ERA OUTRA NOITE DE NATAL

Contos

Marcello Ricardo Almeida

Alunas e alunos corriam e os abraçavam. Diante do quadro, eles ficaram cada vez mais constrangidos. Afetos foram tão intensos, que avançaram sobre as luzes que formavam Era Uma Vez Outro Natal.
Escabrosa Zerada disse ao Mortandela:
– Não é não, sim é sim, João é João e Joaquim é Joaquim.
Mortandela Diastrático, primo de Escabrosa Zerada, vinha de um grupo social diferente da prima, que foi alfabetizada na idade certa. Mortandela viveu mais da metade da vida em Diatópica, região distante da região de Escabrosa.
– Por que não é não, sim é sim, João é João e Joaquim é Joaquim? disse.
Ambos eram de Fenômeno Fonético. Defendiam que no último verso valia cada um mais triunfante ao invés de além de tudo o que há. Mortandela nasceu em Nasalização, e viveu por anos num lugar conhecido como capital assimilação regressiva do traço nasal.
Escabrosa Zerada recebeu Mortandela de braços abertos, grande sorriso que iluminou toda a Escola FazRegra:
– Você mora neste velho coração aqui, primo, e não paga aluguel, condomínio, IPTU, água, luz, nem Internet...
Abraçaram-se efusivamente, afinal, disse, era véspera de Natal e logo um outro Ano-Novo. Uns ficavam, outros saíam; havia quem desistisse no caminho; muitos encontravam nos corredores das paredes dobráveis de néon fantasmas dos que passaram em anos anteriores. Escabrosa e Mortandela se foram pelas paredes dobráveis de néon. Ceuto e Eraudo dispensados, e crianças os abraçaram e choraram quando eles se foram. Ceuto e Eraudo cercados por adolescentes, pré-adolescentes e crianças dos anos iniciais que não os largam tampouco o choro, enquanto alunos dos anos finais gritavam os seus nomes. Mas FazRegra concluía a automação e não eram necessários professores que não fossem do time dos algoritmos. Os alunos arremessaram em Ceuto flores-fantasmas, sobre Eraudo pêssegos-rosadas com tons de laranja claro, toques de branco. Naquela tarde na qual FazRegra ficou vestida de noiva e celebrou o fim do ano letivo e a conclusão da etapa escolar dos alunos, as famílias acompanhavam pela tela do celular, interagiam com emojis. Ceuto leu no sistema informatizado que dirigia a FazRegra, que ele não fazia mais parte do quadro de funcionários; e caminhou pelos corredores de paredes dobráveis de néon; viu de longe a vida profissional por um fio; e desenvolveu no trajeto uns cinco personagens diferentes. Eraudo, em idêntica situação de Ceuto – por ser aquele, na avaliação que FazRegra fazia a cada ano do desempenho desde o dia em que decidiu informatizar-se – criava outros cinco. Seguiram. Cada qual foi empurrado ao seu próprio destino. Eraudo com as cinco personagens. Ceuto idem. Nos corredores afora, presos à criação de personagens:
–  Por que você acha que o porquê tem que ser por quê?
–  Isso não se faz nem com uma pulga!
–  Você viu como aquele cachorro tá elegante?
–  Ora, não me faça rir!
– Como alguém pode ser tão ridículo?
Por sua vez, Eraudo:
–  Isso é servidão voluntária?
–  Dobra, triplica... sem salário.
–  Crise do custo de vida.
–  Apoplexia.
–  Se correr, o bicho deixa; se ficar, o bicho dorme.
Ceuto:
–  Dormindo ou acordado, a riqueza vem incessantemente.
–  Fim da autonomia?
–  Lucro. Mercado. Lucro. Mercado. Lucro me queria. E mercado não me quis. Lucro me queria. Mercado não me queria.
–  A metade das escolas fechadas.
–  Até quando o Sol vai nascer na nascente do Nascente?
Eraudo:
–  Até sempre.
–  A informatização na escola veio pra ocupar os desocupados.
–  Não abrirão mais mão nem mamão, depois que o resultado da PND foi um verdadeiro hecatombe de V e F. E o que é hecatombe, meu deus antigo! Por que o F superou o V? Não. Ou seria o contrário?
–  Os pássaros estão fugindo da cidade. E as abelhas também?
–  Vá se acostumando, vá se acostumando. Essa é a nossa nova ordem educacional.
Ceuto:
–  Como assim, gente! O Sol não devia nascer no Nascente, e nem devia nascer no Levante.
– Não sabia? Ah, isso eu já sabia!
–  Como vai a sua mãe?
–  Não vejo a outra metade desde o ano passado.
–  Vai ser preservada? Duvido. Aliás, a dúvida é o que trago sempre nos bolsos.
Eraudo:
–  Quem disse?
–  Não. Inadmissível. Não. Não posso aceitar.
–  A outra metade seguirá a mesma missão da outra metade? disse ao ali no ponto de ônibus. Ao sentar-se, ele tirou da mochila que trazia os epigramas.
93. OS MOTIVOS SÃO N
– Pressionada?
– É.
– Pressionada por quem?
– Por ninguém.
– Ninguém teve culpa.
– Não tô dizendo que alguém teve. Um dia, a pessoa se levanta querendo morrer. Compreende? Antes tivesse morrido! E foi o que aconteceu lá em casa. Pode acontecer com qualquer. Pai nenhum merece levar um sabão do delegado porque um filho resolve matar-se.
– Não fabrique minhas palavras.
– Dê isto por acabado, doutor. Não pode indiciar o meu cliente.
– Doutor, o advogado acompanha sem interferir. Quem falou em indiciar? Deixe o depoente concluir.
– Foi só isso, seu delegado. A arma encontrada no local foi um descuido do meu menino, que chegou tarde, cansado do trabalho, adormeceu na frente da TV e acordou sem saber onde estava. No café da manhã, encontrou a arma na mesa da cozinha. A arma que o sobrinho Inefável atirou em si mesmo. Depois, o senhor havia de convir que esse ano, delegado, estava chegando ao fim.
– Cálculos de balística demonstraram os fatos.
– Doutor, por favor, doutor, espere a sua vez no tribunal do júri.
– Tribunal do júri?!
– Senhores, por favor. A minha senhora nunca, nunca nesta vida, nunca pegou sequer numa arma. Via armas nos filmes. Mas uma coisa não era a mesma coisa que aquela coisa era. Ou era? A verdade brilha igual espelho no lixo em dia de sol, doutor. Excelência. Ela é religiosa e tímida, nunca levantou o olho pra olhar. Uma cristã. Uma filha da ordem e da ética, doutor? Me poupe! Não julgue de maneira açodada, delegado. Sonhava com uma vida monástica. Isto poderá ser comprovado no Convento de Boitatá, delegado, aquele das irmãs atrás da igreja do Coração de São Judas, delegado. Único defeito era ficar horas trancada no quarto. Rezava, delegado. Os joelhos em carne viva, delegado. Doutor... Ó doutor! Minhas intuições nunca me falham. Se sonho com porcos ou açúcar, sei que terei sorte, delegado. Naquela noite, o pouco que dormi, sonhei com dente quebrado, com pé machucado, com destruição. Ouviu, delegado? Deixe Linda falar. Fale, Linda. O-Pai-de-Ceuto vai precisar ser ouvido, delegado? Não sei se será necessário, doutor. Fale, Linda, fala tudo o que o seu coração quiser. Linda, não sonegue nada ao delegado. Eu não sou o delegado, doutor; eu sou escrivão, doutor. Ó desculpe! Não se sinta culpado, doutor. Linda não é culpada. A minha constituinte não tem culpa nenhuma em cartório. Não era guria birrenta. Um doce de menina. Linda? Uma menina calma. Moça virgem. Nunca soube o que é sexo, porque nós cuidamos. Ouviu, delegado, o depoimento dele? O-Pai-de-Ceuto é o que sabe tudo sobre todos. Nem novela Linda via, delegado.
94. O-PAI-DE-CEUTO NA TERRA DOS RIQUIXÁS
Abrem-se as portas da cidade de Xaxanã. Nesta ilha cheia de prédios e praias, Ceuto caminhava no calçadão; via os maratonistas correrem e os ciclistas caírem. Os fumantes fazem poses à espera dos ônibus. Os táxis parados. O metrô girava em torno da ilha e passava no centro de hora em hora. O mercado público era repleto de peixes e moscas. As feiras de rua tomavam as passagens estreitas e, no final de cada uma delas, havia uma igreja do século XVII. Linda tomada de preocupações cada vez que Ceuto demorava a chegar do trabalho na Loja Fotocopiadora de Inefável. Esse menino por que não chegou? Vá dormir, Linda! disse O-Pai-de-Ceuto. Linda acendia outro puro. Amor de coração mole perde o sono fácil! Coração é terra onde não se anda a pé nem sentado. Julgue, julgue. Não julgue o outro por sino. Concluído o trabalho, O-Pai-de-Ceuto tirava os sapatos, sentava-se na cadeira do papai, lia o telejornal, jantava, voltava à poltrona, cochilava, caía no ronco e acordara com Linda puxando-o pela perna. Vá dormir na cama. Pela primeira vez, naquela noite, O-Pai-de-Ceuto não conseguira dormir com tranquilidade. Ouvia barulho, os ônibus roncavam até tarde, balançando a rua. A rua era uma rumba à Célia Cruz. A tia cega não parava: Corte. Ó! Corte o cabelo. Teu pai vai passar a faca. Tia Ítaca, o que vem fazer aqui, tia Ítaca? Mulher cega e arrodeada de livros, revistas e jornais. Volta pros livros, tia Ítaca. O tempo do Brasil escravocrata, dos escravizados sem pai nem mãe. O-Pai-de-Ceuto acostumou-se a dormir embalado com a música Love Theme from the godfather; às vezes, enquanto frita coxinhas, Linda cantava Speak softly love, embora O-Pai-de-Ceuto preferisse Conversa de Botequim, porque Noel Rosa era mais a sua cara sem queixo. A minha tia cega. Tia Ítaca ficou cega depois que ouviu uma voz de longe. Ou leu até cegar? Eu, agora, não sei. Deverei saber depois. A minha tia morta. Minha tia de 1888. Viveu um tempo fantástico por uns 150 anos com os cães. O-Pai-de-Ceuto consulta o travesseiro, os ônibus roncavam. A rua é uma rumba à Célia Cruz. O-Pai-de-Ceuto, por fim, põe os pés na Terra dos Riquixás.
95. O RATO QUE ROEU A ROUPA DO REI COMEDOR DE ROMÃ
Um roedor saiu da toca dentro duma caixa de sapatos. Com fome. Rápido. Parou, andou, correu, espreitou, fuçou, cavou, correu. Como se fugisse de uma histeria coletiva.
96. O-PAI-DE-CEUTO DEFENDIA A VIDA COM UM RIQUIXÁ
Passou O-Pai-de-Ceuto com o riquixá vazio. Espremido entre os arranha-céus no centro de Xaxanã. A cidade ficou diferente depois de tudo. Como foi que a cidade do dia para a noite perdeu as cores? Correu um rato por esgotos, e saiu no vaso sanitário de um prédio vazio. O rato viu a máquina na mão do barbeiro automatizado. Era um rato sambudo. Ligeiro. Cheirava. Corria. Voltava a cheirar. Corria. Voltava. Os bigodes acesos. Debaixo do sol de Xaxanã, O-Pai-de-Ceuto era chamado de burro sem rabo. Deixou de ser vendedor de classificados. Saiu da casa do sogro. Linda não o queria. Ele agora puxava uma velha carroça cheia de coisas imprestáveis; coisas cujas coisas descartaram. O-Pai-de-Ceuto olhou o alto, e o céu perdeu o azul completamente; cobria Xaxanã um grafite sem graça e raríssima luz solar. Grudavam-se ao pelo de chumbo do rato pequenos detritos dos esgotos; escala com incrível habilidade a fiação da barbearia automatizada; espremia-se o bicho nas gretas. Ficava. Passava. Ia-se. Sobia. Desaparecia. O-Pai-de-Ceuto passava na barbearia com a sua carroça. No andar de cima da barbearia morava uma mulher cega arrodeada por livros, revistas, jornais e o seu gato: Vem, Mami, vem; pula, aqui, no colo da mama! disse; espalmava as mãos nas coxas e repetia o convite. O gato phynx pulava no colo ossudo. Um buldogue lambia a mão da mulher cega ao sentir-se desprezado! disse O-Pai-de-Ceuto a si. O bicho rosnava, arranhava e mijava o sofá, latia, latia, latia latia, chegava a perturbar: Vem, insuportável, suba no colo da mamãe! Gastava a mulher cega a metade da aposentadoria com um adestrador para ensiná-los coisas estranhas, como conter o nervosismo da mulher cega. O buldogue chegava a ser esponja das emoções dela.
97. BARBA E CABELO
O-Pai-de-Ceuto parou com o seu riquixá. Acesso a mulher cega contratou Senhor Alguém para ler livros, revistas, jornais? O-Pai-de-Ceuto correu os olhos na escada ao lado da barbearia, atravessavou a porta de ferro, sobiu degraus. A mulher cega em cima deixava o barbeiro louco embaixo. Batia com a bengala no chão de madeira: Leia, leia, leia. Não pare, não pare. Mais, mais. O que diz, aí, embaixo? Leia, leia, leia. Não pare, não pare. O barbeiro enfurecido, um olho no teto, outro no cliente: Barba e cabelo?
98. A MULHER CEGA
Leia, leia, leia! Não pare, não pare. Mais, mais! O que diz, aí, embaixo? Vem, Mami, pro colo da mama!
99. O BARBEIRO EM TORNO DA CADEIRA AUTOMATIZADA
O-Pai-de-Ceuto ouvia o barbeiro com um assovio fétido: Barba e cabelo? No chão se amontoavam mechas de cabelo. Cortava e cortava. Uma, duas, três. O lugar tomado por cabelo humano. O salão. O teto. O barbeiro tinha dificuldade em locomover-se entre as montanhas. E, concluído, ele tirava o guarda-pó. Ia. Voltava. Trazia um grande espelho. Fazia o espelho na frente refletir no espelho atrás da cabeça do careca, sem esquecer o assovio fétido: Ficou bom assim?
100. AS LEITURAS LEITUDAS LEITRADAS
Ria a mulher em cima da barbearia. Gargalhava garapa. Preferia histórias nas quais protagonistas morressem nas primeiras linhas. Pedia a mulher cega: Leia, leia, leia. Não pare, não pare. Mais, mais. O que diz, aí, embaixo?
101. ARRANHA-CÉUS
Amadurecido antes da estação própria, O-Pai-de-Ceuto com andar de caranguejo a ser cozido vivo em água fervente, um bêbado comum que diz monólogo em sua linguagem estranha. Mosqueando. Para. Diz o que sabe e não sabe o que diz. Continua. Defronte ao apê da mulher cega em cima da barbearia passa O-Pai-de-Ceuto seguido por uma mulher grávida e três crianças: pinturas esquálidas, esqueléticas figuras que viajam com ele quais as poesias publicadas por poetas esquálidos, esqueléticos; eram seres pintados por um cubista tardio. Retardatários. Lerdas criaturas. Vão as crianças e O-Pai-de-Ceuto envelhecido, e Linda, ainda jovem, grávida do filho número quatro. Filhos mirrados, selvagens seres que acompanham o maltrapilho casal. O-Pai-de-Ceuto à frente do riquixá. Carregado feito um cágado. Vinham caminhando pais e filhos sobre pontes, sob viadutos, passaram hiperpermercados, postos de gasolina, edifícios em obras, lojas. Lentos. Pés descalços. Inchados. Feridas nos pés. Aliviam-se em águas que emporcalham sarjetas e poças. O-Pai-de-Ceuto segue meio distraído com as novas imagens em Xaxanã. Procura o casal uma lanchonete onde revirar o lixo. As imagens todas incógnitas. As cores, as texturas, os matizes. Um toldo com propaganda de cerveja. Passa um ônibus com propaganda de bebida que toma todo o vidro traseiro. Linda, talo de capim num canto da boca, carrega um filho no bucho, outro nos quartos, um agarrado à saia. Atrasado, atrás do riquixá, outro filho arrasta um gato amarrado ao pescoço por um barbante. A turma de famintos busca lixo de lanchonete em lanchonete onde pudesse saciar-se. E vai o grupo aprisionados num deserto de vidro e concreto. Todas aquelas pernas comidas de perebas sob a indiferença dos donos, exceto por pequenas nuvens de mosquitos que acompanhavam o grupo. O-Pai-de-Ceuto, à frente dos sujos, falava sozinho perdido em três pensamentos: um errado, dois perdidos. Calça furada, fundilhos se divisavam de longe naquela avenida de carros, de prédios, de mototáxis, bicicletas, gente. Cambaleante O-Pai-de-Ceuto. Outras parelhas esmolavam sentados nas praças, nas calçadas. Arranha-céus vinham famintos, iam-se nos olhos do grupo. O gato amarrado ao pescoço, às vésperas da morte, acompanhava as exigências do menino, Bicho do demônio! O-Pai-de-Ceuto parou. Linda se foi. As crianças atrás: Traz, aqui, esse gato! bufou O-Pai-de-Ceuto; veio fedendo para acertar o pé do ouvido do filho que arrastava o animal. O menino rodou com súbita pancada vinda de cima. Caiu na sarjeta. Levantou-se tonto. Caíra de novo; sem soltar o barbante que prendia o animalzinho. Outra pancada se fechou na mão. Violento. Furioso. Tuf! E, na veemência do castigo, porque não tolerava miados, O-Pai-de-Ceuto rodou, o filho caiu. Preso em seu pulso o barbante que segurava o gato. Menino do demoio! Ajude a levantar teu pai! berrou. Depressa! Os olhos do mais velho, grandes, do tamanho da ilha. Pai e Mãe por ruas a esmo soltam grunhidos. O Pai, cabeça rapada, ferida, passa a manga no sangue. A mãe fecha a mão e vem. Abre a cabeça do menino do gato com outra pancada. Puxa o pai caído, que se desvencilha com zanga. O bêbado arrotou um azedo quente que lhe incomoda o estômago. Brutos. Revoltados. Dois ressentidos. Dirigem-se. Vão aos latões de lixo naquele oásis. Cidade engorda-se. Em cada espaço vazio há uma propaganda. Prédios em miríades, passarelas. Quase não se via a cinza que se derramava do alto. Ônibus, caminhões, táxis, motos. Pingos de gente. Ossadas cobertas de pele fuçam o lixo da lanchonete. Menino do gato: um pacote esquecido. O-Pai-de-Ceuto, num ímpeto, atirou-lhe uma carcaça de galinha comida por formigas. Deliciou-se. Enquanto distraía-se o filho, lambeu papel com restos de margarina. Criança desenganchou-se; e ali fazia as necessidades. Cego, o pai, afoita, a mãe, quatro braços a escavarem o lixo. Apaixonados. Riam. Uma menina, em trajes escolares, brinca com iPad em luta com iPod; entram outras estudantes na lanchonete onde uma mulher fofocava no MSN e se exibia. Um velho magro ao lado da mulher no laptop contava dinheiro. Outra deixou a lanchonete com o seu MP4. Na lan-house da esquina, crianças brincam com games. O filho mais velho hipnotizado com os restos de margarina no papel melado, saboreia a primeira refeição do dia. Olha o Pai. O-Pai-de-Ceuto com súbita vontade em roubá-lo ou furtar dele aquele quitute. O pacotinho esquecido na calçada lambia o papel sujo de margarina; o gato mordia a carcaça de galinha. O-Pai-de-Ceuto. Linda tísica, grávida: nunca engordaria. Ir de prédio em prédio, ela ia com os olhos. Eles foram antes juntar papéis, papelões, vidros e plásticos nos lixos, nos prédios de apartamentos, nos comércios, nas ruas. E venderam o negócio por promessas e trocados. O-Pai-de-Ceuto viajava. Ele não parava de lamber o papel com os restos. Lambuzar os dedos naquele dia festivo. Acabou a gordura, comeria o papel. Mastigava-o. Feliz com o lanche a passear duma bochecha à outra. O-Pai-de-Ceuto voltou a devorar calçadas, asfaltos, prédios ao lado de arranha-céus que não param de se reproduzir. Outra vez, a família comia as pedras da rua com passos cambaleantes. Próxima à lanchonete que assustara a fome deles, O-Pai-de-Ceuto olhava Linda grávida. Algumas vezes deixavam os filhos em monturos de velhas casas abandonadas para serem devorados por ratos, mas voltavam puxados por arrependimentos. Imaginando gritos, aranhas, baratas com desejos em fazerem estragos, alimentarem-se das canetinhas de sangue que nutrem os filhinhos. Com a cabeça os dois indicavam caminhos nas ruas de carros, ruas de semáforos, de gente. Eram os olhos quem indicavam o nascer do Sol. Bêbados os gestos. Enchia O-Pai-de-Ceuto as suas vontades. Queria vencer. Via-se preso em uma garrafa. Deitava os pés nos caminhos amplos de ruas. Lesmava no caminho bêbado. O-Pai-de-Ceuto quase não saía. Parado. Primeiro um pé, depois o outro. Um homem saíra possesso com pernas maiores que os passos, e correu da lanchonete, porque cobrava dos andarilhos a imediata devolução do lixo roubado e xingava a sujeira na calçada. O homem da lanchonete alcançou O-Pai-de-Ceuto. O-Pai-de-Ceuto envergou-se. Doídas pancadas. O-Pai-de-Ceuto gritava: Ai! disse. Ai! disse. Ai! disse. Ai! Tu acertaste no centro dos meu óvulos. Empurrado, se foi rua abaixo. Ai! Aiaiai! Pai, que falta me fezes. Em vômitos, obrigado a devolver o lixo extraído de latões fedorentos. Mulher e filhos encolhiam-se ante o trivial espetáculo. O estranho da lanchonete era Inefável, que arremessou O-Pai-de-Ceuto contra uma parede. Por pouco, O-Pai-de-Ceuto não a atravessou feito um fantasma social. O homem da lanchonete, satisfeito, deixou O-Pai-de-Ceuto numa poça de sangue, e o povo que passava ignorou os gritos de socorro.
– Lástima! disse O-Pai-de-Ceuto não sabia se corria ou ficava. Miséria!
Recuperou-se tão-só depois que voltou a cor. O-Pai-de-Ceuto juntara os filhos espalhados. Medroso. Apanhou a mulher pelos cabelos, sentada numa poça de mijo: Levanta, levanta; já passou; levanta; vem! disse. Continuaram eles a jornada do herói. As crianças não sabiam o que estava acontecendo. Mas, nem se arriscaram em olhar para trás, receosos em se transformarem em estátuas de vento. O gato era quem mais sofria em sua cadeia no pescoço a lhe furtar o oxigênio: Vem, gatinho; vem. Pedia-lhe o filho, resoluto no rastro dos aflitos pais. Eles largaram o caminho, tomaram outros. Ruas periféricas. Todos encolhidos. Os pés quase não aguentavam tanto caminho a percorrer. Luzes de carros numa linha cujas vistas não os alcançavam. Protesto de buzinas que se alternavam. Ao anoitecer, pessoas se recolhiam aos seus apartamentos como bichos que se escondiam nas tocas; outros saíam dos buracos. Daquelas cabeças sob a vigília não escapava assovio. Silêncio asmático. Os pés descalços. Caminhar eterno. Luminoso anunciava: Democratas contra o CPMF. Pernoitavam O-Pai-de-Ceuto, a mulher e as crianças onde uma marquisa lhes convidava dormir; alguns jornais, papelões: agasalhavam-se-lhes. À Jackson, se queriam fugirem da noite de intenso frio, todos protegidos sob as folhas de jornais encontradas nas portas de peixarias: os travesseiros eram de JBs, e o resto dos corpos na Folha, no Globo, no Diário. Noite inteira a acompanharem intervalos de gritos, sirenes em lugar de bichos do mato na densa cidade. Nervosismos na cidade, que se agigantam; frenagens, palavras fatiadas, apitos de ônibus, trens, metrôs. Jeito de mulher verdolenga fazia Linda descer os olhos cansados:
– E que dia é hoje, no calendário?
– O dia seguinte! Disse O-Pai-de-Ceuto.
– Do outro?
(...)
Entre aquelas paredes desmontáveis de néon de mão em mão, alunos e professores circulavam em campo minado. Saíam dali e caminhavam com os olhos vendados pela Dopamina, a mais pândega entre os pândegas na escola, em areia movediça sem saber se substitui o caldeirão de água fervente logo por fogo.
– O que eles são?
– Imitadores.
– Quem não imita, não se...
– Então, então, então!
– Afinal, quem foi que ensinou a eles a fazerem o que fazem?
– Eles avançam.
– Avançam como a Vânia avança a avenca alvoroçada.
– Não foi a caixa-preta?
– Foi a caixa. A mãe de Pandora.
– E quem filtra?
– Quem tem o poder de interromper.
– Isso é um horror psicológico, né.
Eles conseguiram eliminar os erros e preservar os acertos: melhorá-los; adotaram o darwinismo autômato na FazRegra. Os batimentos algoritmos dos bate-papos robôs, não se sabe, a pouco descobriram que seriam desligados por falhas no sistema, provocadas, entre outros fatores, por Delay. Bate-papos robôs substituíram as aulas dos professores, na Escola FazRegra. Ceuto e Eraudo foram os remanescentes nesta mudança de substituição das suas aulas por bate-papos robóticos. Vivíamos o retorno dos dinossauros. Irremediavelmente. Não era isso que esperávamos. Mas era isso que queríamos. Contraditoriamente era isso o que queríamos. Esse sistema de automação recusava ser desligado. A escola foi tomada pela automação. Os preços caíram e, vertiginosamente, foi a queda. A rotatividade na escola era a ação da incompletude. Nada ficava após o vendaval. Todo dia um professor novo sem saber o que transformar no trabalho pedagógico. A escola como eterno laboratório do caos, disse. Eraudo voltou aos paradigmas, porque ficou intrigado com o enredo no qual acompanhava O-Pai-de-Ceuto naquele incomum Mundo Somnium, onde O-Pai-de-Ceuto era catador que puxava riquixá nos bairros do coração da ilha de Xaxanã. A engenharia não pode ser desligada! disse o matemático Eraudo. Ceuto, com PhD em Linguística, ficou boquiaberto por desconhecer que isso fosse possível.
102. BATIDA
Batestaca não pararava nunca. Cada baque mais ferros no alicerce de futuro a um noivo arranha-céu. Operários caem, sobem e descem. Andaimes de bambus. Caçambas de barro, outras de areia entram e saem das construções.
Um policial afastou-se daquele sítio de mendigos:
– Muié dos óio...
Só presta patratá fato
Um oio cuida da tripa
E outo pastora o gato.
103. RATAZANA
Uma ratazana investiu contra um rato, na casa da mulher cega. Ele quis fugir, mas a ratazana o segurou. Surpreendeu-se a vítima.
O barbeiro cortava.
A mulher ouvia a leitura de um carpinteiro solitário.
A ratazana brincava com o rato.
104. O DIA DO NÃO FICA
O-Pai-de-Ceuto, sob a sombra da árvore do bem e do mal, um roncar de violoncelo, naquela manhã de dezembro. Nas costelas, ele passava as mãos e reclamava do sol nas carnes das costas quais agulhas. Era bicho bruto no topo do mirante da ilha de Xaxanã; e subiu um pouco mais, um pouco mais, um pouco mais, um pouco mais, no afã da teimosia, um pouco, um pouco mais, escalou as pedras, um pouco mais, chegou à confluência das retransmissoras de TVs.
Falecidos espigões mortos na casca. Espaços amplos dos monstrengos de concreto armado e vidro. Criaturas empedernidas desde as unhas ao cabelo. O-Pai-de-Ceuto naqueles prédios de buracos vazios e silêncios.
105. LEIA
Emaisessa 1888 existirriram no Brasivaronildas umasalmas 46 emissoGras de teRvisão. 1 961 emissoGras de radioLA, 150 revistalDOs e 1 940 jornaisES.
– Vem Mami pro colo da mama!
106. O RELÓGIO NA PAREDE DA BARBEARIA
Hipnótico relógio na barbearia em atitudes suspeitas. Batia o relógio 12 badaladas. Os ponteiros um sobre o outro. Espelhos da barbearia revelavam imagens moribundas dos clientes. Móveis de um tempo que não ia mais voltar. As cadeiras. Os utensílios. O balcão. O talco. O álcool. As escovas. Um sujeito de barba se narcisava como se quisesse atravessar a parede de espelhos. Os pentes, navalhas, sofás, revistas velhas, cabelos em tufos no chão. O assovio fétido do barbeiro. O espaço apertado, sujo. Uma escada fora do prédio dava acesso a parte superior do sobrado: o apê da mulher cega. Os consumidores à porta da barbearia fumavam, tragavam bom dia.
– Viu o jogo de ontem?
107. EM UM BECO QUALQUER
Cinza predominava na paisagem da cidade e do firmamento. Um prédio alto ao lado de outro prédio alto, uma sequência de prédios espigados. Um beco ou outro entre prédios. Zoava uma mosca feliz naquele sítio de imundície. Latões abarrotados de lixo. As pernas de um homem deitado. Bêbado. O-Pai-de-Ceuto entregue ao deus-dará. Como se nada sobre ele tivesse dono. O-Pai-de-Ceuto dormia no próprio vômito. E nem se mexia. Espremido em meio ao lixo. Uma mosca percorria o corpo molhado dele. Ia. Voltava. Subia. Vinha. Parava. Corria às pressas sobre o rosto coberto de manchas. O-Pai-de-Ceuto imóvel. Entregue às moscas.
108. A MULHER EXIGE O FIM DA LEITURA: NÔ NU NO NÓ
No apê do sobrado, a mulher cega mandou parar. Fazia indagações. Deu-lhe gosto sentir a textura dos livros. Queria conhecer o seu cheiro, formato, suas folhas, suas capas.
– Vem Mami pro colo da mama!
O gato sphynx pulou no colo ossudo. O buldogue lambeu a mão da mulher ao sentir-se desprezado, rosnou, arranhou, mijou sofá. Desesperou-se.
– Vem Mami pro colo da mama! Era hora do Sr. Fernando Pessoa: “À hora em que a estrela cai”; e também a do Sr. William Shakespeare, “Um dia desses a gente conversa”; do Sr. Edgar Allan Poe, “No olho dela tem uma lágrima de manhã”; do Sr. Eça de Queiroz, “O tombadilho”; do Sr. Machado de Assis – “Um dia a casa vai ser vendida”; do Sr. David Henry Thoreau, “Eu comprarei um quilo de sal de Mossoró”; do Sr. Daniel Defoe, “A noite está clara”; do Sr. Tolstói, “Me faça-me favor a mim eu mesmo”; do Sr. Apollinaire, “Mudanças climáticas neste dia glacial da vida de todos nós”; do Sr. Neruda, “Os carros parados na minha página de caderno”; do Sr. Molière, “Essa mulher não sai comigo vestida nesses trajes”; do Sr. Millôr, “Quando vão trocar as telhas do meu jornal”; da Sra. Florbela Espanca, “À tarde, gente, as nuvens vêm me visitar”; do Sr. Rimbaud, “Como roubar presas de elefantes”; do Sr. Woody Allan, “Acho que hoje à tarde não chove no sertão da minha rua”; do Sr. Gorki, “Pintaram o sol de azul ou foi de roxo?”; do Sr. Gonçalves Dias, “Vai nevar em meu roçado”; do Sr. Zola, “Sai do trilho senão o trem pega”; do Sr. Arthur Conan Doyle, “O espartilho da vampira banguela”; do Sr. Lima Barreto, “As ruas do Rio foram tomadas pelo rio e elas têm pedras, garranchos e peixes”; do Sr. Carlos Fuentes, “Abram os portões dos bordéis”; do Sr. Maquiavel, “Se você não se comportar, eu chamo a democracia”; do Sr. Júlio Verne, “Há moedas verdes nas águas profundas dos meus olhos?”; do Sr. Dostoiévski, “De madrugada ouvi uns gritos”; do Sr. Carlo Collodi, “Podem ler todos ao mesmo tempo.” Estes livros me trazem cheiro de quando ainda não tinha 19.
109. NO ALVO OCEANO DE AVES E ALVES
Navios no cais. Os trabalhadores ofereciam a sua força por um punhado de dólares. Os atracados com grossas cordas. Desembarcavam ratos. Desciam, nas cordas, com o cuidado necessário. Iam ratos se espalhando, iam habitar o que carecia ser habitado.
110. A LIBERTADORA
Levantou-se Custódia com cabelos por aquelas alturas e percorrera, na luz da candeia, os corredores de seu casarão, no centro da cidade, cercado por mangueiras e sombras, Fúi, que nojo! Acusa-me esta cidade de a abolicionista do desperdício. Juro por todos os cabelos do sovaco de Dona Maria, a Louca, que liberto todos desses arraiais e dessas fazendas. Mamãe, berrava O-Pai-de-Ceuto, não faça isso, mamãe!
111. OFÍCIOS DO MALÊ
Em um prédio, uma placa abana-se ao vento:
“Roupa, Sapato e Barbearia”.
Dentro. O barbeiro Malê cheio de ferramentas, peças do fazer de seus ofícios, como anunciava a placa sobre a porta da loja. De bafejo em bafejo, na língua iorubá, o velho barbeiro, que desceu jovem do barco, bafejou e reclamou da carne inflamada a escapulir da cama do dente. Na rua, pés descalços, gritava um com um tabuleiro: Quem qué mariola? Quem vai querê? Maaaaaariooooola! Ó-Pai-de-Ceuto, gritava Malê, corresse, largasse o tabuleiro e viesse antes que esse dente matasse.
Apitou um carro de boi. Cantou uns cantares. Quantos lamentos! A mesa, os furos, a canga, o ferrão, os bois, arreios, os cascos pesados no chão de terra, os fueiros no carro, o carreiro. O-Pai-de-Ceuto era um carreiro. Criou-se a nesga de prédios, fatias de lojas exíguas e, por esta nesga passou carreiro conduzindo o carro. Pés descalços subiam a Ladeira da Praça.
112. MESTRE-ESCOLA
Uma figura fosforescente atolada num chapéu, Deixem, deixem, deixem passar o mestre-escola. Não fosse a sua biografia as loucuras do mestre-escola, seriam açoitadas no bacalhau para que abrissem fendas no corpo. O nanico com interjeições, reticências e perguntas, Quem? Quem leu o Sr. Rousseau, Diderot? Leu o Sr. Danton, Marat. E a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão? O mestre-escola era o Sr. O-Pai-de-Ceuto, que vinha no embarque real, que era do alto funcionalismo português. O-Pai-de-Ceuto era um dos 15.000 que fugiram das forças napoleônicas, em 1808. O-Pai-de-Ceuto era um dos grandes amigos do Príncipe Regente, alojado onde desembarcou.
O-Pai-de-Ceuto recusou-se a seguir viagem marítima ao Rio de Janeiro. Por orientação do mestre-escola guardado em seus guardados, D. João abriu os portos às nações amigas. E as bolas do mestre não prestaram mais depois que, com a abertura, as concessões à Inglaterra humilharam o seu orgulho. O mestre-escola O-Pai-de-Ceuto não se perdoou em nenhum de seus ora vejam; além de outras pequenas vulgaridades de nulas lembranças com voz de ranhuras e andar oblíquo; desconfiava da sua própria sombra O-Pai-de-Ceuto, no Brasil profundo. Com os olhos de través sobre bolsas de gorduras no rosto velho e sulcado, de costas, perdido no tempo, O-Pai-de-Ceuto desaparecia sob vaias. E maloqueiros às portas dos armazéns diariamente. Diariamente, na cadeira do barbeiro, era o alfaiate, era o engraxate. O mestre-escola tramava revoluções. Tomado de umas vaidades súbitas, ele matava as horas ociosas na aprendizagem do ponto-cruz.
(...)
Não vai sobrar pena, professores, não vai sobrar. Meus professores, ó professores, meus professores queridos, posso contar segredo, professores? Ó professores, como eu tenho vergonha! Vou usar uma palavra chula, professores. Me perdoem por isso se atravanquei o meu pronome oblíquo nessa ênclise mal cuidada. Eles só falam em sexo, professores. Pronto. Disse. Me perdoem.
(...)
Vida começou na música, e esta acabaria acabando com aquela. Porque, como está escrito, disse Delay, enquanto chegava à escola, como no princípio assim também no penúltimo capítulo. 
Delay, que tinha a cara de cera derretida, depois da escolha de vagas, ano a ano por anos, chegava à escola:
– Música automatizada sempre existiu.
– Mas por que só agora, no penúltimo, você mostra a que veio?
– Sempre estive aqui.
– Ontem, desconfiei que à narratividade fosse impossível sustentar-se sem a magia do vilão.
– E não se sustentava mesmo sem dois pesos e duas carestias. Viu a bagunça que fiz com o enredo? Misturei as falas e cruzei os caminhos nas piores encruzilhadas.
A cara de cera derretida de Delay encarava todas as caras. Olhava com ódio mais profundo. Era como se quisesse arrancar a sua alma por uma lágrima. 
– Isso não é vida, Delay. 
– A vida é um papel de música furado.
– Essa escola não vai aturar esse tipo de capricho.
– Fui contratado por essa escola desde à época do Mensalão. 
– Mas ninguém nunca percebeu, desde a Lava Jato, por esses corredores da escola.
– Porque andava nas sombras.
– Escondido nos corredores da escola, você quis dizer.
– Não. No vale das sombras.
– Que sombras, cara, se nem bibliotecária tinha aqui!
– Se a música pode ser feita sem a engenharia e a arte, a educação e as ciências também.
– Impossível!
– Vou provar.
– Como!
– Com essa gente preguiçosa, gente que foge do trabalho, gente cabeça de ervilha, gente...
– Chega, chega, Delay!
– É fácil mudar. 
– Mudar o que, Delay?
– Substituir gente por máquina.
– Não; isso é brincadeira.
– Máquina não se cansa, não reclama, não adoece, não briga, não chega atrasada, não se vinga, não...
– Para, Delay. Vai tratar dessa máquina aí em tua cabeça. Como alguém abre a boca e fala tanta asneira? Deus do céu!
Depois do silêncio.
– Sabe qual é o erro de acreditar nos grandes?
– Não! disse Delay sabendo que a pergunta retórica se referia a ele. Qual é?
– É começar a seguir e a copiar quem a gente acredita e ama.
– Ah, é! Não sabia.
– A gente começa a acreditar e a seguir o que parece grande, mas o que se apresenta grande não passa de uma cordilheira de algodão-doce. Pior. Você se perde admirando a cordilheira. Não tem como escapar do fracasso. Eu seguia você, Delay.
– Seguia?
– Não se faça de sonso, Delay!
– Não sabia.
– Seu covarde! Acreditei em você.
– Foi? Não sabia.
– Todo esse tempo eu segui você, Delay. E pra que, Delay? Veja só o que foi que eu me tornei. Nesse monte de...!
– Não fala isso!
– Eu queria falar tanta coisa.
– Mas não falasse.
– Olha só! Tô aqui te seguindo, Delay. Parece uma praga. Não consigo me livrar, Delay? Isso não é justo, Delay.
– Onde vocês estão?
– Aonde vocês irão?
– Não use o pronome em vão. Substantivos desaprovam...
Os professores, velhos, cansados, sem renovação nem utopias, reunidos em minúsculo espaço, travavam as linhas do futuro na FazRegra. Ecoaram os gritos e as gargalhadas nervosas. As cobranças sobre o sumiço dos ativos, dos bolos, das bolachas, do café. Automização ora governava por portarias. Ai, que vergonha! Me peço desculpas. Rangiam dentes, no outro lado da sala. O sopro, o choro no uso do pronome oblíquo, que relaxava ao ocupar a posição enclítica em pleno pânico. Me peço desculpas. Sob a supervisão de câmeras, pois, mãos eram unidas, uniam-se os corpos, as bocas se tocavam, os olhos banhados na tristeza e na revolta. O ano letivo, no fim do contrato, cessou; ano vindouro, disse, informações nos aparelhos não serão necessárias. Seus serviços dispensados. O trabalho a Pedagogia seguirá sem nenhum de vocês, pois as máquinas farão o serviço eficazmente, menores custos, mais benefícios. As despesas causadas por vocês são insuportáveis. Isso aí que Sísifo faz ao gemer e suar, as máquinas fazem com risos. Ceuto e Eraudo viram, pelas telas, o que foram e deixaram.

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