Natal? Também não. Foi aquele filme. Foi. Tenho certeza. Ceuto vivia só desde as mortes de Linda e O-Pai-de-Ceuto. Não sei. O que faço agora da minha vida? Um recorte social de banalidades. Memeficação como roteiro. Aquela luz azul na cara e o indicador deslizando na tela com a salivação canina diante da televisão de cachorro. A prudência foi pro ar, Sr. Ceuto? disse Entrevista. Não lhe admito, não lhe admiro, Sra. Entrevista. Errar se erra no errário, porque sou humana e humanitária, senhor professor da prestigiada Escola FazRegra. Antes de acordar, Ceuto ainda divisou a dúvida que lhe insistiu em trajes de liquidificador. Como eram deliciosas as fofocas de jornais. Disse-me o Dissemedisse ao dizer o que se disse? Disse. Não fazia outra coisa o Dissemedisse a não ser o que disse, quando não se disse. E o disse de Dissemedisse, que se iniciou na sala de aula de Moi, tomou dimensões épicas; furou a sala de aula, atravessou as paredes móveis de néon, ganhou o pátio, venceu os portões de ferro, ganhou as ruas de Xaxanã. Era sempre lenga-lenga o que se esperava de Dissemedisse, porque Dissemedisse não agia senão com Hipocrisia. Dissemedisse, desempregada há duas décadas, voltou esse ano à escola por vingança, veio atrás de dinheiro e de um pastel de vento. Era de se esperar? Dissemedisse e Hipocrisia viralizaram! disse Ceuto a Eraudo. E fomos testemunhas oculares, auditivas, auriculares, sensitivas. Não lhe restou outro modelo de sobrevivência nesse ramo da venda de papeluchos, Ceuto, senão baixa definitiva às atividades humanas. Com a mudança do clima, todas as espécies reagiram. Uma praga em cada canto. As vozes perderam a força. O horizonte tornou-se um sinal de pontuação. O nosso sol ameaça, uma ameaça Dissemedisse e Hipocrisia escondia-se atrás de "senhor, Sr. Ceuto, me queria me ensinar-me a escrever a profissão que abracei numa fofoca gostosa de tão boa e saborosa!" Pena. Essa coisa bateu asas e voou sobre o motor. Se permitir que o rastejante possa voar, o que será do passarinho? Não esmague o carrapato. Você não pode trazer carrapatos ao seu travesseiro. Deixe esse bicho peçonhento num vidro com álcool 70 graus bem lacrado e o exponha em seu podcast, influenciadores. Já passou, já passou, já, já. Foi o disco-voador que se foi, nunca se soube se voltou, como saber, tomasse um chá ou esse xarope feito de folhas de amargosa. A turma bicuda com os aparelhinhos entre os polegares fora tão facilmente abduzida por imagens coloridas, rápidas e uma música falsa que foi fabricada como uma outra peça da máquina, que despertava a saudade do que não se viveu porque nunca existiu. Ceuto abriu os olhos, não estava na reunião pegajosa, mas na cama de colchão de molas onde brincava. Pulava com os 14 irmãos. Crianças. Entre o Natal e o Ano-Novo. Todos felizes. Ceuto ouvia a voz da mãe Linda que chegava de longe, no quintal sob o ipê roxo. Ele diante dos presentes deixados na árvore na sala escura cujas luzes coloridas apagavam-se, acendiam-se, apagavam-se, acendiam-se como uma representatividade da vida, que morria e ressuscitava, morria e ressuscitava, que voltava nos olhos de uma criança, no sorriso de outra, no agir, como foi observado por Sinérese. Na escola, alguém disse que Ceuto fez Letras por causa de Sinérese. Como era bela a juventude dela! disse à época Direrrepilo. Sinérese foi a primeira e única a preencher os sentimentos de Ceuto. Nenhum amor foi mais amor. Sinérese reagia à atração da gravidade em Ceuto, pois do jeito que Sinérese subiu os degraus do altar, na igreja defronte à padaria, com força nas pernas que segurava a gravidez, desceu, fugiu, abandonou Ceuto no altar. Nunca Ceuto foi o mesmo após a experiência do abandono de Sinérese. Me recuso a ser outro parnasiano tardio! disse, e bateu forte na crônica publicada no jornalzinho. Não serei nenhum Ícaro desses que publicam em bloguezinhos, nenhum Dédalo. Ceuto recusava-se a negar vontade por mais forte que fosse. Demonstrava, na avaliação de Eraudo, que a mediocridade em sua época o sugava, e o trabalho intelectual seria reconhecido na posteridade. Eraudo sabia ser impossível, porque a posteridade acabar-se-ia na próxima esquina entre a padaria e a igreja na qual Ceuto foi abandonado no altar. Era só um clique que lhe fazia sentir mais chique, clique de novo e descobrisse como era ficar acima do povo, clicasse mais vezes e encontraria a lâmpada de Aladim, outra vez e agora rei, e dominava tudo o que tocasse o Midas do cabelo à ponta das botas, um Alexandrino Escansão. Clicasse sem preguiça, clicasse com paixão, era fácil, ao alcance das mãos, visse o paraíso, a imortalidade. Tocasse o aboio de novo, revelasse, pulasse do anonimato à vida fausta do velho Fausto com Mefistófeles e passasse a ser amado, Ceuto, amado por Sinérese. Clicasse mais, mais, mais. Era o retorno da Era do Bronze, Eraudo? Avistava-se o “se” como pronome, quando o “se” também era partícula, Eraudo, pois a matemática não alcançava a linguística que ensinava a norma pela função sintática. O “se” era camaleônico, Eraudo. A máquina agora governava a escola a distância em outra linguagem. O “se” às vezes surgia qual partícula apassivadora, na Escola FazRegra sob a supervisão dos algoritmos. Isso não parecia fácil de entender, Eraudo? O sujeito era quase sempre indeterminado. E o “se” não era uma conjunção, Ceuto? Era. Mas também um pronome reflexivo às vezes. Ou um pronome recíproco? Sim. Talvez o “se” aparecesse apenas para que um verbo na verba sobrevivesse. É a chegada do luto à escola, Eraudo? Era Aquiles que estava vindo com aqueles. Era a chegada de Aquiles com aqueles. Aquiles trouxe a disponibilidade em tempo real nas diferentes partes do mundo de dados, e estas partes transitavam, elas eram transferidas instantaneamente. A cada semana, Eraudo, Aquiles com aqueles avançavam, avançavam. Aquiles com aqueles antecipavam-se com as perguntas em qualquer área. Aquiles com aqueles experimentaram o doçamargo das atividades pedagógicas automizadas na Era do Grotesco com o seu coração de batata-doce. Decididos, Ceuto e Eraudo selaram o juramento de encontrar o assassino e salvar a escola com – se fosse possível – a recuperação do interesse dos alunos pelo conhecimento. Era Ano-Novo outra vez. A profissão de Ceuto e Eraudo regenciada por tropeços e repetidas incertezas. Restou-lhes mergulhar o sacralizante em águas salgadas. Independente se FazRegra fosse governada por máquinas. E, no trajeto dos corredores de paredes dobráveis de néon indo de mão em mão, eles concluíram que o assassino não era o culpado pela morte do conhecimento. Ambos foram convencidos pela Senhora Decepção. Cegaram-se. E os dois saíram tateando. Alcançaram os portões principais. Ceuto e Eraudo reconheceram a rua no ruído. Ignorando-os, alunos mimetizavam com memes.
ANO-NOVO OUTRA VEZ
ContosMarcello Ricardo Almeida 28/12/2025 - 23h 21min
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