EU ME REFUGIEI EM MIM

Contos

Marcello Ricardo Almeida

INTERREGNO
Uma vez a cada ano se celebrava o intervalo entre os dois reinos.
– Tô comuita saudadevocê.
Era Dia de Finados. Velas acesas sobre os túmulos e flores: homenagens aos mortos. Começou uma poeira de chuva que se misturava às lágrimas cheias de lembranças. A água que descia do céu molhou, borrou, apagou as mágoas; e a saudade superou as más-querências vividas. E, no dia de silêncios e remorsos, os lábios arrependidos se calam numa gratidão inócua e tardia.
Começou uma trovoada. Atravessava os janelões da escola. Iniciou com granizo, depois caiu toró, replicou. Derramavam-se sobre os telhados pedagogia tradicional, renovada, progressivista, renovada não diretiva e tecnicista. Na rua, os bueiros pediam socorro. Corria o lixo e inundava calçadas e bocas de lobo. E vieram as chuvas libertadoras, libertárias e crítico-social dos conteúdos, foi o que ele disse.
– Não havia onde refugiar-se?
– Era um deus nos acuda.
Iniciou-se este século XXI com a expansão do sistema global onde redes eram interconectadas e, silenciosamente, avançavam em novas tecnologias. Na Escola FazRegra, nos grupos da comunidade escolar fiéis à velocidade dos Mbps e Gbps:
“João, o Tiago e o Pedro foram ao banheiro.”
Mais tarde:
“Ainda não voltaram do banheiro o Tiago, o Pedro e o João.”
Em seguida:
“Alguém da escola pode dizer o que houve com os alunos que saíram da aula e não voltaram?”
Resposta:
“Pedro pulou pela janela do banheiro e fugiu. Tiago tentou enforcar-se e o João o tirou das cordas.”
E, assim, as velozes taxas de transferência de dados atingiam dezenas de Gbps. E, nos grupos da escola, os Gigabits por segundo deixavam vesgas as redes, e os dispositivos interconectados compartilhavam estas informações:
“Cristiano tá esmurrando a parede.”
Ato contínuo:
“Ele jura fazer, a qualquer um que o impeça, o que faz na parede.”
Novo aviso:
“A sala de aula tá em pânico.”
“Atenção!” anunciou o pisca-pisca qual luzes de Natal, acima do áudio, e foi crivado de emojis de coração, aplausos, mãos postas, joinha. No áudio:
“Oiiii...! Oi! Ui...! Uiii! Tô... A gente temos... Hum...! Oiiii...! Tô na prestação de serviço às famia expelidas daqui da Terra papovoar outo praneta. Ó pessoal, se puder, se tiver, quem quiser... Pode ser um, assim, sapato vei ou casaco que não gosta mais de usar, mas...! Ôôô...! Hummm...! Mando na próxima aeronave.”
Não demorou:
“Alguém da coordenação pode conter a fúria do Cristiano?”
E conclui a gradação:
“Socorro! A parede caiu.”
Mais por intenso desejo e menos por dever de ofício, os textos nos grupos da escola eram acessados simultâneos e instantaneamente. Os idealismos de Ceuto e Eraudo, que acessaram grupos sempre que o celular grunhiu, estavam contaminados pela facilidade das múltiplas informações disponíveis a distância das mãos. Com acesso à Internet, os polegares acelerados de Eraudo e Ceuto buscavam tudo sobre tudo.
Na UniFastapovo, aulas combatiam nas trincheiras quaisquer tendências pedagógicas progressistas. O hábito acadêmico tangeu Eraudo e Ceuto à Escola FazRegra, símbolo da Pedagogia dos Costumes, onde eles trabalham.
Ceuto não queria adaptar o aluno à sociedade sem antes ser performático com questionamentos sobre as máquinas que lhe permitiam respirar com a ajuda de aparelhos. Eraudo, que comunga com Ceuto desde o primeiro dia na escola, dado ao silêncio performático e aos arroubos nietzschianos, na UniFastapovo, fumava e falava que a transmissão dos conhecimentos matemáticos cabe aos números e jamais à literatura pedagógica, a praticidade em salas de aula ou quaisquer outras malditas extravagâncias.
– E o aluno o que é?
– No prato, ensinava o professor durante a graduação, é tão-somente uma colher.
– Colher, Eraudo?
– No prato, quem é o receptor?
– O garfo, a colher...
– Acertou na mosca, Ceuto!
Na távola, na sala-mor, em torno da redonda:
Na tarde de chuva, ele informou a ela, que prestasse atenção à narrativa. Erauto e Ceuto interromperam a conversa e prestaram atenção à conversa dos colegas, quando eles aumentaram o tom de voz.
“...Quatro deles arrastaram à sala; inutilmente, ele esperneava; e gritava também, viu. Um escândalo pelo corredor. Curiosos quiseram testemunhar, pois aquilo se tornou arroz de festa. O que houve? Simplesmente se recusava a fazer prova numa sala sem luz e abafada. Mas era obrigatória a prova; isso era lógico. Não era? Era, colega. Que histólria é essa de não querer fazer a prova. Na sala, por fim, o grito derradeiro, alto e demorado. Mas isso não acontecia mais como aconteceu no passado, eu lhe assegurei tocando em seu ombro. Escuta, colega, não seria melhor ficcionalizá-la? disse. Mas ficcionalizar o quê? Crônicas assim aconteciam, e deixaram acontecer. Ah, sim! Por fim, como eu falava, de que se tratou a bendita? Espere um pouco. A bendita? Vou te falar tintim por tintim. Esse era um caso da língua com quem precisava aprender a análise do ritmo e da métrica. Conte. Bem sabes. Você sabe que não basta apenas rimar e deixar a coisa assim; precisa ter as habilidades específicas e as variações rítmicas das sílabas poéticas. Sei. Me obrigaram a estudar isso na graduação. Odiei. Foi? A literatura de cordel vinha sendo estudada nessa sala da história e culminava com uma avaliação, que alguns preferiam chamar de teste dos nove, outros de prova dos sete. Era uma turma do oitavo?”
Ceuto e Eraudo, que ouviam os bate-papos na sala-mor, interromperam a conversa. Eraudo tinha nas mãos aquele calhamaço que Ceuto lhe entregou há alguns dias. Eraudo havia chegado à inscrição 43, e parou naquele epigrama. Ameaçava em recomeçar a leitura; e os assuntos, que vinham aos borbotões, o impediaram de seguir em frente. Quis ouvir aquela história.
“Era salário arrochado, que chegava ao bolso a conta-gotas. E o bolso era furado. Muitas contas atrasadas. O cartão de crédito era um furo sem conserto.”
“A prova, colega, foi sobre o quê? quis saber. Escansão, informou-lhe com o notebook aberto. Entendi! disse. E leu:”
“Maria, minha luz e meu valor, 
“Fazer não é igual ao fazia.
“Grandiosa é a força do amor.
“Ver Maria é a pura alegria 
“Na chuva, no frio ou no calor.
“Clicava no campo euforia
“No giro, que corre e faz o gol,
“Beijava os olhos de Maria.”
“Fiz escansão do verso ‘Maria, minha luz e meu valor.’ Contei sílaba por sílaba poética, após a contagem das sílabas gramaticais.”
“Fui em ‘Ma-ri-a, mi-nha-luz e meu va-lor’, e brequei na tônica ‘lor.’ A vogal ‘u’ de ‘luz’ uni à vogal ‘e’ e com ‘lu-ze’ mantive a classificação tradicional.”
“E?”
“Lasquei um verso livre com ‘Fazer não é igual ao fazia’ pra homenagear o Modernismo.”
“Foi?”
“Porque ‘Fa-zer’, eu faço com duas sílabas, ‘não’ com uma. Meti no verso uma sinalefa bem metida com ‘é i-gual’, duas, sabendo que juntar ‘é’ com ‘i’ dava sinalefa. Depois, ó, foi a vez de ‘ao’, uma sílaba, e ‘fa-zi-a’ com três, e desregulei a métrica regular, e a tornei próxima da fala como pede o verso que anseia por ser livre. E mantive o ritmo. Carreguei a prova de questões barbudas e chumbo grosso. Foi ‘Gran | di | o | sa‿é | a | for | ça | do a | mor’, fui e pedi bis com ‘Gran- di- o- sa-é-a- for-ça-do-a-mor’, e mandei brasa com a métrica ‘Ver Maria é a pura alegria’, e fui na fonética das sete sílabas da redondilha maior. A vogal final átona de ‘Maria’ fiz união com as vogais ‘a’ e ‘é’ e formei uma só sílaba. E, aí, despejei decassílaba heroica com ‘Na chuva, no frio ou no calor’ e ficou ‘Na / chu / va, / no / fri / o / ou / no / ca / lor’ ou então ‘Na (1) chu (2) va (3) no (4) fri (5) o (6) ou (7) no (8) ca (9) lor (10)’ e, com este meu método, evitei que se fundissem vogais finais com iniciais. E então voltei à contagem clássica com o verso ‘Clicava no campo euforia’, com a qual fiz a escansão ‘Cli-ca-va_no-cam-po_eu-fo-ri-a’ e uni os sons no verso neste exemplo de sinérese, mas prefiro chamar de sinalefa por lembrar um caso que tive na jumentude. E, aí, veio a escansão que fiz ao unir as sílabas. Fiz palavra terminar em vogal átona unir-se à próxima palavra que tinha no início ‘h’ ou vogal. Por fim, ‘Beijava os olhos de Maria’ com sete sílabas. E fiz elisão com as vogais em ‘va os’, e concluí com a sílaba tônica do verso ‘ri’, e não contei com o ‘a’ de ‘Maria’ por ser átona final.”
“Me contasse mais, me contasse mais!”
“Nesta altura de bate-papos na sala-mor, na Escola FazRegra os soturnos corredores se personificaram com o eco dos gritos do aluno ao recusar-se fazer prova. Os efeitos de sentido tinham como objeto interpretar alguma parte do mito da caverna na avaliação transfigurada que produzia figuras com estilísticos recursos.”
“Me contasse mais, me contasse mais outros trechos de seu conto!”
“Mas prestasse bastante atenção, quanto à imagem.”
“Sim.”
“Paredes no corredor brilhavam feito polissíndeto.”
“Polissíndeto! disse. Como assim?”
“Cheio de conjunções.”
“Me contasse mais, me contasse mais sem me sonegar nada.”
“As paredes altas, os corredores estreitos. Vencia um, vencia dois, vencia três, e ingressava em outro, e saía deste, e entrava naquele; parecia um cego labirinto escuro, porque as luzes só iluminavam uma parte do caminho...”
“Aí?”
“Aí surgiu a parede de néon.”
“O que tinha nela?”
“Textos.”
“Só?”
“Assíndeto.”
“A o quê?”
“Frases com conjunções e nenhuma alguma anáfora?”
“Nenhuma?”
“Nenhuma repetição. Nem hipérbole, nem hipérbato.”
“Oxi!”
“E o que diziam as frases?”
“Agora, não sei se eram frases ou orações.”
“E isso importa?”
“Não.”
“E?”
“Uma garantia o direito ao respeito. Outra, a inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral.”
“A parede apagava-se.”
“Era?”
“Acendia-se com a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias, crenças, e de espaços e objetos pessoais.”
“Apagava-se?”
“Acendia-se outra parede com a Lei Geral de Proteção de Dados.”
“E... tinha mais, tinha mais?”
“O néon piscava. E aparecia na parede Violação de Direitos.Mais à frente Constrangimentos, escrito em néon Danos Morais, por fim, Vexame.
Ceuto aborreceu-se e também se aborreceu Erauto daquele bate-papo na sala-mor.
– Continuava com a leitura sobre a invenção da pólvora, Eraudo?
– Voltava ao epigrama 43.
43. INÊS, A INTERNETÊS, MANDA SEGUIDAS MSGS, E MARIABALA VÊ E NÃO AS RESPONDE
Uma tela, um mouse – ou nem isso – um teclado talvez: esta é única vida que eu não a desconheço.
– Fui ao xopim comprar xampu... Procurei dinheiro... Procurei um cartão... Saí do xopim sem xampu. Em casa, fui ver futebola.
44. O PODER DA REALIDADE MORTA
Como estará esta hora DonaÓ?
Seus olhares nas fotografias da sala de estar continuam ameaçadores.
45. MEIA CANELA D’ÁGUA
– O ócio é o ópio de nosso trabalho. Deixe tudo à onírica automação.
– A crônica, Zé!
– De novo?
– Zé Quase-SemFesta, essa é nossa lei.
– Eu aprendi o que é a lei nas telesséries do Zorro.
46. UMA BOA-NOITE
Assista no telejornal: “Mulher não sobrevive a cem desferidas pelo marido. Menino vítima do avô. Caminhão invade residência onde família comemorava o sexto aniversário de casamento. Amanhã começará a faltar alimento e produtos de higiene e saúde.”
47. NA SALA DE ESTAR DOS FAZREGRA
O Mar Tenebroso, e O Garrafão de Steinhaeger.
48. 1, 2, 3, 4, 5, 4, 3, 2, 1
Zé Quase-SemFesta nunca deu um bico numa redonda.
– Mas a paixão pela futebola...!
Zé Quase-SemFesta guardava segredos em recortes de crônicas sob o vidro grosso que cobria a mesa de trabalho. Imagens com dedicatórias dos dez maiores jogadores do mundo de todos os tempos.
49. O DESTINO DE TRAÇAS, ÁCAROS E FUNGOS
Olha-se MariaBala refletida no espelho para redescobrir se a sua gordura era localizada.
– O destino?
– O destino, disse Inês, é um sem-vergonha.
Esbravejava Seu FazRegra:
– Sem-vergonha que se disfarçava em muita coisa cheia de rótulos qual uma garrafa de cana.
MariaBala, num canto, não sabia se teve um pai ou um papaifigo. Se teve, não o conheceu. Chegou de improviso à casa de Seu FazRegra. Hoje, ardia de vontade em conhecê-lo nem se fosse em um dia, assim, disse, 2 de novembro.
Seu FazRegra pigarreou:
– Conheci um vaqueiro caolho que vivia se apaixonando à primeira vista
Era uma manhã de domingo com casas de aranha.
– Às vezes, eu sinto vontade, dizia MariaBala ao espelho, entrar numa clínica e sair uma boneca.
– Você é linda, MariaBala! disse Inês, a Internetês.
– Linda nada!
– Uma boneca! disse Seu FazRegra.
Depois, Seu FazRegra acendeu o cachimbo e disse dentro da fumaça:
– A filha de um amigo entrou numa clínica e não saiu mais.
– Que coisa horrível de se dizer, Seu FazRegra!
– Eu poderia ter ganhado a vida garimpando, disse Seu FazRegra, como fez Dobbs, em Tampico, na Sierra Madre. Não ganhei. Passei a maior parte do tempo na pele de Will Kane: ou matava ou morria. Esse garrafão me faz reviver aqueles momentos numa cachaça em copo de vidro grosso. Eu fui Dude, algumas vezes, e descobri onde começava o inferno. No mesmo lugar onde encontrei Ethan procurando Debbie, vi Pike e seu bando selvagem. Naquele deserto, eu me encontrei com o bom, o mau e o feio. E não se deve desconfiar do criador de porcos, Bill Munny, caindo do cavalo na frente dos filhos. Essa cachaça me leva a lugares onde eu jamais estive. Eu, moleque novo, no deserto do Jalapão, resmunga Seu FazRegra metendo fumo no cachimbo. Eu tocava gado no Jalapão, quando vi Ethan procurando a sua sobrinha Debbie.
– Debbie, Seu FazRegra? Quem é Debbie?
– Debbie? Sobrinha do tio Ethan.
Na manhã de cachimbo, destranquila e de fumaça na varanda, subira à cabeça de MariaBala questionar Seu FazRegra o porquê do destino do sótão.
– Vinha vaquejando uma rês na catinga, quando dos galhos retorcidos, espinhorentos e secos, ouvi aboiar um aboio antigo:
É um monte que agrada um homem triste e na desgraça
O silêncio rompido de susto se finda num copo de cachaça
E o vazio das conversas moles e tolas que gravitam praças
O povo coagula a ira e algum desgosto num riso sem graça
A guilhotina revolucionária do poderoso Robespierre passa
As mentiras repetidas nesses jornais e a cicuta na farmácia
A vida dos amantes de repente explode e depois vira fumaça
O encontro dos senões é esperado nas próximas gramáticas
O fim do mundo começa destruindo a quieta beleza da praia
E esse eterno recomeço está preso nas vigílias monásticas
E o monte que sossega um homem mora debaixo da samambaia.
– O que tem nesse cachimbo, Seu FazRegra?
– Aparecera, disse Seu FazRegra, de repente, de dentro da caatinga um vaqueiro magro, espinhado num cavalo de couro e ossudo, atrás do vaqueiro vinha outro em forma de barril e escanchava as pernas numa jumentinha miúda e triste. Passavam sem pressa. O vaqueiro trazia uma lança do tipo medieval. O que tinha de alto o vaqueiro feio e triste, tinha de baixo o da jumentinha rajada nos pedregulhos, barro solto, árvores dadas como mortas naquele sertão pleno de sol e suor. Figuras de livro de capa grossa, livro do tempo do livro de couro.
– É um monte que agrada um homem triste e na desgraça?
– O silêncio rompido de susto se finda num copo de cachaça, menina.
– Um bom-dia, moço!
– Dia.
– E o vazio das conversas moles e tolas que gravitam praças?
Seu FazRegra guardou o bom-dia dentro da lembrança de uma ocasião onde um homem gordo e grande passou por ele, caolho, lenço amarrado à cabeça, perna de pau e um currupaco-papaco no largo ombro. Era um papagaio que não lhe dava silêncio; cagava-lhe as costas, beliscava o ouro de seu brinco de argola e falava feito a caixa da cobra depois que lhe roubaram o sossego e o sustento.
– Iam homem e papagaio em direção à ilha do tesouro, Seu FazRegra?
– A guilhotina revolucionária do poderoso Robespierre passa, menina.
– As mentiras repetidas nesses jornais e a cicuta na farmácia, homem.
– Vi dois jovens fazerem juras de amor e vaidade, disse Seu FazRegra, e vi quando um padre lhes ofereceu abrigo.
– Onde?
– A loucolescente recebeu gordo vidro de sonífero e ao amante foi-lhe ofertado a fuga, enquanto as famílias de ambos se espetavam a punhais.
– Seu FazRegra...!
– Eu os vi, juro que os vi, entrarem no cemitério. Era um dia assim. Era um Dia de Finados.
– Seu FazRegra...!
– O rapaz, julgando a moça morta, logo se matou; a moça ao acordar cortou os pulsos diante da surpresa. Eu os vi. Ou li? Agora, não me lembro.
Inês, a Internetês, e MariaBala riram como há muito não riam.
– Não riam, suas mal-agradecidas!
Elas dobravam-se de tanto gargalhar.
– Juro. Vi o pançudo descer as escadarias do cemitério com uma tocha ardente que criava sombras gigantescas nas catacumbas, como as sombras da caverna de Platão e, vendo os jovens mortos, fez caretas de medo, correu, foi rezar.
– A vida dos amantes de repente explode depois vira fumaça?
– É o que sempre falo.
– O encontro dos senões é esperado nas próximas gramáticas?
– E não é?
– E esse eterno recomeço está preso nas vigílias monásticas?
– E apois! Viajei de Goiás a Mato Grosso. Passei uns dias num quarto de pensão, no interior do Mato Grosso. Numa manhã próxima ao meio-dia ouvira gritos no quarto vizinho. E o que vi não esqueço. Vi um sujeito transformar-se em rola-bosta. Eram as lembranças comidas por traças, ácaros e fungos.
50. O CÃO
Uma vontade louca de pregar os dentes no povo.
Dona Brainstorming Cabelo de Anjo, mulher de Seu FazRegra, andava puxando um cão. Por mais das vezes, o cão a puxava. Um cãozinho ameaçador que avança no povo para unhar e morder.
51. (...)
“Eu me refugiei em mim”, disse FazRegra, o Rancoroso. As palavras dele decoravam as paredes da escola.
Nos corredores, Eraudo e Ceuto. Apressados. Seguiam à biblioteca, que sempre estava fechada.
– Alguém havia falado que a Escola FazRegra era um labirinto.
– Entrava e não conseguia sair?
– Não. Não saía porque era impedido pelo sujeito.
– Que sujeito?
– Ele.
– Ele, e quem era ele?
– Ele era ele, ora!
– Sempre ouvi que ele é um substantivo masculino, que ele é aquele de que se fala, que ele é predicativo, que ele é o diabo a quatro, que ele é o terceiro...
– Terceiro o que, Ceuto?
– Terceiro pronome pessoal do caso reto.
– Não é a terceira pessoa do singular?
– Sempre tive vida atribulada, disse, talvez porque nunca encontrei o que dizer.
– O mundo vive pela palavra.
– Só existe o que pode ser exprimido.
– Pensado.
– Refletido.
– Ponderado.
– Agido.
– Encouraçado.
– É assim que o mundo compreende a si mesmo! disse.
– O professor trabalha com a palavra.
– Os operários não trabalham?
– Quem criou as palavras?
– A sobrevivência.
– É por meio delas que se transita.
– Não há compreensão senão pela palavra.
Conversavam Ceuto e Eraudo a caminho da biblioteca.
– Mesmo a palavra-gesto.
– A palavra-silêncio.
– A palavra-mãe.
– Se os pais quisessem de fato entender os filhos, parassem com a sanha de ensiná-los conceitos.
– Isso distanciavam as criaturas dos criadores.
– Conceitos eram moldáveis.
– Tomavam formas estranhas.
– Repulsastes.
– Atrativas.
– Enganosas.
– Surpreendentes.
– Veja o caso dos livros prisioneiros de b ibliotecas.
Restou-lhes apenas um zumbido, que fazia ziiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...! – a ocupar o silêncio, como uma nova filosofia pedagógica. Os passos de Ceuto e Eraudo nos corredores da Escola FazRegra se aproximavam da biblioteca fechada.
No recreio. Moi falava sozinho:
– Não é à-toa que a escola tá enterrada nessa lama fedorenta.
Os alunos corriam e gritavam, gritavam e gemiam, gemiam e caíam.
Moi:
– Isso tem método.
Os alunos na carreira, sempre na carreira. Escoriavam-se, outros davam violentos empurrões.
– Não podia tocar no aluno, porque a lei era implacável.
Os alunos começaram com troca de insultos. Nada os impedia. Evoluíram da troca de insultos às agressões físicas. Nada os impedia de rolar no chão.
– O recreio também é pedagógico, Moi!
Feito carrossel de imagens das memórias de Seu FazRegra, girou sobre a cabeça de Moi Django Livre, Uma Pistola para Djeca, Django, o Bastardo, veio Charro, girou viva Django, 10.000 Dólares para Django, por fim, Django.
– Será a Benedita!
– O senhor não tem domínio de sala?
– Domínio de quê?
– De classe.
– Fiz a cadeira de História Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea, do Brasil, da África e da América. Não fiz nenhuma disciplina de Domínio de Sala ou Recreio Pedagógico. Exigir domínio de sala, alegar recreio é pedagógico, isto é desvio de função; e forçar a barra é assédio moral.
– Não sei nada disso. Vendo o peixe como me mandam. Não tenho nada com isso. Sua função é uma, minha função é outra. Se vire!
– Na graduação, fiz Didática, Psicologia da Educação, Metodologia do...
– Não me interessa, Moi!
Seguiu o ritmo do carrossel sobre a cabeça de Moi. Foi a vez de Rio Lobo, a vez de Hondo, a vez de O Céu Mandou Alguém. E veio Jamais Foram Vencidos “na tumultuada época que se seguiu à Guerra Civil”. E veio Jake Grandão. Veio El Dorado. Girava sobre a cabeça de Moi as memórias de Seu FazRegra com O Último Pistoleiro. No carrossel, Sorte de Verdade, Bravura Indômita. Veio Fúria no Alasca. Veio o Álamo. Girando e girando e girando Os Cowboys. Veio Sangue de Herói. Veio A Grande Jornada. Veio a Marcha de Heróis.
– O senhor não vai fazer nada, Sr. Moi?
– Eu?
– O senhor, sim. E quem mais poderia ser?
Os alunos davam boladas nas vidraças. E outros se deixavam escravizar; eram cooptados pela maquininha carregada no bolso de trás, que estava sempre à mão.
“Dopamina barata!” resmungou.
– O senhor não tem jeito, não é, Sr. Moi?
“A escola é currículo e não vende capacidade moral nem desenvolvimento ético ou socioemocional!”
– O senhor vai ficar aí parado, Sr. Moi?
Os alunos vinham perdendo o poder da comunicação. Falavam por gestos e estes foram substituídos por gritos, escoriações, tapas na orelha. Ruídos eram aceitos na comunicação entre os alunos, mais do que a palavra.
O conhecimento afundava. Submergia a intolerância.
– O senhor não vai fazer nada, Sr. Moi?
Eles pareciam perder a capacidade da comunicação por meio dum texto. Os alunos fugiam da leitura, fosse ela qual fosse; o que liam, não entendiam. Era o ódio à escola o que prevalecia cotidianamente nas salas de aula sujas, mesas riscadas, paredes cheias de buracos.
– Diga alguma coisa, Sr. Moi.
Girava o carrossel. Moi olhava o que havia sobre a sua cabeça. E passava diante dos seus olhos os cavalinhos bem coloridos por sinal. Ele viu Viva Zapata e viu Os Profissionais, viu Vera Cruz e viu Compañeros, viu Quando Explode a Vingança e viu Uma Bala para o General com Gian Maria Volonté e Klaus Kinski. Depois foi a vez de Os Abutres têm Fome. E veio Onde Lutam os Bravos e veio México Violento. Veio o Exército de Cinco Homens, e Os violentos vão para o Inferno.
– O senhor não vai falar nada, Sr. Moi?
O recreio era extenso, porque o grêmio estudantil reivindicava. Os alunos só gritavam e falavam alto, falavam alto e intimidavam os colegas, intimidavam-se mutuamente como se levasse o seu egoísmo ao Podium, que foi construído na última reforma da Escola FazRegra. O que eles chamavam de pódio era uma plataforma inacabada e sem graça.
– O recreio é pedagógico, Sr. Moi.
– O senhor não tem domínio de sala, Sr. Moi?
– Isso não é comigo, Sr. Moi.
– Se vire, Sr. Moi!
– O senhor é pago pra isso, Sr. Moi.
– Essa foi sua escolha, Sr. Moi.
– O senhor é bem crescidinho, Sr. Moi, pra saber se quer ficar ou não.
– Aguente as consequências, Sr. Moi.
– No último dia do mês, Sr. Moi, o senhor irá ver se foi depositado, não irá ou não irá, Sr. Moi?
– Procure o sindicato, Sr. Moi.
– Vá procurar tratamento médico, Sr. Moi, se não tá aguentando, Sr. Moi.
– Uma amiga minha, Sr. Moi, se afastou por distúrbio emocional causado por estresse crônico e desgastante no ambiente de trabalho, Sr. Moi... E minha recomendação, Sr. Moi, é que faça o mesmo.
O carrossel com as memórias de Seu FazRegra não parava de correr nos espaços do recreio. Moi olhava e via, ao invés da cobertura de fibrocimento, Sete Espadas cavalgar no giro do carrossel. Quem Dispara Primeiro, seguia-se Rezo na Escuridão, Peacemakers, Um Homem, um Cavalo, uma Pistola, O Renegado, Minha Lei é Matar ou Morrer, A Metralhadora Gatling, A Morte anda a Cavalo, Os Cruéis, White Comanche, À Procura da Vingança, Cold Mountain, El Condor. Viu Sabata com Lee Van Cleff, e viu Cavalgada Infernal. No carrossel, De Volta ao Oeste, e passou Ouro é o Que Vale, e passou Deuses e Generais, e passou ...E Deus disse a Cain, e passou Eu Quero ele Morto, e passou Tempo de Glória. Foi a vez de Oeste Selvagem, foi a vez de Providence Caçador de Recompensa com Tomás Milián. O carrossel seguia o seu ritmo com Trindade Violenta, e Os Quatro Pistoleiros do Apocalipse, e Hatfields McCoys, e O Pistoleiro Esquecido, e Ringo, o Cavaleiro Solitário, e Bonanza, e Vou, Mato e Volto, e Django Desafia Sartana, e Duelo de Forasteiros, e A Face Oculta dirigido e estrelado por Marlon Brando, e A Volta do Pistoleiro, e Deus os Cria...Eu os Mato, E o Vento Levou.
– O senhor, Sr. Moi...
– O recreio não acaba nunca?
– Eu lhe recomendo, Sr. Moi...
Corria o carrossel sobre a cabeça de Moi. Ele levava Arizona Violenta, De Volta ao Inferno, e levava o carrossel Mohawk, a Lenda do Iroquês, e Assassino Cruel. Aquele carrossel tomava dimensões inesperadas, no recreio da Escola FazRegra. Moi viu na memória de Seu FazRegra passar O Desertor, seguido por O Retorno do Enforcado, seguido por Trinity e Seus Companheiros, seguido por O rio das Almas Perdidas, seguido por Bad Girls, seguido por Quando os Brutos se Defrontam, seguido por A Oeste do Inferno, seguido por Prova de Fogo.
– Sr. Moi, o senhor ainda tá aí, Sr. Moi?
Moi sentado num banco de madeira debaixo do sol e da bagunça que era festejada pelos alunos. Os protetores auriculares de Moi não funcionavam mais. O silêncio foi violado pelo carrossel sobre a sua cabeça com Chaparral em vários episódios, com O Dólar Furado com Giuliano Gemma, e Adios Gringo. E seguido por Cavalgada com o Diabo. Corria o carrossel sem controle. O recreio esperava o sinal estridente do apito do guarda aflito.
O guarda com o seu apito. Fio! Fiiiiiiiiiiiiiiio! Pedia ajuda o guarda da escola com a ajuda do seu apito:
– Fio! Fiiiiiiiioooooo!
Ninguém parecia ouvir ninguém nos gritos do guarda aflito. O guarda mal conseguia assobiar em seu apito:
– Fio! Fiiiiiiiioooooo!
E o guarda chorou, demoradamente chorou o guarda com o seu apito:
– Fio! Fiiiiiiiioooooo!
E o guarda correu. Correu o guarda com o seu apito:
– Fio! Fiiiiiiiioooooo!
E o guarda tropeçou. Caiu. Rolou com o seu apito:
– Fio! Fiiiiiiiioooooo!
E o guarda desmanchou-se em um buraco d’água:
– Fio! Fiiiiiiiioooooo!
De repente, o guarda engoliu a algazarra, engoliu o recreio, engoliu toda a escola. O guarda engoliu a noite.
Das tripas delgadas do guarda aflito veio Matrix. Corria o guarda aflito no carrossel sobre a cabeça de Moi. Veio X-Men, e veio Code 46, e veio Arquivo X. Atrás, na pressa do carrossel que não parava de girar sobre as lembranças de Moi, veio Star Wars, e veio Duna, e girava Fúria pela Honra, e girava John Carter Entre dois Mundos, e girava Alien, e girava o subgênero com o Horror Cósmico, que demonstrava pelo medo sem conserto de que o universo era indiferente aos seres vivos.
– Fio! Fiiiiiiiioooooo!
A insignificância da humanidade era festejada no barulho:
– Fio! Fiiiiiiiioooooo!
O medo ao desconhecido se encontrava no outro lado do portão da Escola FazRegra. Tudo era loucura debaixo da Lua e debaixo do Sol, que viam loucura como consequência ao medo do desconhecido. Não há começo e nem fim. Tudo é vastidão, nada mais do que vastidão eterna.
– Fio! Fiiiiiiiioooooo!
– Moi!
– Ouça O Chamado de Cthulhu.
– O chamado de quem?
– Cthulhu.
Das tripas delgadas, o som do apito. Através da lagoa da sua roupa veio o som gelado. Cada mexida do guarda, de uma veia, de um músculo, a mistura do apito e das tripas sofrendo, sofriam e faziam friiiiio! Friiiiiio!
Corria o carrossel, e com ele O Exterminador do Futuro. E corria também Minority Report. Moi não sabia mais se estava no recreio da escola ou preso em algum caos na mobilidade urbana. Moi olhou o céu sem nuvens. E Moi olhou o céu com nuvens. Moi olhou o céu escuro. E Moi teve absoluta certeza de que choviam canivetes. E passou, no carrossel, A Origem, e passou Blade Runner, e passou A Estrada, e passou O Predestinado; passou Vigilante do Amanhã com Scarlett Johansson. E passou, quase raspando a cabeça de Moi, O Predador.
Fonfom! ouvia-se. Vinham da rua os carros aflitos. E passou Lucy. E Moi viu passar Transcendence, a Revolução. A escola caminhava para o seu abismo final. E passou, ante os olhos de Moi, O Homem Duplo. Passou, diante dos olhos de Moi, Inimigo Meu.
– O senhor obedeça a escala do recreio, Sr. Moi.
– Não tem observado a escala do refeitório, Sr. Moi. A vigilância da escola é muito bem avaliada, Sr. Moi. Alguma dúvida, Sr. Moi? As câmaras jamais erram o alvo, Sr. Moi. Nossa vigilância eletrônica costuma sugerir ao secretário que use o poder discricionário e mande embora quem quiser.
O guarda com o seu apito. Fio! Fiiiiiiiiiiiiiiio! Pedia ajuda o guarda da escola com a ajuda do seu apito:
– Fio! Fiiiiiiiioooooo!
Ninguém parecia ouvir ninguém nos gritos do guarda aflito. O guarda mal conseguia assobiar em seu apito.

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