Nesta manhã, 27 de outubro.
– Feliz é o cão, que ladra como se falasse. Sai pra passear. É levado pela coleira. Na rua, encontra um burro cansado do trabalho que zurra e decide viajar ao descobrir-se cantor. Adiante, um gato no muro toma igual decisão e segue o burro. Não demora, um galo apressado passa atrás dos candidatos a cantores. Eu sigo viagem neste substantivo de deslocamento ao invés de conjugar o verbo viajar.
– Ontem, o céu azulzinho, azulzinho e, hoje, forrado d’água.
– Viu o jogo?
– Que terrível resultado!
Na estrada de terra batida. No pedregoso, esburacado e tortuoso caminho da escola, na semana seguinte, as mesmas vozes conversavam:
– Vamos instituir um currículo onde todos sejam iguais perante o saber.
– A escola não pode fazer diferenças?
– Que horror!
Em outra segunda-feira, a caminho do trabalho pedagógico:
– Vamos promover na escola a igualdade.
– Vamos.
– Ótimo!
– Vamos também erradicar o ódio ao conhecimento?
Outro dia, os mesmos caminhantes a caminho da escola:
– Tempo macambúzio, Eraudo.
– Sempre fala isso, Ceuto.
– Não acha que, de repente, o mundo ficou lusco-fusco?
– O que é isso, Ceuto?
– Lusco-fusco?
– Sim.
– Não sabe?
– Não.
Distantes. Já próximos aos portões da FazRegra:
– Eraudo, tenho tantos planos pra escola.
– Conte seu conto.
– Há uma simbiose, Erauto, em tudo isso, sabia!
– Sempre acreditei nisso, Ceuto, entre mim e você.
– Nossa sintonia é pedagógica?
– É o que espero!
– Olhe a grandeza do meu planejamento.
– Meu planejamento é maior do que o seu! Quer vê-lo? Isso aqui é apenas uma parte do volume em estado de inércia.
– Não vamos medir nossos planejamentos. A questão não é saber se meu planejamento é melhor do que o seu.
Na sala de aula:
– Gente, o mês comemora o Dia do Poeta. Viva o poeta e a poesia!
– Quê!
– Que foi que ele falou?
– Como saber com esse barulho.
– Olha lá o que eles tão fazendo no canto da sala!
Bumbum! batiam os alunos nas carteiras com as mãos espalmadas.
– Gente!
Bumbum! Bumbum! Aumentava pela adição de outras batidas aceleradas nas carteiras. Batidas e gritos. Competições de gritos agudos.
– Disse: o poeta e a poesia! esforçou-se e foi agredido pelo arremesso de uma caixa de lápis de cor. Cores espalharam-se pela sala. Quis reagir. Conteve-se. Não aplicou o método em contar até três, fazer um gesto com o braço erguido e fechar a mão, porque sabia que a algazarra já tomou de assalto o ambiente da aula. Dia do Professor! Digo, Dia do Poeta.
– Quê! uma aluna concertou os óculos com a ponta dos dedos.
– Poeta.
– Que significa isso?
– Poeta?
– É isso aí, Ceuto. Que significa essa m...?
– Não sabe o que é poeta?
– Por acaso, Ceuto, devo saber?
– Aqui é uma turma do nono ano, gente.
– E daí!
Eu comprovo a cada instante que tudo em volta de mim ficou completamente lusco-fusco. Era um tempo macambúzio. E se amanhã chover? Talvez precise comprar um guarda-chuva. E se amanhã não chover? O tempo parado; as coisas não se moviam. Parecia o fim da gravidade. Dezembro estava próximo. Natal logo ali. Olhou o tempo através dos janelões. Não gostei dessas alpercatas. Paguei tão caro. Como fui comprar isso? Os dedos dos pés de fora. Eram tão pequenas!
As cores da escola iam e voltavam.
As imagens a carvão, outras a aquarela com figuras de coletores, animais gigantes. Nas paredes da FazRegra, as frases que iluminavam por toda a escola e a sua Pedagogia dos Costumes.
Veio-lhe ânsia de vômito; controlou a ânsia a muito custo. Olhou a ponta das unhas dos pés (hábito que desenvolveu no período em que serviu). Engoliu calado o “e daí!” do nono ano no ensino fundamental.
Viu-se um inútil na Escola FazRegra. Era isso que ele queria até o fim de sua vida útil. Sentou-se. Levantou-se. Dirigiu-se à porta da sala. Viu corredores iluminados com frases da Pedagogia dos Costumes, desenhos de coletores e os animais gigantes a ponto de atacar os desatentos. Ceuto sequer quis ir adiante com a cronologia dos estilos que figuravam enormes, como se brilhasse, em seu planejamento. Parou. Refletiu. Quis desistir. Achou que talvez estivesse em um lugar irreconhecível, o ambiente era esquisito. Não tô me sentindo bem...!
Mas o que saberia fazer se não tivesse aqui?
Eraudo, diria, quis macerar por semanas a cronologia dos estilos. Erauto iria perguntar que diabo era macerar a cronologia dos estilos.
Ceuto voltou ao quadro.
Bumbum! Bumbum!
Começou a rabiscar que o Classicismo valorizava a razão, a ordem e a disciplina. Parou. Apagou o quadro. Afastou-se da sala. Foi à sala-mor. Não tinha café. Foi à cozinha. Voltou à sala.
Bumbum! Bambam! Tuntum! Tantã.
Podia até antever: – Perguntaria à aluna, que se senta lá atrás, no fundão: “Sabe me dizer o que a realiza?” Esperava dela a resposta. Ela ficaria de cabeça baixa, se esconderia atrás da cortina, ameaçaria fugir pela janela. Eu insistiria:
“Sabe me dizer o que a realiza?” ela abaixaria o olhar, acuada, e não me diria nada senão um esboço de riso. A boca dela tomaria um outro formato e os lábios quase desapareceriam de tão finos. E eu ficaria sem saber o que eu lhe perguntaria. Ela faria caras e bocas. “O que sabe sobre a valorização da razão e da disciplina?”
– E da ordem, não perguntou? diria Direrrepilo, que foi de minha área por anos, mas não fazia mais parte deste quadro. Ela foi substituída pela automação dita mais eficaz, sem direitos trabalhistas nem respaldo de sindicato, tampouco aumento salarial.
– Classicismo, menina que não abre o livro, usa formas tradicionalíssimas, formalíssima linguagem.
Ceuto, parou, pensou e acabou indo adiante com a cronologia dos estilos. Falou que o Romantismo tinha apreço pela emoção, e tudo o que fazia era feito na emoção mais profunda; só ele valorizava tanto o individualismo. Não sabia se comunicar como o Classicismo, que optou pela linguagem mais leve e livre, cheia de expressividade. Não tardou a aparecer o Realismo carregado das descrições detalhadas, como espelho da sociedade, e a objetividade era o seu cajado; não sabia viver longe das querelas sociais. E foi cedendo aos poucos ao Naturalismo, que caiu do tubo de ensaio do determinismo dalgum cientista que se descuidou; tudo o que fazia era não se desligar do comportamento humano. A nova geração quis ser Modernista com inovações, rojões, experiências com a língua, diria, e a sala em êxtase ouviria atenta, cheia de paixão, porque à moda do Modernismo, usaria uma linguagem longe das convenções e das formas. Falaria sobre o Pós-Modernismo e misturaria na alma deles realidade e verdade com humor e ironia. Testaria todos e usaria casca de banana ao lhes perguntar nas provas sobre as principais diferenças entre Classicismo e Romantismo. E exigiria deles autores e obras. Não ficaria tijolo sobre pedra. Quem valorizava a razão e a forma e busca da beleza e perfeição era o Classicismo ou o Romantismo? Quem valorizava as emoções, o regionalismo e o nacionalismo cheio de imaginação da história e da natureza era o Classicismo ou o Realismo? Veria caras, bocas aflitas. Veria Vera rogar por respostas. Deixaria Bárbara chorar com uma nota baixa. Faria Justino sofrer porque, quando chegasse em casa com um zero, ele não tardaria em ser severamente castigado pelos pais; e os pais de Justino, por acharem justo, logo estariam na porta da Escola FazRegra com petições carregadas de brocardos. Falaria de Lord Byron, misturaria com Homero e Virgílio, diria trechos de Álvares de Azevedo e outros de Luís de Camões e exigiria na prova que identificasse em qual época eles foram estes e não aqueles. Como assim, Ceuto! ouviria da turma inteira, que reivindicaria uma explicação mais didática. E eu diria: “Ora didática!” Entre eles, eu faria uma mistura dos diabos com a Grécia, Roma, Rio de Janeiro e São Paulo. Iria me divertir. Buscaria Honoré de Balzac e convocaria Machado de Assis numa sessão espírita durante a aula. Faria com a cátedra o que não foi feito até ontem. Tudo em nome de liberdade de cátedra. E faria críticas à política social. E, saciado, como animal político, concluiria as avaliações com pitadas de influências positivistas e nenhum dialogismo. Não satisfeito, pois menti ao dizer saciado, salpicaria cientificidade a torto e a direito. Chamava Dostoiévski à moda de Machado. Levaria a turma ao Simbolismo e exigiria todos os símbolos e todas as sonoridades. A turma seria obrigada a decorar versos de Baudelaire na língua de Baudelaire e carregar pelos corredores da FazRegra Cruz e Sousa. Traria um relógio analógico e o deixaria na sala, o maior relógio que eu pudesse trazer, e aceleraria o tempo. Eu queria vê-los entrar pelo cano das experimentações Pré-Modernistas e se lançarem ao Pós-Modernismo feito Macunaíma num manifesto antropofágico. Não poderíamos permitir, não é, que o público se torne privada. E obrigaria a turma a retornar de imediato ao Quinhentismo e navegar na carta de Pero Vaz, escrever na areia, deixar as ondas apagarem como fez com Anchieta. Desta vez, catequizaria vocês um por um! Com a Pedagogia dos Costumes de FazRegra, que exigia dos outros o que ele mesmo não fazia, todos saberiam o que é o Novo Mundo. Esfregaria na cara deles todo o Barroco satírico e, dessa vez, ouviriam sermões. Falaria com eles em uma língua rebuscada, e alimentaria a língua com paradoxos, metáforas dariam pulos desse tamanho, e os conflitos seriam estabelecidos em toda a escola, e as antíteses disputariam no palitinho. Outra vez, eu os levaria às reflexões espirituais e ao medo do fogo eterno, e faria a cabeça deles entrar em torvelinho de contradições. Depois, eu e o Erauto, nos divertiríamos na sala-mor entre bolos de coco, recheio de chocolate, de banana cujas cascas espalharíamos nas perguntas de provas – eu de língua, ele de fórmulas e números. Eu os faria mergulhar no Arcadismo com Marília de Dirceu, e os arrastaria a uma linguagem direta e simples, iluminada como o sol da roça. Todos deitados à sombra de palmeiras como se lá esperassem ouvir o canto de sabiás, tocados pelo Romantismo em 50, 80 perguntas bem capciosas, talvez, quem sabe, uma Lira dos Vinte Anos. Ah, quanta emoção! Quanta subjetividade arrancaria da turma que odeia o conhecimento. Que maravilhosa divagação! O maldito delírio para além das digressões. Viria à sala e despejaria toneladas de memórias póstumas de escola que, desde ontem, foi devorada pela automação de maneira indolor. Que satisfação! E que completa perda de tempo é a tentativa em explicar a sequência didática. O chão da sala tão diferente do que trazia a vã filosofia pedagógica no planejamento de aula.
– E daí, Ceuto! insistiu a aluna.
– E daí o quê?
– Que significa isso?
– Isso o quê?
– Poe não sei o quê!
– Poe?
– Poe, poeta, sei lá!
Na sala anexa:
“Alguém que cuida da disciplina pode vir aqui em minha aula? É urgente. Júlio e Composto tão se enforcando!”
“Ontem, cinco professores foram exagerados por permitir os alunos fazerem em aula o que se faz na cama.”
“Júlio e Composto tão aumentando a temperatura na sala de aula. Alguém nos socorresse, por favor, antes que aumentasse a temperatura da escola e tudo fosse consumido pelo fogo que consumiu Roma.”
Na turma de Erauto:
– Pessoal, silêncio, pedia Erauto. Silêncio, pessoal!
Zum! Bum!
– Alguém resolveu as equações?
Zum! Bum!
– Alguém calculou áreas e volumes das figuras geométricas?
Zum! Bum!
– Alguém resolveu os problemas de proporcionalidade?
Zum! Bum!
– Alguém sabe o que quer dizer ax2 + bx + c = 0?
Zum! Bum!
– Veja, aí, se alguém conseguiu analisar as funções f(x) = ax + b e f(x) = ax2 + bx + c?
Zum! Bum!
– Não acredito que você vai arremessar a cadeira em seu colega. Ei! Não, não faça isso. Vou pedir ajuda à coordenação. Socorro, supervisão!
Na sala de aula contígua:
Zás! Bumbum!
– Vocês querem ouvir o que tenho a dizer?
Zás! Bumbum!
– Vocês querem parar de correr na sala?]
Zás! Bumbum!
– Vocês querem sentar-se em cadeiras diferentes? Ei! Volte ao seu lugar, Lis. Por que tá sentada no colo de Maria de Fátima? Ponha no chão seu colega, Antônio! O que você faz com a mão na calça dele? E quem de vocês conseguiu calcular a velocidade da Terra? Amanhã, vocês apresentarão o trabalho sobre a combustão entre ácidos e bases. Alguma dúvida? Desça da mesa, Roberta! Por que você resolveu correr pulando de carteira em carteira? Qual foi a equipe que fez a tabela periódica? Ei! Foi você que ia construir um foguete pra melhorar sua nota? Hoje, vamos estudar as propriedades da luz e sua reflexão e refração. Ei, ei! Será que posso dar minha aula? Quem trouxe o bicarbonato de sódio e o vinagre pra criar na aula de hoje um vulcão caseiro?
No refeitório:
– Leu isso, Eraudo?
– Que é isso, Ceuto?
22. O DEDO
Ela vê um dedo morrendo no sumidouro. Um homem olhando o dedo; um homem morto, só o dedo do homem vivo. O sonho recorrente de MariaBala é a cabeça dum homem morto dentro dum vidro de conserva. E o único órgão vivo do homem morto é um de seus dedos. Um dedo com pernas, braços, cabelo, boca, olhos: como se fosse um pequeno homem que explora a casa. A cabeça do homem dentro do vidro reivindicava cuidados com seu dedo, pois ele é o seu último membro com vontade e determinação.
23. A NUDEZ DA LUA
Hoje, a lua tá dormindo de pernas pro ar.
24. POR QUE TEMOS QUE MORAR COM AS BARATAS?
Lentamente, MariaBala erguera a cabeça do travesseiro e um ET estava ao lado de sua cama, no sótão, nu, chupando manga.
25. ÓIA O JORNAL! JORANAL FASTAPOVO
Quando eu saí de casa, a minha pauta me disse: Seja teimoso.
No refeitório, entre uma bocada e outra no pão molhado no café:
– Talvez, Eraudo, eu bombardeie a caixa de entrada com e-mails.
– Só não bombardeie os colegas com suas convicções, Ceuto.
– Conseguiu ler, Eraudo?
– Tô lendo, Ceuto, tô lendo, cara! Só não me bombardeie a cada segundo.
26. BORBOLETA
A lavadeira bate as roupas nas pernas. Estivera sonhando. Cochilara, no sótão, entre os livros velhos do velho FazRegra. Aos nove meses de gestação, alegremente triste, MariaBala sem roupa e com frio, sentada num tronco, dentro de um bosque marrom de árvores retorcidas. Protegia a barriga e os seios como se os cobrisse com a ponta dos dedos e, de suas costas, surgiam as pequenas e coloridas asas de borboleta. A borboleta lavava roupa nas pedras.
27. ESCURIDÃO E SILÊNCIO
Falando com meus fantasmas...
28. TEMPESTADE DURANTE A PROMOÇÃO NO HIPERMERCADO
Tu-e-teu-e-tu com o coração de manteiga derretida, com óculos na ponta do suado nariz conferindo preço por preço nos corredores do hipermercado, indo de gôndola a gôndola. FazRegra, na cadeira de rodas, corria nos corredores. Lunga-Não-Sei-das-Compras bebia na lata de cerveja após uma tempestade de ideias com a irmã Brainstorming Cabelo de Anjo.
– Não é nesse, é naquele que o amigo, Diz-Não-Sei-o-Quê, costuma vir fazer compras, Cabelo de Anjo? Olha só! Faz questão de ignorar quando eu lhe faço perguntas. Você é minha irmã, pô! Finge entretida com seu cãochorro.
– Não mexe nele, Lugar-Não-Sei-das-Compras!
– Cabelo, não é aqui que meu amigo Diz-Não-Sei-o-Quê faz compras.
– Quem?
– O Diz.
– O Diz?
– O velho Diz.
– Diz... Não sei que Diz é esse Diz. Disgráfico?
– Não.
– Dislálio?
– Não.
– Disortográfico?
– Não.
– Disfásico?
– Não.
– Disártrico?
– Não.
– Disléxico?
– Não.
– Discálculo?
– Não.
– Então, não me encha fora de hora!
29. OS PERIPATÉTICOS SEU FAZREGRA E BRAINSTORMING
– Sabes o que a galinha disse pro galo?
– Não.
– Cocorocóóóóóó!
– Fúi, que nojo!
– Sabes o que a onça disse ao onço?
– Não foi corococó. Foi?
– Não sei. Foi? Sabes o que o moço disse à moça?
– Não.
– Vamos corocorar?
– Ah, caichoro..!
– Sabes o que o raposo disse à raposa?
– Não. É charada? Não, não sei.
– Sabes ou não sabes? Eis a questiúncula, Cabelo de Anjo.
– Não, não sei, meu velho. Não tá com fome?
– Não sabes?
– Não sei.
– Nem eu.
– Imundo!
(Pausa dramática).
– Tu sabes o que o macaco falou pra macaca?
– Se tu não sabes, como irei saber?
– Disse pra cada um cuidar de seu galho.
– Foi?
(Pausa no cricrilar).
– Sabes o que a passarinha disse ao passarinho?
– Que cada um cuide de seu ninho.
– Não, porque um pássaro não tem pena doutro pássaro.
– Por que não te calas? Aí, vem ele, o Dito.
– É meu amigo Diz-Não-Sei-o-Quê?
30. O ENCONTRO DE SEU FAZREGRA E DE CUNHADO O AMIGO DITO
– Miiiinha chapéu não bais acreditar fazfaz a biagem que fiz esses dias de ônivus fiz uma vaita biagem do chapéu quando entrei no ônivus sotinahgrarrafas debagar debagando debagarrafas de gim com o ardor que o santoquerijar minha chapéu pornádgs buuuundin quando entrei no ônivus denoite estaba a caduca frase fão-nume-for-pavor fão nume denoibo e por que todos mundos conheciam a desbotada oiencor dos mundos quase cigarros por cisco pensei todos mundos sem distensões passivo ou ativistamente no chachacoalhamentoto do ônivus lá estava o jãolimão dosbesouros de livrepulo enganatêra miiiiiiiinha chapéu renavo aravão servia gim era um bateblablá com o papagoooodasnifaslewiscarrapeta o mesmo daliciavento miiiiinha chapéu por que os vegros e os romanos dominaram a civilização antiguardra umavez não quer dizer dizia tal jãolimão ao matemático lewiscarrapeta que agora jaéra o carroça coisas pros enganatêras tossiu aravão servindo gim miiiiiiiinha chapéu este derradeiro é o igual dostravalhões e o ônivus perceveu os passabiageiros seguindo pelas arruazas costureiras até redovar à esquadra depois da esquina miiinha chapéu fresei em descer do ônivus pra vever gim também comum se o travalhador fodessdescer do ônivus pra vever gim com jãolimão aravão e lewiscarrapeta e escutei um aeiouivo vindo de fora do ônivus então vi miiiiiiiinha chapéu que era a alluuuuuuuumoa que vira labzommi naquele friodia porém um friodia frio muito assim ainda fazia frio bastante um frio naquele glacial friodia frio frio frio de verdade frio tão que era aquele friodia frio de cadáver congelar frio tamanho fazia frio naquele de um friodia que antecedeu ao quente miiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinha chapéu quente quente pra gato e cachorro e suas brotoejas e desidratações miiiinha chapéu a umidade relativa do ar chegava a quase doze e os donos dos bares sorriam um sorriso sorrilargo de quem mostra uma euforia incontida ante dinheiro novo e isso era na quinze com a quatorze na vinte e nove de setembro com a rua das missionárias quatro de novembro vinte e sete de abril vinte e nove e trinta miiiiiiiinha chapéu....
Na saída do refeitório, na Escola FazRegra:
– Como alguém pode falar assim?
– Continue.
– Miiiiiiiiiinha chapéu dálhelá cerveja naquele quentedia no céu passarinho batendo só um motor enquanto se abanava com as aeromoças como se tomava cerveja nos bons tempos miiiinha chapéu os termômetros fumegavam de sede na sede dos artistas e escritores de nanocontos minicontosminimalistas miiiiiiiiiinha chapéu as bocas espumavam de ceuvejas beerbier desses barzinhos poralieporaqui miiinha chapéu era e é exatamente ruim amarga e trava e o ônivus entrou pocando na avenida nessanoss senhora de fátima eu o vocalista jãolimão o matemático lewiscarrapeta e aravão que servia gim no tênis clube santanense entre um friodia e um quentedia miiiiiiiiiiiiiiiinha chapéu e sem carecer de lua cheia éslua lua e às vezes surge a lua num blues à boca da noite e às vezes os galhos e as folhas cobrem por completo e a lua aluada dessurge no vento frio do desmês de abril o vento de sopro lentoviolento a agiiiiiiiiiiitar os desarvoredos enciumados e as árvores agitam-se e comem comem comem mas o que comem sentem frio ou quem sabe come o silêncio num outono que chega enfurecido pela lua vaivai folheando árvores são suas à boquiiiiiiiiiiiiiiiiinha da noite num rápido farfalhar que atravessa desmoitas em pios e choradomingos num luar em gravidez indesejada crescente amarelado é a música do blueeeeees em gaiiiiita alada à boca da noite é o vento miiiiiiiiiiiiinha chapéu é o vento é a lua são apenas despensamentos de manhã sumiu o vento miinha chapéu restaram as folhas sós despenteadas e aos dedos em desolados despensamentos miiinha chapéu uma alumoa que foi aluna se metamorfoseava em labzommi depoiiis voltava pra casa como se nada tivesse ocorriiiiiiiiiiiiiido com toda sua cara e aspecto recheado de sinistro à esperar o pai marido chegar da fábrica ou da escola que é tudo feito um caminhão de macaco miiiiiiiiiiiiiiiiinha chapéu o marido faminto por um prato mesquinho de aipim torrado no azeiiiiiiiiiiite pra almoço e linguicinha caipira ou polenta no alho e cebola miinha chapéu com sorte tinha chucrute no jantar chimia no pão caseiro miiiiiiinha chapéu televiiiiiiiiisão pro almoço e uma cama estreita pra mexericar a vida alheia mas esse já havia comido ovo de codorna num bar com pinga e passado na casa da vizinha pra comer codorna queeeeem não se lembra de vera que pink-y-floyd insistia em chmá-la de viiiiiiiiira no muro miiiiiiiiiinha chapéu vera loira gorda e fria mas tinha olhos verdes maaaarrons tão azuis que chegavam a ser azuis aqueles olhos negros ninguém pode se esquecer de vera ou viiiiiiiiira miiiiinha chapéu dos olhos azuiiiiiiiiis que trabalhou no teatro-feijão-com-arroz com seus cabelos loiros e sem diferença dos outros no corpo vera viiiira como representava mal naqueles festivais universitários e adjacentes de faaaaaastapovo miiiiiiiinha chapéu ela era tão queriiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiida com seu cabelo loiropastoso olhar azulalbino numa cara carapálida miiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinha chapéu vera metida em meias caras do paraguai de solano lopes só posso lembrar de vera a galega como garotamulher viiiiiiiiira vera comprovava a quem quisesse discordar que provando pelas gerações x e y ela era um mal miiiiiiiiiiiiinha chapéu que mal pode haver mal em alguém ser mal feia mas vera viiiiiiiiiiira não era uma vera que se encontra miiiiiiiiiiiiinha chapéu e vera viiiiiiiiiiiiiiirava copos de metro de quilômetro de légua de milhas de chope e dança chopedança niiiiiiiiiinguém tem coragem de dizer que um dia viu vera bêbada nas nuvens vendo o vento e o tempo nos seriiiiiiiiiados daniel boone zorro ou bonanza chamando chilmar miiiiiiiiiinha chapéu...
Na porta da sala de aula:
– Era isso?
– Era.
– Qual é o título?
– Como morre o conhecimento na escola.
– É esse o título?
– Miiiiiiiiiiiiiiiiiiiinha chapéu chilmar era amigo de vera e sabia que não sabia tudo e vera sabia de vera e do chilmar uma vez todas às vezes eram assim mas chilmar preferia uma veiia que quem quisesse que descobrisse o ponto fraco de g-em-vera-na-hora-h pelas suas próprias astúcias miiiinha chapéu quando um sino qualquer de igrejas quaisquer tocasse vezes quantas quisesse bem tocadas após aquele friiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiodia e quente as unhas de vera não paravam crescendo crescendo miiiiiiiiiiiiiiiiinha chapéu as unhas de vera faziam espanto a zedocaixão miiiiiiiiiiiiiiiiiiiinha chapéu as unhas de vera cresciam um cresce crescente e de tal que lhes acompanhavam os caninos sobretudo um careado a exemplo do dente cariado de monaliiiiiiiiiiiiiiiiiisa e cada pelo de seu corpo peludo as roupas em vera ficaram sumaríssiiiiiiiiiimas miiiiiiiiiiiiinha chapéu foi quando se percebeu o quanto corria correndo sem resfolegar o fôlego de vera miiiiiinha chapéu corria por becos atravessava a rua do sebo a toca da onça o monumento a rua do sol a paajuçara e boaviiiiiiiiiiagem a ipirangaconsãjoão o morro da marreca e do abacaxi miiiiiinha chapéu uma hora estava no spitzkopf e um segundo se encontrava no baú vera virada em labzommi uivava tal vira-latas em cima de morto miiiiiiiiiiiiiiiiinha chapéu chilmar iiiiiiiiiiiiiia à escola como chilmar fazia nos úteis dias quanto tava com saco descutaresculhambações aborrecimentos abobrinhas intermiiiiináveis chamadas sem graça miiiiiiiiiiiiiiinha chapéu estava após um dia quente e frio no ônivus onde eu conversava com jãolimão lewiscarrapeta aravão servindo gim miiiinha chapéu chilmar recebera um abraço de vera viira labzommi dali a pouco bem pouco plink lá estava o floyd e vera falava pelos cabelos a pessoa né e o animal né por outro lado né é social né e através da janela desse lado do ônivus né a pessoa é uma fera política né gritou vera miiiiiiiiiiiiiiinha chapéu e vera se juntou comigo jãolimão lewiscarrapeta aravão e chilmar pra enxugar jarrafas de chope e viiiiiiinho e todas as jarrafas de steinhäger que as fabriquetas pudessem engarrafar e se acabava num segundo miiiiinha chapéu no tempo que johnão cantava mother de lennonão e vera pensava que paulestava no maracanã àquela noiiiite cantando live and let die que gun’s and roses regravou miiinha chapéu por isso vera matou chilmar de vergonha e todo e qualquer e toda coincidência riiiiiiiiiiidícula coincidente coincidir miiiiiiiiinha chapéu com algum conhecido ou conhecida terá sido ou sida mera ou mero coinciiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiismo.
31. NO PASSDADO, A ÓPERA NA UTI
– DonaÓ, aquí estoy com o ápice de sua medicação! disse a enfermeira, e confabulou o médico de plantão com as ampolas e seringas descartáveis. Ele foi estúpido com DonaÓ, que chorou e desejou morrer diante da Ciência.
– Tu sabes um mascalzone donnato?
– No dia em que te trato com café na cama, estouras comigo.
– Per favore, cantare per me, DonaÓ, per qualche dollaro in più.
No refeitório da Escola FazRegra:
– É isso que tu queres que eu leia, Ceuto.
– Há outra coisa aqui, Erauto?
– Não.
– Siga a leitura.
32. O CUTELO E O GARRAFÃO DE PINGA DE SEU FAZREGRA
– Eu não me canso de chorar, e não amanhece...
– Larga esse garrafão de pinga, Seu FazRegra!
– Isso é porque não tens uma sogra de osso limpo.
– Mas, DonaÓ foi minha mãe, Seu FazRegra! Nem por isso atravesso madrugadas enxugando garrafão de pinga e batendo o cutelo na tábua de carne.
– As crionças vão ficar umas feras!
33. O CAIXÃO
Chapéu grande e antigo – não sai da cabeça nem pra ir ao banheiro – Seu FazRegra coça a barba com fura-bolo e o caça-piolho:
– A vida arrasta-se feito aqueles casais de bêbados perguntando quem tem medo de Virgínia Woolf.
E à medida que a vida avança, autoconfissões em sua cabeça se tornam detestáveis como ácido, e faz um buraco no mundo de Seu FazRegra:
– Aquele homem com cara de Jack Beauregard. Aquele homem de novo. Toda tarde, ele passa defronte de casa carregando na bicicleta o caixão da filha morta.
A mulher de Seu FazRegra aturava ele na janela por horas.
– Como se um bando selvagem de 150 homens corresse atrás dele.
Seu FazRegra fechou à persiana e foi ver TV.
– O que faz esse cara de Jack Beauregard ter pressa de vida?
Mudava os canais. Nada lhe satisfazia, após o fim do campeonato.
– Amanhã, à tarde, essa hora, “Jack Beauregard” vai passar, aí, na frente em sua bicicleta carregando o caixão da filha.
Seu FazRegra, outra vez, na janela:
– Um homem levado pela vista cansada e fôlego curto.
Suspirava a mulher de Seu FazRegra:
– Nem sei onde arranjar força pra subir morro.
Seu FazRegra a olhava, curioso:
– E, hoje, o que vale a pena ver de novo? Il mio nome è Nessuno.
34. ZÉ SEMPESCOÇO, O CRONISTA
Os velhos entregaram-se ao antigo.
Eles enfiaram-se numa equação algébrica ax2 + bx + c = 0. Eles sabiam que a, b e c são coeficientes reais e o coeficiente a não pode ser zero. Eles iam buscar as possíveis soluções (x) na fórmula de Bhaskara, porque soma e produto dependiam da equação...
...com lembranças que os arrastam ao fundo. Preferia dizer o quê ao me referir à dimensão política de FazRegra:
– O relacionamento do velho com a sua velha Brainstorming cheira a uma peça de Nelson Rodrigues. Foi numa equação de segundo grau que o velho se apropriou das curvas da velha Brainstorming Cabelo de Anjo.
Ele, ela e DonaÓ.
– E hoje?
Meia hora depois:
– Hoje, o velho e a velha atravessam o dia como se comessem a TV pelos quartos, com seus filmes antigos, sem graça e o diabo de quatro.
Mais tarde:
– A conversa dele: “Não existe filme velho; existem filmes bons e ruins.” Diante da TV ou nas portas do hipermercado perto de casa comprando latas de cerveja e garrafões de pinga.
35. BRAINSTORMING CABELO DE ANJO FAZIA CONFIÇÕES AO ESPELHO
– Juro cobrir de luto todos os espelhos. Essa foi minha experiência de trocar minha autonomia por heteronomia, quando fui apresentada à escola. Da escola até hoje... Quem me governa? E eu nem me chamava Ária pra ir com vocês. No primeiro dia de aula, aprendi que meu corpo se dividia em cabeça de uva, tronco de melancia e membros de bananas nanicas. Daquele dia em diante, me olho no espelho e só enxergo... Sou a pessoa mais feliz do mundo!
– Adoro esse novo padrão de beleza!
36. A TEORIA DO DESEJO
– Ficam gritando meu nome lá embaixo mil vezes.
– Por que não me esquecem?
– Quanto a Teoria do Desejo, MariaBala, parecia desconhecer que, ao se desejar fosse o que fosse, o desejo se concretizava à maneira do mundo do desejo, pois o mundo é fragmentário e há mundos dentro do mundo.
– O desejo de MariaBala é um desejo de seu mundo.
– Seu desejo pode se realizar no mundo do desejo, que é um outro mundo. E o desejo, que sempre se realiza, ao vir a ser realizado no mundo do desejo, talvez não seja reconhecido ou compreendido por quem desejou a realização.
No sótão, ao pé da cama de Inês, MariaBala com a violência do tamanho da violência, fechou as portas do livro com um plaque!
– Como alguém pode escrever e vender coisas assim!
– Seu FazRegra considera isso uau!
37. PRÉ-CRIME
MariaBala acordou Inês e quis saber:
– Um filho mataria um pai por uma coleção de livros velhos?
38. NAS COLEÇÕES DE SEU FAZREGRA
– Não paro de pensar na Inês.
– Como estará?
– Inês nunca mais me fez visita.
– Ganhou na loteria?
– Logo terminarei a labuta e terei tempo pra Inês.
– Ninguém me dá notícias?
– Se encontrar um Palíndromo no meio dessa velharia.
Com os dias, outros utensílios chegaram ao sótão e MariaBala, que não tinha hora para o trabalho e à leitura, organizava as coleções de Seu FazRegra.
MariaBala foi esquecida no forro. As aranhas teceram nos orifícios das fechaduras. Elas agiram assim? Agiram. Impossível! Era como se a inteligência delas isolasse MariaBala no sótão para sempre.
39. MESES DEPOIS, NO SÓTÃO
rir o breve verbo rir
e sopapos e hannah e
reler somos reler somos
a mala nada na lama
hannah sopapos hannah
a base do teto desaba
e irene ri e
e irene ri e
e irene ri e
rir o breve verbo rir
e a mala nada na lama e.
40. NA CAMA, SEU FAZREGRA E BRAINSTORMING CABELO DE ANJO
– Aproxima-se, Brainstorming Cabelo de Anjo.
Mais tarde.
– Como diria teu amigo Diz-Não-Sei-o-Quê: “Que fezes, aí, fora?”
De volta à cama, Seu FazRegra comentou com a mulher:
– Como disse a mãe do lobo: “Todos nós temos os nossos segredos.”
– A bisavó do lobo também disse: “O pão consola na tristeza.”
Os dois adormeceram abraçados.
A mulher de Seu FazRegra falava dormindo:
– Na minha família, as mulheres falavam francês no século XVIII, alemão no século XIX, inglês desde o fim da última grande guerra do século XX. E eu fali no século XXI.
Seu FazRegra acordou e foi ao banheiro. Foi à cozinha. Abriu a geladeira. Encheu um copo d’água. Deixou o copo na pia. Brigou com duas ou três baratas, e as esmagou com a cadeira de rodas. Voltou à cama:
– Falou? Eu não ouvi.
(Pausa trágica).
A mulher de Seu FazRegra falava mais dormindo do que acordada:
– Chegou?
– Cheguei! disse Seu FazRegra.
– Aonde foi?
– Beber água.
– E não trouxe pra mim?
– Você queria, Vida?
– Você é cruel.
– Eu?!
– É como me disse teu amigo Diz-Não-Sei-o-Quê. Tu bostas mesmo é de Fastapovo.
– Eu nasci aqui, Vida. Como não haveria de não bostar?
– Há quem nasça e não boste, sabia, né.
– Ah, não sei! Eu bosto, Vida.
– Tem vontade de sair daqui?
– Não sei, Vida. Talvez não, Vida.
– Por quê?
– Ir aonde, Vida?
– Não sei.
– Entre o não sei e o não sei, Vida, eu prefiro o não sei.
– Fastapovo é bom?
– Fastapovo é, Vida; mas, quando eu respiro, Vida, dói.
41. NA REDAÇÃO
O Jornal Fastapovo trabalhava a plenos pulmões.
– A crônica sai ou não sai, Seu José?
– Saiu. Não sei se volta.
Mais tarde.
– Sonhando acordado, Zé? O editor quer a porra da crônica na mesa dele antes que o café esfrie.
– É?
Mais tarde.
– É sonho ou pesadelo?
– Quem se preocupa com pesadelo é ignorante e supersticioso.
– Se eu não posso sonhar acordado.
– Agora, não posso sonhar dormindo?
– A crônica, Zé!
42. SOLILÓQUIO DE SEU FAZREGRA DE OLHO NO RETROVISOR
– És um pururuca, Seu FazRegra! Eu ouvi muito isso.
– Admiro um homem que pode usar as pernas. Veja o caso do jardineiro: limpa, planta, colhe e poda meu jardim há 30 anos sem reclamações. Fui de um tempo em que minha casa era o chapéu. Acredita? Às vezes, Brainstorming não me compreende. Acredita? Mas... Não sei. Fazer o quê? Sou a aventura de um mito de grandes travessias com gado. Atravessei a vida como se fosse pra outra calçada me encontrar com Gina Lollobrigida, acredita, Ursula Andress e Claudia Cardinale. Acredita? Vejo de minha casa a mesma frentista no outro lado da rua, que envelhece junto com a rua. Acredita? A pressa dela em abastecer carros; ela é frenética e um pouco neurótica. Ouço bloom-chicka-bloom e Johnny Cash repete em matar um homem só pra vê-lo morrer. Não sei como vendeu tantos discos. Toquei gado por esses gerais em lombo de mula e adormeci ouvindo causos e modas de viola em volta da fogueira no meio do nada, do mato brabo, uma fogueira que nunca se apagou. Acredita? Dia aboiando as brincadeiras que me carregavam pra infância. Eu poderia ter sido vaqueiro a vida toda, talvez boiadeiro ou um boiatiro e conquistasse o pão com a pistola, feito a música do homem de preto. Acredita? Nunca me vi assassino, pois eu continuei um homem forte e jamais adoeci. A fortuna com o gado da sogra DonaÓ... Não sei se devo dizer o que fiz. Comecei com uma cabeça. Acredita? E me veio no improviso da sorte a enxurrada. Comia o dia numa boa pururuca, um embornal cheio de pururuca e rapadura na lida com gado. Acredita? Que mal há em um corpo que cai, até rever Rashomon, rever Chinatown, revê Fanny & Alexander? Eu ganho horas revendo Rio Bravo e não tenho ainda consciências mortas.
Seu FazRegra, devolvendo às caixas os filmes velhos, sentia recapturar momentos bons em algum lugar da memória.
Na sexta-feira, eles deixavam a escola depois do expediente:
– Onde nascem os urubus, Ceuto?
– Ouvi dizer que é entre as escarpas.
– Escarpas?
– Não sabia?
– Não. E o que é isso, Eraudo? Achei que fosse em árvores ocas.
– Em quê!
– Em fendas? Não sei. Em gretas de arranha-céus?
VIVA O DIA DO POETA E DA POESIA
ContosMarcello Ricardo Almeida 26/10/2025 - 20h 31min
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