Um ano na escola é igual a uma vida. Você começa depois do Carnaval, e ainda escuta o ritmo do frevo que veio do Oriente. Mas quando se aproxima do Natal, você, exausto da batalha, ouve as harpas e angélicos cantos, a alma parece evaporar à vida eterna. Talvez evapore para retornar após o próximo frevo.
– Você me conhece, mas eu não conheço você.
– Eu quero mergulhar na palavra. Compreendê-la. E dizer-lhe a que veio. Fazer com a palavra o que o Sol faz com a Terra: penetrá-la. Ir às suas abissais cavernas. Senti-la. Falar com ela. Mostrar-lhe o que se mostra à palavra. Como o alimento faz à fome, a água faz à sede, o sono faz à vigília, a luz que ilumina toda a escuridão. Mas a palavra tem pressa. A palavra acelerada. Perde-se toda a palavra no silêncio. A incompreensão toma a palavra quão o lodo numa pedra, o fungo numa fruta, o mofo nas paredes da boca da palavra. A palavra perde os dentes, perde a língua. Eu ainda quero conviver com a palavra. Torná-la próxima, uma amiga. Confidenciá-la com a tinta do olhar. Não há mais tempo. A rua é escura e a noite é de trovoada. Se antes acesa as luzes, de repente, apagam-se na palavra. Você não sabe. Não sabe? O áudio ocupa o lugar. Um áudio banal, feito de impropérios. Imperceptível palavra. Palavra é substituída por ruídos e sinais em placas que se acendem e se apagam. Os seus ruídos são convertidos, são grunhidos pouco a pouco. Não sabe o porquê do pavor? Não há como combatê-lo. A palavra logo se apavora. Foge em desespero pelas ruas que não mais a reconhecem. Dilui-se tão rápido a palavra. Perde o sentido, a direção. Choca-se à outra realidade.
Aquela rua parecia não ter fim. Malcheirosa. De quando em vez, um gato a atravessava com um olhar mau encarado. Linguística mastigava que um coração, seja de galinha ou de frango, tem amor guardado, tem sentimentos construídos e não deveria ser devorado por uma boca sedenta por proteína. O preço de um quilo supera 30 moedas. Se pensasse bem, era de cortar o coração comer coração de frango. Quantas vidas se perderam naquele pacote congelado com coraçõezinhos de frango! Dava dó.
Ceuto mantinha distância da bela Linguística. Ela lhe faz a corte, ele fugiu pelos corredores da UniFastapovo.
O silêncio e a solidão eram a tapeçaria de desencantos. Encontravam-se Solidão e Silêncio em uma daquelas praças entre tantas, era um fim de tarde, na UniFastapovo.
– Que faz aqui?
– Espero o ônibus. Conheço você, Solidão! disse Silêncio.
– Você não é aluna do Bloco R?
– Sempre vejo você no Bloco A.
Silêncio olhou e viu a beleza da Solidão. E ela costumava estudar em voz alta, ele a viu fazer isso nos corredores da UniFastapovo.
Era uma pessoa adorável. Parecia um quadro de Modigliani. Com aqueles olhos tristes.
Ela desenvolveu o hábito em preparar a aula, durante a hora-atividade, a conversar com o livro, com os apontamentos, com as observações e com cada um dos exemplos amontoados em folhas avulsas. Mudava a prosódia. A sua voz apitava, acelerava, reduzia a pressa:
– A Linguística chegou aqui assanhadinha!
– Na sala?
– Na sala de aula, sim.
– E o que assanhou a Linguística?
– Não sabia?
– Não.
– Achei que soubesse.
– Conte seu conto sem acrescentar nenhum ponto.
– Tá.
– Tá?
– Tá.
– E?
– E?
– A Linguística.
– Ah!
– Então.
– Ela disse que ganhou uma zanga do gênero textual terciário por razão do gênero textual primário que se amasiou com o gênero textual secundário.
– E?
– Espere.
– Espero.
Tratava-se do léxico pessoal. Porque todas as pessoas possuem um conjunto de palavras – em sua língua e às vezes em outras – para o uso da fala ou escrita.
– E?
Um dicionário próprio. Cada pessoa possui. É um acervo pessoal.
– Acervo?
Cada pessoa tem. Amplia o seu acervo, que está sempre sendo ampliado com novas palavras. O conhecimento das palavras fortalece o léxico pessoal.
– É uma memória de trabalho. Entende?
– Mais ou menos.
Guarda-volumes com diferentes informações prévias, que oferecem todas as informações a quem lê durante o processo de leitura.
– Compreendo.
As ideias pré-concebidas vêm à tona qual a lâmpada que se acende sobre o texto lido.
– Compreendo.
– Não tô sendo engruvinhado?
– Não.
– Tá bem também.
Com a memória de trabalho, disse, ações cognitivas são realimentadas e se satisfazem associando as informações novas às informações prévias, durante a leitura.
– Agora compricou.
– Foi?
– Foi.
– Sabe por quê?
– Não sei o porquê disso, não.
Cada frase pede a quem se propõe a ler que a decodifique do signo.
– Que signo?
Linguístico.
– Ah, Linguística! resmungou. Você é mesmo complicada.
A decodificação dos signos linguísticos projeta as imagens mentais por meio fonético.
– Fonético?
– Sonoro.
– E por que não falou logo sonoro?
Quem lê, primeiro decodifica, em seguida, compreende o que decodifica; depois, interpreta o que decodifica.
– Retém.
– Retém.
Segue a decodificação dos signos linguísticos durante a leitura do texto. As palavras possuem significante.
– Signi o quê?
– Significante.
– Ah, tá! emendou. Atou. Tava à toa. Me desculpe.
Significante ou imagem acústica, que é o som.
– E o que significa quando é o significado?
– E o que deu causa a tudo isso?
– Não sabia?
– Não. Como poderia saber.
– Não mesmo?
– Diga duma vez!
A menininha e o menininho, em desabalada carreirinha, correram de bater os pezinhos, louquinhos, enlouquecidinhos, correram juntinhos no corredorzinho e bateram com o rostinho na cadeirinha, e a carteirinha caiu no chãozinho. E as criancinhas ficaram com os rostinhos vermelhinhos, vermelhinhos. Ó que dor, ó que dor, que dorzinha, que dorzinha, que dorzinha! Ó vocêzinhos desejam usar um gelinho? Ó-ó-ó que dorzinha, que dorzinha, que dorzinha!
– Meeeeeeeeeeu Deeeeeeeeeeeeuuuuuuuuuusssss!
– E o que faziam?
– Vaporizavam, porque não podiam fumar um cigarrinho.
– Meeeeeeeeeeu Deeeeeeeeeeeeuuuuuuuuuusssss!
Não há inferência se não há conhecimento prévio. Como se sabe, o que é escrito – explícito ou implicitamente está dito no texto literário. Faz-se deduzir e concluir-se a partir do texto. Ou inferência imediata ou mediata.
– Meeeeeeeeeeu Deeeeeeeeeeeeuuuuuuuuuusssss!
A surpresa dita por você leva à compreensão imediata. Diferente do dizer retórico, que interpreta o discurso.
– Que discurso?
– Meeeeeeeeeeu Deeeeeeeeeeeeuuuuuuuuuusssss!
– Não é um vocativo?
– É um vocativo.
Já a função conotativa influencia.
– Influencia?
– Sim. Não sabia?
– Influencia quem?
– O destinatário.
– E quem é o remetente?
– Quem remete.
– E quem recebe?
– O destinatário.
– Compreendo.
Passou entre as páginas em seus dedos das mãos uma personagem rasa.
– Aonde vais assim?
Esta personagem rasa ficou em absoluto silêncio de locução adverbial de modo; não exerceu nem sentimento nem pensamento. Veio a personagem dita linear, e esta manteve as características do início ao fim. Foi substituída de logo pela personagem profunda, que se caracterizava por mudanças surpreendentes. Foi a vez da personagem complexa, que representava as fraquezas humanas e a força de uma correnteza. Caiu em suas mãos a personagem gente, porque ela existia imitando a realidade humana. Chegou a personagem inanimada, quando apareceu trouxe com ela o poder em personificar qualquer coisa. Brotou outra; era a personagem vegetal, que estava ligada às plantas. E a personagem animal irracional berrou com a demonstração de que humaniza o não-humano. Com a personagem mineral a coisa inorgânica ganha vida. Com o surgimento das personagens híbridas, o mundo imaginário se caracterizou como alegoria numa outra realidade. A personagem protagonista, ao lado da coprotagonista, era puro destaque na narrativa. Apareceu a personagem antagonista, que era a energia dentro do enredo que antagonizava. Com a personagem secundária, foi ocupado o enredo ao ajudar o protagonista. Diante da personagem fluida, o que era visto na história passou a ser imperceptível. Mas com a personagem comum estavam acostumados com sua presença nas narrativas. E foi a vez de mais personagem na galeria das personagens da UniFastapovo. Ouviu a personagem dual que se caracterizava pelas dúvidas e indefinições.
– Que coisa!
– Era.
A personagem mítica era lendária, quer primitiva ou contemporânea. E a personagem ilustrativa era representada pela imagem.
– Que coisa!
– Sim.
A personagem ausente na história representava a memória presente nas lembranças vividas, imaginadas, desejadas, ouvidas, vividas por outros. Com a personagem enredo veio a representação pela ação. Com a personagem tempo veio a representação pela cronologia. E com a personagem lugar veio o espaço psicológico e veio o espaço físico. Passou despercebida a personagem estilo, que trazia a representatividade do gênero. A personagem narradora veio com a responsabilidade de narrar. A personagem herói notabilizou-se pela ética. Com a personagem anti-herói notabilizou-se a não-ética.
– Incrível!
Narram as falas de quem narra. Narra a voz que tudo sabe e em tudo ela interfere. A voz que tudo sabe e em nada interfere. A voz de quem testemunha os acontecimentos narrados. A voz de quem protagoniza nos acontecimentos narrados. A voz plural, que narra os acontecimentos. A voz que narra todos os acontecimentos enquanto eles acontecem. A voz em fragmentos, que narra os pedaços do passado. A voz que narra pedaços do presente.
– Não vai falar do gênero textual primário?
– Vou.
– Não irá falar sobre o gênero textual secundário?
– Sim.
– E o gênero textual terciário?
O discurso direto narra com a voz alheia por meio de aspas, dois pontos, travessão. O discurso indireto narra ao substituir a voz alheia pela sua. Discurso indireto livre narra ao misturar o indireto com o direto.
– E isso é o quê?
– O que se diz gênero textual?
– Qual?
– Primário, secundário, terciário.
– Terciário, qual?
– O indireto com o direto.
– Terciário ou misto?
E para que haja uma peça, o narrador mostra mais do que conta. E quem corre com o enredo são as personagens, que lavam, que batem as roupas nas pedras, que salpica espuma do sabão nas pernas, que quara roupa na grama e canta, e canta, e canta. O enredo é contado. Nos pés, velhos espinhos. E diga o verbo discendi como discendi se diz. Veja os pés do gigante.
– Que gigante, gente!
Dorme velho gigante verde. Um discendi de folhas. Verdes folhas e todas em palmas cujos dedos em anéis – frutos de palma úmida – já no sertão velho e agitado, despejadas palmas forrageiras: alimento de povo e gado. E os verbos sentiendi nas reações psicológicas nos pés do gigante dão nós. O gigante dorme e ri com a pergunta:
– Por que não levei Linguística a sério?
Era diegética a vida na história. Cada vida era peculiar, e mesmo quando se distanciava da realidade.
Sonhei, disse Linguística, que ele trouxe a espingarda cheia de ódio. Veio e apontou. Que tiro sairia daquela arma! O menino, que era Baco Cupido, reuniu todas as forças. Jurou vingança. Jurou vingar-se. Puxou o cão. Ouviu clique, um clique suave, um clique que veio em sua direção. Dentro dele, a voz falava sem parar; recontava o que lhe aconteceu, um dia, dentro da memória alheia. Era noite breu; quase não se via a via. Avia! Avia! Nada era visto em sua frente, exceto a brasa do cigarro da vítima, e pronta a apagar-se pra sempre, que era sugada de vez em quando.
Linguística viu o narrador sumir na narrativa. Eu não quis matá-lo, disse. Puxei o gatilho, porque senti uma coceirinha aqui no indicador. Puxei. E só ouvi o pipoco. Só fui saber o que aconteceu depois do estrondo. Não na mesma hora, horas mais tarde, quando o sol voltou. Vi aquele monstro numa poça de sangue sendo devorado pelas formigas. Fiquei arrepiada com toda a linguística, como toda a Linguística, que sou. Até ri um pouco, um pouquinho só. Culpada? E sou? Pela morte daquele demônio? Nãããão, não... No mundo não cabia mais ele, não cabia mais tantos monstros.
Linguística viu chegar o Homodiegético. Ele começou a narrar a própria história, e narrava na primeira pessoa. O Heterodiegético narrou a narrativa do Homodiegético. Heterodiegético disse que Homodiegético era uma rã solteira, e o que aconteceu a ela caberia a você imaginar, concluir, completar. Afinal, após essas mudanças climáticas, as lagoas não estavam para as rãs. No final fechado contado por Heterodiegético sobre Homodiegético, o sapo apaixonou-se pela lua e – ao esperá-la por tanto tempo descer à lagoa – ele envelheceu e, velho, feio e só, afogou as mágoas numa poça d’água.
– Trovadorismo nada disse?
– Isso foi no século XI.
– Classicismo nada falou?
– Isso foi lá no século XVI.
– Entre um e outro...
– ...Humanismo foi no século XV.
– Barroco?
– No século XVI.
– Arcadismo?
– Século XVIII.
– Romantismo?
– Em XIX, quando o sapo se afogou pela Lua.
– Realismo?
– Veio em seguida.
– E com ele?
– Naturalismo.
– Era natural. Parnasianismo...
– XIX.
– Simbolismo?
– Fins de XIX.
– Pré-Modernismo?
– Veio no século XX com a morte do sapo e os lamentos da rã solteira.
Nesse ecletismo banal, a subjetividade às vezes passa tão mal.
– Quê!
A plurissignificação tem múltiplas personalidades, e a ficcionalidade lhe trai. A linguagem poética é bem sapeca. E a arte erudita tira pra dançar a arte popular. A textualidade brinca com a intertextualidade. E a gramaticalidade não tá nem aí se reprovar. No trovadorismo, o trovador trova; no humanismo torna-se humano; no classicismo busca as musas; no barroco reza ora goza ora peca; no arcadismo corre, vai viver no mato; no romantismo quer morrer de amor; no realismo deseja ser mais que o rei; no naturalismo se volta à natureza humana; no parnasianismo sonha com os clássicos; no simbolismo pinta-se de pó de arroz e, no pré-modernismo, propõe ser antropofágico; no modernismo se fragmenta; no pós-modernismo a verdade já não lhe serve.
Verso é simples pela mesma medida, é composto por medidas diferentes, é livre por não seguir uma forma fixa, por não ter nenhum rigor, nenhuma medida, e brincar, e rir, e gargalhar. As rimas emparelhadas não são as rimas cruzadas, as opostas não são pobres nem ricas, as raras não são preciosas, disse Dístico. Terceto chamou Quarteto, Quintilha se recusou, Sextilha deu cambalhotas, febris cambalhotas. Septilha riu pra valer. Oitava na peneira e Nona pediu a bênção. Décima recusou os versos irregulares.
Linguística, cansada de tanto estudar, parou, pensou, voltou a rever a sua paixão no jeito de ser de Ceuto. Mas ele não queria nada com ela. Por que Ceuto não segue o bom caminho? Linguística fez a inscrição para trabalhar na Escola FazRegra. Linguística olhou através da janela do apartamento alugado, depois de afastar a cortina com o pé direito, e viu...
...A escuridão se fechou sobre a cidade.
Linguística resolveu levar o lixo lá embaixo. Abriu a porta. E a ouviu ranger. Estava na rua. Era um ambiente de desajustado. Linguística andou no meio da rua. Havia chovido. O asfalto ainda estava molhado.
Os postes públicos eram preguiçosos, nem todos iluminavam a rua molhada e suja. Um gato correu, atravessou a rua. Linguística seguiu firme; pôs as mãos no bolso do casaco, com o capuz cobriu a cabeça. Olhar fixo no chão.
Outro gato atravessou a rua mais rápido do que o primeiro. Soltou miados longos. Correu. Os tênis brancos gastos nos pés de Linguística foram nas poças d’água deixadas pela chuva.
Linguística brincava com coisa séria. Sair àquela hora da noite atrás dum pressentimento sobre Ceuto. Isto não se faz, Linguística! Por que não volta e vai dormir? Amanhã, Linguística, você terá uma prova com 90 questões e a redação com 30 linhas.
Naquela noite, Linguística viu à sua frente, como se subisse paredes de costas e calçada de tamancos, a ideia principal da tese seguida por argumentos. Nas ruas escuras, às vezes aparecia um brilho. Era o fogo de um cigarro? Não. Era a causa que surgia entre casas e terrenos velhos, abandonados, à espera da inflação por especulação imobiliária. Adiante, mais problemas apresentados na rua escura e nenhuma solução lhe ocorria.
Como compreender o tema daquela noite, Linguística, como? Nenhuma capacidade de análise lhe surgia. A interpretação lhe era míope. Conhecimento prévio nenhum do que lhe pudesse ocorrer na próxima esquina. Vez ou outra, o mesmo gato cortava a rua da esquerda à direita, da direita à esquerda; revezava com olhar de soslaio, ia em frente com apressados passos. Que gato era aquele que sempre voltava?
Nada ajudava Linguística a organizar o pensamento. E não conseguia fixar num ponto. Tudo demonstrava perigo. Era como se viver fosse um perigo, uma ameaça. Nada a convencia de que viver não fosse perigoso demais. Puxava por coisas simples, mas estava enredada na tapeçaria do breu da noite. Linguística falava sobre ela mesma na terceira pessoa; ora uma criança, que desenvolveu a linguagem, ora o ileísmo de Linguística se aproximava do dictator perpeuo Júlio César.
Linguística nunca usava frases prontas. A sua pontuação era impecável. O capuz sobre a cabeça ao invés de jogado às costas, as mãos nos bolsos, os pés ligeiros, elaborava e reelaborava o texto dissertativo-argumentativo antes de chegar à próxima esquina. A rua coberta com o manto do silêncio e da escuridão.
Amanhã, Linguística, você terá uma prova com 90 questões e a redação com 30 linhas. E nas janelas dos prédios altos, Linguística via ora coerência, ora coesão, embora nada enxergasse. Linguística seguia com passos firmes, ligeiros, dentro da noite. Passos se conectavam com passos, ligavam-se por conectivos; e quando não pisava forte quão se dissesse a esse respeito, dizia desse modo, posto que, com isso e para tanto, às vezes, no entanto e outras vezes ademais e é sabido quê.
Em sala de aula, na Escola FazRegra, Eraudo riscava números e fórmulas no quadro. Eraudo, diante do quadro, mostrava a distância mais curta entre dois pontos. Os alunos, como sempre, reagiam aos ensinamentos de Eraudo. Aquele ensino, na avaliação dos alunos, era inútil.
– Não faço nada em sua aula!
– Quê! reagiu Eraudo ao grito do aluno.
– Não faço nada na aula dele, nada na aula dela. Eu não reprovo. Eu não saio da sala. Eu saio da escola se quiser. Você não manda em mim. Não é meu pai, não é minha mãe, não é meu padrinho, não é minha madrinha. Não sei quem é você. Não lhe conheço. Não quero lhe conhecer.
– Quê!
– Não ponha a mão em mim. Afaste-se! Eu tenho testemunhas. Saio daqui e te denuncio. Meto tua cara nas redes. Acabo com tua vida.
– Quê!
– Não reconheço autoridade. Não há autoridade aqui.
– O que eu lhe pedi?
– Por que terei que fazer o que me pede em sua matemática? E essa aula nem cheira nem fede. Chato! Chata! Se não faço nada nas aulas dos outros, vou fazer na tua! Chame meu pai, que não sei quem é, chame a mãe, que não tá nem aí, chame o conselho, chame o capeta, o anjo da guarda. Não faço nada se não quiser, e não quero.
A Escola FazRegra mantinha a incerteza numa atmosfera pesada. Ceuto, para Eraudo, era só criação?
– O que faço? disse Eraudo, e viu o tremor nas mãos surgir.
A automação diretiva emitiu sinais luminosos que, sob pena de demissão sumária, impedimento em trabalhar na rede por anos, exigiam domínio de aula, movimentos docentes ininterruptos na sala com planejamentos que impedissem brincadeiras e risinhos em ambiente de estudo.
Eraudo, diante do quadro, olhava a paisagem através da janela, na sala. Ouviu cantar o sabiá, e confirmou que as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá. Ele, adepto à tecnologia até à raiz do cabelo, considerou, pela primeira vez, não ser infalível. Fez e refez muitas contas de cabeça. Resolveu equações de segundo grau. Discutiu com a fórmula de Bhaskara, viu que -b±√(b²-4ac)/(2a nem sempre era o que -b±√(b²-4ac)/(2a aparentava. Coçou a cabeça. Jogou as cangalhas sobre a mesa. Deslizou as mãos no rosto, e elas foram da testa ao cavanhaque, muitas vezes. Não sabia de onde aparecia tanto suor. Os alunos riam. O protagonista, empoderado com o novo discurso, liderava a algazarra; e antes havia baixado as calças de três ou quatro, nas aulas anteriores, porque se sentia entediado e queria rir um pouco e fazer rir.
As glândulas sudoríparas de Eraudo lhe banhavam.
A algazarra permanecia. A porta da sala fechada. Alunos sentados nas carteiras. As cadeiras espalhadas. As carteiras fora do lugar. Eu não sou falível! disse Eraudo. Eu sou mesmo falível. Eraudo voltou aos símbolos indo-arábicos, discutiu com o mais e o menos, misturou números ao alfabeto latino.
Linguística cortava a cortina da escuridão sobre a cidade no ritmo de seus passos anteriores. Um ou outro poste aparecia cuja luz se alongava na sombra do gato a atravessar a rua com os seus passos lentos e seguros. O bicho emitiu um gemido e o gemido violou o silêncio. Linguística não via nada, exceto o gato e o seu miado que parecia um alerta ao perigo. Era a primeira vez que Linguística andava naquele bairro? Procurou sinal, sem encontrá-lo; devolveu o celular ao bolso de trás; trouxe o celular à frente do rosto novamente, e de novo o devolveu ao bolso traseiro da calça. As sombras que um poste ou outro fazia do gato iam acompanhando Linguística, que caminhava no meio da rua asfaltada e molhada da última chuva. O gato não parava de observar Linguística. Ela não conseguia livrar-se dele nem se quisesse. Você não deveria nunca ter entrado nesse bairro. Como você chegou aqui? É muita ousadia atravessar tudo isso que atravessou e chegar a essa praça.
(...)
– Onde parou, Eraudo?
– No epigrama 56.
– Falava sobre o quê?
56. ANTES DAQUELA MANHÃ
O-Pai-de-Ceuto era cercado por rotinas. Sobre a mesa, o rádio, que nunca era desligado, apresentava “Tragedy”, na Xaxanã FM, dos Bee Gees. Concluído o pão dormido molhado ao café, a sua melhor camisa tinha que estar passada sobre a cama; ao lado, os sapatos emprestados de Ceuto, a calça de microfibra, a caneta dourada que acompanhava o prendedor de gravata. Lambia o cabelo. No ponto de ônibus, ele esperava o seu transporte com dezenas de pessoas. Ganhava as ruas de Xaxanã, avançava, mudava de ônibus, chegava à cidade Flor-de-Mandacaru, avançava até Bernúncia, até Casa de Taipa, e, finalmente, chegava ao comércio de Enxaiméis. Visitava clientes, contava-lhes lorotas. Ele contava que teria cargo importante. Possuía ideias infalíveis para transformarem Xaxanã num imenso parque turístico. Dizia ao mundo que um político amigo seu iria levá-lo ao palácio, no Planalto Central. Em casa, mais Tragedy”, mais Xaxanã FM, mais Bee Gees. Na pia, onde encontrava Linda, levantava o seu vestido. Ela não parava. Cheiro de bolinhos, de pastéis e de coxinhas fritas. Levantava até o umbigo. Ela baixava, ele insistia. Linda dizia:
– Tá tudo torto, aí!
Ambos riram. Por que se amavam? Porque o amor foi a melhor descoberta, pai! disse Linda. Mais “Tragedy”, mais Xaxanã FM, mais Bee Gees. Ele beliscava os farelos de pastéis. Os olhos não saíam das pernas dela. Xaxanã FM, e mais Bee Gees. O-Pai-de-Ceuto com uma fome gorda. Linda sussurrava-lhe:
– Tá tudo torto, aí! Parasse de beliscar meus pastéis.
Linda ria, Linda expelia cravos das costas dele à dentada. Mais Tragedy”, mais Xaxanã FM, mais Bee Gees.
– Que nojento, que nojo! Arranquei outro cravo de tuas costas.
O-Pai-de-Ceuto pesado e alto.
– Essas brincadeiras me fizeram as bochechas sangrarem.
– Ai!
– Mordi as bochechas.
Linda alta, Linda forte. A personalidade do pai Tuim. Linda temperamental. Linda amorosa. Linda confusa. Linda de outro mundo.
– Meu pé de jacarandá-mimoso. Ai, que nojo!
Linda ria, Linda brincava de cavalinho nas costas do marido.
– É tão bom te morder!
57. PÃO-DE-MELAÇO
Era fim dos anos 1970, O-Pai-de-Ceuto com o álbum Spirits Having Flown nas mãos. Em Xaxanã, ele conheceu Linda. Ela trabalhava na Pão-de-Melaço, onde Seu Tuim, pai de Linda, era funcionário no caixa da padaria.
– Linda, conte comigo pra ser feliz.
– Eu conto ao meu pai.
Duas ou três semanas depois, voltou a comprar cigarros na padaria Pão-de-Melaço:
– Só você me fez e me faz feliz, Linda.
– Juras?
– Não sou de amontoar mentiras.
Depois que deixava o caixa, indo de um lado a outro em sua casinha, Seu Tuim tirava som do seu violino; a papada dele cobria a metade do instrumento a miar umas notas diferentes de dó.
58. A MORTE DE INEFÁVEL
Na casa de Seu Tuim, que acabou nas mãos de Inefável, moravam Linda O-Pai-de-Ceuto e os filhos. Era uma casa na Servidão da Linha, uma passagem cuja largura não permitia se cruzarem duas carroças de tração animal. Longo trecho íngreme de pedras firmes, pedras soltas e mato, as residências erguiam os muros, as cercas na estrema da servidão. A casa de Seu Tuim, que era modesta, como caixa da padaria, ele ergueu em uma década o primeiro piso, na segunda o segundo e na terceira o terceiro cujo acesso se dava por uma escada externa de madeira com cordas. No último andar, Seu Tuim gostava de exibir-se aos amigos que subiam até essa parte da casa. Mostrava-lhes Seu Tuim moedas estrangeiras, que as tinha espalhadas no chão, livros comprados em sebos, pratos decorados nas paredes, e as conchinhas do mar trazidas do Pacífico, do Atlântico, do Índico, do Ártico, do Antártico.
– E quem lhe trouxe essas conchinhas, Seu Tuim?
– Não toque, por favor, não toque! avançava sobre os visitantes. Comprei algumas a peso de ouro.
Seu Tuim mostrava copinhos trazidos da Alemanha, tecidos bordados na China, suvenires da Indonésia. Guardavam o tesouro de Seu Tuim três gatos e dois cachorros velhos. E, no centro da sala, a urna funerária que Seu Tuim achou na praia. Os seus móveis eram pesados, imitavam rococós, e foram levados ao último piso antes de serem levantadas todas as paredes.
Na parte térrea do imóvel, onde Linda veio ao mundo, ela aguardava a chegada da polícia. Ia de um lado a outro. Um choro de criança preenchia a casa e o coração apertado de Linda disse:
– Se fosse por vontade própria, eu nunca sairia de casa. Por que eu tenho que sair de casa? Viveria só dentro de casa, só, só denicasa, denicasa, mas não posso.
Debaixo da planta deixada por seu finado pai, Seu Tuim, indivíduo cheio de pressas até no falar. O vento na árvore. O ipê cobria Linda de flores roxas.
O carro da polícia para na porta de casa.
– Que direi a eles? Vou atendê-los. Conto a mesma história que O-Pai-de-Ceuto me ensinou. Digo que meus meninos... Choro. Choro um pouco. E ou, quem sabe, talvez um muito. Tenho umas economias. Furo o colchão, arranco dinheiro, compro mortalha que combine com Inefável. Falo com vizinhos. Chamo parentes. Amanhã à tarde, levarei Inefável daqui.
59. O PRÍNCIPE
– Por enquanto, Linda querida, não levamos vida principesca, disse O-Pai-de-Ceuto, mesmo se em nossa casa, todos os dias, fosse Natal.
Ela sorriu. No almoço, Linda distribuía a ração:
– Satisfeito?
– Comi feito príncipe, amor. Iremos iniciar 2006 com o pé direito. Em 2006 pagaremos todas as contas, Linda.
– A conversinha é essa!
– Ano bom 2006. Ele será diferente. Posso senti-lo. Como vês. Onde será que deixei meu chapéu-panamá? Comprar uma daquelas mansões. Vais ver só! Tenho planos pra minha família. Olhe pros nossos meninos, Linda. Quem sabe, eu ou tu enxergue algum milagre.
– Não vejo nada.
– Arranco todos desta espelunca deixada por teu pai.
– Espelunca?!
– Modo de dizer.
– Quê!
– Não vou menosprezar o lar que me acolheu e nos serve há tanto tempo. O velho Tuim sabia das coisas.
– Ah! seguiu com a vassoura nas mãos. Isso ele sabia mesmo.
– Tiro da cozinha a mulher que amo; arranco-te dos pastéis.
– Chega!
– Teremos carros com motoristas e viagens duas vezes ao ano à Europa. Se não houver parentes na Europa, eu os invento. Faremos parentes na Europa. Ficaremos ricos. Rico pode tudo. Ó! Eu quero te falar. Baixinho. Ninguém precisa saber. Ó! Eu tenho articulado umas vendas que me trarão comissões suficientes pra compra as casas da rua.
– Que rua?
– A nossa. Aquelas casas.
– Acha que vou querer só isso? Nunca.
– As comissões me farão dono de um dos metros mais caros. Viver sem dinheiro...
– Não quero ouvir mais nada!
Ah, essas efemérides
Que não me deixam varrer
Ah, essas efemérides
Que não me deixam lavar
Ah, essas efemérides
Que não me deixam fazer
Ah, essas efemérides
Que não me deixam comer
Ah, essas efemérides
Que não me deixam passar
Ah, essas efemérides
Que não me deixam morrer.
– Se fecho os olhos, eu ouço mamãe cantar.
O-Pai-de-Ceuto soltou-se nas paredes, e os olhos percorreram portas a realizarem consertos, consertos nas paredes e nos quartos, janelas, banheiro:
– Derrubarei aquelas paredes, ampliarei salas, trocarei móveis, e mudarei do piso às telhas.
60. REDE MAJESTADE
– Aquela rede Hipermercados Majestade me prometeu uma capa. Passei no jornal, pedi uma arte. Uma joia!
Com paixão, O-Pai-de-Ceuto apertava Linda e cobria-lhe de beijos.
– Adeus, Linda! abraçava a mulher. Vou trabalhar.
– Faça boas vendas, querido.
Voltava, abraçava Linda novamente, novo elogio ao hálito dela, o perfume do corpo, as roupas, ao rosto, que nunca envelhecia.
– Você viverá 800 anos.
Estreita a casa. Corredor coberto com telhas sem conservação. Janelas mal cuidadas. Uns prédios comerciais vizinhos sufocavam a casa. Toda vez que um ônibus passava, estremecia a estrutura das paredes, os quadros com cupins derramavam o excremento do diabo e espalhava-se nos móveis, nos livros, na mesa da cozinha. Linda dizia que a cozinha tremia quando passava um ônibus.
– Você viverá 800 anos, é?
Duas únicas portas na casa, e elas viviam em estados miseráveis. Janelas pesadas de vidros remendados por fita isolante, esparadrapo. Adiante, cara a cara com a rua, uma porta, que dialogava com a porta que dava acesso ao quintal e por ela se enxergava o ipê roxo. Eram portas de chapa de zinco comidas por furos pelos quais passavam ratos, baratas. Lá fora, gaiolas e mais gaiolas.
– Você viverá 800 anos, é?
O-Pai-de-Ceuto promovia discursos, fazia discussões intermináveis, logo apresentava proposituras de libertação e riqueza. Em cada canto da casa uma gaiola, um passarinho com fome. Dos galhos do ipê saíam uns fios de náilon onde se estendiam roupas da família. Os mesmos bancos, cadeiras, sofás rasgados, manchas no teto, goteiras ameaçavam o forro ruir. Linda de um lado a outro; o dia inteiro, na cozinha, gordura saturada; recebia as pessoas na porta da rua.
– Viverei 800 anos, é?
Não era fácil fazer uma cozinha; encontrar os utensílios não era fácil, uma mesa cercada por cadeiras não era fácil, sob a proteção do calor do fogão, vista no alto da geladeira, que custava dinheiro, não era fácil os pratos no escorredor, a torneira de toque-toques e não-me-toques não era fácil. Aquela cozinha era a mesma há mais de meio século. Nela, os pais de Linda viveram naquela casa por mais de meio século. Tudo igual. O Sagrado Coração de Jesus. O espírito da mãe, do pai, dos irmãos. Quem vivia agora na cozinha era alma perturbada de Inefável. Linda vivia entre os dois mundos. Ela via o mundo dos mortos com frequência, sabia o terror que a esperava ao atravessar a linha divisória. Linda não queria isso aos seus. Quantas vezes, sob o manto de orações, Linda pediu a Ceuto que não cruzasse a linha, não professorasse. Ceuto frequentava UniFastapovo à noite, chegava à cozinha em plena madrugada. Antes do canto do sabiá, Ceuto saía, o transporte era demorado, Ceuto no ponto de ônibus, Ceuto no ônibus, Ceuto em outro e em outro antes de chegar ao trabalho à Loja Fotocopiadora Inefável. Linda via tudo ao atravessar a linha oposta. Regressava Linda ao mundo dos vivos, à mesa do café. Os mortos na cabeça de Linda atucanavam. A mesma gordura. Aquele mesmo piso cheio de frestas enormes. Os mesmos quadros sem valor grudados às paredes. Linda com as mãos nos pastéis. E dava dinheiro isso, filha? Filha, disse Seu Tuim, solta essa massa, volta, filha, volta a Pão-de-Melaço. Larga esse pau-mandado. Ele não serve. Ele não vale nada. Qualquer dia, Linda, minha filha, ele para de fazer o que faz. Um dia, ele vai viver de dormir e comer. Havia uma eternidade que Seu Tuim faleceu. A mãe de Linda voltava, puxava Seu Tuim, ele ficava ali. Filha, volta a Pão-de-Melaço. Ouvia-se o estampido do revólver que tirou a vida de Inefável. Cada vez que chegava à cozinha, Linda encontrava-se com Inefável. A arma à mão, a expressão de medo em Inefável, a fumaça que escapava do cano, Inefável sentado em volta da mesa, Inefável em pé, Inefável era uma pintura naquela parede que nunca mais sentiu o cheiro de tinta, Ceuto pedia de joelhos que Inefável aumentasse o salário, o que Ceuto recebia em sua loja não pagava o almoço. Ceuto era obrigado a levar pão numa sacola plástica com margarina e às vezes um presunto fedorento. Inefável presunto. A fumaça fugia do cano do revólver, o rosto de Inefável desfigurado, o sangue escorria na roupa de Inefável. Esse sangue, sobrinho, disse Linda, vai sujar a calça. Quanto custa uma calça dessa? Ela é perfeita em você. Persistia o atraso de vida na casa herdada por Linda e O-Pai-de-Ceuto. Ele ouvia “Tragedy”, na FM Xaxanã, ela mexia na massa. Linda ia e voltava. Inefável atravessava essas finas paredes da casa como se furassem um papel-manteiga. Inefável ocupava todos os cômodos daquela casa, que eram poucos, na Baker Street, que fazia esquina com Rua Penne Lany, poucos e apertados, de cuja janela da cozinha se avistava o Central Park. Tocava outra vez “Tragedy”, a música atravessava finas paredes, ocupava o banheiro, descobria as intimidades de Linda, saía, subia o ipê, ligava a TV, ocupava as janelas da rua, chegava à Baker Street, à Penne Lany, corria entre as árvores da Central Park, corria, atravessava aquela rua, aquela outra, e Inefável banhado de sangue. Inefável ao lado da mesa, Inefável caído, Inefável deixado na mesa da cozinha, Inefável dormia, Inefável com os olhos abertos, um revólver grudado à mão de Inefável. O ônibus, que levava Ceuto, atrasava, outro não vinha, Ceuto perdia a hora. Ceuto atrasado. O salário de Ceuto faltava, não vinha completo. O que houve? Faltas. Foi o ônibus. Não era meu problema. Era greve dos motoristas. Não me recordava ter feito acordo com o sindicato. Ceuto com o salário incompleto. As contas atrasadas. Os dias eram longos. Os meses não terminavam nunca. As matérias de estudo, na UniFastapovo, as provas, os prazos, os trabalhos, as notas baixas. Comia qualquer coisa. Almoçava pipoca. As mensalidades atrasadas. Cochilava nas aulas. Os professores atiravam em Ceuto tocos de giz. A promessa de bolsa era só promessa. Ceuto esperava trabalhar em qualquer escola, fosse a distância que fosse. Dia de chuva. Dia de calor. Ceuto não levou o guarda-chuva. Ceuto perdeu outro guarda-chuva. O filme na TV. O-Pai-de-Ceuto na frente da TV, só de calção. Uma xícara de café na mão dele. Tire o revólver da mão de Inefável. Os tiros na TV. Abaixe o som dessa TV. Ninguém conseguia dormir. Amanhã, Ceuto tinha que trabalhar. Foi bem na prova, Ceuto? Meu filho, não fosse professor. Não criei filho pra ser professor. Procurasse outra coisa pra fazer na vida, Ceuto. Procurasse um emprego no Banco do Brasil, saísse dali. O que fazia na loja de Inefável? Aquele lugar não ia oferecer nenhum futuro. Fosse estudar. Estudou? Acordasse, Ceuto. Era hora de ir trabalhar. Você se saiu bem na prova, meu filho? Inefável morto. Inefável não falava mais com ninguém, não ameaçava mais, não pagava mais aquele salário que pagava a você, meu filho. Não cometesse os erros que eu cometi, Ceuto. Não fosse ser professor. Saísse daí, meu filho. Não fizesse essa loucura, Ceuto. Tirasse a arma da mão dele. Já não se mexia. Por que os olhos de Inefável permaneciam abertos? A vida mesmo era curta. Era só isso, a vida era só isso? Quase não vivi. O que eu fiz da minha vida! Meu pai, um dia, tava aqui, e já não tava mais. Perdi a mãe, perdi o pai, os irmãos perdi, perdi a casa, não ficou nenhum imóvel, Inefável tomou meu suspiro e os pastéis. Inefável parado. Inefável no calor da cozinha. A voz de Inefável se foi com ele. Os carros na Penne Lany, na Baker Street. Linda ouvia as crianças, que iam à escola, ouvia as buzinas, via as bicicletas, os passantes sérios corriam apressados, os catadores de latinhas, Inefável morto, Inefável pasmo. Pintava a cozinha o mofo. Os pastéis fritos. O mofo. Os pastéis. O cheiro de fritura. O dia sem sol. O dia ensolarado. O dia de chuva. Outro dia frio. O calor. Os pastéis. A massa. Inefável. Bom dia. Que veio fazer aqui? Boa tarde. Sente-se, Inefável. Quer um café com pastel? Boa noite, tia. Inefável, você aqui. Quanta honra! O-Pai-de-Ceuto comprimente o sobrinho Inefável. Os aluguéis atrasados. Espere um pouco, sobrinho. Mais café? Tenho um dinheiro de pastéis pra receber. Não. Nem mais um dia, tia. Não uma semana, menos. Não. Mais pastéis? Vai chover, Inefável. A cozinha com odores fortíssimos. Sente-se, sobrinho. Linda presa ao cheiro da morte. A vida de Inefável fugiu sem um grito. O revólver estourou. O susto. Inefável morto. Os olhos aflitos à mesa do café. Inefável morto. Inefável no chão, Inefável na mesa. Inefável apodrecia. Inefável, seu maldito! Essa casa foi construída por seu tio. Inefável bandido, essa casa foi a única coisa que meu pai me deixou. Inefável sem coração, espere só mais alguns dias. Os curiosos chegaram com a polícia civil, entraram na cozinha de Linda. Inefável na mesa. Nu. Inefável sem vida. A arma na mão. Reaja, Inefável. Espere até amanhã. Não faça isso, Inefável. Os vizinhos na casa de Linda, na cozinha. A polícia encontrou o cadáver de Inefável. Inefável em decomposição. Inefável coberto por moscas. Inefável fechou os olhos? Os vermes começaram a devorar Inefável de dentro pra fora. Inefável era líquido. Inefável voltou a ser pura água. Os 70% de água no corpo de Inefável na mesa da cozinha de Linda. Os 70%, agora 80%, 90%, 100%, Inefável era 100% nada. Inefável voltou ao nada. Inefável era água. Só. Líquido. Inefável sem vida. Inefável água. Um mundão de mar atrás de casa. O mar traz o sal. Cobrisse Inefável de sal. Vais ficar, aí, filha? Filha, ó, escuta. Vais ficar, aí, debaixo desse ipê? Linda ouvia o chamado da mãe. Inefável, deixe a mesa da cozinha em paz. Você sujou de sangue a mesa, Inefável. Adorava os teus pastéis, minha tia. Quando irei receber? Logo. O que fazia com essa arma na mão? Guardasse. Tirasse ela de cima da mesa. Não queria arma em minha casa. Saísse daqui! Vou chamar a polícia. Eu tenho um amigo na polícia, sabia! Eu vou te pagar, sobrinho. Inefável morto. Apodrecia Inefável. A carne em torno da boca de Inefável foi comida por bichos. Inesperadamente, a morte jazia morta sobre a mesa da cozinha. Irromperam os irmãos de Ceuto no silêncio da cozinha. O que era isso na mesa, mãe? Era a morte. Como foi que vocês chegaram aqui? Saíssem, saíssem logo daqui! Alguém tirasse essas crianças daqui. Mas por que olhos de Inefável não fecham, mãe? Porque a morte não deixa. Alguém tire, tire logo todos daqui. Fora! Fora daqui! O tiro atravessou Inefável, e o tiro continuava a atravessá-lo. Inefável imóvel. Ele dormiu na mesa, mãe? Inefável deitado. Ele não se mexia por quê? Por que o sangue no rosto dele? Porque ele morreu com o porquê que sempre viveu.
– Mãe, assim, tu acabaste comigo! disse O-Pai-de-Ceuto.
– Leve as crianças daqui ó, seu inútil do inferno!
(...) Eraudo fechou o calhamaço. Ele tinha nove aulas naquela manhã.
Eraudo saiu da sala-mor, na segunda-feira, sem desejar bom dia ou olá a quem encontrasse nos corredores da Escola FazRegra. Passava Eraudo diante das portas fechadas das salas de aula. Avançou em direção ao laboratório, aulas começavam cedo. Noi levava sob o braço o notebook e as ciberpesquisas. E o calhamaço de epigramas não saía das costas de Eraudo, que avançou sobre os corredores de néon dobráveis. Abria-se corredor diante de Eraudo e se fechava no estreito caminho quão a prisão preventiva do Minotauro.
(...) Linguística continuou a correr, mas os passos não lhe obedeciam. Ela corria com se corresse da concordância verbal, da concordância nominal, corria das classes de palavras, das variações da língua, o uso do mau trocado por mal. Eu não sabia o que aconteceu, sabia que precisava fugir. As luzes nos postes piscavam, a escuridão se tornou densa. Eu me aproximei do espelho. O coração bateu forte. A mensagem parecia ter sido escrita há poucos minutos, e eu sabia que não ficaria sozinha. De repente, a luz começou a piscar. Ouvi um som vindo do banheiro. E eu me aproximei lentamente. Tentei não fazer barulho. O som era d’água, um pingo, outro. Não sabia de alguém lá dentro. Abri a porta do banheiro, e a luz se apagou. A escuridão era total. Não podia ver nada. Mas eu sabia que era observada. Quem taí? E não houve resposta. De repente, a mão fria no meu ombro. Eu me virei. Tentei me defender, mas era tarde. A escuridão me engoliu, e tudo ficou carvão. Surgiu um fiapo de luz. A porta aberta à minha frente. Entrei. Corri. Fechei a porta. Era uma cozinha? Era um quarto. A escuridão era total, e eu não podia enxergar nada. Quem taí? Nenhuma resposta. Comecei a mover uma perna, um braço. Tentei ouvir. Fiz um esforço danado. E minha mão tocou algo frio e metálico? Ouvi um clique. Um quarto vazio. Era um quarto vazio? Não era uma cozinha, era um quarto. Vazio. Vazio? Uma cama no centro. Uma arma sobre a cama. E no espelho, a mensagem com sangue: "Não devia ter vindo!”
(...)
Na sala-mor:
Já foi instalado na escola o ensino automático? Não. Autômato. Eu sou analógico, disse Moi, nasci analógico, analógico morrerei. O que fizeram com a consciência! O povo, na escola, começou a chamar as mudanças de Sem-Nome, a Inominável que se alimentava de povo.
– Poluição, poluição, poluição! gritava o coro. Poluição, poluição, poluição!
– A Generativa era a papa-tudo? disse Ademais.
– Você chegou ontem, Ademais! disse Moi.
– Tua opinião não conta! explodiu Noi.
– Cadê as aves, cadê as aves, cadê as aves? corredores afora ecoaram os gritos dos alunos. Cadê, cadê, cadê?
Eram vigílias dobráveis as paredes na escola. Tudo se queria saber, tudo se sabia, tudo era filmado, tudo se gravava e tudo era armazenado.
– Qual o dia em que aplicativo não queria sê-lo se ser já era o ser que ele queria ser? disse Noi.
– Deixasse de ser pasteurizado, mano! reclamou Moi.
– Qual foi o filósofo que anunciou ser o futuro só a sombra do passado?
– Não foi um filósofo, ignorante, foi um poeta.
DOBRÁVEIS PAREDES DE NÉON CABEM NO BOLSO E VIVEM DE MÃO EM MÃO
ContosMarcello Ricardo Almeida 24/11/2025 - 08h 39min
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