ONÍRICA AUTOMAÇÃO

Contos

Marcello Ricardo Almeida

Era época de crônica e não de conto! Disse Inês na cabeça de MariaBala, que esperava só chegar a crônica e fechar a edição do jornal de domingo, 19 de outubro.
Espigões cercavam a escola. Aquela tarde se aproximava da noite, e o sol banhava pela última vez às arestas da escola com o respeitável nome FazRegra, um dos idealizadores da Pedagogia dos Costumes.
E, há muito, o trabalho de meteorologistas alertam que o mundo não seria mais o mesmo. E caía a peneira de chuva há duas semanas, e ninguém parecia prestar atenção por causa de acumuladas demandas na escola dia a dia. Os que não eram efetivos, submetiam-se aos concursos que pululavam mês a mês.
No chão da escola, os professores Ceuto e Eraudo decidem investigar a causa da calamidade que lhes tomava de assalto a profissão com as nuvens que ameaçavam despejar oníricas automações. Não se escutava mais nenhum pio de coruja, como se ouvia no passado, quando havia esculturas dessas aves que ornavam mesas de MDF nos corredores escolares, nas salas de aula nas quais se destacava uma maçã na mesa da Educação. Os lajedos escaldados pelo sol. Via-se, através dos janelões na sala, correrem calangos à caça de grilos falantes.
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– Seremos substituídos por automação. É verdade?
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– Sim.
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– E a verdade ainda existe?
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– Ouvi dizer que não existia mais!
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– Impossível!
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– Eu ouvi. Não foi substituída pelo combate ao conhecimento?
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– Que coisa feia de se dizer, Dona Clotinha!
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Átropos chegou à cozinha e, ali, atrás da porta, ouviu Dona Clotinha, que contava sobre o sonho recorrente à Laquesis. Uma cochichava à outra o destino da escola:
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– Não sabe o Ceuto?
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– Sei.
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– Não sabe o Eraudo?
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– Sei tão bem também!
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– O Ceuto e o Eraudo descobriram que há um assassino na escola.
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– Assassino? levou a mão à boca com a fofoca. Cruzes! E?
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– Ele matou o interesse na escola pelo conhecimento, Laquesis.
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– Foi? levou as mãos aos ouvidos. Como, gente!
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– Ceuto e Eraudo juraram encontrar essa incógnita para salvar a escola e recuperar o interesse dos alunos pelo conhecimento.
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– Revelação trágica, Dona Clotinha. O Ceuto e o Eraudo tão próximos em descobrirem o assassino do conhecimento na escola.
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– E se eles descobrem que o conhecimento é pai e mãe da curiosidade?
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– Por este andar da carroça sobre as pedras na rua da escola, vejo que o Ceuto e Eraudo, tomados pela dor, irão ficar cegos por autopunição.
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– Pois...!
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– Se as aulas deles já são sessões de bagunça, violência e desordem.
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– O Ceuto vai acabar cometendo suicídio ao descobrir a terrível verdade.
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– E a ampulheta foi levada a ficar de cabeça pra baixo!
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– O pobrezinho do Eraudo entrará em desespero e correrá em busca da verdade, mas ela o destruirá.
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– Essa escola do futuro, cega de guia e com o som do pandeiro nas mãos, revelará parte da verdade ao nosso Eraudo?
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– Incógnito Destruidor da Curiosidade em Saber é envolvido na trama.
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– E sofrerá terrível baque e a escola que se conhece e perderá tudo o que tem e o que poderia ter e não terá.
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– A escola tá presa a um destino trágico?
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– O que dizer?
– Psiu!
– Que houve?
– Tive a impressão de ter ouvido grunhidos atrás da porta.
– Não é o vento?
– O clima tá mudando.
Átropos ficou atrás da porta. A cozinha da escola era um nó à parte por ter-se tornado um criadouro de baratas; estavam bem servidas e eram bem acolhidas naquele ambiente úmido, quente e quase sempre escuro e com bastante alimento; a gordura acumulava-se no ralo da pia, os armários com frestas, fendas que cabiam dedos gordos, e em tambores de lixo resto de comida e matéria orgânica em decomposição.
Atravessaram os portões da escola Eraudo e Ceuto.
– Será que chove hoje?
– Esse clima, Eraudo, tá errado.
– Só nossa escola é perfeita, Ceuto... Ah, já sei! Sim, sim, sim. Tão perfeita quanto um bêbado que tenta acender um cigarro na chuva com uma caixa de fósforos molhada.
– Falou e dizeu!
Na estreita rua da escola, o artista da palavra que morava em um jarro de palavras-flores, vestido por uma coberta made in, que combatia a hipocrisia, que se alimentava de versos...
...COM UMA CUIA VAZIA DE QUEIJO-DO-REINO NA MÃO:
E ouço o zumbido do carro
Indagora vi Sabiá-Laranjeira
Acertar com João-de-Barro
Não faça a casa na carreira 
Prometa ao Eterno Retorno
Não ser só espuma ao mar.
O seu canto perambulava pela rua da escola e ruas adjacentes com o som da fonética e do pandeiro...
...CANTAVA E SACUDIA AS MOEDAS NA CUIA DE LATA:
Eu sou um poeta da roça 
Nunca consegui estudar
Escola no tempo da troça
Destinada só aos marajás 
Aprendi versar com o bico
Como o cantar dos sabiás.
O artista, que cantava num jarro de palavras-flores, não atraía o interesse que costumava atrair na rua da escola. O seu pão era o que encontrasse e... 
...OLHAVA COM OLHOS COMPRIDOS OS TRANSEUNTES, E CANTAVA:
Se plantei feijão, plantei mi...
Fui casado mais de dez mil...
Luz no saber vi ganhar vida.
E, feliz, colhi riqueza com fi...
Eu e Soledad na casa vazia... 
Nesse canto remoço a lida.
E batia o homem em combate a hipocrisia que corria nas calçadas da rua, nos pés nas calçadas, no ensurdecedor apito da escola...
...BATIA O POETA NO PANDEIRO E GRITAVA:
– Perché non parli? chorava de frustração e insistia. Perché non parli?
– Eraudo, disse Ceuto, reconheci na língua desse artista com “Perché non parli?” a voz de um escultor.
– Por que você não fala?
– Prefiro...!
Aproximavam-se da escola multidões de pés, braços, sacolas, bicicletas, transportes por aplicativo, drones, ônibus, carros de passeio, zumbidos de moto.
– Mamãe, por que eu sou sempre obrigado a ir à escola se não gosto dela e nunca gostei? Na escola, mãe, sou caçoado de filho de caça-likes. Eu sou filho de caça-likes, mamãe? Não sou, não é, mãe?
– Eu também sou filha de influencer digital, filho. Quero também empregar seu irmãozinho nisso!
– Ele acabou de chegar, mama!
– Silêncio! rapidamente correu para repreender o filho. Cumprimente com respeito e galhardia seus professores Eraudo e Ceuto.
Escola grande, grandes problemas. Os livros na biblioteca começaram a ser lidos pelas traças, acabaram lidos pelos ratos. 
A cozinha não era diferente da biblioteca. Quando escurecia o silêncio e o cheiro do barulho cessava, as baratas tomavam as paredes e os fogões de assalto onde reinavam até às primeiras horas do dia. Os móveis eram refúgio delas. As paredes e os móveis pareciam criar vida e moviam-se por toda a noite em festa.
Amanhecia sob a ameaça de chuva, a cidade coberta por nuvens escuras. Buzinas de azougados motoristas perseguidos por caminhões dos filmes duelos, roncos de motoqueiros fugindo do globo-da-morte, na cidade ininterruptamente as luzes acesas.
Ultimamente, os dias pareciam noites.
Nada supera sabiá-laranjeira que anuncia o alvorecer. Na porta da escola, Dona Aurora de braços abertos. Levantava-se da cama, mordia uma fruta, descia as escadas, ia no giro do nariz à escola.
– Dona Aurora, onde a senhora cursou Pedagogia?
– Nas sessões de hemodiálise, pequena criatura encantada e desinibida.
Mãos dadas com a Dona Aurora, a mãe da criança confiava à professora conduzi-la à escola: era o papel etimológico e a caneta cultural.
– Bom dia, Dona Aurora! desejou Tiozão do Zap, contratado pela SEMED por caráter temporário; chegava atrasado ao trabalho, trazia flores à Direrrepilo, ameaçada em ser substituída pela onírica automação que prometia revolucionar a escola; na lista da SEMED, ela seria a primeira substituição.
– Obrigada, Tiozão do Zap. Como estamos hoje?
– Ideologia, 40 Graus!
– É o preço a quem atravessa as pradarias, velho amigo. 
No ponto de ônibus:
– Tá sempre cheio.
– E quando temos a sorte de andar em um mais vazio?
– O gato lá de casa anda estranho.
– Como assim!
– Antes, ele era feroz com os ratos; hoje, o bichinho demonstra medo.
No portão da escola:
– De onde viemos, Ceuto?
– Que pergunta é essa!
– O mensageiro que chega na escola vindo de longe foi o vírus, da mesma forma que primeiro veio o 'Oumuamua, seguido pelo ignorado viajante em um quase invisível ponto brilhante chamado de Borisov. E agora esse inhame de luz de 15 kg, mais antigo que a Terra, nessa viagem entre estrelas, foi reconhecido como 3I Atlas numa nuvem de poeira de gelo e gás.
– E hoje é o dia do periélio.
– E o trabalhador em educação não tem contencioso com ninguém.
Na faixa de pedestre, Ciências e Arte. Ciências disse:
– Percebeu que os alunos perderam a conexão com a escola, amor?
– Amor é um substantivo abstrato que nomeia um sentimento, ouvi nos corredores da escola ao passar pela porta da sala de Português, e não adjetivo ou verbo amar.
– Não! repeliu. Amooor... Você não é meu marido nas horas de folga!
No portão:
– Alunos não fazem coisa a não ser questionar o valor do conhecimento.
– Ninguém previu esse fenômeno?
– Que fenômeno? Não faço ideia.
No refeitório:
– A escola tem um sério problema.
– Qual?
– Não sabe? Nós sabemos. 
– Não faço ideia!
– A sobrecarga de conhecimento.
– É isso mesmo?
A rua da escola tinha o cheiro da pressa, as casas em volta o sabor do sol, os pontos de ônibus a aspereza da argila arenosa. Sem árvores, sem jardins, sem olhos exceto em torno da escola. O ruído do tempo preenchia as horas.
Em um mundo de mentiras, a verdade salva vidas. O futuro da escola é a automação. Bem-vindo ao futuro. Neste mundo não haverá falhas e, caso haja, elas serão substituídas sem remorso nem consciência pesada. No futuro, onde nos encontramos, tudo se resolve com um clique.
O que os alunos faziam no banheiro, começaram a fazer na sala de aula. A escala de violência em diferentes texturas, cores, ousadias, tomou proporções cada vez mais ameaçadoras.
No calendário letivo, o receio de ações anarquistas no perímetro escolar. Talvez se houvesse mais árvores haveria aves, ninhos, cantos, e as manhãs seriam acordadas com a música dos pássaros. Ao invés de música, o estridente sinal da escola anunciava a hora de chegada e de partida. Os alunos, na sala, chutavam as carteiras, mesas de patas que apontavam o teto mofado e com as lâmpadas queimadas.
Caía a mesa, caía a cadeira, o material escolar se espalhava, alguém emitia forte grito repetido por outros gritos que transformaram a sala numa selva de concreto e vidro. Demonstravam os alunos a completa perda de interesse pelo conhecimento.
Aquele patógeno gerou rupturas na escola. Foi o começo do fim do saber na escola. O paradoxo da anarquia subiu no ralo da pia, no refeitório da escola.
– E o sanduíche? disse Ceuto.
– Amargo como sempre! demonstrou Eraudo com uma cara azeda.
Na quadra:
– O vírus interferiu mesmo na modulação do interesse?
– Tá louca!
– Eu?!
– O vírus.
– Ouviu?
– Ouço falar.
– Será verdade?
– Deve ser.
– Como sabe?
– Fui informado há pouco pelo meu saber.
– Duvido.
– Acredite.
– Ultimamente...
– Não, juro.
– Não juro.
– É que, no processo de antropofagia sociológica, a verdade...
– Já sei, já sei!
– Sabe?
– Foi carcomida pela mentira, que ocupa o trono da verdade.
– Mas se for...
– Se for?
– Será o caos.
– Já é.
– Visto quê.
E o Tiozão do Zap, na sala, sentado atrás da mesa, o quadro cheio de nada, mandava textos em grupos da família, da escola, dos professores:
“Capitu pediu pra ir ao banheiro desde a primeira aula e estamos na última e ela não voltou. Você não acha estranho, Bentinho?”
“Alonso tá tirando meleca do nariz.”
“Emília tirou a meia do tênis e tá cheirando.”
“Alonso tá atirando meleca em João.”
“Emília tá correndo atrás de Capitu.”
“O Rodrigo disse que vai me pegar fora da escola.”
“Alguém da coordenação ou direção pode vir à sala de aula? Estou sendo ameaçado. Socooooooooooorro!”
– A automação já chegou à escola?
Realizaram-se as previsões meteorológicas, quando o dia se transformou em noite e não voltou mais a ser dia. Foi como um sono dentro do sono. E aquela realidade que se conhecia foi transformada.
E derradeiras palavras se foram no vácuo da voz que descia com a chuva:
– O tempo. O que é o tempo?
PRÓLOGO I – APARTADO DE TODOS
A doença calou Seu FazRegra. O que se passa, agora, em sua cabeça? Ele não abre os olhos pra enxergar em volta. O derrame lhe deu uma rasteira e tanto! Adiantou todos aqueles cuidados? O corpo paga pela língua, remoía Dona Brainstorming Cabelo de Anjo. Sempre foi um pronome do caso reto e conosco o caso tinha que ser oblíquo. Um velho com ares de super-homem, logo se deitou e logo se levantou, deitou-se e nunca mais se levantou nem pra trocar fraldas. O povo em torno dele como se nada existisse.
– Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiinês? gritava. Inês!
Seu FazRegra vaquejava por causa dos namoricos com Zé. Soltou no pasto.
– MariaBala? perguntava perdido na chuva que alagava as salas de aula, que molhava os livros na biblioteca, que atravessava o telhado da escola, que ia às ruas de água abaixo.
Seu FazRegra meteu-se no sótão e foi cuidar de seus passatempos. Dona Brainstorming, sua mulher, fechava os olhos para não o enxergar na hora do inhék, por não aguentar vê-lo de cara e, depois, passava duas horas no sabão.
PRÓLOGO II – NAS ÚLTIMAS
Dentro do silêncio profundo de um acidente vascular cerebral anunciado, Seu FazRegra tá morrendo num leito do Hospital do Café, em Fastapovo; o AVC o surpreende no momento em que prestava homenagens fúnebres para DonaÓ.
Em volta, familiares diante da morte.
MariaBala passa a mão no cabelo gasto e conversa sobre os presentes no quarto sem janelas.
PRÓLOGO III – A DERRADEIRA CHUVA NÃO TEVE MAIS FIM
– Espere.
– Espere?
– Irei depois da chuva.
O céu alaranjou-se e, de repente, ficou verde.
PRÓLOGO IV – OBJETO DE DESEJO
Quero pra mim tudo o que não posso ter, disse MariaBala, e essa vontade não possui descanso.
PRÓLOGO V – O VELHO FREUD
Quem realmente sabe o que se passa no interior de uma nanovida? Nem o velho Freud; e isso é um cataclismo. Eu não tenho palavras. Aceitas mímicas?
PRÓLOGO VI – RELIGIÕES NIILISTAS
A vida não vale nada. Viva a morte! Uma desconhecida voz sussurrava aos ouvidos de MariaBala. Sempre a voz central e disposições anímicas.
PRÓLOGO VII – DISTOPISMO
Os olhos atravessam a janela da sala. Que grandeza há em saber que se é miserável? Quis saber Seu FazRegra, enquanto metia fogo no cachimbo. Tem gente que bebe cana, usa e cafunega. Procuro nos outros uma opinião para mim. Como definir o melhor dia de sua vida? Quando estiver às mãos convite da missa de 7º dia. Apenas esse garrafão me compreende, porque altera o meu estado.
PRÓLOGO VIII – NA SALA DE ARTE
O primeiro filme na vida de Seu FazRegra foi Tarzan e sua mãe Dona Enxó. Seu FazRegra e a sogra DonaÓ estragaram-se de rir engasgados com pipoca. Seu FazRegra passou a vida revendo Tarzan e sua mãe Dona Enxó, além de suspenses, noir e faroestes antigos.
1. O SUICÍDIO DE CRONOS
E Maria Bala, que trabalhava com História, na Educação Básica, chegava da Universidade Fastapovo. As imagens nas aulas de pintura insistiam na figura de Cronos, retratada por Goya.
– Acho que vou abandonar História.
– Vais?
– Por Arte.
– Ó!
Cronos pendurado na ponta do laço da morte. Típico cenário de western-spaghetti: a foice de sua mão caíra sobre uma plantação transgênica.
– São loucos!
– Eles são loucos?
– Não sou louco! atestou. Sou o filho caçula da Terra e do Céu! Cortei os documentos de meu terrível pai a pedido de mamãe e os lancei ao mar onde foi devorado pelos peixes.
– Um peixe, antes de um rei na barriga, tem na barriga um deus olimpo.
2. AS PERSONAGENS
– MariaBala, você está aí?
– Tô!
– Venha aqui.
Este apelido MariaBala foi-lhe tatuado quando se submetera a nove ou 10 exames de vestibular e o nome nunca apareceu na lista dos aprovados. Chegou ao curso de História, logo largou por Arte; cursou dois períodos em Extensão de Pintura Clássica, na UniFastapovo, quase pela hora da morte, e se cansara dos estudos, por pouco não desistiu daquela vida.
MariaBala, desempregada há duas décadas, ganhou de Seu FazRegra, uma espécie de paidrasto, a responsabilidade de catalogar livros, discos e filmes, no sótão. MariaBala ganhava pelo trabalho, como ganhou até então casa, cama, comida, roupa lavada, boas conversas. Como o sótão de Seu FazRegra possui o tamanho dum armazém no Cais do Porto Fastapovo, MariaBala mudou-se pro sótão de mala e caneca. Queria ter filhos, na verdade, duas filhas, para uma se chamar Sophia Loura, outra Sophia Morena.
Parte da vida, ela acompanhara as loucuras do paidrasto FazRegra, corria na cadeira e colecionava brochuras, discos nacionais, estrangeiros. Uma noite de insônia, MariaBala ouviu Seu Faz gritar como nunca com um que sequer chegou a ser filho, o Zé.
– Zé SemFesta!
– Nem por cima de meu cadavérico cadáver! disse Zé.
Seu FazRegra, depois do tombo de cavalo, não prestava para ser doído, porque era demais. Na juventude, Seu Faz sentia-se no corpo duma cascavel. Indivíduo pétreo quanto os Jerônimos portugueses. Só abria a boca e dizia:
– Bem mais alto são as nuvens...
– Sim, Seu FazRegra! anuía MariaBala.
– E são delas que eu me abasteço.
Envelheceu Seu FazRegra cheio de nostalgia e sepultado numa carcaça de morsa. Acendia todas as manhãs, no muro na frente de casa, com um pedaço de carvão, a hipótese:
“Quem consegue cultivar uma árvore fará mais se comparado a todos”.
Vinha à chuva e lavava a frase de Seu FazRegra.
Seu FazRegra, no primeiro sol, reavivou o que escrevera a carvão; se o sol desbotasse os dizeres de Seu FazRegra, na hora seguinte, Seu FazRegra os reescrevia.
Um homem rural.
Passou a vida comprando e vendendo bois.
O estômago dilatado de Seu FazRegra apontava o fenômeno dos limites espaciais entre o urbano e o rural que, talvez, pontuasse, significativamente, um novo urbanismo. Esta problematização campo/cidade, Seu FazRegra carregava no ventre: dois espaços, administrativamente, distintos e iguais na barriga de Seu FazRegra. Autodidata e cronista de blogue, escrevinhador sobre livros raros, comentarista de filmes e músicas. Sonhava em transformar o campo em cidade, construir arranha-céus e viver de renda à espera do Armagedom.
– Zé! berrava Seu FazRegra.
Zé SemFesta não revelava ares de sofisticado ao dizer que foi o medo de ser monstro e, sentindo-se perdido, a angústia da crônica o sugou e o sugava ao tutano dos menores ossos de suas pernas.
– Zé! repetia Seu FazRegra o berro.
Zé era Zé, o SemFesta, porque odiava ser chamado de quase-FazRegra. Instável desde pequeno, Zé SemFesta perdia o autocontrole por semanas e, às vezes, no jardim de infância, não conseguia escutar ou era levado às pressas ao hospital com paralisia temporária. Zé SemFesta foi aluno do pai de Ceuto e da mãe de Eraudo. Adulto, Zé SemFesta transformou-se no jornalista mais teimoso das Américas. Até hoje, ele mantém o equilíbrio na corda bamba no emprego de cronista no Jornal Fastapovo. Revoltado por não ser jogador de futebola, expulso como árbitro por causa de suas crises psicóticas. Seu lema no jornal: “Estarei sempre de caneta dura para escrever no teu papel macio as minhas paixões, ambições e mortes, competições, adultérios e assassinatos, a vida anti-heroica ou terrível, de amor e burlesca”. SemFesta, naquela redação de jornal, tinha consciência de que o sonho acabou e nunca seria jogador de futebola (nem de botão) pra viver cercado e de pernas pro ar, porque ninguém é de R$ 1,99 em cada esquina. SemFesta nunca mais visitou Seu FazRegra e Dona Brainstorming, sua mulher. Levou uma cama ao depósito de encalhes e dormia no jornal.
Inês, a linda Inês, irmã de Eraudo, Inês que pulou a cerca com Ceuto, Inês que vivera por uns tempos nos corredores do casarão de Seu FazRegra e Dona Brainstorming, cheia de sonhos e conversas de trabalhar no cinema. Inês vivia como analista de sistema, tercerizava os seus serviços à UniFastapovo, a menor do País. Ela guardava no bolso do peito fantasias ao dividir o sofá.
Brainstorming Cabelo de Anjo, filha de DonaÓ com um que passou a vida comprando e vendendo, vivera poucas e boas com Seu FazRegra, viciado em colecionar filmes, discos e livros. Não deixava a cabeça de Brainstorming Cabelo de Anjo uma manhã em que o marido entrou em casa com outro homem, apontou Brainstorming:
– O senhor faça o que quiser!
Brainstorming ouviu o estouro do trovão.
– O senhor faça!
Caiu forte chuva.
– Faça o que quiser!
O estranho deixou o dia triturado, e Brainstorming com uma tristeza sem curativo. Enquanto Seu FazRegra esperava, só, esvaziando um garrafão.
– Satisfeito?
– Satisfeito! sério, disse o estranho e entregou aquele pacote nas trêmulas mãos de Seu FazRegra com mais um livro à sua coleção de obras raras.
Na atmosfera sem enredo de MariaBala, nem suspense, nem cores, nem odores, tampouco sabores. As cores neutras e desgastantes, os tons cinza ela os deixou aos sapatos. Sua unidade de efeito na escova dental. Nas feições de MariaBala, diante do espelho, fragmentadas estavam não-enredo, não-narrador, não-tempo, não-espaço, não-objetividade e não-inexatidão. Tudo foi desfocado ao gosto de MariaBala, pois seu fenômeno gravitacional tirou férias desde o período paleolítico. As cacofonias da acadêmica MariaBala lembravam o cinema de Michelangelo Antonioni e Robert Bresson, no tempo em que havia cinema de Robert Bresson e Michelangelo Antonioni.
3. NA COZINHA DE SEU FAZREGRA & BRAINSTORMING
– Tu és feio.
– Não. Feia és tu.
– Tu és feio!
(Pausa dramática).
– Tu és feio com a tua Pedagogia dos Costumes.
– Tu não me provoques Cabelo de Anjo.
– Tu és feio. Mais feio se comparado ao Plauto, filho da Flauta.
(Pausa cômica).
– Qualquer dia, eu tomo um porre e renuncio a esse matrimônio.
– Que estás ouvindo?
(Uma pausa longa).
– Isso é Bach?
– Não. É restaurante. Quem tem uma mulher como você tem que andar com ela com cuidado pra não quebrar.
– Pra não quebrar ou pra não se quebrar? Se pensar bem, Bem, foi bom a decisão em fazer parte do Grupo Pedagogia dos Costumes, na UniFastapovo. Ao menos, Bem, terás uma escola com teu nome um dia.
4. AVIZINHA
A peluda elipse narrativa da vizinha brilha em noite de lua.
5. INÊS E MARIABALA
– Um dos melhores momentos da vida é caminhar e conversar com você.
6. A OLIGOPOLIZAÇÃO DA MULHER DE SEU FAZREGRA
– Seu FazRegra...
– Oi!
– E o violão da mamãe?
– O violão da mamãe, eu não sei; mas – escuta – os livros da vovó...
– Os livros da minha avó? Minha avó lia em francês, inglês e alemão como se lesse em português. Nunca se cansou deles. Nunca teve problemas com a periodização da história. Ela sabia onde tinha as ventas.
– Para, para, paaaraaaaa, ó mulher, para!
(Pausa trágica).
– Para por quê?
– Meu medo é a oligopolização devorá-la.
– Deixa de letargia.
– Para de mimetizar, porque não gosto. O seu mutismo é o meu melhor consolo. Não conheci papai, não conheci mamãe. Dizem. Meu pai era do Sul e tinha vergonha em ser brasileiro; minha mãe era do Norte e tinha vergonha em ser estrangeira. Nasci entre a morte e o sol. Ouço dizer que o sol em breve será substituído pela chuva permanente. Haverá uma escuridão completa. Tudo o que se conhece deixará de ser conhecido. O conhecimento, por exemplo, não tardará a ser ignorado até mesmo pelas escolas. Acredita nisso? Os professores serão substituídos como se substituem uma lâmpada queimada. É possível isso? Outra vez, eu não acreditei no que li.
– O olhar da vovó em seus livros, foi isso, o olhar da vovó sempre perdido em algum cheiro do passado, repetiram-se nos olhos da mamãe. Lembra-se dos olhos da mamãe?
7. O ROLMANCE NA PÁGINA 48
MariaBala totalmente perdida e triste com aquele rolmance na página 48.
Começa suspensório com a protagonista lendo coisa fina e desprezível, de autor quase apagado da memória de leitores e comentaristas em periódicos na coluna LIVROS. Ela escuta – toque-toque, toque Tolstok. Tolstok! – passos nos degraus de madeira faziam toque-toque!
Dentro da escuridão foi acendida uma lâmpada através da janela, na casa ao lado. Escutou-se o choro de criança. Pareceu um baque de cutelo numa tábua de carne. Depois foi apenas silêncio, nada mais. A criança não existia até ontem nessa casca de ovo, disse MariaBala em voz baixa antes de pregar de volta os olhos à página 48 de “Os gritos roucos de Armela Dantes”. Passou uma, duas e foi à próxima página. Chega-se à Ilha de Lesbos.
8. INÊS, A INTERNETÊS
Navegava fundo Inês em seu mundo virtual e desconhecia a dimensão de suas imagens e textos publicados nas arenas das redes. O sonho de Inês ainda era automação completa nas escolas. Noites insones, dias sem comer, os dedos de Inês no teclado eram metralhadoras giratórias falando com meio século de plugados ao mesmo tempo. Narcisava-se na janela d’água à sua frente.
Inês diante de poderoso afrodisíaco que a bolinava nos ocultos labirintos do cérebro. Tudo parecia monótono, exceto quando falava de MariaBala. Neste momento, o tom passa de grave a aveludado, mudava o sotaque, que se derretia diante da tela do computador. Inês colecionava recortes da língua atrás de sua mesa de trabalho: hj (hoje); dps (depois); pko (pouco); tah (tá); n = naum (não); pc (computador); cmg (comigo); td (tudo); ahn (interjeição); eh (é) a letra h substitui o acento agudo; a letra q é k; lah (lá); q (que); aki (aqui); blz (beleza); kd (cadê); nd (nada); pq (porque) e p q (por que) que nunca é usado; qdo (quando); qq (qualquer); rs (risos) ou também kkk (famoso gargalhar) e hahaha; t+ (até mais); tb (também) ou tbm; tc (teclar); vc (você), ou só v; vlw (valeu); e os sinais :) (feliz) ou ; e o sinal :* (beijos), mas também pode ser abreviado assim: bjs; abç (abraço); :t (mascando chiclete ou putz! Qsacão: sei q não é frasco); qm (quem); msg (mensagem); trab (trabalho); s (sim); + (mais); adc (adicionar); ushus (situação esquisita); saoksaok (situação esquisita, porém engraçada); fla (fala, como uma espécie de pedido pra falar); a letra k substitui a sílaba ca (no exemplo de kbelo); cel (celular); net (internet); sussi (sossegado ou numa boa); ae (aí); daew (daí); flw (falou. Usado como despedida ou tchau!) e também xau; pvt (janela de conversa); tm (tem); ants (antes); tempo é tmpo; ex (exemplo); cnt (contigo); mio (melhor); mt (muito); pdc (pode crer); nas situações adversas usa-se as interjeições: oxi, pooh, putz. Quando não eram recortes da língua atrás de sua mesa de trabalho no servicinho terceirizado, o sonho secreto da menina Inês – agora, magra e cheia de curvas – era guardar a sua língua dentro da boca de...
– À noite, Inês...!
– O que tinha, MariaBala?
– FazRegra visitava meu quarto.
– Como!
– Sentia a língua gelada do komodo percorrer minhas pernas...
– Sério?
– ...Deslizava até lá!
– E a mulher do desgraçado?
– Me aconselhou a chavear a porta.
– I-n-a-c-r-e-d-i-t-á-v-e-l!
9. ACIDADE ÁCIDA
Caiu uma chuva-de-ouro sobre os olhos de MariaBala, Inês riu. MariaBala olhou, e a cidade havia sumido de seus planos.
10. FASTAPOVO, UM LUGAR NO MUNDO
Os mascates subiam estradas de barro rasgadas nas montanhas com suas miudezas em carroças cobertas de lona. Isto foi naquela época, Inês. Que época? Anterior aos espigões, anterior ao komodo. Em Fastapovo, aquele carro, Inês, recebeu o nome de tatuwagen. Foi? Não sabia! Dos olhos azuis de Inês e MariaBala não saíam as imagens desses vendedores ambulantes.
11. O SAMBA DO ZÉ. MAS QUALIZÉ? EU NÃO SEI
Não sei se ligo pro Zé ou pra Inês. MariaBala passou a mão no celular para dizer: Zé, se Zé não é um D’Artagnan, se Zé não tem um Q-in-dik ou um Q-in-drink (pro inferno, Zé!) e a onça do Zé corre o risco de morrer... Tui!tui!tuiuiui! Tui!tuiuiui! SemFesta parece não ter gostado da minha ligação. Deveria antes ter ligado pra.... Ah! Eh! Ih! Oh! Uh! Depois falo. Queria inaugurar meu celular novo, porcarias! Ah! Vou reler “Os gritos roucos de Armela Dantes”. Ih! Não sei. Ih! Acho quê. Ó, leio ou não? Uh, cansei dele!
12. ABELHAS MORTAS
Os lábios de Inês pareciam...
13. JOGANDO XADREX COM A MORTA. OU SERIA BIRIBA?
Entre luz e sombra estava Gunnar Fischer. Ou seria Peixe?
14. POR QUE NÃO SE TOCA?
Quanto mais se reprime, mais os corpos são atingidos por chuva-de-ouro.
15. AMARIA ODIAR?
Amaria odiar? insistiu Inês no servicinho terceirizado. Por que não se toca, Inês? Outra noite, eu me acho com Inês e lhe quero saber: Que faz, aí, Inês? Tô me tocando. Inês fazia gestos com o rosto e as mãos.
16. AH, TIRANA!
– Essas horas, DonaÓ junta lenha pro fogo do inferno, enquanto o diabo chupa os ossinhos das pernas da velha.
– Não fala assim, Inês.
– Não falei nada, MariaBala!
17. PREVISÃO DO TEMPO
Enquanto catalogava a bagunça de Seu FazRegra, MariaBala cantava:
– Não sei se, só, sou sol ou suor
Se chuva vai fazer só mais outra
Se frio, se vento, se tempestade...
– Estava anoitecendo nas pernas peludas da Inês!
18. WINDOWS
Desta janela eu tenho tudo de que preciso.
19. MARACATU, MARACAEU...
Ao louco tudo é permito; penso até ser louco. O mundo precisa de limites; a corda do mundo anda frouxa. O calendário sabe o quanto eu quero ajudar a Inês. Inês, Inês... Maracaeu, maracazé, maracainês... Passatempo predileto de Inês, a Internetês, é ruminar e eu problemas.
20. GULÓRIA
Entre livros, traças, discos, poeira e ácaros: Depois que a mãe Glória se foi, só me restou Inês Gulória, que me deu conforto e esperança. Tudo bem. Mal-agradecida não serei aos que me deram cama e comida com a morte da Glória. Glória, Glória... Aquele século com a grandiosidade e a Glória. Mamãe Glória, eu ainda lhe espero pro jantar. Agora moro neste sótão. Isto não é uau!
21. QUEM TAÍ? A FALSIDADE! NÃO TENHO TEMPO
– Ela tá pronta?
– Quem?
– A crônica, Zé. Só falta a crônica.
– Só me faltava essa! o SemFesta, quase-FazRegra, batia com a bunda da caneta entre os dentes.
– A vida na redação de jornal é corrida, e ninguém sabe dizer.
– A primeira sopa de pedra que a mulher fez ao marido, ele a comeu.
– Cronos não soube, com sua onisciência, que seria diminuído por entes abaixo dos deuses.
– E agora!
– Veja em que um deus foi transformado: em calendários, em relógios; e do relógio vinham horas, minutos, segundos, frações de segundos.
– Zé, a crônica vai demorar? Nosso jornal não sobrevive nem dois dias sem a crônica do Zé.

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