ERA UMA VEZ UMA ÓPERA BUFA

Contos

Por Marcello Ricardo Almeida

Vi, da preguiçosa de lona, na varanda de meu avô, onde lia, o movimento no bar, no outro lado da rua. Vi o bêbado Burlesco conversar com a bêbada Adrenalina, que impedia a bêbada Endorfina de entrar no bar. 
As paredes do bar de Bach estão cheias de figuras.
– Pra que tantas figuras, Bach?
Em uma das paredes, O Garrão de Steinhaeger. Sob este quadro, a mesa é ocupada por Cara Remendada, primo de Exagero. 
Tolo aproximou-se de Cara Remendada e lhe perguntou sobre Exagero que, segundo soube, deixou o bar em estado de profunda inconsciência. Tolo ficou tolo com a tolice de Exagero em coma.
– Ele bebeu todas, ontem à noite! disse Cara Remendada. 
– Exagerou outra vez?
– Exagerou, Tolo.
– Não sabia.
– Chorou toda a madrugada.
– Chorou foi?
– Chorou.
– Não sabia.
– Reclamou ter sido ignorado por Eufemística, que lhe deixou o coração em frangalhos. 
Aproximaram-se da mesa, arrastaram as cadeiras, sob o quadro O Garrão de Steinhaeger, Vaidoso e Ganancioso. Completou-se a mesa com o velho Tolo, Vaidoso, Cara Remendada e Ganancioso. Gracioso foi convidado a fazer parte do quarteto fantástico, porém o compromisso com a pré-campanha de Omissão não lhe permitiu senão encher as mãos latrinárias com o tira-gosto de sarapatel. 
Naquela manhã de domingo, o estabelecimento de garrafas e copos sujos estava imerso na profusão da crise causada pelo amor não correspondido. Sob a pintura a óleo – O Garrafão de Steinhaeger – o amor foi levado ao banco dos réus.
Bach, o proprietário, atrás do balcão:
– E estou aqui só pra te ver!
Servia as mesas, Palermo, o faz-tudo, com voz de locutor de rodeio:
– E eu gosto tanto de você! 
Cantava Palermo. Recolhia as garrafas vazias, copos sujos, trazia garrafa cheia às mesas, recebia dinheiro, dava o troco. Imitava Bach: tinha nas costas um pano sujo, passava-o nas mesas, nos copos...
– E estou aqui só pra te ver!
– E eu gosto tanto de você... ê... ê... êêê... ê... ê...!
Fora do bar, o Sr. Plutocrático passou com as burras cheias de dinheiro. O Sr. Plutocrático, não demorou muito, voltou com as burras cheias de dinheiro.
Sob o quadro O Garrão de Steinhaeger:
– Eufemística, Eufemística, Eufemística... Aquilo é flor que se cheire! Ela brigava contra o escuro e o tempo.
– Não confio em Eufemística.
– Me pergunte se eu confio em Eufemística!
– Eufemística, Cara, chegou aqui e disse Zeitgeist, Zeitgeist, Zeitgeist. 
Por Eufemística, as sombras se derramavam em cada rua, em cada beco, em cada casa, em cada porta, em cada jardim, em cada janela, em cada quarto, em cada cama. 
– Em Santana, Eufemística encontrou muitas palavras bantas e variações tupis.
– Na malha urbana foram encontradas muitas anotações de Eufemística.
– Não era dela: "Onde a violência é realizada por compulsão, a riqueza foi gestada pelo trabalho compulsório"?
– O mundo sofreu mudanças, Cara.
– Há um cheiro de aranha no ar, e o rastro dela em toda a parte.
– O anátema presente nos olhos dela, Cara.
– Ela reinventou o silêncio nos rubros lábios.
– Grande navegadora Eufemística, que representava as distâncias.
– Partiu do ontológico e se dissipou sem nada ter deixado.
– Não à toa, Exagero se tornou terra arrasada.
As réstias corriam pelas paredes. O fedor de pinga entre os quatro sob o quadro O Garrafão de Steinhaeger.
– Eufemística descobriu o que deveria ter permanecido coberto.  
Bach, o dono do bar, andava, mexia, virava, inquieto, reclamão, ameaçava o faz-tudo Palermo de pé na bunda; contratado aos serviços no bar, mais como penitência, sentenciada pelo padre, menos porque carecia de seus serviços.
– Mão de obra sem préstimos nem valores.
O faz-tudo diante de Bach. Os olhos de Palermo diziam ao dono do bar:
– "Esse fidapeste vive de tirar o couro da gente de segunda a segunda.”
Bach abriu a gaveta, que gemeu ao ser arrastada, dali, trouxe um caderno amarrotado e com manchas amarelas, e com odor de urina de rato. Soprou as asas de barata; elas voaram. Subiu da gaveta um ar de deboche.
O proprietário fez uma careta, passou a ponta do lápis na língua.
– Vamos às contas, Palermo.
Faz-tudo estremeceu.
– ...! o cheiro de azedo circundava-o em pé ao lado de um tamborete.
– Não vai se sentar?
– Não... Não senhor!
O lápis foi à boca do senhor, como se a língua fosse a ferramenta para afiar. Em momentos assim, a voz do dono do bar se assemelha a quem respira gás hélio; acentuava-se quando o assunto era dinheiro. Bach arrasa quarteirões com agudos insuportáveis.
Na porta do bar de Bach, Verossimilhança se encontrou com Pragmática. Logo veio Dona Expressão Idiomática. Dona Expressão Idiomática vinha com Verossímil, filho de Verossimilhança.
– Pior do que o princípio é o fim! disse Verossímil. Não vê o que seu Bach jurou fazer com Palermo! 
Pragmática perguntou à Dona Expressão:
– Você já teve alguma epifania?
– Não a conheço, mas sei quem é.
Verossímil segurou na mão de Expressão:
– Tem cigarro?
– Tenho, mas acabou, e não vi nem o cheiro.
Pragmática disse que soube porquê Bach fazia o que fazia com Palermo. Expressão disse:
– Isso acabou de começar!
– Que frio do inferno faz pra quem fica trancado do lado de fora.
– E a porta dormiu aberta!
– Tinha muito pouco frio, no ano passado.
– Escuta só pra você ver.
– Venha de tardezinha, quando o sol esfriar.
– Hoje, o movimento está meio parado por quê?
– Porque o domingo mal começou!
– Pragmática era autoexplicativa.
– Eu?
– Era a opinião de Dona Expressão Idiomática.
Na ponta da rua, surgiu o Sr. Plutocrático com as burras cheias. Voltou, mais cedo, com as burras cheias de dinheiro.
Na mesa sob a pintura O Garrafão de Steinhaeger, Tolo tirou do bolso um papel amassado e leu aos amigos:
O amor, o amor... tão inclemente, tão incompreendido,
Espalha na humildade a semente de terríveis adjetivos.
Não poupa e atinge de cheio até o coração de crianças,
Que ora chora, que ri, que se descabela ante o abismo
Por amor a outra que simplesmente a despreza e dela ri.
Cara Remendada, ao ouvir os versos de Tolo, foi às lágrimas. Vaidoso e Ganancioso, que ameaçaram aplaudir, recolheram as palmas, se solidarizaram com as lágrimas de Cara Remendada. 
No bar, não se calava o rádio por um instante. Outro tagarela, o Diário de Santana.
– Vocês ouviram falar?
Dona Expressão testemunha o espanto de Pragmática.
– Durante toda a madrugada, luzes alienígenas brilharam no Microondas como vagalumes.
Continuou Pragmática:
– O mês de agosto chegou com a Dona Majestade Sabiá. 
– Era um sinal ou uma provocação?
– As luzes impunham o medo à cidade.
– Essas luzes vieram de onde, do espaço ou de algum engraçadinho com uma vela acesa dentro de uma cabaça?
Na mesa, sob O Garrafão, os copos vazios, as garrafas.
– O primo Exagero, disse Cara Remendada, um dia foi criança. O pai dele, um tio meu, enlouqueceu o filho com um grito. Largou o menino numa rua escura. Noite cerrada. O grito ecoou na eternidade por causa de uma fatia de bolo.
Corriam as lágrimas nos amigos, na mesa.
– O pai, o tio meu, parou e abandonou o bebê num breu. Mato e latidos e miados. Estrada de macadame sem começo, sem fim, sem nome.
Os amigos esfregavam as costas das mãos nos olhos.
– Pobre do primo Exagero.
Cara Remendada também passou as costas das mãos nos olhos.
– O tio arrancou o nenê do seio da família, e o largou sozinho no coração da rua, o deixou àqueles latidos e miados. Ele ficou perdido na escuridão. Após a experiência, Exagero nunca mais dormiu à noite. 
Na mesa, próxima aos quatro amigos, folheio o Diário. Releio as sessões estrangeiras. Frente al mar – Un corazón de mujer frente al mar puede transmitir la geografía del océano la cena a luz de velas en El mar El barco navega lento en una noche clara en Viña del Mar.
Na página abaixo:
Will you come up to limerick? – One – Loose Noose Tie Lie Loose. – Two – At the death’s door A silver coin is poor From head to foot In a bad fix, in a mess root At the death’s door.
Na velha floresta, pé de vento na árvore; e o folhear, aí, cai. Na casa do Dr. Haicai, mergulha o balde d'água. Pés cansados. Dona Natureza e o Dr. Haicai conversam, e ele cochicha ao ouvido dela.
Nessa hora, em minha casa, na janela da sala, o sol acorda a praia. Desce um bando de maçarico-do-banhado. No jardim de casa, hortaliças tomadas pelo sopro do vento sul. No quintal, a jabuticabeira. Disse o Dr. Haicai à Natureza: Vejo emoldurada na velha porta de madeira a sombra da primavera. 1 ... 2 ... 3 ... 4 ... 5... Lavadeiras pulam no rio -a -e -i -o -u. O frio do inverno se abriga nas rochas que cospem morcegos. A coruja que habita o interior da mulher é calma e simples como a lua. A casa das formigas, naquela tarde de chuva, o açucareiro. Mãe-d'água na pedra. Banho de sol no cabelo. Só bebe saquê. A velha calçada atravessa a tarde quente: um caramujo. Para de bater o coração da árvore por causa dos jornais.
Acorda a corda! exigiu o rolo de corda. Acorda a corda. Venha ver como nascem os vendedores de fumaça.
Outra vez, o Sr. Plutocrático se foi com as burras cheias. Voltou com as burras cheias de dinheiro.
– Eufemística fez o que fez com Exagero, porque faz parte da Associação das Aranhas.
– Será mentira? duvidou Tolo, e piscou ao amigo.
– Será verdade? rio Vaidade.
– Eufemística é jovem poderosa. É só observar como ela usa a beleza.
– Isso é verdade! garantiu Tolo. 
– Talvez nem tanto! frisou Vaidade.
– Eufemística domina todos em sua volta, não com argumentos, domina com a cor dos olhos. Fechem os olhos. Fecharam?
– Sim! responderam Tolo e Vaidade.
– Vocês conseguem ver a cor dos olhos? Eles são ou não são poderosos?
– São!
– Eufemística é uma das sacerdotisas da Associação das Aranhas. Ela e Ironia, outra sacerdotisa. 
– E pode haver duas?
– Pode!
– Como sabe? 
– Li num livro.
– Que livro?
– Prefiro não me lembrar.
– Tudo indica, amigos, que Eufemística é tudo e um pouco mais. Bach é testemunha.
– Como!
– Onde Eufemística pisava surgiam umas aranhinhas deste tamanho assim que lhe seguiam os passos e se perdiam nas ruas. Eufemística deixava um cheiro de aranha por onde passava. 
– Vocês falassem o que quisessem, mas, pra ser sincero, eu gosto de Eufemística. Eu gosto, Cara. Gosto dos brincos de prata, que reluzem em minha cara. Gosto do sol, que bate nos brincos, e quase me deixam cego. Aquelas duas penas de coruja, uma em cada lóbulo. Ela balança a cabeça, balançam as penas de coruja. Às vezes eu penso, não vou mentir agora que tô bêbado, que aquelas asinhas podem voar. Elas brilham, Cara. As asas com as cores da coruja. Só em falar, fico assim...  
Lá fora, na rua do bar, o Sr. Plutocrático se foi com as burras cheias de dinheiro. O Sr. Plutocrático voltou com as burras cheias de dinheiro.
– Vamos ao acerto de contas! resmungou Bach a Palermo. Este suou frio. A casa lhe deve um mês. Não é isso?
– É isso.
– O mês passado foi acertado. Nunca lhe atrasei o salário, como costuma ser comum por estas bandas.
– É isso, patrão.
– Isto aqui pode parecer simples, mas não sou avarento, nunca fui mão-de-vaca. Não roubo no peso, nem recomendo roubar. Não batizo cachaça nem vinho. Vi você bebendo às escondidas; estão anotadas, bem aqui na minha frente, cada vez que chegou atrasado, às vezes também em que bebeu mais do que vendeu. Mas isso não levarei adiante, porque sou um sujeito justo e cheio de predicados. Nesta altura da vida, não vou me sujar com verbo nem verba de ninguém.
– Agradeço, patrãozinho.
– Contratei um cozinheiro, além de ajudante de balcão e faxineiro. Três em um, foi o que me disse, não foi?
– Foi.
– Ontem, deixou queimar o sarapatel; e vai pagar cada centavo por isso, antes de sair por aquela porta e nunca mais voltar a passar na calçada deste estabelecimento.
– Patrãozinho...!
– Vamos ao prato. Um prato, seguiu Bach com papel e lápis, custa R$ 29,99. Não é isso, Palermo? lambeu a ponta do lápis, e esperou a resposta antes de concluir a soma.
– Sim, patrão! gaguejou. Até onde sei.
– Como, até onde sei? É ou não é. Qual é o preço do prato de sarapatel, Palermo?
– R$ 29,99 é o preço, patrão.
– Cada cozido de sarapatel contém quantos pratos?
– Dez?
– Dez é uma pergunta ou uma resposta, Palermo?
– Vinte? titubeou. Trinta, patrão. Cada cozido rende 30 pratos. 
– Qual é o custo disso?
– O custo de 30, patrão?
– Sim, Palermo!
– Uns...! não conseguiu concluir.
– Uns?
– Uns...
– Trinta pratos custam R$ 899,7 mais ou menos, Palermo. E quanto eu lhe pago por mês?
– R$ 1.518,00 foi o que eu recebi no mês passado.
– E o mês retrasado?
– R$ 1.518,00 foi o que recebi. 
– R$ 1.518,00 menos R$ 899,7 é, mais ou menos, R$ 618,3 não é?
– Não sei.
– Faça a conta você mesmo, Palermo.
– Sim, senhor.
Com papel e lápis, a conta não avançou além de riscos aleatórios. Não socorria Palermo a matemática elementar. Ele acabou por desistir da aritmética. Devolveu papel e lápis a quem tinha o costume de usá-los.
– É justo! e sorriu. Vou cortar do pagamento a tira de carne que me deve.
– É justo! e cerrou os punhos.
– Sumiu o coalho que tinha ali?
– Vendi, patrão.
– Não minta.
– Não minto.
– Sumiu em suas tripas, Palermo. Vou também lhe descontar o coalho. 
– Descontar, patrão? e as unhas, nos punhos cerrados lhe rasgaram a carne.
– Preferia que eu não lhe cobrasse?
– Não é isso, patrão! e a fita de sangue correu entre os dedos das mãos.
– Um quilo de coalho, na cidade, tá em torno de R$ 75,90 mais ou menos. Mas não com o sabor e a maciez do coalho que vendo aqui. O meu é mais caro. Mas vamos dizer que o daqui também seja R$ 75,90 o preço do quilo. Eu tinha cinco quilos. Sumiram. Na ponta do lápis, Palermo, isso chega a R$ 379,5 e R$ 618,3 menos R$ 379,5 é R$ 238,8 mais ou menos. Né, não?
– Não.
– Não?
– Não sei, patrão.
– É.
– Se o senhor diz! e abriu a mão em carne viva. 
– Lembra-se, Palermo, que você veio trabalhar aqui porque a sua mulher estava grávida? Ela perdeu o filho, não foi? Antes, você veio aqui e se jogou aos meus pés, pediu por amor a Deus, que lhe ajudasse com qualquer coisa. Acaso eu sou Deus?
– Não, patrão.
– Acaso não sou...?
– É, patrão.
– Deixei em suas mãos R$ 550,50 não foi? Fiz isso, não por você nem por sua mulher; fiz pelo padre.
– Foi, patrão. 
– Recebi?
– Recebeu.
– Recebi de volta os meus R$ 550,50? intimidou.
– Não o todo, patrão; só, patrão, as partes.
– Que partes?
– Os juros.
– E o empréstimo foi quando?
– Não sei mais.
– Mas eu sei.
– Sabe.
– Sabemos eu e o meu caderninho. Além dos R$ 550,50 tem os juros de mora. Isto chega a R$ 5.550,50 se o acerto for feito hoje. Minha taxa de lucro é de 55% mais ou menos. É o que eu consigo com transferência de informação. E é juro sobre juro, você sabe, foi avisado. É como consigo drenar o lucro. Não fui eu quem criou as regras eletromagnéticas. Bem-vindo ao mundo imaterial.
– Como poderei lhe pagar R$ 5.550,50?
– Com trabalho.
– Trabalho?
– Trabalho.
– Aqui?
– Não aqui, não! explodiu. Esta noite um caminhão vai levar uma carrada de cortador de cana. Já negociei com o encarregado. Com o encarregado, recebi uma parte da dívida. 
– E a mulher vai ficar sozinha? Ela não tem ninguém que possa dizer uma palavra a seu favor. Não tem como sobreviver se eu for cortar cana, patrão. Minha mulher, patrão, tem uma cara de porcelana, e ela é tão jovem, patrão. Não pode fazer isso comigo. Ela não pode ficar sozinha. 
– Sobre isso, eu também já acertei.
Omissão, no bar, anunciava a candidatura à vereança, e fazia campanha antecipada. Entrou, ocupou o balcão, retribuiu abraços, apertos de mãos, tapas nas costas, e contou piadas, encheu todo mundo das mais gordas gargalhadas, prometeu felicidades, distribuiu bebidas de graça, pagou sarapatel. 
– Qual a principal plataforma? quis saber um freguês de Bach com hálito de cachaça. 
– Privatizar o Panema! não hesitou, e riu.
– O rio, candidato? a insistência fez Omissão respirar fundo. 
No balcão, Bach riscava papel, lambia a ponta do lápis. Nas mesas, os clientes bebiam. Nas paredes, os quadros, as fotografias dos heróis da cidade. Nas prateleiras, as garrafas refletiam o sol.
– O primo Exagero era homem de muito dinheiro, disse Cara Remendada, deixasse Exagero em paz. Ganhou fama, fazendas, casas comerciais. Deixasse Exagero em paz. Não era à toa que vivia pendurado na garrafa. Exagero sempre teve problemas. Isto desde quando veio ao mundo. O nascimento e a juventude de Exagero não foram brincadeira! Ele tem naquele sangue metade da mãe e metade do pai. Exagero, filho de Hades e Perséfone. Desde pequeno, viveu nas trevas mais profundas. Santana conhece a história. O tio Hades, na juventude, havia sido cangaceiro; ele raptou Perséfone, uma menina, e meteu ferro mundo afora. Deméter, mãe de Perséfone, casada com fazendeiro, que era um deus na região, não conseguiu impedir a crueldade do raptor. Hades levou na cacunda a menina Perséfone, que brincava com flores de laranjeira, e decorava o cabelo com as flores, quando o cangaceiro Hades chegou. O sol sumiu do terreiro, veio a escuridão, o vento dobrou os umbuzeiros, os galhos dos cajueiros gemeram, vergaram as goiabeiras, os mandacarus caíram, ficou breu ao meio-dia, correu no tempo um frio que ameaçava matar o gado, pois não havia inferno maior se comparado ao gelo. Desse útero violado, Exagero foi gestado a tiro de clavinote. A fome, o frio e a miséria, o sofrimento e a morte invadiram a casa de Deméter. Ela abandonou a agricultura, os trabalhadores perderam o emprego, deixaram a terra, vagaram mundo afora, perdidos, ocuparam às rabeiras urbanas em meio aos lixões. Com Perséfone arrastada pelo cangaceiro Hades ao submundo, Deméter enlouquecida, a divindade do fazendeiro pai de Perséfone fez um acordo com o irmão cangaceiro Hades, devolva a minha menina à mãe ao menos por breve período a cada ano. Foi assim criado Exagero, cujo pai Hades preferia Hexagero.  
– Ou privatiza o Panema ou Santana vai quebrar! e os frequentadores do bar ficaram estupefatos com a avaliação do candidato. A economia não suporta mais um ano se não houver uma reação corajosa.
Naquele domingo, com o pré-discurso no bar de Bach, Omissão começou a ser identificado como entreguista. 
– E quem vai comprar o Panema?
– Não faltará comprador que explore Qq!
– É verdade, Omissão.
– Uma mineradora daquelas e não dessas.
– É verdade.
Assim, Omissão espalhou o medo. Não tardou, veio o pânico. 
Na rua, o Sr. Plutocrático se foi com as burras. O Sr. Plutocrático voltou.
– Ouvi falar que a aprendizagem é uma experiência individual.
– Li em algum lugar.
– Você vê uma parede pintada com a propaganda de um candidato, talvez uma imagem na página do jornal, que faz a gente imaginar o número, o partido.
– Na parede escrita que se aprende por transmimento de pensação.
– Foi assim desde os antigos, que transmitiram ao futuro por transmimento de pensação.
– A aprendizagem é coletiva.
– Lenta e gradual, como repetem os professores, no Ginásio.
– Foi assim, no extremo Oriente, quando surgiram os primeiros estudos que perguntavam o que era a Lua, o que era o Sol, a chuva, a colheita, a seca, o relâmpago, o fogo, a fome, o êxodo. Um dia, o mais velho ensinou ao mais novo como fazer uma arma de pedra. Um imitava o outro por séculos até o nascimento das religiões, e elas criaram as letras, e as letras criaram as leis, e as leis criaram os livros, e os livros viajaram, e as viagens chegaram aos jornais, e os jornais chegaram aos sertões, e os sertões chegaram às minhas mãos.
Eu lia o Diário de Santana. Na primeira linha, vi a praça ocupada. Mas que praça é essa, ainda praça em Santana, mesma praça aliterante. Quando a praça é pouca, a tônica e átona faz esta praça uma outra praça solta, fotográfica praça em pouca roupa. Sendo a intensidade menor na praça, ela é átona, e a cedilha é uma praça. Cantam passarinhos. Na praça, surgem voos livres de pássaros e o amanhã sem árvores. A manhã de cada ave depende das folhas, depende dos galhos. Não há raízes senão nas praças habitadas por saguis. Crocita a coruja, e, à noite, a noite escorre da serra, e taramela arara de manhã. Olho-de-boneca, orvalho de abril molha breve raio de sol. Alagadiças ruas abrigam em palafitas os sonhos das rãs. Pescador pesca o sol, pesca o sonho, a tempestade, quando Iemanjá mandar. As rosas de maio alimentam o beija-flor no silêncio das asas. Solo rachado: recado da natureza, desenho poético. Fechei as páginas do Diário.

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