ALEXANDRINO ESCANSÃO

Contos

Por Marcello Ricardo Almeida

Essa aí, nem Alexandrino Escansão acredita. Era só dizer isso e caía em descrédito qualquer fato ou opinião, mesmo se ela fosse crível. O nome deste cordelista cego jogava luz sobre os temas implícitos e fazia as inferências se tornarem tão óbvias quanto as informações explícitas.
E o verso alexandrino ainda é prestigiado, mestre Alexandrino? a resposta era o silêncio. Em seguida, outra pergunta do povo na feira:
A rima é a alma da poesia ou, conforme se encontra nos livros de escolas modernistas, é apenas uma muleta na qual o poeta se equilibra?
Mais silêncio no cenário cinematográfico pronto e à espera das filmagens. Na frente da igreja, o cortejo. Se alguém perguntasse o destino, a resposta era seguir o som da voz do poeta de cordel. 
Cada poesia fixa estabelece um número específico de versos em cada estrofe. A poesia de cordel permite estrofes diversas, depende da ocasião ou ocorrem mudanças a cada época, mestre? alguém perguntava, mas não obtinha a resposta.
Só Alexandrino Escansão não viu! surge esta expressão em Santana, que denota quando o fato perde qualquer aura de mistério, não apenas entre os analfabetos absolutos e os funcionais. O cortejo, preso às aulas do mestre, o seguia atormentado pelas angústias semeadas pelas dúvidas que circundavam a poesia. Mestre, mestre! o cortejo seguia o cego cantador. Aqui, o sistema é presidencialismo; acolá, parlamentarismo; lá, semipresidencialismo. Já o regime aqui é democracia; do outro lado, a cada qual a sua bacia!
Recomposição de Conteúdo apresentava o programa Hora do Cordel na Poesia. No rádio, habilidades e conhecimentos eram avaliados; Palavras-Chave e Descritores lançavam desafios. Naquela manhã, o rádio atualizava as notícias lidas no Diário de Santana.
Eufemística deu causa e a causa se espalhou a partir do bar na frente da casa do vovô. Ouvi em Maceió a expressão atribuída aos feitos de Alexandrino Escansão, ouvi também no Recife; outro dia, chegou a Salvador; não demorava, chegaria ao Rio. A morte de Eufemística foi notícia nacional.
Isso ocorreu há três ou quatro semanas, na feira de sábado em Santana, que reúne toda a gente. Houve corrente de repentistas, emboladores presentes, cordelistas em cavalo agalopado a discorrerem sobre o presente, o futuro e o passado. Alexandrino Escansão, metido em versos longamente estudados em todas as línguas escritas, se aprofundou na leitura tátil, desafiou cantador, fez nó cego no tempo quântico, embaralhou o passado, destruiu o futuro com o som de dois dobrados.
Presente estiveram o rádio e o Diário de Santana, que registraram tudo em breves parágrafos, fotografias à vontade. Opiniões fizeram chover aplausos. Moedas tilintavam em chapéus no chão de barro.
Os versos em escarcéu, jornalistas a granel. A multidão deixou os prédios, as casas, as igrejas. O vento balançava o balanço, as crianças perdidas naquela bagunça, enquanto o cordelista Alexandrino Escansão narrava a época em que sentou praça na polícia. As autoridades em volta, sob os chapéus de massa. As cabeças mais caras da cidade motivam a poesia de graça. Desde aquele dia, o mestre Alexandrino Escansão passou a dizer versos nas ladeiras e nas praças; ouvia-se de longe a onomatopeia toc-toc! nos paralelepípedos, nas calçadas de Santana; guiava-se pela bengala Alexandrino Escansão.
Eufemística, na tarde anterior, se encontrara com Polissíndeto: 
– O que vai ser quando crescer?
– Dono de farmácia! disse Polissíndeto; Eufemística riu porque a vida que se permite rir é sempre mais vida, seja a menos-valia ou mais.
– Isso é tão engraçado!
– O quê?
– Farmácia.
– Por quê?
– É o que mais tem em São Paulo.
– Farmácia?
– Em cada esquina.
– É?
– Mais do que igreja.
– Não sabia.
– Mais do que escola.
– Neste bar, Eufemística, tem gente que não se sente bem vendo eu e você rindo.
As luzes, na Microondas, essa madrugada e na madrugada anterior, disse o Diário de Santana, a hipótese mais provável era de que a nave, cujos holofotes iluminaram as poças do Panema, era do errante exoplaneta Karra Patto. E nesta linha do jornal dormido, vovô chegou em casa (vinha de velhas labutas com o gado). Vovó tinha no fogão uma panela de inhame. Vovô despiu-se no quarto. Vovó chegou com a pesada cuia. Vovô na gamela, nu, tremia com as mãos entre as finas pernas. Vovó despejava a água, que lhe escorria morna e contornava a geografia de vovô. 
Lá fora, na varanda, eu acompanho o dia. Ouço o cantar no mamoeiro do sabiá-laranjeira.
Vi chegar atrasado, e demonstrava aperreio, Bach. Resmungava em voz alta tudo o que Ironia lhe fez no último encontro, na frente do cinema. Bach, em calça moletom, camiseta com estampa do candidato Omissão, os pés atolados em chinelos de dedos, meias pretas furadas, chapéu de palha de ouricuri, enfiou a mão no bolso, arrancou o molho de pesadas chaves, tirou das curvas costas uma réstia de cebola e outra de alho, girou a chave com gosto, ela gemeu dentro da engrenagem, a porta velha de madeira avisou às dobradiças, que reinaram à vontade, empurrou Bach com um ombro a velha porta, que ficou arreganhada. Foi Bach de porta em porta, com ideia fixa em Ironia, que o levou ao cinema, que lhe tocou à mão, que lhe deu garantia de amizade. Todas as portas arreganhadas à rua – quase uma dúzia. A rua ia e vinha. O Sr. Plutocrático ora vinha com as burras cheias; um tempo depois, lá vai com as burras cheias. O mês de agosto é demorado. As mesas caladas num canto, cercadas pelas cadeiras. As garrafas comportadas e prontas ao compulsório abate. O balcão em seu sisudo silêncio, recebeu do fardo o impacto das réstias de cebola e alho. Ouviu-se blum! Chegou ao bar o Diário de Santana.
Na velha rua da minha infância, que abrigou em diferentes casas a poesia matuta, aqui do alpendre da casa de meu avô, vi lá embaixo um cãochorro com a língua pendurada. O tosco salivava, caçava moscas, se mordia e bloqueava a passagem em uma das portas do bar. Coçava-se. Rasgava-se outro, na calçada, com enormes e avermelhadas manchas que lembravam o deserto onde corri de motocicleta. O sol despejava-se sobre os telhados dos velhos armazéns, altos, taciturnos, vazios de gente e cheios de reflexões sobre as mudanças políticas. Vi um gato, que cochilava no telhado, outro caminhava entre um telhado e outro. Vi as moscas, que infestam o balcão atrás do qual Bach esfrega um encardido e molhado trapo. Vi os bêbados, sentados na porta do bar; cruzam os braços sobre os joelhos onde repousam a cabeça. Ávida corre a vida em Santana; parece não dormir nunca. Vi todos os envolvidos com a campanha de Omissão, que promete privatizar o Panema nos primeiros meses de sua jornada do herói.
Toc-toc! de longe se ouvia. Era o cego Alexandrino Escansão. Só mesmo o cordelista batia assim a bengala na parede e na calçada. Era levado pelo ritmo, como se compusesse as suas sextilhas; jamais se perdia na cidade, não porque a conhecia, mas porque não se afastava de sua poesia matuta. Seguia o som da fonética, tinha na fonologia o primordial alimento.
– E, aí, mestre! disse um morador, no outro lado da rua. Foi ou é?
– Foi é verbo ser no pretérito perfeito! disse o poeta. Já o é, é o verbo ser no presente do indicativo.
– O poeta é um verdadeiro, ambulante e democrático livro.
– Leve esse tal à direção escolar e promova épico evento. Leve o convite aos alunos, professores e funcionários. No centro do pátio, erga uma fogueira e lance este Prometeu página por página.
O Sr. Plutocrático cruzou a rua com as burras cheias de dinheiro. O ritmo dos cascos desviou a conversa entre o poeta Alexandrino Escansão e o morador engasgado na janela de casa. Venci os degraus. Conquistei a rua. Entrei no bar. Folheei o Diário de Santana. 
Bach, atrás do balcão, reclamava dos odores de mofo ao redor do nariz:
– Por que você nunca toma banho, Antítese?
– Porque não tem água no Panema!
– Cave uma cacimba.
– Nunca!
– E a água do São Francisco?
– Hipérbole bebeu. 
– Enfiou na conversa o Pouca Telha, foi?
Hipérbato, que rodeava a mesa de sinuca, esfregava a palma da mão no nariz como se sentisse algum formigamento. Frenético, coçava o nariz, a cabeça, a barba. Batia com a mão espalmada no rosto, batia de um lado a outro, e voltava a esfregar o nariz. 
Repetição espalhava cartas.
– Falando sozinho?
– Eu e o Gerúndio.
– E onde tá este infitete?
Longe, numa mesa afastada da sinuca, estava Repetição. Transbordava a espuma em seu copo de cerveja. Repetição, quando ria, estava com o nível da ira no grau máximo. Ele mexia nas pedras e ria. Se um dos frequentadores do bar visse o riso de Repetição o evitava. Figura cruel. Repetição capava porco às gargalhadas, enquanto o bicho grunhiu oink! oink! Esgoela-se. Oinks brandos, voltavam oinks acelerados, ofegantes, sob o riso de Repetição.
– Se afastasse dele se o visse mostrar os dentes! alertava Bach.
Sabia-se que Repetição passou a se comportar assim após o falecimento de Dona Cordilheira. Toda conversa com Repetição, ele ressuscitava os mortos:
– Conheci o finado Moinho, irmão do falecido Farelo. Vocês conheceram? E, ó, pense em gente boa! Vi de longe o sinuqueiro, hoje defunto, o Bola. Aprendi a jogar cartas com o saudoso Ás, pai do Bola.
O Sr. Plutocrático passou na estrada com as burras cheias. O estalar dos relhos nas pedras, no lombo dos semoventes:
– Trabalhem, desgraçadas! castigava o Sr. Plutocrático. Logo reduzo a ração a um quarto. Algumas de vocês dormirão com fome. Grandes expressões das burras cheias nos olhos, na boca, nas orelhas. Tensão. A atmosfera à espera de reviravoltas. Suas mortas de fome, suas mortas! esbravejava ao lhes estalar o relho, e repetia o açoite, os impropérios. O Sr. Plutocrático controlava 40 burras cheias. Abriam-se as janelas das casas e testemunharam os castigos. Os olhos dos moradores, na rua de meu avô, impassíveis. Ninguém erguia a voz na velha rua, diferente do bar onde ninguém ouvia ninguém:
– A última vez que Eufemística foi vista foi com Polissíndeto?
– Não! disse Dona Troca. Foi com Gradação.
– Ninguém nunca mais viu Gradação, não foi?
– Com a trágica morte de Eufemística, Gradação sumiu no olho do mundo.
Livrar-se de Iaiá ninguém consegue, de seus pés, de suas mãos, de sua boca! o rádio atualizava as notícias em Santana. Iaiá põe de pé o Sr. Algoritmo, único que faz crescer a Bolha – esta senhora que carrega diferentes predicados cujas características toda a cidade conhece – e ela corre, e ela ri, e ela vive com tanta pressa, e ela gargalha, e ela chora por ser odiada sem razão aparente; com o maroto sorriso de Mona Lisa del Giocondo, ela, na frente do espelho, escuta a própria voz e alonga o pescoço qual um quadro de Modigliani. Ó gente sertaneja, prestigie Alexandrino Escansão, o nosso patrimônio símbolo brasileiro.
– Por onde anda Gradação?
– Como saber, Dona Troca?
Bach, o dono do bar, anunciou aos fregueses que era hora de encerrar o expediente. Os tacos de sinucas jogados sobre a mesa. As cadeiras espalhadas entre outras. As mãos de Bach sepultadas nos bolsos. Ele foi de porta em porta, fechou, atravessou as tramelas, correu a chave na fechadura. Pés na calçada. Adiante, os acordes nas cordas de uma viola, a voz roufenha de Escansão. E, a caminho de casa, Bach voltava na escuridão da rua. Essa aí, nem Alexandrino Escansão acredita.

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