MIMO NUNCA PRESTOU

Contos

Marcello Ricardo Almeida

Aproximava-se agora o fim da novela. Não eram apagadas as lembranças da Senhora Ó nem com a respiração holotrópica. 
Era o fim da lealdade na concorrência. A fagulha foi acesa, só faltava isso. agora era só esperar a luz? Ainda não! respondeu com um advérbio de tempo: ainda; e um advérbio de negação: não. E, ainda não, ao se juntarem, formam um adjunto adverbial de tempo e negação. E foi assim que apareceu o sinal na Escola FazRegra que não aconteceu o que se esperava que acontecesse.
Não era a ausência, como se sabia, além da negação. Ainda era o tempo modificado pela prorrogação, e isto significava a esperança de acontecer. Daqui a dois anos? 
Ceuto deixou a sala-mor mastigando a metodologia a ser aplicada em aula naquela tarde da quarta-feira longa e enfadonha, enfadonha e contraproducente, contraproducente e indisciplinada, indisciplinada e perigosa, perigosa e violenta, violenta e desmotivadora, desmotivadora e antipedagógica. Escrever, disse, qual um rito. Faço-os escrever e refaço o ritmo entre a letra, o letrado e o letramento. Faço-os observarem as letras nas palavras. Faço-os verem que a vida nas letras pelas palavras. As letras respiram pelas palavras. Elas respirarem após o sopro dos fonemas que lhes ressuscitam. Faço-os ver o exemplo do alguidar onde se preparam alimentos vocabulares tantas vezes em heptassílabos, porque: 
Não tem saudade a máquina, 
..........Que só sabe maquinar; 
.........Veloz avança no tempo, 
.........Derrama o seu alguidar. 
Nestes versos, seguiu Ceuto corredores afora com os pecados às costas. Contou sílabas foneticamente feita, uniu vogais em sequência de elisão/sinalefa, chegou à última tônica:
 
Sílaba poética  Palavra/Pronúncia Observação
1. Não
2. tem
3. sau- A junção (sinalefa) de "tem" (em) e "sau" (au) não ocorre, pois "tem" termina em ditongo nasal e "saudade" começa com semivogal + vogal, e mantém as sílabas separadas na pronúncia normal.
4. -da-
5. -de
6. a O "de" de "saudade" e o "a" seguinte se juntam em uma única emissão de voz (sinalefa), pois o primeiro termina em vogal (e) e o seguinte começa com vogal (a).
7. má-qui- A sílaba tônica da palavra "máquina" é a antepenúltima ("má"). A contagem do verso termina nesta sílaba tônica.
(Ignorado) -na A sílaba final átona é desconsiderada na métrica poética.
Assim fez Ceuto, durante o trajeto, apressado da sala-mor à sala de aula. Diferente da matemática de Eraudo, o português de Ceuto repetia versos: 
Que só sabe maquinar; 
Veloz avança no tempo, 
Derrama o seu alguidar. De-rra-mao-seu-al-gui-dar! passou a repetir quão repetia, no pretérito, a Senhora Ó. Quem influenciou a Senhora Ó foi Alexandrino Escansão que, por capricho das veredas da palavra no sertão dos desinteresses em cativá-las, também influenciou Ceuto.
A Senhora Ó, que se alimentava com a cara no prato, preservava os seus mimos, que se resumiam em gravar e adormecer ouvindo os versos do poeta de cordel alagoano, mas antes falava que mimo nunca prestou. A boca da Senhora Ó ia próximo ao prato, e não esperava que os talheres lhe trouxessem qualquer alimento. Curvada de tanto inclinar-se à comida, a Senhora Ó faiscava contra as máquinas e contra os mimos.
– Mimo nunca prestou, disse a máquina que substituía a força de trabalho. A Senhora Ó era uma máquina, no jardim de infância onde Ceuto foi deixado e pareceu perdido em um novo mundo. A voz metálica da Senhora Ó não lhe saía da cabeça desde o dia em que foi deixado pela mãe na Escola da Senhora Ó.
– Os empregos escasseariam, menino! disse a Senhora Ó. Ó criança, as escolas optariam em enxugar os custos. Vocês ouviram? O lugar dos docentes seria ocupado pela automação. Bagunceiros, prestassem atenção!
“Como a Senhora Ó poderia saber tanto, sabendo tão pouco?”
As ruas copiavam a rua de Linguística com lixo doméstico acumulado nas calçadas, pessoas abrigadas em barracas, gente apática e sem saber o que era. Ceuto revivia o primeiro dia na escola; ele foi trazido pela mão:
– Mãe, quem sou eu?
– Você, ora!
– É, mãe! insistiu. Quem sou?
– Você é Ceuto, meu filho.
– E o que eu faço aqui?
– Que pergunta é essa, seu tonto! Eu nunca me perguntei uma bestagem assim à minha mãe. E, se tivesse perguntado, ela teria enchido a minha cara de bolachas. Quer apanhar na cara, quer, na frente dos seus coleguinhas, quer?
– E pra onde eu vou?
– Vai pra onde você quiser, ora! Desde que seja uma sala de aula.
Senhora Ó recebia as famílias na porta da escola. Ela recepcionou Ceuto e a mãe com sorrilargos e apertabraços – quase sufocaram Linda e espremeram Ceuto.
Ó, de vogais e consoantes, disse:
– Você, meu pequeno, é desses e não daqueles, não é?
– Desses! disse Ceuto com olhar fixo e temeroso à mãe.
– Preste atenção à Senhora Ó, menino!
– Qual é o nome deste rapazinho?
– Ceuto.
Ó sempre foi a professora de matemática que tinha os números na venta. Não havia teorema que a senhora Ó não soubesse.
– Essa criança, mãe, ainda será um professor de matemática!
– O Sagrado Coração livre minha casa da matemática que a senhora quer trazer, Senhora Ó.
No primeiro dia de aula, Ceuto foi jogado numa turminha barulhenta. Onde sequer os cem decibéis suportavam ficar por dez minutos. E aqueles olhares da Senhora Ó não surtiam os efeitos que costumavam. As conversas paralelas tão-só aumentavam os decibéis; um sempre queria abafar a voz do outro com gritos e imitações de animais.
A sala de aula da Senhora Ó era comparada a manicômio, pelos próprios alunos. Às vezes a uma cadeia imposta pela Senhora Ó, que ameaçava castigá-los com provas surpresas, dever de casa monumental, usava a vuvuzela que foi confiscada no recreio sem obter êxito em nenhuma das opções. Aquele carnaval fora de época fervia, uma usina atômica a ponto de mandar a escola pelos ares.
Na época pretérita da Senhora Ó não havia tutores automatizados, chefes ou corretor ortográfico a um toque do indicador e tudo surge na lâmpada mágica, ou conselhos que, ao invés solucionar problemas, criassem absurda sudorese. A Senhora Ó, a exemplo do seu pai, usava jaleco sintético coberto de pó de giz.
“Como a Senhora Ó sabia que tudo não passava de singularidade?”
A Senhora Ó, agora, era apenas uma imagem em uma nuvem passageira. Ceuto via as imagens. Algumas finas, felpudas, outras eram véus transparentes, havia as que se aproximavam de pequenos grânulos, também as acinzentadas, também as acinzentadas com sombra que surgiram após aquelas com camadas brancas num movimento estranho. Eram cirros, ele viu, cúmulos, estrato, nimbo. Não muito longe, a cocuruta das serras em torno da Escola FazRegra foi coberta por nuvem. Uma, rapidamente, cerziu o céu da escola, cobriu as ruas, o bairro, a cidade, cobriu para além da cidade, chegou a outras cidades, a outros bairros, a outras escolas. A grande nuvem recebeu dos meteorologistas o nome feudo.
O fenômeno atmosférico feudo dava a impressão, na opinião, de que a nuvem vinha cada vez mais rápida. Feudo vinha para extrair o animus do povo, disseram os especialistas. O comportamento das pessoas era alterado.
Antigamente, disse alguém da área de História, um cangaceiro sumia do radar, aparecia em São Paulo e nunca mais era visto. Ora, é certo que ficava na história do Norte! Ninguém o reconhecia em outra parte do Brasil. Bastava cortar o cabelo e mudar de atividade, nem tanto! Ia ser outra personagem. Agora não! Você aparece uma vez, só uma única, e a sua cara fica marcada pela bexiga por toda a vida. Onde estiver haverá câmera de graça que expõe a cara do cara ao mundo. E o que é de dividendo é de fantasia! disse Ceuto ao colega da área de História. Ou, ou por que não te calas! disse Eraudo, numa repreensão duríssima ao colega. Não duvide, pois, a inteligência mecânica, na Escola FazRegra, vai imergir. Mentira! protestou alguém da área de Ciências da Natureza. Alguém da área de Ciências Humanas não gostou. A turma da área de Linguagens saiu da sala-mor batendo pé. A turma da área de Matemática reagiu a dureza de Eraudo contra Ceuto. Isso vai afundar! reagiu dois ou três da área de Ciências Humanas e Sociais. Não é verdade! protestou a turma da área de Ensino Religioso. Ê, isso aí, gente, logo naufraga! O cérebro é quântico. Quanto você ganhou pra mentir? Ê, isso aí é pecado; Deus castiga, sabia! Ouvi dizer que vão criar um novo deus, e mesmo sem acreditar, isso só porque desejam de qualquer jeito alcançar vida eterna. Mas, ontem, durante a hora-atividade na sala-mor, foi a mesma coisa:
– Eu queria dizer quê... Me falta a palavra... Como é mesmo? Esqueci.
– Aquilo que eu queria dizer era...
– Agora, esqueci a palavra!
– Poderia falar também sobre isso, mas não me vem o termo.
As palavras começaram a fugir do diálogo. No lugar delas, o ruído. Muitas gírias. A prosódia interrompida com marcadores de expressão, então demorado, porque inconcluso.
– Ultimamente, tô assim: esqueço o que queria falar.
– O que tá havendo? Já não sei mais o que queria dizer.
– Isso é uma lástima! A palavra me fugiu agora, agorinha mesmo.
– Tenho tanta coisa pra dizer, mas não sei por onde começar.
– Não é que teja doente ou esquecido.
– Percebo que tô esquecendo as palavras também.
– Como isso é possível! O que eu ia dizer, esqueci.
Nos corredores da escola, alunos distribuíam calorosos abraços, toques, beijos. Alguns participavam em outro nível de manifestações calorosas.
Enquanto isso, na sala, Eraudo riscava números inteiros maiores que um que só podem ser divididos por um. Dia a dia, Eraudo fazia o que o matemático Euclides fez com a Geometria. Eraudo viu nos números Linguística. Ia trabalhar, disse. Eraudo via, entre os números, Linguística. Eu ficava na cama ouvindo o rádio. Linguística chegava do trabalho, eu na cama ao lado do rádio. Acho que o rádio desgraçou o relacionamento. Os dias longos, os números demorados, os passos lentos, as mudanças climáticas inusitadas e presas às promessas de que a automação resolveria. Demandas se acumulavam, outras vinham de repente; avaliações remarcadas, trabalhos dos alunos a serem corrigidos, mais provas no porta-malas do carro às pilhas e elas faziam ondas cada vez que enfiava o pé no freio. Eraudo rabiscava os números primos. Os vasos sanguíneos, que levam o sangue ao cérebro, talvez rompessem, talvez fossem bloqueados a qualquer instante. Nos corredores frios da Escola FazRegra, Eraudo dirigia-se à sala de aula. Funcionários iam e vinham. Quando um deles queria evitar Eraudo, sacava o celular no bolso da bunda e passava entretido com banalidades. Fazia gestos, como se estivesse se divertindo e, tão logo passava, tornava a guardar no bolso de trás. Eraudo planejava sair do sótão onde morava há dez meses. A umidade na nova habitação lhe prejudicava mais a cada dia. Vários colegas, que vendiam a força de trabalho à escola, foram levados do sótão em surradas macas, com intervalo de duas semanas, vítimas de AVC. Eraudo via o pulo da cibereducação, da ciberpesquisa, da ciberescola, da ciberpedagogia, ciberaula, ciberavaliação. É na repressão que brota o silêncio? disse. Ele não controlava mais a tremedeira nas mãos. Eraudo viu a prova sendo aplicada, viu a tensão na sala de aula, viu o incômodo das carteiras, viu a dança destas, palidez nos rostos dos alunos, pés tamborilarem, e viu os tititis e os tatatás. Eraudo não ouviu mais o sabiá, não viu mais as palmeiras, que julgou tê-las visto, não ouviu mais o gorjeio, que julgou tê-los ouvido. Eraudo não viu mais estrelas, nem flores nas várzeas, sequer vida nos bosques. Eraudo costumava ser mais romântico do que o Romantismo lhe permitisse. Perdeu o romantismo em sala de aula, em sala de aula perdeu nacos enormes de vida. Convencia-se, com perplexidade à proximidade do fim do ano letivo. Eraudo sem vida e sem amores. Ele sabia que, no porão alugado, à noite, iria cismar sobre os alunos diante das folhas da prova. Se alguém olhar de lado, a prova será anulada, disse com aspereza. Se alguém falar com alguém, a prova será anulada! foi ríspido e sem piedade. Olhe aqui, pessoal, se alguém se coçar, a prova será anulada. Se alguém olhar pra trás, a prova será anulada, se alguém abrir a bolsa, a prova será anulada, se alguém abrir a boca, a prova será anulada, se alguém espirrar, bocejar, a prova será anulada. E Eraudo, cansado, suspirou. Ó meu Deus! Será verdade tanto horror perante os céus! É mesmo verdade que é na repressão que brota o silêncio? Eraudo disse não ter visto primores. Senhor Deus, Senhor Deus... Horror, horror, horror. Diga de uma vez, Senhor Deus, se é verdade... Tanto horror. A boca de Linguística tinha o cheiro do café, do café o gosto, o aroma se encontrava em seu hálito doce. Ah, Linguística, por que não me responde! Onde estás, ó, Linguística, que não respondes? Essa minha aula em pé de guerra, escreveu Eraudo no grupo da coordenação, precisa de sanção urgente, gente. Orientação! Orientação! Sansão e Golias aos socos, orientação. Urgente, orientação! Socorro! Não faça isso, por favor, por favor, não faça vista grossa, orientação. Indulgente e Dissimulada colaram emojis às gargalhadas no SOS de Eraudo, no grupo. Foi quando se deu conta de que o relógio na parede havia desaparecido. 
– O que houve com o relógio?
– Foi tirado no dia da prova e nunca mais voltou.
Ultimamente, enquanto Eraudo caminhava nos corredores da escola, ele via as paredes forradas de mensagens em néon. As paredes eram dobráveis, as paredes cabiam no bolso. As paredes, nos corredores, viviam de mão em mão. Pelos corredores, Eraudo teve a impressão de ter visto Linguística. Ela sempre foi muito possessiva e preconceituosa. Mas como alguém podia matar por amor? Linguística, se lhe contrariasse, ela rasgava em pedacinhos seu relacionamento. Linguística não queria filhos, disse a Eraudo, queria adotá-los. Era difícil conviver com Linguística. Eraudo se certificou de que não era Linguística nos corredores da escola. A língua consolidada nunca foi a regra de Linguística. Muito embora, ela repetia, muito embora. E nunca mais foi vista na Escola FazRegra. O medo de ficar feia, transforma uma pessoa. Linguística sempre foi tão linda. Linguística tinha pavor de cair em desgraça. Que foi que Linguística fez consigo! disse. Não consigo entendê-la. Às vezes, ela é meramente análise linguística; e, às vezes, análise gramatical ou análise sintática. E por que o sujeito importa, Linguística? Ela cobrava a presença do verbo e do predicado. E Linguística tão irresponsável! E Linguística tão bela! Quem conheceu Linguística, como eu a conheci, não lhe reconheceria hoje. Falava por meio de grunhidos. Mas por que Linguística fez o que fez? Vai saber! O que eu conheço bem é a escola. Sei como ela é por dentro e por fora. Uma escola tem dois lados: cara e coroa. O lado coroa da escola tem três fases: o deslumbramento, a realidade e a frustração. Eu sei. O lado da cara também: a euforia, o tédio e a violência. Linguística nunca concordou com essa opinião. Mas opinião é opinião, cada um tem seu chinelo velho pra caminhar com o cão. Ela dizia que não queria enlouquecer, mas talvez tivesse enlouquecido. 
– Eraudo! disse Ceuto. E o calhamaço?
– Coincidência não foi, porque nela não guardo confiança.
– Foi convergência, como disse Nego Bispo?
– Lia, agora, agorinha mesmo, o epigrama 61.
– Siga em frente, amigo, que atrás vem a procissão carente de milagres aos que caminham a pé nos caminhos que levam à escola.
61. O PÉ-RAPADO
A língua foi sendo rapada, rapada, rapada até os ossos; e ela também foi lixada, lixada, lixada até os tutanos; e estes foram sugados, sugados, sugados e sumiram. Amanhã, tudo sumirá, ele disse. Porque toda nova novela é a história que existe nas palavras. O romance não existe no amor? O enredo, as tramas e a lábia de O-Pai-de-Ceuto fizeram Linda abandonar o emprego na padaria Pão-de-Melaço. A menina Linda progredira de confeiteira a caixa, de caixa a gerente, de gerente a sócia da Pão-de-Melaço, nos delírios de O-Pai-de-Ceuto, que lhe engravidou com ideias mirabolantes. Fez Linda acreditar que poderia ser dona de padaria, de uma rede, se quisesse. Os protestos dos pais de Linda todos em vão. Aceitar um pé-rapado de sobrenome! Não foi pra isso que educamos nossa Linda.
– Canalha!
Não demorou, Linda estava com O-Pai-de-Ceuto na rua. Não demorou, Linda, grávida, estava de volta à casa dos pais, e trazia com ela O-Pai-de-Ceuto.
– Aqui, gritou Seu Tuim, esse canalha não fica.
– Pai...
– Nem que a vaca tussa!
Seu Tuim deixou o caixa, na Pão-de-Melaço. Linda pediu a conta. E, aos trancos, Linda passou a ganhar a vida com pastéis, bolos e coxinhas. O-Pai-de-Ceuto com a mesma camisa branca e uma calça azul marinho. Rua acima, rua abaixo com uma agenda roxa na mão. Em cada um dos bairros ricos de Xaxanã, O-Pai-de-Ceuto media as residências com a pressa dos passos.
62. MALUCO
Por insistência de Ira, primeira e única mulher de Seu Tuim, desde os 15 anos, Linda veio viver outra vez na casa dos pais. Seu Tuim e Ira moravam sob aquele teto desde os seus primeiros tijolos. O-Pai-de-Ceuto não fazia nada, vivia enfiado num calção de banho, sem camisa, a agenda roxa na mão, fazia contas, planos, enchia as ventas de Linda com folhas, ouvia rádio, via TV, jogado no sofá sem dar lugar a Seu Tuim, que ficava parado, calado, cabisbaixo, num banquinho de madeira ao lado do sofá.
– Maluco!
– Maluco por quê?
63. OS PÁSSAROS COM FOME
Grito nas gaiolas matava qualquer silêncio que a casa desejasse ter. A casa de Linda um verdadeiro viveiro. Os pássaros nas gaiolas aos gritos. O barulho de ônibus na rua. Fumega o tempo. Outro dia na ilha Xaxanã. E Linda com as mãos enfiadas na massa. O-Pai-de-Ceuto coçava-se, não deixava mais o sofá; era um filho a cada ano. Seu Tuim e Ira apreciavam os netos em casa.
Adoção é amor. Fui adotado, O-Pai-de-Ceuto disse, isso após três dias que tinha vindo a esse mundo. Mãe repetia isso, sentada na cama. Esqueceu? Tinha determinação por gatos e crianças adotadas. Mulher fibrosa. Minha nossa! Vou homenageá-la dando o nome dela a uma filha. Meus ancestrais vieram ao mundo numa daquelas nove ilhas. Mãe espalhava feijão, tirava os pedregulhos com a história da minha adoção na boca. Mamãe, pra ser verdadeiro, nunca teve coragem de engravidar. Era uma mulher doente.
64. INTEROMPENDO A VIDA
Linda, no quintal. Em banco de madeira, sob o ipê plantado por Seu Tuim, o seu velho pai falecido, criador de patinho-gigante, canário, bicudinho-do-brejo, sabiá, saí-azul, coleirinha, saíra-sete-cores, galo-de-campina, saíra-sapucaia, curió. A Linda a falar as coisas antigas, enquanto aguardava a polícia. “Method to my Madness”, na FM Xaxanã, nas vozes dos Bee Gees. Linda com dores nas pernas, as mãos nos quartos, grávida outra vez. Indo buscar forças nas vendas de spastéis. Locomovia-se entre a cozinha e a sala de TV. Era casa ano um filho, desde aquele ano lá atrás. Nunca deixou a cidade. O primeiro, o segundo filho, outro, veio mais, e não parava de nascerem meninos. Houve, porém, a surpresa. Uma linda surgiu. Linda considerava o fim dos buchos e lhe veio mais. Um lar de oito filhos é prêmio e sorte grande. O carro da polícia logo para na porta de casa. A polícia logo investigaria a morte de Inefável. Inefável nu. O corpo de Inefável na mesa do café. O sangue de Inefável no chão da cozinha. As paredes sujas do sangue de Inefável. Linda teve a impressão de ter ouvido um cantar de curió, era canário, não, era bicudinho-do-brejo, sabiá, saí-azul, coleirinha, saíra-sete-cores. Vizinhos curiosos queriam saber como o sobrinho de Linda, Inefável, dono da Loja Fotocopiadora, tinha morrido na cozinha da tia. Vizinhos ouviram disparo de arma. E os policiais, Linda? Ainda não chegaram. Eles vêm atrás do que não perdera. Calma, mulher. Linda grávida. Linda no banco de madeira sob om ipê roxo. Linda via o sobrinho sem vida. Acorda, Inefável! Inefável imóvel. Nu. Ele na mesa de fazer pastéis. Linda secava as lágrimas com um pano de louça e assuava o nariz. Não sei se conto história que O-Pai-de-Ceuto me pediu. Acho que não, disse Linda sob o ipê. Tiro os filhos daqui; deixo todos fora disso. Digo: os meninos não dormiram em casa, senhores policiais. Senhores policiais, eles são todos menores de idade. Choro? Não choro? Esse choro que não para.
65. LINDA SOB AS FOLHAS ROXAS DO IPÊ
E na mesa ficaram os restos do café. O marido de Ira, Seu Tuim, falecido. Mãe falecida. Ipê derrubava flores roxas. Linda sem ver o pai realizar sonho, sem vinho, sem barco, sem viagens às nove ilhas. Num mau-humor sem remédio, Ira, mulher de Seu Tuim, desenvolvera uma mania de limpeza insuportável; de longe, não podia enxergar cisco no chão que vinha com o pano de louça esfregar, bater, dizer ofensas a quem suja e não limpa.
66. O-PAI-DE-CEUTO E A AGENDA ROXA
O-Pai-de-Ceuto chega desenganado, reclama à vida, às vendas, o calor. A mulher afaga o marido. Não sabes quanta comida é jogada fora neste país, Linda. O desperdício de comida – é? Claro, Linda! Nem falo do CPMF, do salário e dos por fora dos espertinhos. Não há quem suporte – é? Claro! Linda, não se mata trabalhador na boca do fogão. E tu te matas de trabalhar na boca do fogão enferrujado e cheio de buracos, Linda. Pra quê? O calor que faz nesta época do ano. Mudanças climáticas – é? Claro! Qualquer dia desses nós iremos mendigar. Cruzes! É. Não acredita? Eu vivo impressionado com a quantidade de mendigos em Xaxanã. O povo empobreceu – é? Claro! É só olhar lá fora a quantidade de burros-sem-rabo que passa na rua, é um esbarrando noutro. Os que puxam lixo em carroça – é? Claro! Diariamente, em nossa porta remexendo o lixo à procura duma lata, um pedaço de alumínio pra vender. Lá fora, vá, dê uma olhada. Abra minha agenda, olhe quantos contratos eu perdi. Até quando, minha Linda! Claro, se eu tivesse me metido no ramo da sucata, nem que fosse burro-sem-rabo, pelo sim e não, teria dinheiro no bolso pra gastar ao invés de aventuras com vendas de classificados. Se me sentisse uma de 30 anos, mas já estou no lá vai poeira. Isso não é vida, Linda! Agenda cheia de contatos inúteis. Não acredito! E, assim, Linda, não consigo raciocinar. Desculpa! Desculpa! Fala, fala. Não me atrapalhe. Perdão. É inacreditável. Prometo não te atrapalhar mais. Sabe o eu que soube, Linda? Fui passado pra trás. Construí um cliente em potencial e fechei negócio. Meu chefe me furtou o contrato e não me pagou a comissão; negou ter fechado o negócio. Só hoje fiquei sabendo. Tomei conhecimento, porque meu cliente me falou. Acredita, Linda? Tá aqui na agenda roxa. Eu tenho cara de pastel. Tenho?
67. MINHA MORENINHA
Como Linda iria explicar à polícia a morte de Inefável?
A polícia não perdoa. A imprensa tem fome de tragédia: é o que lhe faz acelerarem as rotativas. Inefável sobre a mesa do café da manhã. O sangue em coágulos.
68. MARIABALA FOI AO SÓTÃO VIRGEM E DESCEU DEFLORADA
Não ficou nenhum pedido de desculpas.
69. SABIA QUE O CANÁRIO SABIA ASSOPRAR BOLO CRU
Sabe o que eles andam falando nos corredores do jornal? Talvez você queira saber. Eles dizem que você trouxe a cama pro depósito de encalhes pra se livrar do velho e se sentir leve na vida, enquanto finge que é feliz com cigarros do capiroto.
70. A LIBIDO DE DONA BRAINSTORMING CABELO DE ANJO
Uns fogos corredores começaram a ser recorrentes na cabeça, tronco e membros de Dona Brainstorming Cabelo de Anjo, e ela foi correndo se queixar ao marido FazRegra. Mulher sabes o que isso significa? Não. Significa que a sua libido deu o que tinha. Não, não seja cínico, velho cínico! Significa que o beija-flor não verá a borboleta. Assim... Talvez... Quem sabe... Se... Senão...
71. INÊS EMPRENHADA NAS REDES SOCIAIS
Espelho, espelho medo (como sou) – se pudesse a menina Inês andava com um espelho 15X21 dependurado em sua corrente de prata presa ao pescoço longo, como aqueles pescoços pintados por Modigliani. Andava por aí corrigindo defeitos imaginários. Não largava as redes sociais nem durante a troca de... Inês autoafirmava-se no Facebook mostrando inusitadas partes de sua face e outros lugares do corpo esguio. Escrevia Inês textos picantes e textículos onde revelava uma quedinha pelos contornos redondos de MariaBala.
72. A CERTEZA INCERTA DE MARIABALA
O senso comum de MariaBala queria ser senso crítico, fazia uma cara. De sobrancelhas cerradas e boca de epopeia burguesa, MariaBala desconfiava – porque a certeza sempre lhe fora incerta – se a sua vida era uma bolha de sabonete ou o quê. Saíra do sótão de Seu FazRegra com quatro pensamentos: um errado e dois perdidos. Não queria atravessar à vida em crise de abstinência e, por isso lia, gostava de viver, porém não mais no sótão de Seu FazRegra entre livros velhos e coisas assim.
O medo de MariaBala era ficar embolorada no sótão, porque a Teoria do Desejo não lhe caíra muito bem no estômago àquela manhã, mesmo não querendo ser, e não era, a reprise da Lei da Atração ou o queixo abaixo da boca dois dedos. Os gritos de carros de Fórmula 1 não lhe deixavam os ouvidos. Seu FazRegra, fã de Senna, ligava liquidificador só porque o barulho se aproximava do ronco do motor do piloto, desde a época em que dava a vida por uma garrafa de cana, quando foi homem sem sapatos e banguela, calça furada por traças e camisa de punhos e colarinho sujos. Tempo em que dormia com o desassombro e o cântico dos batráquios no cio.
As inúmeras vozes de MariaBala visitam-na todas as noites e se alojam em seus ouvidos como lugares-comuns. As suas curvas são feitas de conteúdos e menos de formas, a sua língua inova o apelo narrativo feito esferas pungentes, enquanto MariaBala não cai em palpos de aranha, queima papas na língua e exercita outras línguas.
Amanhece. MariaBala linear, silenciosa e sem sobressaltos com o barulho do liquidificador de Seu FazRegra. Por vezes, convulsa, passa a mostrar-se na estrutura a massa indistinta que forja a ambivalência graças ao estratagema que interrompe o seu fluxo.
73. O NOME SOLTEIRO
Olhando-se refletido numa porta, Zé Cenvergonhas cospe num canto da boca. Não. E se eu assinasse meu nome Zé Vassó? O nome solteiro da mamãe. Não atrairia muito mais leitores? Eles gostam de nomes assim.
74. UMA NANOTEORIA CLÁSSICA TAUTOLÓGICA
Uma criatura preconceituosa e cruel.
Lendo nos livros velhos de Seu FazRegra, alguns herdados de DonaÓ, MariaBala não possuía uma unidade de efeito daquela dos contos de Mr. Poe, mesmo forçando a fechadura pra abrir a porta do passado e sentir-se novamente em casa. Triste, apavorada numa sala de cinema de filme mudo ou lendo um texto curto de Г-н. Tchekhov. Dentro de um fumaçal era como se sentia às vezes MariaBala. Por que alguma coisa não me acontece? Ela queria saber, naquela atmosfera criada por Seu FazRegra de aranhas, de ácaros, de traças e poeira. Acordava MariaBala todas as manhãs assustada como se ainda vivesse reclusa no sótão, onde passou a maior parte da vida sem cheiro e sem sabor. Adorava prosas piegas, e, por isso, só lhe distraía rádio AM.
(...)
– Vou parar, disse Eraudo a Ceuto, enquanto arremessava o epigrama o mais longe possível. Isso não me faz bem. Por que você me obriga a ler isso? E quer saber! Me mantenha longe de tudo isso. Essa escola não precisa mais dos professores. Dos alunos, sim, dos professores, não. Quem diria que isso fosse acontecer, Ceuto. Aconteceu. Dia a dia, mais pessoas perdem o emprego e não os recupera mais. A bolha de ar clica, clica a bolha de ar. Sobe. Desce. Sobe, desce a bolha de ar. Por tantos caminhos a bolha de ar clica, clica a bolha de ar e se arranha no espinho da ingenuidade. Clica, clica bolha de ar. A ilusão da bolha de ar, que clica, que sobe, que desce, clica, clica bolha de ar. Dentro da bolha nada a penetra, bolha de ar? Fura a bolha de ar. Sobe. Quase desaparece. Veja.
Desce de repente outra bolha de ar! disse a Senhora Ó ao menino Ceuto, como se diz num encanto à criança. Com o encantamento da bolha de ar talvez Ceuto parasse o choro, parasse de chorar. Ceuto não queria ficar só. A mãe de Ceuto insistia, iludia Ceuto com as conversas, na voz macia da estranha Ó. As pernas cambotas de Ceuto. Ceuto escondia-se atrás da mãe. Ninguém sequer avalia o medo que Ceuto sentia em ficar sozinho naquela escola? A sala de aula abriu a porta, que era uma boca sem tamanho. Ameaçava engoli-lo de um zás, antes que Ceuto fugisse. A mãe de Ceuto havia ido embora, descido a ladeira de pedras e de barro solto, sumido entre as casas, no fim do muro da escola. Os olhos grandes, medrosos, no rosto de Ceuto assustados. Como uma mãe teve a coragem de entregar o seu filho ao estômago úmido e quente da sala de aula! Ceuto empurrou o pé na porta, empurrou o pé no corredor, empurrou o pé na estrada, mas foi alcançado pelas mãos fortes da Senhora Ó, que o arrastou de volta, levou o menino à pontapé, beliscões, cocorotes, gritos, tapas, puxavantes na orelha. Zuniu Ceuto de volta. Ceuto ensaiou fugir. Estava preso na gaiola de mesas e cadeiras, gritos e quadro, e tabuada, e a sala cheia de umas vogais banguelas, de umas consoantes mancas, desdentadas e carecas. O sentimento ruiu. Naquela manhã, Ceuto perdeu o apreço. Cuspiu no chão da sala o gosto amargo. A partir das experiências, Ceuto guardou o significado da escola. Jurou manter distância. Sair o mais rápido. Preferia quebrar pedra, levar pedra morro acima. Na escola morreria. Era uma macaúba se outro dia à escola voltasse. Fez promessa, jurou meter o pé no mundo, deixar a terra dos pais, fugir da casa deles e não cruzar os batentes, nem se a vida lhe reservasse por toda a vida comer só flocão, óleo barato e ovos. 
Tudo mudou, Ceuto. Como você sabe tanto? As tarefas eram executadas, rápidas e precisas, com toque-toques que não se cansavam. O mundo que o cercava já não era o mesmo que lhe cercou. A mudança foi inesperada e radical e poucos a perceberam. As metainvenções automatizadas em escala industrial. E a renda de todas as rendeiras, que são poucas, vai de vento em popa, mesmo nesse mudo mundo. Aprender pra quê? Tudo teve início, aqui na escola, no dia em que os alunos começaram a odiar o conhecimento. Não queremos aprender essa porcaria! Isso serve pra quê? Pra nada! Sabe o que vou fazer? Vou jogar a vida por aí. 
Ceuto ficou na escola depois de ouvir: "Por que não te escondes pra que eu possa procurar teu nome num caderno meu?" A Senhora Ó, que atraiu Ceuto com versinhos, porque ela era fã do cordelista alagoano Alexandrino Escansão, jamais parava de falar versos. Ela era identificada como Rádio, naquele jardim de infância. Em casa, pelo que se conta, a Senhora Ó não podia ver nada fora do lugar, que era acometida por uma crise severa. Aos gritos, a Senhora Ó queria saber qual foi o rato que pôs o sino no gato. Como gostava de dinheiro a Senhora Ó! disse Ceuto. O dinheiro era o oxigênio dela. Sabia mais sobre Adam Smith do que sobre a sua própria biografia. E o apelido, além de Rádio, era Mão Invisível. Conhecia absolutamente tudo sobre a trilogia de seu coração em A Riqueza das Nações, Parte 1, Liberalismo, Parte 2, e Neoliberalismo, Parte 3. Vê, em breve, haverá um tempo, Ceuto, ela dizia, já bem velhinha, e este tempo está próximo, a época é agora em que, na casa dos bilhões, coisinhas ocuparão o trabalho humano com uma rapidez e precisão sobre-humana. Mas ninguém compreendia a Senhora Ó, nem na época dele, nem depois daquele tempo. Feito motoqueiros em seus biciclos aloprados, as lembranças passavam num zumbido enfadonho e perigoso qual a lembrança da Senhora Ó. A lembrança faz fraquejar, cobra de quem se recorda um valor impagável, o fardo pesa, cansa o vivente, que tropeça, ameaça cair. Cai não cai, Senhora Ó, que lhe promove a lembrança, lembranças absurdas. Quando o doce se acabou de acabar-se cujo gosto foi o último bocado na boca de código de barra da Senhora Ó. 
Isso, Ceuto, disse-lhe Eraudo, eu já conheço.
A lembrança, meu amigo, é um deserto de gelo.
Os corredores claustrofóbicos, na Escola FazRegra. Ceuto havia saído há pouco da sala-mor onde aconteceu acalorado zunzunzum sobre a capacitação de professores. Mas isto era pretérito. O verbo desse tempo era outro. O silêncio era rompido pelos solados de couro dos sapatos novos de Ceuto. Enquanto se encaminhava à aula, ouvia, corredores afora, vrunvruns, que pareciam motores, buzibiziu não lembrava nenhuma onomatopeia de seu repertório lexical, brrrrum, toque-toques repetidos, dingue-dongues insistentes, buns, que eram de assustar e mais, mas seguiu o dever de ofício, como se a Escola FazRegra estivesse na mais absoluta sobriedade com craque, crequi, com creque, com croque, craque, como uma manifestação imprevista de morfemas, fonemas e grafemas, cabrum era o que mais se ouvia, seguia-se por ratatatás e plim e plaque, ploque e pluque, e bzzzzzzssss, e criiiiiiiizzzz, zzzzzz 

Comentários