– E, aí, ela tá morta?
– Tá!
– Psiu! advertiu Bach com uma interjeição que pareceu um tiro. Fale baixo, conde, descaderado.
– Achei, patrão, que cair ia morta.
– Olhe por onde anda, infitete.
– Olho.
– Ela chorou?
– Patrão...
– Perguntou por mim?
– Quem?
– ...
– Ali por volta das 12h10, Bach recolheu-se assim de repente, e foi como se fugisse aí pra dentro, disse Polissíndeto, e não mais foi visto desde então. Foi à privada renegociar as parcelas do cartão.
Ouvia-se a voz de Bach:
Cochilei? Achava ter cochilado. Sonhei com tudo diferente. Vi o moinho triturar o milho. Vi os campos verdes, como os vi ontem. Pai. Mãe. Vó. Vô. E tudo era diferente do que já foi. Sonhei. Um cochilo. Jurava. Sonhei. Mãe! chamei. Mãe! insisti. Não me deixe aqui, Mãe. Não, não, ela falou. Venha me buscar, Mãe. Sim, ela repetiu. Vi, os olhos de Mãe, e eles não se fecharam, ficaram sempre abertos. Aqui, não vi ninguém cochilando. Como cochilar numa situação assim! Não? Não. Mãe, não fui eu que roubei o fogo do céu. Não foi. Estávamos sendo castigados, Mãe? Que ideia! Ano a ano, ela disse, as nuvens baixavam e derramavam-se; engravidam lagoas e rios; avançam nas margens secundárias. Não seria um deus, Mãe, que agora nos punia? Mãe. Mãe... Ó Mãe! Responde, Mãe. Tudo ficou breu, Mãe, nos olhos de Eufemística. Se ficou, Mãe, viesse me buscar, Mãe.
Deixou a privada. Voltou ao balcão. Após uma eternidade, na avaliação do compadre Polissíndeto. Chegou aos gritos nos braços da euforia:
– Vou apoiar Omissão.
– Que deu! disse Polissíndeto. Foi comprado?
– Não.
– Jura?
– Sim.
– A campanha de Omissão tá ruim das pernas.
– Não tá mais.
– Como!
– Omissão vai acabar com o império da lei.
– Isso é possível.
– Dê adeus a dura lex, sed lex.
Ao ficar sozinho, Bach ouviu a msg que recebeu de Omissão “A aluumoa Eufemística, no luar do sertão, subiu ao telhado?” Sem nome bebia só em uma mesa. Bach fez um gesto com a mão, e disse:
– Cabra!
– Inhô!
– Vem cá.
Sem nome obedeceu. Bach insistiu:
– Algum contratempo lá no serviço?
– Disse ela que tava grávida, patrão.
– Psiu! alertou. Não fale isso.
– Disse ela que era de Omissão.
– Cale-se, imundo!
– Promessa fiz de não mexer coisa amojada, patrãozinho.
– Não se fala mais nisso, porque é o fim da dura lex, sed lex.
– Eu disse ela, patrãozinho,
– Foi?
Na rua, diante do bar, o Sr. Plutocrático passou com as burras cheias. Fez um aceno com o chapéu de couro na mão ao ver o padre.
– Povo sem religião! passava o padre. Povo sem religião! Esta era uma rua nascida da violência, do cangaço, da vingança e da tragédia. Bom dia, ó meu Sr. Plutocrático. Não maltrate tanto assim esses animaizinhos.
Após a conversa que teve no reservado com o estranho sem nome que o tratava com o substantivo comum patrão, ora com este gênero masculino no diminutivo, Bach deixou o bar sob o olhar atento de Polissíndeto, alegou tratar-se de inadiável compromisso, ganhou a rua, avançou no beco, subiu uma ladeira, outra, um beco, ganhou uma rua, desceu a ladeira de barro, de pedra, de mato, pontilhada por esterco, urtiga, carniça, urubus, ratos molhados. Bach atravessou um riacho pelo qual não corria água desde o milênio passado; afundou o xoboi direito na areia grossa, o esquerdo no esterco fresco de vaca, desviou as pedras, que pareciam almas penadas, varou uma cerca de avelós, uma cerca de arame farpado, um arvoredo de Craibeira, avistou uma casa circundada por Pau d'Arco, um aprisco abandonado, viu um drone rasgar a copa das árvores; adiante, outro arvoredo de Mulungu. Terminou no Sítio Passagem Úmida. Abriu a cancela e percorreu estreito caminho de areia dividido por um risco de grama e ladeado por Barrigudas. Suado. Sem conseguir respirar. Sol a pino. O niilismo no alto da serra, no alto da serra viu finos filamentos de cristais de gelo, no alto da serra viajaram cirros quais manchas de cabelo, no alto da serra, cujos olhos espremidos teimam em ver, nuvens de alta altitude em direção ao absudismo. É verdade, murmurou, só garimpa quem sabe; na calha do rio, muitos pisam em ouro e não sabem. O niilismo no alto da serra disputava com o absurdismo. Viu a ausência de verdade no universo, viu a ausência de entendimento humano que quer medir o desconhecido com a régua do que conhece. Quem quiser acreditar, acredite, que o universo tem começo, meio e fim. Nada do que parece ser não é. Os cirros no alto da serra, impassíveis, como numa galhofa à pequenez da humanidade, impassíveis e gozosos, gozosos e aparentemente imóveis. Os cirros. As nuvens. Longe. No alto da serra. A vida não tem sentido, meu patrão Niilismo? Não. O mundo é sem propósito, meu patrão Absurdismo? E irracional. O que há na esperança, Niilismo? Desespero. Hum..! E no significado, Absurdismo? Revolta. Abriu outra porteira. Entrou no terreiro.
Ó de casa!
Ó de fora! respondeu Omissão dentro da casa de taipa, e saiu armado. Entre, Bach. Sinta-se em casa. Sabe que mora em meu coração, né. Traz boa-nova?
Sim, Omissão.
Cantou, no olho da jaqueira, um socó.
Omissão recebeu, lívido, a notícia.
A vida tem pressa e, na pressa da vida, Eufemística jaz morta. Está morta a vida como sujeito da frase, o verbo ter, que caracteriza a posse, se foi com Eufemística. Banhada em seu sangue este substantivo feminino vem à luz como objeto direto, mesmo sem ter qualificado a vida de Eufemística. A vi-da tem p-r-e-$-$-a, Eufemística. Se foi a classe gramatical no artigo a que define o singular feminino e a terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo ter. Não há oração, Eufemística. E o a só é artigo definido feminino singular, Eufemística, que acompanha e determina este substantivo vida. Eufemística, vida é o núcleo do sujeito e indica o ser que pratica a ação de ter pressa. Tem, Eufemística, é o verbo da oração; está conjugado na terceira pessoa do singular do presente do indicativo e indica estado ou posse. Esta pressa, Eufemística, é a característica do sujeito a vida; a pressa não passa de um predicativo do sujeito, e também um adjunto adverbial de modo. O sintagma, Eufemística, é nominal. A vida é o grupo de palavras que tem função de sujeito na frase. Tem pressa, Eufemística, é o grupo de palavras que expressa o ser do sujeito. Eufemística, Eufemística, o núcleo do sintagma é o verbo tem, pressa é um substantivo que funciona como complemento do verbo que indica que a vida tem, Eufemística. Está claro que é a sua característica de urgência, Eufemística, a responsável pela sua morte, disse Omissão depois de Bach ter ido embora. O volume em sua calça demonstrou ter havido uma ação ilógica na fala de Omissão.
Semanas sem ir ao bar. Polissíndeto passou na casa de Bach, e lá deixou com ele as chaves e o apurado. Não foi fácil este intento de Polissíndeto. Bach, recluso, vivia sem banho, barbudo, sujo, vigiava por meio de engenhoca de espelhos quem se aproximava da frente de casa. Quase não abandonava a cama com quem dividia com a Consciência que, além de pesada, lhe fazia coçar-se e a coceira lhe furtava o sono. Não conseguia fechar os olhos por muito tempo. Atormentado pelo sangue em torno do corpo inerte de Eufemística. No crepúsculo e na aurora, ela vinha confabular com ele.
Toma partido no niilismo?
Não sei, Eufemística.
O nada não lhe impressiona?
Tenho maturado.
Como tem convivido com o absurdismo das imagens nas paredes desta casa?
Quase não o vejo. Ele ainda frequenta o bar?
Polissíndeto tá lá fora, Bach.
É?
Ele veio trazer as chaves de seu estabelecimento comercial?
E o apurado?
Polissíndeto foi denunciado por roubo.
Roubo?!
Formação de quadrilha.
Foi?
Polissíndeto tá foragido.
Tá?
O Delegado Severo Açoite tá de campana.
Não sabia.
Polissíndeto será preso nas próximas horas e irá confessar seus crimes e entregará seus cúmplices e indicará seu esconderijo.
Quem?
Polissíndeto.
Mas não o conheço.
Não?
Juro por Santana.
Ele vem nessa direção.
Fazer..?
Trazer as chaves e o apurado.
Nossa Senhora Santana nos proteja.
Mais tarde, serenou a presença de Eufemística nas retinas de Bach. Ele abriu os olhos e viu os caibros, as telhas enferrujadas, os aracnídeos, que ele os chamava de insetos teleguiados pela Associação das Aranhas, lagartixas paradas como se esperassem a paciência do tempo. É verdade, meu compadre, é verdade. Quem tem amigos é criança. Já viu alguém com a minha idade ter amigos? E eu crente de que um bom-dia, uma boa-tarde, um até logo ou como vai fazem amigos. Mas a carência do mundo, mais a arrogância dos tolos e mais a impertinência de quem não conhece seu lugar acham que um ou uma colega de trabalho, um vizinho ou uma vizinha, alguém conhecido ou que se cruza uma ou outra vez já considera isso amizade. Aproxima-se. Troca confidências. Dá presente Espera receber abraço. Sorri. Guarda os dentes, torna a mostrá-los. Aperta uma mão, um corpo. Quer segurar a vida alheia por uma vida. Você me avisou que isso acontecia? Não levei Você a sério. Por onde andará Você? Não teria caído nessa encrenca se tivesse dado ouvidos a Você.
No WhatsApp, Bach bloqueou todos os contatos; não abriu o Face nem o Instagram; a caixa cheia de e-mails; não atendia telefonemas. Todas as figuras foram apagadas, exceto o padre com quem falava pelas imagens guardadas de suas celebrações eucarísticas. Com as preces à Santana sem respostas às suas petições e aos rogos que fazia aos telhados, começou a criar uma religião nova, porque sem crença no sagrado não se podia suportar o peso da vida. E foi atormentado por Ironia, que o visitava em dias alternados, e a enxergava correr pelas paredes e roer as unhas.
Ironia, por que me abandonou?
Bach ficava sempre sem resposta, o que não seria diferente. Voltava a procurá-la nas paredes, nos caibros, nas telhas.
Ironia, eu não merecia o que fez comigo.
Rói as unhas e vai fundo, chega ao sabugo. Gruda-se à cama. Enterra-se no travesseiro ensopado de suor.
Ironia, não sou de vingança, mas um dia me paga pelo que me fez.
Cobria-se dos pés à cabeça. Sentava-se na cama. Os pés no piso gelado. Voltava ao travesseiro. Cobria-se dos pés à cabeça.
Ironia, sua desgraça! Me perdoa, Ironia. Me diga onde tá.
A TV calada, rádio calado, celular mudo, a luz acesa, a luz apagada, a madrugada, a aurora, o crepúsculo, a TV em silêncio, o rádio quieto.
Ó de casa!
Deixe chamar até perder a voz.
Ó de casa!
Bach não mexia um fio de cabelo. Repetia que deixasse chamar até a voz ficar por um fio.
Ó!
Bach refazia o que lhe fez sem nome fazer o que fez.
Não tem coragem?
Tenho, patrãozinho.
Então! Vá. Faça.
Bach viu o telhado abrir as asas feito um condor. Como se fosse descolar-se das paredes, os caibros estremeceram, as paredes demonstraram a fragilidade ante a força do telhado, das garras do condor, das asas abertas do condor, que impulsionava o voo sobre o precipício, e Bach fechou os olhos e adormeceu.
Se o compadre Polissíndeto viesse aqui, aqui em casa, eu, de bom grado, o receberia todo, todo ancho. Acho eu que tô doente. Como foi que adoeci? Não é possível; não estou, não. Não tô, não. Foi tudo um sonho, acordei. O que faço na cama nessa hora? Tô parecendo o louco que, quando foi diagnosticado pelo médico de insanidade, acusou o médico de ser maluco pra dizer doidice dessa. É urgente. Preciso abrir o bar. Que horas são essas? Deve ser tarde. Perdi a hora com pensamentos ruins. Os fregueses devem estar na porta do bar sem saber o que aconteceu comigo. Não posso ficar tanto tempo na cama. Fui visitado por vizinhos esse tempo todo? Não sabia. Será que tava com alguma enfermidade que me segurou aqui? Procurou os ponteiros no relógio, mas não havia ponteiros em relógio digital.
Dentro de um lugar ermo, sai o barrigudo e careca que se acha. Omissão mais carne do que osso:
– Boa tarde.
Onde está o elegante Omissão? Nossa! Não o reconheço neste traste. Era sempre de sapatos novos, caros; alinhado e parecia mais esbelto; e tinha cabelo, barba bem feita. O que vejo? Bach estava diante de um quadro de desencanto. Foi essa figura que me ofereceu o fim da dura lex, sed lex com nulla lex sine necessitate?
Então, Eufemística, não era o que aparentava ser; porque, se fosse sacerdotisa da Associação das Aranhas ou a sombra disso, não teria morrido como morreu. Mas que lamentável e triste morte teve Eufemística, então. E ficaram na conversa de então, ora então como interjeição, ora como conjunção coordenativa conclusiva, ora advérbio de tempo. Omissão e Bach brindaram o êxito com um cálice de cachaça de banana.
Bach pediu-lhe que não fosse sovina e abrisse outra garrafa. O sovina olhou os móveis, mediu as distâncias, o campo no silêncio da solidão; o careca barrigudo, por fim, não alcançava outra garrafa porque a estatura o impedia.
– O acasalamento das aranhas isso.
– O acasalamento das aranhas aquilo.
A conversa de bêbado durou horas e horas. Falando sobre a famigerada Associação das Aranhas, o perigoso processo de acasalamento onde os machos são devorados pelas fêmeas, o cortejo que Omissão disse ter sido vítima de Eufemística, que dançava e vibrava as mãos, o corpo, a teia. Então foi a vez de Bach que falou do medo que sofria da ameaça do canibalismo praticado por determinadas espécies de aranhas; comentou ter vivido exatamente isso em São Paulo, quando perambulava à noite pela Zona Norte da cidade devoradora de gente.
– Por pouco não fui devorado uma noite.
– Oxi!
Vibrações, nos bairros de Santana. Esgoelava-se o jornaleiro ao lado de uma pilha de jornais. Abaixo do título no periódico, o Diário de Santana, a manchete voltou a falar sobre Sociedade das Aranhas com o seguinte lide: “Foi encontrada numa poça de sangue a estudante paulistana que fazia pesquisas sobre o cangaço.”
– Ela ataca mais uma vez! estridente, o jornaleiro não parava de alardear o que saiu na noite anterior. Extra! Extra! Venha conhecer mais uma vítima da Sociedade das Aranhas.
No Mercado da Carne:
– Quanto! – alguém gritou contra a carestia. Isso é roubo à mão desarmada.
– Vá criar gado! – disse o marchante por trás do velho balcão de carne verde. E saberás a senhora quanto custa cada arrouba.
– Sabes com quem tás falando? disse, abriu a bolsa e se identificou funcionária da Vigilância Sanitária.
– Não me leve a mal, senhora! – suplicou. N-não falei por m-al. Foi o impulso que me levou a gritar como eu gritei. Entre mim e a senhora, senhora, não haverá diferença, mesmo porque, senhora, isto foi coisa da ocitocina...
– De quem!
– Ocitocina...
Adiante, a funcionária da Vigilância Sanitária na Feira da Farinha. Viu a farinha de Araripina e encheu a boca d’água.
– Quando? disse a funcionária.
É um prato bom, se tiver um charque bem assado e uma mandioca derretendo e bem cozida, disse a vendedora de farinha. Chamam isso, senhora, de manjar dos deuses. Para preparar o estômago para receber esse alimento divino, nada melhor do que uma talagada de Pitu, daquelas de estalar o beiço e estalar o indicador na junção do polegar com o dedo do meio, senhora. Fazer careta como se tivesse estranhando alguma coisa, quando a aguardente rasga a goela.
– Eita! disse a funcionária.
– Esse prato, senhora, acompanhado desse líquido sagrado feito da cana, é bom demais.
Sou filho da carne fraca. Tô muito esquecido, disse Bach. Que fiz pra cair nesse esquecimento? Antes de conhecer São Paulo, fui poeta de sítio, cantei embolada, fiz repente, botei dedo na viola, chorei aboio de roça. Que fui fazer em São Paulo! Se arrependimento matasse, eu já teria morrido. Sai de Santana com mãos grossas, meti as pernas no mundo. Só conhecia o estio. Que fui buscar em São Paulo, Santana! Por triz não fui zás devorado na Zona Norte onde conheci e me envolvi com quem nunca deveria ter, muito menos se envolvido. Ela de olhos vivos com as qualidades de Eufemística. São Paulo, reviver a Zona Norte, onde vi entrar em meu estabelecimento a jovem Eufemística em beleza e ousadia, cheguei a estremecer os joelhos; era como se tivesse voltado a São Paulo. Por que, quando jovem, fui caipora e ousadia? Jamais deveria ter deixado as paredes tapadas de barro. Sai de Santana em busca de amor. Belo amor encontrei. Valei-me, Senhora Santana, valei-me! Minha cadência sempre foi descadençada. Meus poucos estudos, minhas afoitezas, menino da roça, tu nunca devias ter saído de lá. E mesmo que vivesse sem cobre. Maldita ambição a viagem a São Paulo! Vi na boca desenhada de Eufemística a boca que em São Paulo eu achei. Que bestagem! Se as bocas fossem todas iguais, não haveria de ter semelhança e boca de uma com a boca de outra, né, não. É. Fui sujeito rasteiro, que fui e voltei, fiz da estrada cama e mezinha, hoje nessa cama olhando às telhas, eu preciso duma viola e não reencontro o destino. E sonhei, tolamente, com ricos salões. Caminhei à noite nas ruas de Santana, na Zona Norte, e São Paulo não tinha nada para mim. Por que não fiquei em Santana coberto de couro? Ter saudade das noites de pavor vividas em São Paulo? Longe de mim, nossa Senhora! Paguei caro pela minha coragem. Triste o homem que cobiça! São Paulo me tirou os pés e por pouco fiquei sem pão. Saudade sempre senti da panela de Mãe. Conheci a flor da saudade com as andanças na Zona Norte. Avistei o desenho dela, lembrei logo de Mãe. Eufemística, engraçado, notei agora, carregava os traços de Mãe. Saudade foi tão forte e rizomática, que corri pelo chão, no subsolo não acha, e corria pela mata de concreto e asfalto. Meti a cara na cachaça, por pouco não morri. Voltei inchado a Santana, quando fugi de São Paulo onde vivi com arroz e ovo. Não se apouca, lembrança, Santana não é pouca, a cidade não se apoca, já tem água em toda rua. Voltei de São Paulo e não vi o cochilar dos bois a puxar carro coberto por rumas e rumas de milho, feijão e mandioca. Eufemística será que inda irá no bar beber pinga em copo de vidro grosso? O que tá feito, tá feito, Omissão.
– Extra! Extra! esgoelavam-se os jornaleiros. E foi encontrado Toxoplasma gondii no organismo dos cangaceiros. Leia no Diário de Santana. Extra! Extra! O parasita responsável pela toxoplasmose fazia reduzir o medo a todo tipo de risco. Extra! Extra! Conheça o que a história esconde. Parasita manipula o hospedeiro. Extra! Extra!
Não foi um filho que deixei em São Paulo, foi uma filha. Possuía pequena desconfiança de que era filha e não um filho. Conheci a menina recém-nascida; ela me foi apresentada pela mãe. Não acreditei que sai de Santana pra ter uma filha em São Paulo. Não foi um filho que deixei em São Paulo, foi uma filha, disse Bach o dia inteiro. Menti a vida inteira. Tinha vergonha de dizer que era pai de uma menina, lá na destrambelhada São Paulo. Senhores, eu me recusava a ser motivo de mangação dos amigos.
Polissíndeto, atrás do balcão que fedia a cerveja e cachaça, preservava no bar de Bach o comportamento de Bach, sumido há três, quatro dias. Metáfora fumava com Conotativo um fumo, com certeza, reprovável pelo Delegado Severo Açoite, conhecido filho do Delegado Severo Acoite, neto do Delegado Severo Assunto, bisneto do Delegado Severo Açoitar. O padre chegou à porta do bar de Bach, olhou dentro do estabelecimento, não viu o proprietário atrás do balcão, e saiu. Subiu beco, desceu beco, sumiu.
O bar de Bach, envolto em fumaça, gritos, vozes altas, era como se nada de urgente ocorresse em Santana. Como se 3I/ATLAS não tivesse bagunçado o juízo final, conforme bagunçou a sua prévia com ‘Oumuamua, com o seu gás e a sua poeira, mesmo os sinais terem se superados com 15 km de diâmetro que, em vertiginosa velocidade, vieram de outro sistema estelar.
Narrador conversava com Você, numa mesa de sinuca na qual as bolas corriam no livre espaço cósmico. Apressado, o Sr. Plutocrático passava atrás das burras cheias de dinheiro, porque o mundo não podia parar tampouco intimidar-se com as chuvas de meteoros.
Antítese ria com Antônimo, numa mesa, defronte a meia dúzia de garrafas de cerveja vazias. Hipérbole pegava na mão de Anáfora e lhe oferecia o céu com todas as estrelas. Repetição ouvia as aventuras de Antítese, que foi assaltada a última vez que foi a Maceió levar uma carrada de mandioca.
A chuva varria o tempo e, prometendo enchente, os plantadores de feijão se jogavam aos pés de Santana. Sem nome nunca mais foi visto na cidade. Um fio d’água corria na parede do bar e fazia uma poça no chão. As mesas se deixavam inundar da água que vinha das goteiras. O vento corria com a chuva em todas as direções. Aquela noite prometia enxurrada nas ladeiras do sertão. Craibeiras gemiam, distantes umbuzeiros calados, as palhas verdes de ouricuri ganhavam tons escuros. O cheiro da chuva penetrava nos poros do povo.
Metonímia, de maneira acalorada, irritava Dona Troca com a aproximação de 7 de dezembro, quando estava previsto o fim do Campeonato Brasileiro, que vinha de maneira caudal em cometária velocidade. Naquele jogo de dados numa aposta de moedas de um real. Agiam Metonímia e Dona Troca com ricos elementos da linguagem verbal e não verbal, como se quisessem de propósito provocar efeitos de sentido. Ambos deixavam um rastro de poeira e perdigotos, e as gotículas contaminadas de saliva giravam em torno de todos e, semelhantes aos planetas em giro do Sol, os perdigotos grudaram na mucosa nasal.
Hipérbato e Inversão riam à vontade. Personificação e Gradação bicudos.
– Sabe dizer de Bach?
– O compadre me pediu pra cuidar do bar.
– Sabe dizer se volta?
– Vai saber! disse Polissíndeto com um trapo jogado às costas.
– Me traz uma cerveja.
– Só se for agora!
Elipse conversava com Redundância sobre os diálogos em balões de fala que haviam sumido das histórias em quadrinhos. A queixa de Redundância era a de que os títulos grandes não destacavam mais a informação principal e as repetições lexicais e sintáticas perderam totalmente o sentido.
Onomatopeia reclamava das dívidas com cartões de crédito. Não sabia mais o que fazer se quisesse quitar as dívidas. E os juros já ultrapassaram os 450% ao ano, sem que ninguém nada fizesse.
– Os juros compostos vão acabar me matando.
– Juro, Onomatopeia, que os juros sobre juros correm feito caudal cascata sem obedecer às margens.
– As minhas botas procuram terra no chão e não acham com a Taxa Selic que bota a corda em meu pescoço todo santo dia. Já não acredito mais em jogos de azar.
– O fantasma da inflação me visitou essa noite.
– Ele foi à sua cama?!
– Não! repudiou Onomatopeia. Ele ficou nos pés da cama.
– Pior é quando ele se mete debaixo do mosquiteiro.
– Já aconteceu?
– Não comigo. Com um vizinho meu.
Assíndeto disse a Entretanto que a sua capacidade de se identificar com outra pessoa era um espanto. Entretanto ficou atento à conversa de Assíndeto. Eu chego a sentir o que outra pessoa sente, chego a querer o que outra pessoa quer.
– Será inveja?
– Inveja?
– Porque pecado eu sei que é.
Assíndeto revelou a Entretanto que se sentia complexo nos dias pares e tanto complicado nos dias ímpares. Perguntou por Bach a Polissíndeto, que o respondeu:
– Se não foi a Maceió, foi a São Paulo.
– São Paulo?! Logo Bach, Polissíndeto, que preferia se abraçar com o Capeta a regressar a São Paulo!
– As criaturas transmigram, Assíndeto, como as coisas mudam de lugar.
Rápido, veio Assíndeto à mesa de Entretanto. Feliz, trazia outra gelada e copos limpos. Chegou ante Entretanto com efusivas emoções, representações de empatia. Abriu a garrafa e dela escapou um rastro de gás que lembrou o assunto do cometa do qual se falava em Santana e ameaçava o fim da humanidade e dos encontros no bar de Bach.
– Me veio uma percepção súbita.
– Foi?
– E não foi!
– E como era?
– Súbita.
– Soube.
– Um estágio momentâneo.
– Sinto isso também, quando tô no bar de Bach.
– Pena que Bach não tá.
– Mas Polissíndeto tá.
– Polissíndeto tando é o mermo que Bach tá.
Entretanto foi buscar outra garrafa. Voltou:
– Um dia sem conflito é um dia sem emoção.
O Sr. Plutocrático voltava com as burras cheias.
– O que faz o mistério é a personagem.
– Qual? interessou-se. Tem personagem nova na cidade?
Polissíndeto ria alto com Metáfora e Dona Troca.
– Hoje, despertei com a curiosidade em saber se o fim do mundo estava ou não próximo.
– E?
– Voltei pra cama.
– E por quê?
– Porque fiquei curioso pra saber como a situação do juízo final seria resolvida.
Assíndeto trouxe outra cerveja.
– A próxima eu pago! disse Entretanto.
– A próxima é essa.
– Mande Polissíndeto pendurá-la.
– Já mandei.
– E o sarapatel?
– Tá saindo.
– O mistério é o que faz o enredo enigmático.
– Minhas falhas são o que mais me motivam.
– Quis uma vida bem construída, mas o arranhar desse carro de boi só me faz vir bebemorar mais um dia de vida no bar de Bach.
– Nada há melhor em Santana do que o bar de Bach.
– O bar de Bach é o maior bar do mundo.
– O bar de Bach é o que faz rica a cidade.
– Tudo aqui desperta a gente.
– Esse bar, quando inda não era de Bach, já despertava papai como despertou vovô.
– O que meu pai viveu aqui, viveu também meu avô.
– Eu vivo o que papai viveu, viveu igual a vovô.
– Doravante, com o juízo final, os filhos não viverão mais como os pais.
Entretanto trouxe outra cerveja. O chão coalhado de garrafas vazias. Os copos sujos se espalhavam na mesa com manchas de sarapatel.
– O bar era a única coisa que conduzia a gente naturalmente pela vida.
Corria o colarinho nos copos de Assíndeto e Entretanto.
– Tudo é claro e coerente depois de uma cerveja.
Metáfora tolerava o lamento de Dona Troca sobre as promessas de palhas ao vento que saíam da engenhosidade política de Omissão e tinha nojo. Saiu da mesa e foi beijar na boca de Entretanto.
– Que boca gelada, Entretanto!
– Sente-se, Metáfora, disse Assíndeto, e compartilhe conosco um copo de cerveja.
Polissíndeto demonstrava ser o mais feliz entre os felizardos. As vozes, no bar, abafavam o bate-papo entre os frequentadores, todos os frequentadores que se empanturraram à vontade como se a vida fosse acabar no próximo segundo.
– O mundo tá por um triz.
– Duvido que passe dessa década.
O cheiro de sarapatel incensava o bar de Bach, mesmo em sua ausência.
– O mundo todo sabia que Bach tinha uma filha em São Paulo.
– Era notório.
– A gente fingia não saber porque não queria melindrá-lo.
– O final de semana promete.
Batiam garrafas vazias em copos vazios, enquanto Polissíndeto limpava as mesas.
– O mundo é das mulheres.
– São elas que governam o mundo, Entretanto.
O sol despeja-se sobre Santana, e as ruas buscavam a sombra em rala copa das poucas árvores. As miúdas casas, na rua do Bach, preservavam cores primárias. E o Panema fazia a sesta entre as pedras. Os urubus sobrevoavam a matança.
– É a mulher quem contém a fúria do homem! disse Assíndeto oferecendo a boca à Metonímia.
– Não sou Metáfora! refutou Metonímia.
– Tem metanol nessa bebida, Polissíndeto?
Os seres vivem pela sedução feito raízes rizomatizando. Tudo em torno do abraço, da fome espalhada pelas flores dionisíacas.
Também bebi essa cachaça, disse Polissíndeto com a aprovação do cego Alexandrino. Escansão abriu a boca cheia de linhas verticais, disse, “Nunca fui leviano, com todo o respeito que tenho à leviandade, não prevariquei, e fui citado tantas e várias vezes. Vou começar do princípio. A minha fraqueza nessa vida é a palavra, não escrita, porque sou analfabeto universal e absoluto, palavra solta no meu mato, que avoa e recogita, como as consoantes e as vogais.” “A paixão jamais teve medo, Alexandrino, disse rindo Polissíndeto, mesmo se encontrasse o horror no desconhecido, ainda assim lutava; por óbvio, nem sempre vencia. E praticava as mais cruas ousadias, as mais bizarras, desafiava o estranho a cada esquina de Santana. Quão caudaloso rio, as águas carregavam as margens por pura diversão, dileto amigo Escansão.”
Em casa, no quarto escuro, os olhos de Bach demonstravam estampado o pavor: Qual, qual, qual era a história da água? disse Bach, que procurava entre os raquíticos caibros resquícios de aranha: uma teia que passou despercebida na limpeza, uma caranguejeira escondida com os olhos entre os encaixes das escuras telhas com pintas marrons. Toda a água no planeta era a mesma desde os primórdios dos tempos. Bach começou a falar assobiando. Omissão fornicou por ininterruptos 15 dias. Omissão superou o próprio recorde de Omissão. Nunca mais ouvi falar em relação tão intensa, Omissão! Ele riu. Não deixaram a cama por contínuos 15 dias. Um altar à volúpia, amigo Bach! E riu e disse: "Padre, eu pequei. Pecou, meu filho? Ela também pecou. Foi isso, filha? Chamei palavrões e palavrinhas, padre. Palavrinhas, minha filha? No ouvido dele. Qual é a minha penitência? Sem parar, reze ou ore por um ano, minha filha; torne o dia nove por sete: durante os sete dias por semana, faça as suas preces das nove da manhã às nove da noite. E haverá perdão, padre? Isso, só se pedir com fé. Cruce credo!” Mataram Eufemística, Eufemística morreu, o Diário mostra a morte estampada em seus olhos. Espero, por tudo o que é, que não se transforme em alma penada aquela alma pelada. Que Santana cuide d’alma dela. Não sou, porque nunca fui de arrependimentos. Que desastre causado! Reboliço, e tudo é reboliço nas emoções do telhado. Será que eu vi uma aranha? Será que ela veio buscar vingança? Eu não durmo, aranhinha! O desastre causado só demonstra e comprova a prova de que a consciência respira. Tenho certeza de que os bares vão acabar com as bebedeiras, como os rios vão acabar com a água e os mares vão acabar com os peixes. Quanto tempo ainda irei passar neste castelo, professor Xi Klete? Um + um, dois; dois + dois, quatro; quatro + quatro... Quatro mais... Quanto? Vinte e dois. Hoje, não é 22; é domingo, 5 de outubro. Por que este quarto possui tantos e diferentes relógios? Tem alguém em casa? São Paulo não é o mesmo. Acaso, hoje, não é sábado? Prefiro as segundas-feiras. Não é segunda-feira? A massa de gordura na cabeça é mesmo poderosa: faz a gente enxergar o que não ver.
O volume da água não aumenta. E, no ciclo hidrológico, veloz gira a Terra, na qual se encontra o Brasil e as cinco regiões, entre as quais Alagoas e o município de Santana, cujos bairros e cujas ruas de casas de comércio e residências se mostram entre os quadros em molduras de vidro nas paredes do bar de Bach. O bar e a água em movimento constante. O ciclo do bar corre atrás da água distribuída por carro-pipa. A água líquida, gasosa, sólida. A água que evapora, a água que condensa, a água que precipita, a água que infiltra, a água que escoa, a água das árvores, do solo, do corpo à nuvem é sempre a mesma. O volume da água não diminui. Água é mais sal, por mais salgada que seja, grita um bêbado na rua, só 3% é doce na boca do meu querer, dedilhava Alexandrino afinadas cordas do coração do poeta e da viola. Água subterrânea, nas geleiras congeladas, disponível água dos rios, se não estios, lagoas, lagos, atmosfera. As imundícies da ganância tornam a água um desafio. O Sol é o nosso Senhor, que nos aquece e nos transforma em vapor d’água, e voltamos à atmosfera de onde nunca deveríamos ter caído no copo do bar de Bach. A cabeça forma nuvens com a água condensada se o vapor d’água esfria. Fica a cabeça pesada, ocorre, por fim, a precipitação com a água que escorre da tripinha de mijação, que fumega, que neva, que graniza. A água corre no vaso, na rua, atrás do poste, escorre e volta ao rio, ao riso dos oceanos. A gravidade segura, e a água jamais consegue escapar. É o recurso renovável que se despeja no copo, meleca o balcão do bar. Sem água as células não vivem no som de minha viola. A eliminação de resíduos só a água elimina nos organismos aquáticos e terrestres. E este cabra da peste que vai desafiar a água num copo de aguardente, o que acaso merece? E é uma unha comprida, no polegar esquerdo do poeta, quem finaliza o dó na viola. E os aplausos abafaram o vozerio no bar de Bach no qual há, na parede principal, um recorte do Diário de Santana com título e subtítulo, com lide e citações, hierarquia tipográfica cujos elementos da linguagem não verbal destacam palavras, lide em itálico, chamada em negrito, e os efeitos de sentido produzem à manchete MATARAM EUFEMÍSTICA.
MATARAM EUFEMÍSTICA
ContosPor Marcello Ricardo Almeida 05/10/2025 - 20h 55min
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