O EFEITO BUMERANGUE DO FEITIÇO NÃO LHE SURPREENDE, CABRA?

Contos

Por Marcello Ricardo Almeida

Por que as águas correm no substantivo reconhecido como rio? Há águas paradas. As asas da ave erguem o seu corpo no ar. A gravidade impede que as casas sejam levadas pelo vento. As plantas crescem em folhas, brotam em galhos, flores, frutos. Descem as aves dos céus, aninham-se entre os galhos. Ouça o canto de bem-te-vis no Sítio Gravatá, em Areias Brancas, onde corre de cavalo o coronel doutor ou o doutor coronel, que cavalga sobre as pedras, sob o cajueiro passa veloz, debaixo de outros pés de caju, e embaixo de ouricurizeiros, sobe e desce rápido entre as cercas de arame farpado, porteiras estão abertas. Quem deixou o gado solto? Dois fios galvanizados torcidos entre si de maneira contínua e alternada brilhavam com a luz do sol. Acompanhava o cavaleiro o pio do inhambú-chororó. Voa lambu, voa! disse, e foi acompanhá-lo com o indicador em riste, apontou como se fosse atirar no nambu-pé-roxo. Pou! soltou a voz com esta interjeição. Viu o espalhar de penas, ouviu o rufar das asas. Meu Deus! foi a sua locução interjetiva ao vê-la voar em direção ao sol pôr. Os seus olhos foram atrás da ave.
O Dr. Cel. Bé do Algodão, que em Santana todos sabiam ser filho da finada D. Xântipe e do marceneiro de muletas mortos queimados enquanto dormiam, o doutor coronel ou o coronel doutor irmão de Cleobulina Lavadeira, que cismou aventurar-se atrás da amiga de infância, Pragmática, na capital alagoana, talvez no bairro Bom Parto, talvez Vergel do Lago ou Mangabeiras, talvez Jaraguá (não lhe importava se ela fosse até à Rua da Lama), além das outras irmãs Aspásia Doceira, a caçula Hipácia e Temistocleia Fujona – como ficou conhecida por ter saído da cidade, não sem antes bater o pó das sandálias e sem olhar o que ficou como se evitasse ser outra estátua de sal, se foi com o irmão do leiteiro de vacas alheias, o padeiro Eufemismo, que chegou a Santana casado e cheio de filhos e sem nenhum amor, mas caiu nas graças de Temistocleia, mãe de Asioteia, cujo pai se ignorava pelos olhos nevados cujas tristezas aceleravam o coraçãozinho da única sobrinha do Dr. Cel. Bé do Algodão – que financiou as pesquisas a uma nova tecnologia que permitiria a comunicação por ondas eletromagnéticas com o elemento químico Qq. E foi neste capítulo de sua vida que o coronel doutor ou o doutor coronel, naquele rastilho de tarde, foi surpreendido, quando passeava a cavalo. O estampido da 12 o derrubou da montaria. Espalharam-se pedacinhos de ossos. Ele caiu do cavalo. O bicho disparou sobre as pedras das quais vinha o elemento Qq. Não mereço morrer tão novo! disse; arrastava-se na areia branca e fina, e deixava um rastro grosso de sangue. Levem os minerais das terras, mas não... Não façam i...s...! implorava aos algozes, que o pinicavam de punhais e lhe rasgavam de peixeira, davam-lhe cortes profundos. Vão me matar! disse; pôs as mãos como tola proteção ao rosto para o qual eram apontados os revólveres. Tenho filhos pequenos! apelou, antes de receber outros disparos. A trova enchia-lhe as esperanças: Ontem, fui de ônibus/Pescar mais siris;/Vi correrem nimbos./A tarrafa chora e ri.
A tarrafa agora chora e ri. Nas rodagens que levam transportes a Santana, já não se escuta o canto da inhambuzinha de perna quebrada pela baladeira. O maléfico, o levado a prejudicar outrem, como se lê nos compêndios das Ciências Jurídicas, ligeiro atinge o coração de quem o planeja. Veja a bela consequência, hem! O senhor, em seu rápido alazão de onde planeja os malefícios, nesta tarde se topa, tropeça e os conhece ao ser empurrado do cavalo – a sua extensão das pernas. O crime atribuído, sem nunca haver provas que a incriminasse, à Família Quensabe. O jornal dele não informava, deformava! disse ao magistrado, na fase inicial do processo; e o julgador conversava com as questões subjetivas. Por fim, o magistrado sem nome, sentado na praça do templo da educação santanense, falou aos seus a respeito daquele famigerado processo que viajou pela galáxia e voltou a Santana 33 anos depois, após ações endoprocessuais e o duplo grau de jurisdição apresentado em busca do contraditório e da amplíssima defesa dos envolvidos, as consultas diuturnas à taxatividade, os recursos em sentido estrito em busca de impugnar as decisões interlocutórias. Vieram à Vara pronúncias e impronúncias, rejeição de denúncia, apelação contra sentenças condenatórias e enfrentamento às absolutórias, embargos de declaração movidos com pedido de iluminismo sobre obscuridades às vezes, às vezes contradições, e tantas contra omissões, foram expedidas as tais cartas testemunháveis, que se opuseram ao recurso principal negado, as tais petições, que assegura o prosseguimento da ação, mais agravo feito escudo às decisões interlocutórias com alegações de que chovia verdadeiro temporal de prejuízo às partes, quando todos sabiam que a verdade já não era mais o que se sabia sobre o conceito de verdade. Os dedos, indicador e polegar, foram umedecidos na língua tantas e tantas e tantas vezes. Foram apresentados ao Juízo os embargos infringentes de nulidade, porque as decisões não eram unânimes – isso, gente, o processo na segunda instância e com promessas, gente, em avançar, gente – culminados com correção parcial, por alegações ora de erros, ora de abusos, ora nem mesmo isso nem aquilo, ora vice-versa. Seguiu-se o caminho, à maneira que se faz o caminho ao caminhar; não demoraram a vir recurso ordinário constitucional e recursos encaminhados extraordinário/especial aos superiores tribunais. Indicador, polegar molhados na língua. Duplo grau de jurisdição à devolutividade e esbarram na sucumbência. O magistrado, leitor contumaz das tabuletas em argila de Gilgamesh, conhecido em Santana por sua força e coragem, amigo do velho Uruk, disse na sentença que qualquer vida, vidão ou vidinha, segundo aristotélicos, não se diferenciava de um livro com princípio, o miolo e a página derradeira. Santana completava-se com o magistrado sem nome que se sentava no Senadinho e confabulava noites a fio com os iguais sobre os desiguais, que se julgavam parecidos aos desaparecidos. Foram 33 anos neste caso, que foi arquivado por ausência disso e daquilo, não daquilo outro; foi exatamente isto que se noticiou no jornal que fortaleceu o fraco em frascos de comprimidos. E Aristóteles disse, disse o magistrado sem nome, li, esses dias, num livrinho assim, ó, e fez o gesto com as mãos cansadas e olhos nevados. O magistrado mantinha o jeito juvenil e as gargalhadas estupendas. E exatamente nesta época, e não se desconfiava nada sobre o vir-a-ser do avanço e do domínio, já predominava a fé hedonista a conduzir adoradores de Hedone a domicílio – os hedonistas atrás da serra, sobre a serra, no pé da serra, na porta de casa, na janela, na sala, na cozinha com uma xícara de café; eles ficaram conhecidos, no início, pelos rivais, de queima-feijão-de-corda. E por que feijão-de-corda? O preço era para se enforcar! a cidade ouviu outra vez as gargalhadas estupendas. Como eu lhes dizia, Aristóteles nos dizia, que qualquer tragédia fortalece a alma e essas ridículas histórias, essas tais comédias que se espalhadas nas praças são tão decadentes e tornam os homens piores. O grego desconhecia que o amanhã anularia até mesmo o seu silogismo cujas premissas sempre se despejavam numa lógica e necessária conclusão, como o princípio e o fundamento do imperativo categórico. Vocês não acham? E o magistrado sem nome ouviu boa noite, magistrado! disse um. Boa noite, magistrado! disse outro. O magistrado em pé era menor do que os homens sentados. Pelo visto, disse o magistrado sem nome ao chapéu de feltro, ficamos sozinhos. Só nos resta, dileto amigo, irmos já ao nosso domicílio. Não sabiam eles que o futuro estava bem aqui em nossa porta. Depois que foi descoberto o bendito Qq, nada mais restava senão acompanhar o começo do fim. Santana havia adormecido há horas. Ora, ora, meu dileto amigo, proteja-me do sereno da madrugada neste frio trazido ao mês de julho. Caminhava com a fome na cabeça, além do chapéu de feltro. Artigo definido, feminino, singular:
A
Substantivo, feminino, singular:
F...O...M...E
Verbo, terceira pessoa do singular, presente do indicativo:
TEM
Substantivo, feminino, singular:
P-R-E-$-$-A
Próximo de casa, o magistrado sem nome olhou as luzes na Serra Bicuda, viu Santana dormindo, viu luzes que cruzavam a escuridão feito vaga-lume, e foi na calçada alta. Personificado o substantivo, disse a si mesmo como se concluísse o tema iniciado na praça defronte ao templo da educação, a Verdade perdeu a vergonha completamente; transmigrou-se em mentiras. Já estava desaparecida; ela que foi um labrador. Vi-a, na via, numa venda a vender paçoca na frente do povo e eu ainda gritei com ela: Avia! disse. Ali havia uma verdade que não mais havia. Ela sentou-se ao meu lado, no trem-bala; e foi vista de Marte, a briguenta e ofensiva mentira a sucumbiu, passou a ocupar a sua alma e sugar-lhe o sangue feito vampiro. Ela estava, até outro dia, na porta do cinema, no shopping, aqui perto, bem pertinho. Caminhava o magistrado sem nome, descia e subia morros. Andava descalça, na frente da escola, a Verdade; corria atrás de uma bola, na rua onde eu moro. Tentasse achá-la. Pobre verdade! Vivia de esmolas de porta em porta sem ser reconhecida como foi na época do imperativo categórico. E os pais da Verdade não dormiam mais, preocupados com o sumiço. Ela foi raptada, houve sequestro, foi cobrado resgate, como ocorria em antigas eras? O lavador tem problema cardíaco; faz tratamento com terapeuta; está velho; não tem uma orelha. Se vê-la por aí, avise-me pelo celular; faça-me este favor. O magistrado era pequeno, mas era espaçoso; e, dizia mais, gostava de briga. Na juventude, foi repórter policial no Diário de Santana, que deixou quase maluco o Diário de Pernambuco. Na Época de Ouro, o Diário de Santana suplantou o Liberdade de Expressão do Dr. Cicrano que, dali em diante, perdeu todas as disputas eleitorais e a família foi devorada pelo buraco do descrédito. O cego, que vinha bêbado da Casa da Tolerância, passou pelo magistrado sem nome e disse sonoro bom dia, o magistrado retribuiu-lhe. O cago dava notícia de tudo.
Rápido corriam as horas e os dias, as semanas e os meses, os anos e as décadas. Chegava-lhe um trabalho de frentista. Chinelão não conseguia dinheiro do cigarro. Alguma habilidade de jardineiro, Chinelão aprendera com um irmão que morreu enforcado. Foi padeiro à noite, em Civitatis, por pouco tempo, horas na fornalha da Padaria Küiellhlerwz e, na troca de turno, esperava-lhe o ar gelado da manhã, ameaças de nova pneumonia. O trabalho na padaria Chinelão perdeu às máquinas movidas a Qq. O choque térmico acabou com os pulmões. Auxiliar de latoaria e pintura, Chinelão afastou-se do ofício e reclamou da inveja dos colegas no trabalho. Quase morreu; antes, que morrese. Na rua, ouvia, Quem fai ali? Ali fai um bosta dum alcaguete. Chinelom Poncubanha. Ah, demônio! Fazia-se de amigo esse desleal. Feladaputa! estourou. Óia, óia, tom diferente do felho pai! Quem? Ah! Óia, o pai era chente boa! Não essa malandra dizeno que fábrica nom era pra ele. Assassino do pai. Foi ele quem matou o pai. Isso nom foi profado, uma fez. Pôs fogo no pai. Soltou gás da botichom. Fagabundo!
Havia passado tempo qual feixe luminoso que, por trás da serra, se apaga. O tempo corria que nem piolho sobre a caspa. Se o sol surgia, dessurgia e, com a mesma pressa, se ia e se ria, na praça solteira achando graça. E o firmamento girava como um balão colorido, uma plantação de girassóis, o sorriso esquecido de Van Gogh. O cheiro de catingueira não ocupava as ruas de Civitatis quão foi a rua ocupada nos dias em que a cidade se chamava, nos documentos, Santana. Persistia o odor forte das máquinas. Não havia corujas; em lugar delas, o silêncio dos drones. Os inquilinos, na cidade, eram estrangeiros em sua própria terra; e carregava no corpo fios, metais e plásticos iguais às máquinas.
As ratazanas eram maiores do que os gatos. Herói parecia uma cabra, na cabeça de Chinelão, preso a um beco em Civitatis; um beco entre tantos que, no passado, surgiram como servidões de passagem. Aqueles lugares interrompidos habitados por ratazanas que ocupavam as ruas. Eram portais desesperados os becos. O espírito de Chinelão impaciente, e grande apetite no derradeiro cigarro. Foi um amigo silencioso, Herói, disse, mesmo amarrado. Valoroso Herói. Herói dava jeito de roer a corda e vinha sacudindo o rabo. A professora não gostava de Herói, dizia que era mau exemplo aos outros e implicava comigo e com Herói. Herói foi espremido debaixo de um carro: ficaram na rua os pedaços. O grito da morte de Herói me acompanhava. E Chinelão nunca mais encontrou o endereço de casa, plantado à soleira de uma casa imaginária. Chinelão acocorado em um beco imundo. Ele mastigava os primeiros anos de escola; ele e Herói. Herói era parecido com uma cabra assustada. Chinelão, tremendo de frio no beco escuro, debaixo de chuva, espirrava e tossia, estalava os dedos a um Herói invisível. Um bêbado à distância dum espirro cambaleava na rua. Demorou a amanhecer mais do que costumava demorar nos últimos meses, no entanto, quando amanheceu, Chinelão caminhou por entre prédios abandonados e vigiados por máquinas que eram temidas pela letalidade. Há muitas décadas, em Civitatis, ninguém mais lia, porque as máquinas liam para alguém; na cidade, ninguém mais escrevia em razão das máquinas escreverem para qualquer um, sem erros ortográficos e sem erros sintáticos ou semânticos, o programa nelas rapidamente escreviam e liam em qualquer língua viva ou morta. As máquinas, que começaram com a correção de textos, já faziam transplantes e ressuscitaram matérias mortas. Chinelão, que vagava pela cidade, desconfiava que as máquinas já haviam realizado o sonho da vida eterna. Os homens foram criados por máquinas. E estas, que estiveram sumidas por tanto tempo, retornaram para modificar a humanidade, melhorá-la; mas um erro de cálculo retardou a melhora e, enquanto as máquinas não repararem o erro, para alguns, a falha, para outros, a genética humana tendia a piorar o caráter da gente. As máquinas agiam no silêncio de sua poética entre fios, plástico, cola e energia alimentada por Qq. A máquina, disse Chinelão, é um ser que governa. Por mais arguto que alguns demonstram ser, responda: O que se passa na cabeça do ser que governa? Quem imagina, hoje, por quem será governado amanhã? Ao chegar ao poder, a polidez do comportamento se transforma igual ao vento: vira tempestade. Então, nessa hora, se esconde no quarto – o mais afastado; antes, sorridente e prestativo, ocupava o primeiro cômodo da casa, e recebia a todos estendendo os braços, abrindo as mãos, indo e voltando com apertos de mãos e calorosos abraços, efusivas gargalhadas por toda a casa. Agora, todavia, mudará a regra; quem governava era a máquina. E ela rasgou uma porta naquele quarto dos fundos e, através da abertura, voava e ria. Que não houvesse, disse Chinelão, noite nem dia, que ninguém carecesse comer nem se vestir, que a sociedade das máquinas não convencionasse o povo e os problemas não existissem, trabalho não houvesse. Emprego não há, roupas não tenho; inexiste comida; só noites e o cheiro de Qq que empesta a cidade e infecta o espaço. E os dias de ansiedade são tantos! disse. E a sociedade das máquinas condicionando o povo. E quando fixas pro suicida entendes todos os seus motiloucovos, entretanto jamais entenderás o seu sacerdócio sorriloucoso. Quem já viu os olhos dum suicida? Olhe os seus olhos. Na boca encontrarás um sorriso trocista, jocoso, de desespero esperando segredar segredos nunca antes segredados. Dulcineia del Teboso, por que se esconde? Consciência ludibriada, disfarçada de escudeiro, se deixando levar pelo velho idealismo que monta essas máquinas. Que culpa tem uma criança? Uma criança que se faz adulta, ingênua, sonha e diz, persuasiva: Se os outros conseguem, por que eu não posso? Então a consciência grita: Contenha-se, contenha-se! As máquinas em voos rasantes, voam assim para intimidar e derramam papéis do espaço nos quais está escrito: Tudo é loucura debaixo da lua e debaixo do sol. As pombas arribaram prum outro planeta! continuou Chinelão. À meia-noite, à meia-noite em ponto, uma noite de inverno por entre uma tempestade a esmo. Ontem, todos sofreram; hoje, caixões estendidos, fétidos, cobertos de moscas. Um louco varrido amaria tanto assim a Maria? Quantas regras ridículas na juventude; e quando eu ficar velho e gordo feito um pão, muitíssimo velho, quando não tiver mais nada em Civitatis, nada a ser feito, escreverei poemas. Por enquanto, disse, eu vou pra cima e pra baixo, lambendo paredes pra cima e pra baixo, escondendo o reboco pra cima e pra baixo, pintando a casa pra cima e pra baixo, pintando a rua pra cima e pra baixo, pintando a cidade igual a um ioiô com 10.000 baldes de tinta pintando o amor, pintando a estrada, carregando a escada pra cima e pra baixo, Iaiá, vai o seu Ioiô. Dona Iaiá, tão inteligente a inteligência das máquinas sem inteligência, sem material orgânico, só parafusos, porcas, tinta, cores, símbolos, plástico, borracha pra cima e pra baixo, ó dona Iaiá, se a escada falasse, e se os baldes de tinta falassem, se o pincel falasse, se a estrada falasse. Mas a escada não fala, não falam baldes em vão. Debalde e embalde se espera do pincel a fala. E o dia e a estrada são i-n-f-i-n-d-á-v-e-i-s, findável é a vida de Chinelão. As máquinas em toda a parte estavam de maneira oculta; e, ultimamente, elas demonstraram à humanidade serem infinitamente mais potentes comparadas aos mais fortes dos homens. Estes cederam as suas governanças às máquinas. Sem demora, elas começaram a doutriná-los sobre os mitos da origem dos povos. As pessoas, segundo as máquinas, eram criações delas; nenhuma gente permanecia viva sem a graça das máquinas, que existiam feito moscas na carniça. Última vontade dos povos – alcançar a imortalidade – era uma promessa das máquinas ao povo. Elas comprovaram à humanidade a origem do mundo gestado pelas máquinas. A partir desta revelação, as regiões dividiram-se; uma parte praticava sacrifício e adoração às máquinas, reconhecendo nelas o princípio sem fim; outra metade permanecia reverenciando Hedone; estes eram os hedonistas, herdeiros de atos antigos. Chinelão viu – o que pareciam máquinas silenciosas – voaram morcegos e ele deitou-se oculto sobre uns papelões. Levantou-se à tarde, porque não tinha nada para fazer com a sua vida a não ser acender cigarros e encher a cidade de pernas. Foi aos fundos do rancho e abriu a braguilha. Teve a impressão de ter visto uma mulher que não a conhecia. Era a vizinha nova? Ela estava de lingerie e estendia roupas coloridas em estacas, arames. Era uma vizinha que ele nunca tinha visto. Um pedaço de muro os separava – o muro era baixo, ruído, faltava tijolos. No outro lado, Chinelão teve a impressão de ver máquinas voando, e viu as suas luzes sobre o charco. A vizinha era uma gigante se comparada ao seu tamanho e apanhava roupas molhadas de quatro. Chinelão quis pular a cerca, e ficou com olhos de pula-cerca à novata do outro lado da cerca. Talvez de algum lugar, o pai cantarolava uma cançoneta inventada no banheiro, Hein Tritrinkkett, Tritrinkkett, Tritrinkkett! insistia o pai de Chinelão em cantarolar aquela cançoneta na esquecida língua dos antepassados. Para cada parte do corpo, o pai dava um apelido e, nisto, Chinelão o imitava. Aos olhos, ele chamou de botões, porque eram grandes; aos braços, ele deu o nome de varetas. Entre as pernas, ele disse ao pedaço de carne, Você, que nunca foi à guerra, eu te chamarei de maranduva. As pernas de Chinelão eram alicates, a boca era buraco, o coração geladeira, o aparelho digestivo pântano e borrachas era como Chinelão chamava os próprios dedos; com eles, segurava a maranduva. Olhava a vizinha e não sabia o que fazer. A lavadeira entrou em um daqueles lodaçais, dos muitos aos fundos do terreno dos Schäädl, e, do pedaço de muro baixo, ruído, Chinelão viu o único condomínio com centenas de prédios altos. Quantos calçados, ele disse, e fazia os cálculos, cada bloco de apartamentos possuíam? Milhares de apartamentos com milhares de pés descalços. Chinelão fervilhava. Dê conforto à sua vida com calçados Chinelão. Vá mais longe de sapatos Chinelão. Na escola, ele aprendia rápido e ficava ocioso na sala à espera dos colegas que se apropriaram das informações escritas, faladas e relidas pela professora, quando ele já as tinha assimilado. A escola intolerante, competitiva, cheia de palavras, trabalhos, indisciplina, exames, desistências, reprovações, greves, professores, cafezinho, recreios, desrespeito, brigas de bullying, fofocas, intrigas, gritos. Caminhava nos olhos dele sempre a vontade de fazer sapatos. Fazer sapatos sem a permissão das máquinas, Chinelão? disse a mãe. Sim, mamãe. E teu pai? Que tem o pai, mãe! Talvez aquela mulher do outro lado da cerca não passasse de uma imagem holográfica projetada por alguma experiência das máquinas. Seu sem-vergonha, gritou a mãe de Chinelão, respeitasse o teu pai! A manhã na qual o pai acordava se sentindo um vira-lata, o dia era de fome e de reclamações. Hoje, disse a mãe, é o Dia do Vira-Lata. Sim, mãe! disse Chinelão. Então, ó filho, não intiques o pai. O cheiro de banana na banha de porco impregnava a cozinha, penetrava nos utensílios, embebedava os corpos, encharcou a boca e alcançava de forma os cômodos da casa. Chimiava-se a musse de banana em generosas fatias de pão caseiro e empurrava uns goles fumegantes de café preto. Meio-dia se almoçava banana frita com arroz. Compotas de hortaliças para abri-las tão-só em dias de visitas. Na derradeira refeição do dia, o leite não vinha à mesa, linguicinha, melado de cana-de-açúcar, apenas uma colher magra com açúcar refinado no café, pão e margarina. Antes de todos terminarem de comer, alguém da casa vinha ligeiro recolhendo o pote de açúcar refinado, o pão, as xícaras, a garrafa térmica, os talheres, a margarina. Ainda no decorrer das primeiras horas do próximo dia, horas escuras, a fome acordava todos na casa apertada. No Dia do Vira-Lata, o pai pegava o alimento e ia comê-lo longe. Só. Bicho carniceiro que abatia a caça e carregava-lhe presa aos dentes para devorá-la distante da mesa. A fera rasgava as carnes da vítima e triturava os ossos. Chinelão lambia o prato. O pai matava o rato e a barata, depois esfregava as mãos na camisa ou na calça e ia comer. Todos comiam na velha mesa redonda sem espaço aos pratos, talheres e panelas. O sol na Rua dos Enforcados. Chinelão olhava a vizinha do outro lado da cerca, as roupas grudadas ao corpo, o colorido e o cheiro, uma flor no cabelo. Na cozinha, o pai descasca um ovo com as unhas. Chinelão olhava a mulher através da janela, a cerca de arame farpado, as estacas, as roupas molhadas, a mulher de quatro, o sol na Rua dos Enforcados, o silêncio das máquinas, o pai a chupar os restos de alimento entre os dentes, a mãe ao lado do celular. O pai que lhe cobrava satisfações aos gritos, Nom! nom sei onde tô quenom te meto a mão no cara, seu bicho! Chinelão passava a mão na orelha roxa, o rosto pintado de manchas. Por que, pai, por quê? O sangue pingava. Pressionante! Por quê? Teressante! Inda me pergunta por que, seu porco? Porque quem come do meu pom, lefa do meu cinturom! Foi em situações assim que Chinelão aprendeu que na casa de seus pais não era o novo quem substitui o velho, ocorria o inverso. Isto vinha acontecendo imperceptivelmente por influência das máquinas, e Herói latiu – Chinelão viu que Herói não estava mais ali havia tantos anos, não estavam o pai nem a mãe. As paredes da casa consumidas pelo tempo. Chinelão ouvia o pai apertar-se na privada sem controle do esfíncter. Repetia o pai o barulho da velha máquina que roçava a grama alta. Usava a cortadeira nas rebarbas. A vassoura de vime varria o grosso e a de palha dava o acabamento no jardim com cheiro de grama cortada. Não conformado, Chinelão, acocorado, arrancava ervas daninha à unha, as que surgiam no meio da grama. Depois que morreu o mano, a voz do pai vinha-lhe em retalhos e o atormentava, Relaxou com a nossa jardim? Por que nom limpou o sujeira? E a voz da mãe Pubhiccas lhe fazia cobranças difíceis de serem cumpridas. Substitui o mano no jardim, Seu imprestável! Seu sem-vergonha! A sujeira, seu preguiçoso duma figa! Acocorado na grama em frente de casa, Chinelão puxava as cebolinhas à unha. Os ruídos, as picadas de formigas. A casa é rodeada de janelas-guilhotinas e jarros com folhagens. Árvores, hortas, flores, gaiolas, bancos espalhados ao longo do jardim da casa sem tinta. Pedras desenhavam o caminho da calçada à porta da frente. Flores na morada dos vivos, nunca dos mortos. O novo cheiro de grama cortada me trazia coisas velhas, trazia o tio Esteve, que trabalhava com bichos. Ficou rico o tio Esteve e se meteu em caminhão, casa na praia, loja de comércio. Outro dia, nossos parentes encontraram o tio Esteve enforcado, cheio de papagaios no banco. Os porcos do tio Esteve eram umas porcarias sem valor. O tio Esteve se sentava numa mesa de pife e embaralhava cartas e delas vinha um joguinho, apostava moedas com o pai e os tios Adomos e Telemídias. O tio Adomos morreu com o primeiro salário da aposentadoria no bolso. Ele disse: Aqueles marecos e patos, levei pra engorda e vou comer no aniversário. Tragam a cervecha! O tio Adomos morava no outro lado daquela rua. Essa rua ainda nem rua era, só um caminho de cavalos que viviam num pasto de capim do outro lado do ribeirão. O tio Adomos sustentava a família com cavalos e balas de laranja, que fazia em casa. Meio período na fábrica e meio período no tacho de balas ou no pasto onde cuidava dos cavalos. O tio Adomos passava aqui, eu ouvia da cama os gritos. Balas de laranja! Balas de laranja! Quem vai querer balas de laranja? Ó, oi, ó, ói bala, bala, bala de laranja! A tia Vah, mulher do tio Adomos, ficava em casa. A tia Vah passava o tempo com um pente no pelo do cachorro; ela procurava pulgas e carrapatos. A tia Vah tinha a cabeça coberta de piolhos num campo branco de lêndeas, a caspa descamava o couro cabeludo da tia Vah. E a titia Vah limpava a louça igual a cara dela. Ó balas de laranja! Balas de laranja! Quem vai querer balas de laranja? O tio Telemídias, o pai, o tio Adomos e o tio Esteve jogavam pife debaixo daquela mangueira, lá atrás. Ás de sofrer! disse o pai. Rei de paus! disse o tio Telemídias. Falete! disse o tio Adomos. Dama de copas! disse o tio Esteve. Ás de ouro! disse o pai. Esta me serfe. Descarte. Coringa... Largo! Bicho largo. Que fenha a boa! Peguei a máquina. Pela boa. Blefe. Puta la merda! Nom falei? Só pra tua cara! Nom podia ciscar. Abra uma cervecha. Traga a linguicinha. Que coisa! reclamou o pai. Falso coringa. Bati! Ai. Ai. Ai. Bateu com a cabeça no parede! disse o tio Esteve. Papagaio! gritou o pai. Que chufa! Mandei à boa! O verde que circundava o lar era silencioso qual o som das máquinas. No lugar do pasto de cavalos havia casas apertadas com financiamento de banco. As balas de laranja do tio Adomos. As lêndeas da tia Vah cobriam todo o céu de Civitatis. O ás do pai bateu o jogo. A araucária estava alta e competia com a mangueira. Um bem-te-vi conversava com um outro. A tia Vah morreu de velhice. A baguinha de palmito desceu na goela do sabiá triste. O tio Telemídias não suportou a morte do irmão Esteve. Depois da morte do tio Esteve, o tio Telemídias não prestou. O tio Telemídias começou a caminhar, caminhar, caminhar e nunca mais ninguém ouviu notícias dele. Prazeroso caminhar descalço na grama cortada. Tangeando moscas e mosquitos com as mãos verdes de seiva, Chinelão enfrentava o calor no jardim. Suor e odor de sangue atraíam borrachudos. Maruís sugava-lhe o restante das feridas. Debaixo de calor desumano, Chinelão percebeu o tamanho da ferida em sua orelha. Outra vez, o mau-trato do pai quase lhe separou a orelha da cabeça. Nom! nom sei onde tô quenom te meto a mão no cara, seu bicho! Em silêncio, Chinelão no jardim de casa. Chovia sem parar em Civitatis. As máquinas cortavam nuvens como se cavalgasse. A sucção, na boca de lobo arreganhada ao máximo pela erosão, engolia a velha e o armário despedaçado pela força das águas. Não parava nunca de chover em Civitatis. A mulher foi levada pela chuva, ela, a roupa colorida, o arame farpado, as estacas. Uma inexplicável agonia acompanhava Chinelão. Os olhos nas ruas, nos becos, nas praças. Angustiado com a ideia da morte, Chinelão no jardim de casa. Os grunhidos do pai com a mãe, no quarto, não lhe deixavam a cabeça. Os grunhidos do pai, no quiosque, não lhe deixavam a cabeça. Chinelão em plena selva de grama e mato crescido no jardim de casa.
Em Pólis, distante a uns 181 km de Civitatis, a cartomante-mor, ao depor Von Wruund, transferiu a capital administrativa a uma estação espacial de onde comandava as máquinas. Desta estação, questionada pelos opinistas das redes acerca da deposição do volumoso Von Wruund, a cartomante-mor respondeu-lhes que tinha poder para pô-lo de lado ou no chão da sala, fazê-lo renunciar no mais breve período da história, obrigá-lo a ser destituído do poder. Como não ficaram satisfeitos, os opinistas exigiram da cartomante-mor a palavra, na classe gramatical, que destituiu Von Wruund. Seguiram com a cartomante-mor alguns administradores, outros defenestrados, pois, disse, além de não compreenderem o efeito bumerangue no tacho do feitiço, foram sumariamente reprovados na arte aristotélica cuja felicidade se alcança pela ética individual e coletividade política. Indignados com isto, os opinistas ameaçavam se não lhes convencesse da ação abrupta que arrancou Von Wruund da cadeira. A cartomante-mor disse-lhes, no indicativo presente, Senhores, eu deponho, tu depões, ele depõe, nós depomos, vós depondes, eles depõem. Satisfeitos? Os opinistas queriam mais. No pretérito imperfeito, disse a cartomante-mor, eu depunha, tu depunhas, ele depunha, nós depúnhamos, vós depúnheis e eles depunham. No pretérito perfeito, eu depus, e tu depuseste, e ele depôs e, depois, nós depusemos, e vós depusestes, e eles depuseram. E no pretérito mais-que-perfeito, eu depusera, tu depuseras, ele depusera, nós depuséramos, vós depuséreis e, por fim, eles depuseram. Ah! surpreenderam-se os opinistas com aqueles tempos verbais da cartomante-mor. Então, mui gentil e galante senhora cartomante-mor, foram eles que depuseram e não a senhora? Todos contentes com a sapiente resposta da cartomante-mor, que ainda lhes disse, Eu deporei, tu deporás, ele deporá, nós deporemos, vós deporeis e eles deporão. Os opinistas incensaram a cartomante-mor em todas as mídias e todos os memes a turibulavam. Fortalecido o poder da cartomante-mor, agora na estação espacial, ela disse-lhes no futuro do pretérito, Eu deporia, tu deporias e ele deporia, nós deporíamos, vós deporíeis e eles deporiam. Mais poderes a esta que simboliza o Estado em estado de graça. Ela anunciou, no subjuntivo presente, afinal, que eu deponha, que tu deponhas, que ele deponha, que nós deponhamos, que vós deponhais, que eles deponham. Empoderada, ela falou, no pretérito imperfeito, se eu depusesse, se tu depusesses, se ele depusesse, se todos nós depuséssemos, se vós depusésseis, se eles depusessem.
Chinelão com o nariz enterrado nas frestas da casa de madeira tomadas por cupins. No jardim barbudo e descuidado, Chinelão via e revia a visagem do pai, que derramava dentro do ouvido de Brunsmeldhar toda a safadeza que aprendeu na vida. Brunsmeldhar liderava a mulherada nos festejos de igreja, no fim da Rua dos Enforcados. O pai e Brunsmeldhar eram os primeiros que chegavam e os derradeiros a deixarem a igreja. O pai, cheio de sacanagens, perguntava, Ó escuta aqui Brunsmeldhar, o que entrou duro e sai mole, pingando? A mulher do latoeiro se escandalizava de faz de conta e advertia o humorista a não contar piadas na igreja. Macarom, Brunsmeldhar, macarom! disse numa gargalhada que enchia a igreja. O pai tirava proveito das dores no coração de Brunsmeldhar. O pai mandava Brunsmeldhar fechar os olhos castanhos e esquecer. A persona de Brunsmeldhar ela a escondia no peito no qual pendiam uma corrente de ouro e a imagem de Hedone. O pai falava que sentia comichões de perversidade e mordia e beliscava Brunsmeldhar, querendo, ele arrancava-lhe pedaços e a fazia sofrer. A solidão habitava os olhos de Brunsmeldhar, Tua marido nom te dá conforto, Brunsbruns? e ria com bochechas em brasa. Um ermo imenso morava nos olhos de Brunsmeldhar. O pai bebia toda a aflição dela introduzindo a língua dentro de sua boca. Tu... um javali! entre gemidos, ela disse a ele. Despertava no pai uma eternidade. O pai sentia-se vivo com as palavras de Brunsmeldhar, e ficava doido e doído. Naquele momento de aflição e carinho, Brunsmeldhar talvez jurasse pelos santos, na igreja, que ia denunciar o pai a Hedone. Barulho de beijos, muxoxos e esfregões e apertos e gemidos. O rio Civitatis corria. Todas as corvinas vinham do mar; elas eram boas se pescadas nos meses que não tinham a letra -a: não prestava o mês de janeiro, o de fevereiro era bom, em março o peixe chegava bichado, abril e maio também; junho e julho podia contar, a corvina vinha sadia, mas no mês de agosto a corvina chegava cheia de vermes do tamanho de dedo de homem. Só comprava peixe no mês que tinha -a quem não conhecia corvina. Chinelão, cabelo repartido ao meio, se foi engolido pelas sombras nos cantos de muro das casas nas ruas entre solidão e imagens holográficas expelidas pelas máquinas sob o controle da cartomante-mor. Com o fim do longo poderio de Von Wruund, os territórios ficaram entregues às máquinas. Chinelão acocorado na soleira da porta de casa. Pregado. O olhar longe, um olhar no rancho cujo telhado era um colchão de morcegos. Ouvia a coaxaria no charco. Escutava o silêncio ferido por sapos no cio. A casa toda escancarada. Em cada um dos três cômodos, duas janelas de boca aberta espantavam o verão. Os mosquitos entravam, os mosquitos saíam. A complexidade da alma humana passeava no olhar malicioso. Estrépito de pés. O conhecido barulho. Tropel. Pela abertura das janelas era vista a Rua dos Enforcados, a Tecelagem WuuB. O silêncio apavorante das máquinas com as suas imagens holográficas. A mor-te tem seus en-ga-nos. E suas re-des de in-tri-gas. Suas ar-ma-di-lhas e seus ar-dis. Vi-ve cheia dos seus dis-far-ces. E ca-mi-nha e pas-seia e via-ja. Vai com sua foi-ce nas cos-tas. Com seu ca-puz de dis-far-ce. A mor-te só não des-con-fia. Pas-so uma ras-tei-ra ne-la. Der-ru-bo-a, pas-so por ci-ma. E su-pe-ro a sua his-tó-ria. E ela mor-re e eu si-go fir-me. Chinelão roía as unhas. Taciturno. A chuvarada não dava trégua à cidade. Por causa dum grito se perdeu a cidade. Chinelão acendeu o cigarro e logo acendeu outro; segurava-o com a ponta do polegar e do indicador, levava-o ao bico, sugava-o com cautela e soltava fumaça. Sugava-o com veemência. A fumaça em volta. Puxava a chama do cigarro próximo à boca, a cinza substitui a chama; outra vez, a chama se acendia e morria. As paredes internas da boca em feridas abertas, ardiam, queimavam, Chinelão reclamava dos machucados sem deixá-lo dormir. O excesso mantinha a cidade com medo e obediente. Cadê o garafom de pinga? disse o pai. Fui! reclamou. Nesse casa não se achava nada. Que nojo! Em algum lugar silencioso da igreja de Hedone, o pai, ao ser questionado por Brunsmeldhar se dava conta, ele lhe respondeu que mudava a casca, mudava a roupa, mas a essência e o sangue violento, subindo e descendo, permaneciam. Brunsmeldhar pediu-lhe uma prova e ele a ferroou entre as coxas. Enquanto o sino de Hedone anunciava o meio-dia, Brunsmeldhar gemia e chorava. Naquela tarde, ela e ele desceram as escadarias com as pernas bambas, desmilinguidos e felizes. Brunsmeldhar rogava, pedia-lhe provas, testemunhos, o pai penetrava-lhe entre as coxas, e o sino revelava o encontro dos ponteiros do relógio aos gritos. Brunsmeldhar gemia e chorava. Dona Pubhiccas, mãe de Chinelão, no quarto, em casa, chorava e gemia petitórios a Hedone, que tudo sabia, que tudo via, tudo podia, anunciavam as máquinas programadas pela cartomante-mor, que mantinha a sete chaves os algoritmos desde a deposição de Von Wruund. Com o abandono de Pólis, Pólis definhou e o mato a invadiu numa vã tentativa em recuperar o bioma caracterizado pelo manguezal e pela restinga. Quem fosse a Pólis não a reconheceria mais. Pólis transformou-se em amontoados de vazios. Chinelão via o pai correr, como se estivesse vivo, correr para casa e meter a mão no bolso de onde arrancava uma chave pequena e enferrujada; enterrava-a na fechadura, espiava em ambos os lados, entrava no quarto escuro de absolutos.

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