O MOTE, A GLOSA E OS ALEXANDRINOS

Contos

Por Marcello Ricardo Almeida

O solstício de inverno havia chegado a Santana no mês passado. Corria um vento gelado na boca da noite; ela bocejava e tinha fome. As estações foram reduzidas em invernos curtos e verões prolongados. O batuíra-bicuda batia as asas. As chuvas rarearam e milho foi colhido e levado às fogueiras de São João. Um trinta-réis-róseo fazia canto e maçarico-rasteirinho o acompanhava. Abraçou o céu a asa branca, o azulão coloriu o dia. O periquito-da-caatinga e o cardeal-do-nordeste trocavam as suas mágoas. Um tico-tico pousou no mourão na velha cerca comida por cupins. E os galos-da-campina tomaram o ar úmido da tarde.
Alfaiate Alexandrino Escansão, cordelista cego, residente no beiço da Rua da Cadeia, pai da costureira Elipse e irmão do Padre Velho, criava motes a serem soltos na rua e correm em sílabas métricas em dupla de hemistíquios separada por cesura. A sua velha máquina de costura recebeu o nome de Dodecassílabo; os carretéis, ele os chamava Divisão; às linhas de costura, o alfaiate deu o nome de Ênfases. Abria voz o alfaiate em sua tarefa diária – ma...goa...do [levava -goa à sinérese, fazia do hiato ditongo, arregaçando-o – numa competição à própria voz de canário; dava rasteira em sinalefa, engolindo as vogais no mesmo verso, como uma viagem no tempo, uma experiência desconhecida na Rua da Cadeia, em Santana na primeira metade do século XX. O alfaiate Alexandrino Escansão tocou a linha com a ponta dos dedos, como se atravessasse um portal, elaborou um aplicativo híbrido, entre as diversas linguagens, Alexandrino o desenvolveu com versos dodecassílabos:
[elisão] [elisão]
Can/ta o a/lfaia/te a/sua/CAN/ção – es-te/ve/lho/Es/CAN/são –
1 2 3 4 5 6 1 2 3 4 5 6
Se/vo/gais/e/di/TON/gos-se/quen/ciam:/so/am/JUN/tas!
1 2 3 4 5 6 1 2 3 4 5 6
[elidir]
Ver/sos/a/le/xan/DRI/nos-só/são/cri a/dos/na am/BRO/sia.
1 2 3 4 5 6 1 2 3 4 5 6
O a/mor/dei/ta/di/TON/go-faz/vo/gais/uma/só/SÍ/la/ba,
1 2 3 4 5 6 1 2 3 4 5 6
[elisão]
Faz/sa/li/var/em/BO/cas-quei/ma/noi/te in/cen/DEIA O/dia
1 2 3 4 5 6 1 2 3 4 5 6
Jun/tas/vo/gais/na/CA/ma-sí/la/bas/can/tam/RIT/mo.
1 2 3 4 5 6 1 2 3 4 5 6
Na frente da casa do alfaiate cego, a jovem D. Xântipe, quando não estava nas barbas do Panema, lutando com outra trouxa suja de roupas alheias, ficava nos fundos de casa onde fazia sabão caseiro. Juntava gordura da matança, cujos marchantes desprezavam nas cercanias de Santana, misturava a gordura ao sal em tachos de água fervente, usava óleo de coco, cachaça, bicarbonato de sódio, fragrância de flores do jardim de casa, mexia, acrescentava soda cáustica. O seu caçula admirava a mãe trabalhar. O velho cansado, o pai, marceneiro de muletas agarrado a tábuas e toras de madeira, serrote e martelo, a boca cheia de pregos e lhe corria o suor sob o chapéu de palha de ouricuri.
Ninguém sabe o dia de amanhã? O dia amanhã, plena escuridão ao meio-dia, seria de cortar a facão. Na origem dos tempos, quando reinava sobre a terra o poder dos dinossauros, o caçador primitivo não imaginava que o Tiranossauro Rex, no futuro, regressaria à mesa do jantar em espetinhos de frango.
Aos gritos, D. Xântipe não parava de correr dentro de casa; ora acalmava, ora guerreava contra as galinhas em cima da mesa – Xô, diabo! – ora varria os excrementos do diabo debaixo da mesa – Xô, cão dos infernos! – cocoricó corria nas camarinhas, na dispensa, avançava sobre as tábuas e as toras de madeira na oficina do marceneiro, marido de Xântipe. E o fogo a lenha crepitava os seus desenganos, os desalentos entram interrompidos pelas reinações do caçula, que invadia a cozinha da mãe armado de paus e pedras. A fumaça cinza deixava as panelas de barro negras como a noite, na cabeça do caçula, que corria a casa inteira à caça de formigas. Não parava um instante; ele avançava sobre a mesa e sobre os tamboretes, pulava a janela, ganhava o terreiro, voltava a invadir as camarinhas, fugia do castigo da mãe, maltratava as flores do jardim à vara, subia nas pedras maiores do que a casa, ameaçava pular, ameaçava subir aos céus.
Frustração é um bicho no psíquico biológico, versou o alfaiate Alexandrino Escansão. Qualquer rima no monturo serve ao verso. Adolescente, que adolesce e não se enxerga na sala do espelho, não sabe que padece. Chuleava a máquina do alfaiate. Metapoesia, na Poesia de Cordel, corre no desenvolvimento, e bebe pinga e mete a peia. Esses versos do poema sobre o poema, disse a Metapoesia ao poeta, antes de cantar canção, o caboclo entrega-lhe aos braços da agonia. Verso se descompassa, atropela a elisão, coiceia à sinérese, na sinalefa rasteira. Adolescente não cresce, espicha-se e não agradece, o seu desenvolver-se uma peste carregada de incertezas.
As formigas carregadeiras, um fogaréu de formigas necrólatras começou arder nas carnes de Chinelão. As formigas entravam-lhe, inicialmente, nos olhos e saíam pelos ouvidos e adentravam em outros orifícios e fiziam novos orifícios e deles saíram tapurus. Um cãochorro medroso se aproximou. Encostou uma cachorrada. Corria o pânico com a velocidade da luz nas veias de Chinelão. O medo em Chinelão parecia as formigas nervosas num grande formigueiro. E os vazios eram preenchidos pela imaginação, pela criação de mitos, porque apenas eles explicavam. A mente acalmava-se e ele conseguia dormir. Eu sinto, disse, o cheiro de podre deixar a barriga das formigas. Chinelão ficou apodrecendo no tempo junto com as formigas. Chinelão, meio tonto, afastava-se aos poucos das imagens de uma morte violenta. Tinha para si que os braços das máquinas – sob o comando da cartomante-mor, que vivia cercada por funcionários estatais em sua plataforma da qual controlava o capitalismo de plataforma – deveriam ser mais maduros, não verdolengos. A plataforma da cartomante-mor brilhava no céu como uma flor; no céu, os olhos dela não se desviavam nunca da terra. Ria a cartomante-mor longe da terra lagunar. Chinelão ficava admirando aquela flor no céu; àquela flor no céu, Chinelão dedicava todas as horas ociosas. À hora em que Von Wruund começou a incentivar a distribuição gratuita de telas cujos olhos se tornaram dependentes, eles eram atraídos e se tornavam prisioneiros, isto era comum com descendentes aumentou a população de incautos e de neófitos cafuneicos e escalafobéticos. A cartomante-mor partiu, ao ficar partida por desconfiar das linhas nas mãos de Von Wruund, após talhos profundos e doloridos que redefiniram essas novas rotas às linhas. Estes talhos, Von Wruund, ela disse-lhe com sorriso trocista, até ontem não existiam. A nossa inflação aumentará. Não há pacote de medidas. Os remédios irão às alturas. Ninguém poderá mais se alimentar como se alimentou até ontem. Muitos irão perder o emprego. Muitas pessoas ficarão sem ter onde morar. Há milhares de vidas sem rumo. Isso é feitiço! gritou Von Wruund com a cartomante-mor. Isso era ópera bufa! Encolheu-se a cartomante-mor às medidas a serem implementadas após a acusação de estar à frente de uma Ópera Bufa. Acusou aos desafetos de Von Wruund de ele possuía um cérebro de mosca. É? tamanha foi a surpresa dos desafetos que viviam à sombra do poder de Wruund. Não me refiro, disse a cartomante-mor, ao cérebro de mosca-das-frutas. Não? o desafeto mais atrevido perguntou à cartomante-mor. Não, não, não, senhor, não, porque o cérebro da mosca-das-frutas, mesmo pequeno, possui mais neurônios se comparado ao cérebro de Von Wruund. Como a cartomante-mor sabe tanto? Eu mesma, ela respondeu-lhe, não sabia que sabia tanto. Li nas linhas das mãos de Von Wruund. Foi? Senhores, ao ler as linhas, eu mapeei que estávamos todos em perigo iminente. Era? Era o momento, disse a cartomante-mor, de abandonar o palácio pela plataforma orbital. Chinelão acordou em meio ao lixo, na rua, não viu senão escuridão e ouviu silêncio. De quando em vez, as máquinas cortavam o céu de Civitatis. Chinelão levantou-se lento e tonto, naquele jardim holográfico, enxergou nos braços de drones silenciosos cobertos por formigas-carregadeiras como uma locução substantiva, apreendeu o substantivo único que circulava na cabeça do povo na cidade que perdeu a humanidade. As máquinas não faziam outra coisa a não ser a coleta de informações, fotografavam moradores, animais e plantas – transferiram as imagens à plataforma espacial onde informações eram guardadas nas gavetas da cartomante-mor. Chinelão olhou dentro da casa onde a família não mais habitava. O pai palitava os dentes com as unhas, Nunca jamais papai me carregou na cacunda, nem pela mão, em suas pescarias. O pai era elucubrador de narrativas, meu criador de muros, meu criador de mundos.
O sino girava feito velho pião na torre única. A cidade celebrava a festa, era a Festa de Santana. O Padre Velho berrou várias vezes com Patacão. Estou em maturação, seu padre! respondeu-lhe. Ó que, que, que maturação, Patacão! censurou-lhe. Qualquer dia, disse o bravo Padre Velho, abro ao meio a cabeça deste filho duma..., e descubro num já se acabou a massa cinzenta deste filho da... O sino dobrava e chamava a atenção do Padre Velho, e redobrava; a corda puxada várias vezes por Patacão repetia ble!bém!bão...bem...lém...bão...hem...! Era a Festa de Santana. A cidade em festa gritava vivias, comemorava julho.
O marceneiro de muletas, marido de D. Xântipe, lutava contra a respiração cansada, insistia-lhe no peito a tosse, o pigarro; no canto da boca, mastigava o palheiro. O acúmulo de muco, o marceneiro de muletas arrastava nas ruas de Santana a caminho do templo; ele puxava do fundo do peito a secreção grudada e fazia um barulho infernal por onde passava. D. Xântipe seguia-o com a cabeça protegida sob um véu branco, que se balançava ao vento. O que tinha no tórax era expulso pela boca desdentada do marceneiro. Voava um maçarico-de-costa-branca, descia na copa do cajueiro-bravo e a velha craibeira, cansada, respirava com dificuldade.
Você sabia sobre o dia de amanhã? perguntou o poeta em sua poesia de cordel. A rua de barro, a Rua da Cadeia, ouvia o chulear da máquina do alfaiate. Talvez você se sentasse e esperasse um Tiranossauro Rex transformar-se? Um dia, disse, o Tiranossauro Rex foi assustador; hoje, uma galinha era só um sinal de medo. Foi no que se transformou o Tiranossauro Rex – numa galinha. Disse mais versos, Nenhum oráculo antecipava o dia de amanhã.
As conchinhas coloridas nas mãos de D. Xântipe, catadas no arreião do Panema, não lhe transportavam ao passado, tampouco ao futuro. E as árvores, no inverno, ganhavam verde monstruoso, um verde que se esparramava como garras, os galhos eram braços da amante que se dizia amada pelo solo úmido do qual brotava alexandrino mote: Vejo essa lua somente num céu distante,/Tão perto diz tanto, só mente sol na lua./Brilha vaga-lume num luar navegante. Via a cartomante-mor, presa à estação orbital, as vidas que glosavam. E, se os poetas continuarem com toda essa raiva, eles acabarão com o gosto da cinza no luto.
Muitos perderam o direito de morar na terra, estes eram os aterráquios. A cartomante-mor legislou para que fossem banidos, e os aterráquisos foram viver o resto de seus dias em outra estação orbital, uma compatível com o comportamento de antigos celerados de outros tempos. E havia um relógio quebrado defronte a um relógio sem ponteiros, e, no chão de barro, na Rua da Cadeia, jogado estava um relógio de areia; na estação orbital da cartomante-mor, um relógio digital sem bateria seguia em silêncio a linha do tempo como se levasse os tripulantes para além da Via-Láctea, caso o relógio de sol lhes permitisse. Tudo era compatível à energia renovável Qq, amplamente comercializada mundo afora. O Estado jamais supôs haver rico Qq no subsolo das terras pedregosas, espinhosas e semiáridas. A cartomante-mor tocou com os dedos róseos de mãos lisas nas linhas das mãos da terra lagunar e revelou o futuro de Von Wruund apartado do seu. Logo mudou a história, quando a cartomante-mor foi ungida ao obter o controle da leitura das linhas das mãos; ela seguiu nelas, e por elas destituiu o machão Von Wruund do ostentoso cargo; rapidamente, a cartomante-mor alterou a legislação, escolheu os eleitos, concluiu a nova estação orbital e, com a energia Qq, se transferiu da terra lagunar com uma nova equipe ao iluminado céu.
Nosso machinho, disse D. Xântipe ao marido marceneiro de muletas, se diz maior do que o mundo, maior do que o universo, maior do que aparenta o seu tamanho – ele, como único menino entre as meninas, tratado na família feito uma bromélia rara sob o zelo extremo de jardineiros excessivamente cuidadosos – o filho que tivemos, mulher, disse o marido, não se mede na parede nem na porta de casa, mede-se pela sombra que ocupa todo o terreiro e avança sobre todos os terreiros alheios. Veja. D. Xântipe ria. O marceneiro de muletas deixava rir. O orgulho nutrido por aquela criança mirrada de pés descalços, sem camisa, calção puído, cheio de remendos, mãos e braços sujos de barro. Era nosso caçulinha! disse a mãe ao pai como se travariasse; a vaidade do marceneiro subia e descia as ladeiras de Santana por seu filho. As filhas do casal admiravam, emolduradas nas janelas da casa; e bradava o orgulho dos pais pelo filho; anchas, as meninas vibravam pelo primeiro e único irmãozinho. Muitas das meninas ficaram para trás por causa da morte, que as visitaram.
Brincava o menino com o zumbido de uma mosca. Ora aprisionava aquele bichinho alado, ora o libertava. A lavadeira Fonética, que assessorava o alfaiate Alexandrino Escansão, morava numa rua abaixo da rua de D. Xântipe. E o que faz nosso Bruzundanguinha, comadre, que não para de mexer com aquela pobre mosca, que outrora foi domesticada por Esopo? Coisa de criança, comadre! foi a observação de D. Xântipe à comadre Fonética. O menino brincou, brincou até zangar-se com o zumbido; prendeu a mosca debaixo do chapéu e esmurrou com violência. D. Fonética acompanhou o sofrimento do inseto, a sonoridade, ralhou inutilmente com o menino, usou a oralidade e não o convenceu a desistir. Ela fez rimas em defesa da mosca, disse versos usando a correspondência total de sons que partiam da derradeira vogal tônica, fossem consonantais ou vocálicos. Mas o filho de D. Xântipe não interrompeu a tortura à mosca. A mãe displicente como se aprovasse a violência, até se diverte com ela. D. Fonética perdeu a fé nos versos, recorreu a repetição de sons vocálicos em defesa do inseto que perdeu as pernas, perdeu as asas. Repetiu sons consonantais. O esforço de D. Fonética não despertou consciência fonológica na criança malvada. Malvadão, pare com isso! pediu D. Fonética. Deus castiga! advertiu-o em vão; quase se ajoelhou em socorro da mosca. Usou todas as variações linguísticas à toa. Desistiu do caçula de D. Xântipe e do marceneiro de muletas. D. Fonética ergueu o fardo de roupa suja, desceu a ladeira do Panema praguejando, maldizendo a sorte da criança, evitava as pedras no caminho de buracos e urtigas. D. Fonética, que havia visto de tudo em Alagoas, não imaginou que vivesse a ponte de conhecer tanto horror no rosto de uma criança, que demonstrava prazer em maltratar uma coisinha tão minúscula. D. Fonética, sem compreender, se aterrorizou com o desconhecido nas atitudes do caçula da comadre Xântipe. As cores do vestido de D. Fonética se misturaram ao avelós, quando a mosca morre; vendo-a morta, o menino foi brincar com os formigueiros em torno da casa dos pais. Uma caixa com massa de cimento apareceu na frente do matador de mosca; munido com instrumentos de pedreiro, o menino cimentou todos os formigueiros.
O machinho – como, na gramática da língua, o marceneiro de muletas e D. Xântipe diminuíam o substantivo masculino de macho ao se referirem ao filho – apreciava, na Rua da Cadeia, a liberdade absoluta e a irresponsabilidade sem limite. És tão... tão grande, assim, filho? disse-lhe a mãe Xântipe. Sou, mamãe! Maior do que o céu? Maior do que o criador do céu, mamãe. Não eras filho da criação, filhinho? Sou irmão da criação, mãinha. A matriarca de numerosa cria e peculiar rotina, mãe de Cleobulina, Aspásia, Temistocleia, Asioteia... demonstrou pela primeira vez a sua fraqueza diante do filho. Divertiu-se com o que ouvia de sua boca cheia de dentes. És um verdadeiro autor, minha criança, macho cheio de autoridade. Tu, filho, és maior do que tudo o que existe? Maior do que tudo o que inda não existe também sou, mama. Não és irmão da criação, criança? Não! aborreceu-se. E o que tu és, amado? Sou o mandatário da criação e do criador. Não blasfeme, malvado! Logo, sem cautela, o menino saiu do raio do olhar dos pais. Aonde vai nosso machinho? Saiu. Enfurna-se na oficina do pai, descalço, apareceu calçado em um tamanco que ele próprio esculpiu em tábuas; amarrou longas tiras de couro e sumiu Santana afora tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! Longe se ouvia tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! aproximar-se tóc! nas ruas da cidade tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! o som dos passos do menino invadiu tóc! as casas, tóc! tóc! o coração das famílias qual ameaça tóc! tóc! tóc! à própria vida tóc! tóc! tóc! tóc! as vidas a esmo corriam do medo tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! as vidas desconheciam tóc! tóc! tóc! que o alarido vinha do tamanco calçado pelo mirrado menino. O machinho, disse D. Xântipe, onde está? O pai marceneiro de muletas desconhecia. Mais tarde, voltava à Rua da Cadeia tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! Os pais o receberam com abraços e risos. Nosso machinho quer o mundo! disse a mãe; o pai sorriu. Tóc! tóc! com os seus tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! tóc! o menino aumentava o caos na rua onde morava, ampliava no bairro, na cidade tóc! tóc! tóc! tóc! caótico. Por quê? Porque queria a sua atenção. Menino perverso! Abusava da liberdade nas distantes ruas da pequena Santana; tóc! tóc! perturbava os cãeschorros, os muros eram escalados e das goiabeiras as mãos ágeis do menino furtavam goiabas. Você, meu filho, é meu filho? Parece ser, só não sei se é. Meu filho ou filho dele, meu filho? Tóc! tóc! nas ruas. No outro lado da rua, duas ou três crianças da Família Quensabe, atiçaram os cãeschorros. As terras, no outro lado, eram da Família Quensabe. E ela não levava desaforo ao travesseiro! disse D. Fonética ao vê-lo provocar duas ou três crianças dos Quensabe. O maluvido, disse, enchia a cidade com tóc! tóc! A ponto de se meter em maus lençóis. Os cãeschorros dos Quensabe sentiam o cheiro de sangue percorrer as veias e as artérias do filho de D. Xântipe; eles se preparavam, caso conseguissem se soltar... Pulsava aorta do filho de D. Xântipe. D. Fonética segurou o braço do filho da comadre e pareceu segurar a canetinha sem tinta, que pulava e gritava. Arrastou. Maluvido! subiu a ladeira D. Fonética, uma mão arrastava o menino, a outra equilibrava o pesado fardo de roupa que ia de um lado a outro, na cabeça. Em casa, D. Xântipe, que remexia nas cinzas, viu a comadre trazê-lo faltando um pé do tamanco. O que se faz com isso, mã? Sabão caseiro! disse-lhe. Desafeto, filho, a gente não cria, disse o pai, a gente não nutre, reforçou a mãe, a gente dá cabo do infiteto; não se deita pastoreando o que pode invadir a noite e devorar a alma do ser vivente que despertou o fim do afeto em tipo mal-amanhado, imundo, sem caráter e nojento. Ficou zaino com a atitude do filho.
Sumiram-se os chupa-flores e com esses o perfume da manhã. A miséria apartou a família do Paraíso desde o período mais longínquo, na Serra da Onça, quando os bandoleiros tomavam o que desejava ter e não tinham; esta lei natural era adotada desde um prato de feijão-de-corda com farinha de mandioca, uma cuia de café torrado, um taco de rapadura; seguia o corpo legislativo da natureza do homem primevo a tomar gado e terras, a tirar vidas.
A paisagem verde tingia as cores. A violência aprisionava vidas. O silêncio furtado na madrugada, seco e longo, após um tiro. A decadência era inevitável, mas uma conjunção coordenativa adversativa surgia com o alento, como se a lápide não quisesse simbolizar o fim. As horas, que na velhice eram lentas, feitas de sol, se transformaram em completas trevas – era meio-dia – o mês era de pleno agosto.

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