NA ERA DOS ROBÔS

Contos

Por Marcello Ricardo Almeida

Tecnologias complexas foram superadas, as incógnitas perderam-se nas equações. Era possível realizar aulas holográficas simultaneamente em várias salas, na escola ou fora dela, por professora ou professor, em unidade de ensino no município e fora dele. Todas as viagens espaciais fracassaram. Os pingos da chuva nas telhas transportavam as pessoas a uma época que não existia. Gente que morava em casa, não em abrigos, lugares improvisados, voltaram às ruas e perderam o teto, a cama, o alimento. Transmudam-se assim as vidas que se conheciam na Era dos Robôs, que se alimentavam com o Qq, este novo elemento na tabela periódica. Os trovões resistiam: eram drones avariados desde o último conflito. Uns – notório em Civitatis – após se alimentarem sumia neles o desejo em seguir comendo por ficarem satisfeitos pela energia Qq. Desde os sinais de fumaça e de sons, que a comunicação viaja nas eternidades. Há décadas, a comunicação sem fio permuta informações entre aparelhos; com ileísmo foi possível conectar corpos biológicos, semibiológicos e máquinas, que recebiam e mandavam em qualquer quantidade/velocidade, vídeos, arquivos, dispositivos pareados, áudios, imagens. As pessoas, nas ruas de Civitatis, falavam com elas mesmas como se falassem com outras pessoas. E o tempo da memória e da lembrança mutaram o tempo do esquecimento; nele se estabeleceu o chamado tempo dêixis, que alterava personalidade de lugares e de pessoas. Pelo contexto de suas falas logadas, a verdade era substituída por mentiras e se sedimentava como verdade em substituição à verdade anterior. Armazenamento vertiginoso de dados era produzido por décadas. Era assim que giravam as pás do moinho em nome de Hedone. Às vezes em que se tentou dar sentimento às máquinas não se desconfiava ser possível que um liquidificador poderia comunicar-se com outros utensílios domésticos. A ausência de filtro, na coleta, coletou não apenas o trigo; a coleta de dados formou o corpo de um outro Prometeu e, quebradas as suas correntes, na Rua dos Enforcados, foi encontrado no subsolo mais um elemento à tabela periódica (Qq). As máquinas consumiam muita energia, isto foi solucionado quando se descobriu o elemento Qq, e se popularizou de quezão e quezinho. Antes, as máquinas antecipavam a escrita humana na digitalização e corrigia os erros gráficos, as concordâncias verbais, nominais, a acentuação, o sinal grave da indicação a crase, buscas de informações, no compartilhamento de arquivos, tudo em velocidade máxima, (e se não estivesse na rede não estava no mundo), vídeos e imagens. Mais autonomia conquistaram as máquinas com a energia química de quezão e quezinho. Qq extraído de rochas ígneas formadas no magma trocou a velha lâmpada por nova e azeitou a realidade. Chinelão nas ruas, nos becos sujos, uma íngua em cada dificuldade financeira, gastava horas na Rua dos Enforcados. Olhava para dentro das casas, observava se dali alguma coisa boa saía. Em um daqueles becos, no bolso de um morto, Chinelão leu em um guardanapo: Desculpe. O que fizeram comigo? As máquinas em toda a parte conviviam com as pessoas como se pessoas fossem. Ideias sobre o comércio de sapatos lhe roíam o estômago. Chinelão, na Rua dos Enforcados, tresvariado e confuso, sem perder de vista as ideias. A mãe. O pai. A mãe nua. O pai nu. O quarto. A corda. As mãos amarelas. Os pés descalços. A sapataria. Chinelão viu os braços cabeludos do pai, as pernas grossas da mãe. A ambição lhe devorava sem pressa. Ele sentiu o cheiro de cola de sapateiro. Ouviu linhas e agulhas nos couros que chegavam à fábrica de sapatos. O cigarro cravado entre os dentes. O barulho das máquinas. Viu as caixas de sapatos. O céu alaranjado. Sem saber se era cedo para recuperar as perdas, Chinelão voltou a roer as unhas; roendo, lambendo o sangue na ponta dos dedos. O barulho da linha no couro. A venda de sapatos. Mas as pessoas não usavam mais sapatos, Chinelão! disse a mãe. Tu buro! reclamou o pai com um barulho de trovão. Ele seguiu roendo, roendo, roendo. Um torvelinho de dúvidas se desenhara na fisionomia de Chinelão. Crescia-lhe de repente a vontade qual uma onda e ele via, no beco, na Rua dos Enforcados, o fim da possibilidade em começar o seu negócio na fabricação de sapatos – roendo, roendo as unhas num torvelinho de perguntas – queimava as mãos e ressecava a boca com as mudanças no clima de Civitatis. Por Hedone, vou conseguir! repetia. Vou conseguir, finalmente, minha fábrica de sapatos. No rodapé da subida do destino, nos prédios altos vazios, o livre-arbítrio corre e logo desaparece, pula forte e a vida quase cai, equilibra-se, a vida corre e vai, e solta popas da peste. Chinelão rói cada vez mais as unhas, rói a saudade da nostalgia cuja lima limou nas lembranças, faz um gesto rápido como se sentisse forte martelada na caixa toráxica. Por Hedone! roga, no beco sujo. Por Hedone! pede, implora. Preciso abrir essa fábrica. Ao mundo do simbólico e da semiótica, assobiava Chinelão, eu deixo meu desprezo. Às mulheres dos meus desejos, eu deixo a miséria dos meus passos. Aos pronomes, seguiu tamborilando os dedos na parede da Tecelagem WuuB cuja pedra angular coube ao Cel. Bé do Algodão, os possessivos, os demonstrativos, os indefinidos, os relativos, os de tratamento e os interrogativos.
E viva a vida, que é serena,
Viva o som desse dobrado,
Viva a terra dos nossos pais;
E ao silêncio só deixe o mote;
Viva cada reencontro a mais.
A poesia deixo o amor à poesia.
Sanfonas deixem-nas aos ais,
E o trabalho deixe às máquinas,
A glosa ao glosador contumaz.
O amanhã deixe a breve sorte.
E toda a humildade deixe à paz.
Ao sossego deixe os símbolos, 
Ao susto cabe o enfrentamento,
Nos mercados, as velhas patacas.
Às ameaças deixe esquecimento 
E às guerreiras deixe o invultado.
Mordia as unhas, ele arranhava as mãos nos muros da Tecelagem WuuB. Por Hedone, por Hedone! reclamou. Terei a fábrica de sapatos. Nos bolsos, Chinelão mexia nas moedas derradeiras. Onde obter empréstimo? Devia vender alguma coisa. Mãe não era de se jogar fora; talvez negociasse com Bigodes-Vermelhos. Mãe, serei convocado à guerra! a mãe riu. Irei desertar. Não toma os remédios a quantos dias? quis saber, e o filho voltou a roer as unhas das mãos e dos pés. Para com isso! implorou a mãe com outro sorriso. Você foi o filho que mais me deu trabalho. Não acertava o peito; empurrava o bico teso em sua boca, e você preferia a mamadeira. Foi ronhento desde os cueiros. A mãe de Chinelão deixou o quarto, que representa casulo, e seu primeiro desejo foi o de reunir a família, Perdi os anos de vida nessas paredes. Não sabia dizer onde ficaram os anos e a vida. Desde o dia em que invadiram a cidade, eu me fechei. Sumiram os filhos de casa, e eu naquela cafua. Chinelão observava a mãe Pubhiccas no holograma, na sala. As imagens sopravam em sua volta. A casa ia ficar outra vez cheia de cabelo. Uma mulher que não tomava banho, que perdia muito cabelo, não trocava de roupa. Debaixo dos caprichos do marido, um sujeito árido a vida inteira. Ele não cortava as unhas das mãos e dos pés; elas eram enormes, sujas; ele não se penteava, grunhindo ingresias. Ó pessoinha sorumbática! reclamava. Ó nauseabunda! A mãe passava o dia cantarolando “Ode odiosa”. Conhece esta ode? Vai, Tufão, deus dos martírios, corre, toma o teu destino e acaba com todos os risos; faça com que a morte não toque os vivos. Vai, Tufão, deus dos mártires, rápido, não hesite diante do abismo. Ei-los que vivem rindo à vontade como uma brisa sobre a tarde. Não sei, disse Chinelão, como ela teve paciência com aquele monstro; vivia cantarolando, presa, trancada no abrigo. Ele vinha, passava uma chave, sumia. O teu pai não fez outra coisa a não ser me conspurcar! disse. Esse safado me conspurcou, Chinelo. Sabe o que é uma pessoa ser conspurcada por outra? Eu fui. Eu poderia ter ficado em casa, na casa de meus pais, ter ficado na minha cama, caí na cama daquele monstro. Conspurcada, a vida toda ele só me conspurca... Nem sempre isso aconteceu por causa daquilo! disse. História de pescador. Usurpador! Pubhiccas, mãe de Chinelão, livrou-se da penitência. Qual penitência, mãe? O silêncio foi a sua resposta. Pubhiccas saiu do quarto; viu o espelho há meses coberto de andrajos. Mergulhou num banho frio, banhou-se de perfumes, depois desenhou os lábios com batom. Ficou penteada. Com lápis realçou o verde dos olhos e vestiu-se com o que havia de elegante. Afinal, o que devo vestir? E o que devo comer? Ornou-se de colares e imaginação, anéis, pulseiras, brincos comprados à época em que morava na casa dos pais. Lembra-se esse pingente, Fortunato? ela perguntou; ele ficou calado, mordia as unhas e as via sangrar. Cobrira-se de brilho. Corou as faces, escovou os dentes. Desde quando, Fortunato, eu te pergunto e tu não me respondes? Mordiscava Chinelão as unhas do polegar ao mínimo e, ao concluir uma mão, começava a roer todas as unhas da outra. Tu sentiste-te medo alguma ver, filhote de cruz-credo? Correr uma coisa pelas veias sem que tu saibas, tu nunca sentiste. Rara conhecedora entre o doce e o salgado, Pubhiccas esbanjou beleza e curvas. Ela tinha controle do tempo, o tempo certo de cozimento ou de fritura; os aromas à mesa refinada que elevou o paladar. As receitas e pratos de Pubhiccas, guardados no cós do pai, são novamente postos à mesa. Estás com fome, minha fera? indagou a mãe. E não respondes por quê? Criatura ingrata! Pubhiccas excitada chegava a ser um exagero. Chinelão viu Bigodes-Vermelhos com um olho na comida, outro no que ele chamou de arrochada, e teve medo. Naquelas horas de dó, ré, mi, fá, sol, lá, si a casa uma fuzarca. Chinelão viu o pai, a mãe e Bigodes-Vermelhos, que não mais existiam. Chinelão viu o pai no canto; lembrou-se – nada podia fazer – que alguns daqueles foram os algozes que invadiram o quiosque do pai naquele dia. Chinelão percebeu o interesse de Bigodes-Vermelhos pela malagueta recheada, a mãe lhe mostrou a malagueta recheada, na cozinha. Mãe! Mãe, não mostre a malagueta recheada a Bigodes-Vermelhos. A mãe não deu ouvidos ao filho, pois ele veio depois dela. Se um veio depois do outro, com qual direito o mais novo cagava regra ao mais velho? A mãe, primeiro, abriu a malagueta e lhe retirou as sementes; em seguida, preparou para Bigodes-Vermelhos uma pasta espessa de açafrão, cominho moído e sal; recheou as pimentas e as levou pra dourar em fogo brando em azeite extravirgem. Bigodes-Vermelhos queria canapés em creme de salmão, camarão recheado ao molho de manga, croquetes de galinha, catupiry temperado, azeitonas recheadas, anchovas ao abacaxi, ameixas pretas ao bacon. Biscoitos de nata; sanduíches de miúdos; folhas refogadas em tempero de rabanete. Beterraba, couve-flor e brócolis ao queijo, bifes monegascos, vitelas assadas com legumes frescos, feijão fradinho temperado com cheiro verde, arroz integral. Chinelão vigiava a mãe de longe.
É um escracho! protestou Chinelão. É vergonhoso as máquinas não terem nostalgias porque não têm lembranças. A memória das máquinas não vale uma broa. A humanidade foi traída pelas máquinas. As máquinas combinaram com a humanidade. Não cumpriram. Elas usurparam. Esse amontoado de borrachas e de latas enganaram o povo. As máquinas tiraram do povo todos os seus direitos pétreos. Essas máquinas estão por toda a parte. Chegaram com promessas de mudanças à gente. Que mudanças! esbravejava com a mãe, na cozinha. E qual foi a mudança, mãe, quais foram as mudanças, pai, que essa montoeira de lata velha, responda, pai, responda, mãe, fez desde uns tempos desses? Lembra-se de Bucho de Lama. Claro, mãe, que você tá lembrada dela. As máquinas usaram Bucho de Lama até o...! fez um gesto com os punhos cerrados. Começaram pela medula espinal. Como vocês permitem Bigodes-Vermelhos em nossa casa! Vergonha, pai. Escracho, mãe. Escracho! tomou fôlego. Avisei eles, mãe, avisei eles, pai, mas sabe como é. Quis trazê-los pra cá, porém eles recusaram. Disse o que eu sabia sobre as máquinas, contudo só ouvi desaforos. O mundo cai, não cai e, apesar disso, eles insistiram em acreditar nas máquinas. E nenhum deles quis me ouvir, ao passo que hoje estão todos reféns das máquinas. E elas ditam as regras, e seguirão nessa toada. E aviso o perigo que eles correm, no entanto é pregar durante uma ventania. Fiz, pois acreditei que fazia o que era certo. Não? Nas ruas, todos admiravam as máquinas, visto que admirá-las era preciso. Quase acreditei que também deveria admirá-las, uma vez que elas também seduziram os meus desejos. Evitei cair na rede das máquinas, a fim de não perder o sonho que sempre me acompanhou. Perambulei por aí; um pouco aqui, um pouco lá, e viajei a Pólis, conheci o Sr. Vun Wruund. Assim, pai, assim, mãe, fui vivendo, vivi, à medida que as coisas aconteciam a Civitatis. Não sabia onde tudo isso ia parar nem mesmo se alguém viesse me dizer. Entendo o motivo de vocês não terem acreditado em mim. Se hoje, após tudo o que as máquinas fizeram com vocês, vocês inda ficavam com um pé atrás; imagine, imagine! Fiz o que fiz, com o intuito de salvar Civitatis, mas nem Civitatis salvava mais Civitatis. Usei todas as conjunções que conhecia, usei também as locuções. Isto me adiantou alguma coisa? Zero. Não vi mudanças.
Chinelão, jogado em um canto da cozinha, fazia contabilidades, e planos, sem conseguir saber como se livrar das máquinas que aterrorizavam a cidade Civitatis. Elas nos governavam a nós e aos nós dos nossos dedos pelo medo e pela mentira. Todos pareciam rendidos a elas. Lá fora, a chuva não dava trégua; era fina, úmida, tempo gelado, que congelava ossos. Arrochada, como Bigodes-Vermelhos chamava mamãe, na cara do pai, que não esboçava reação, estava frenética, na cozinha.
Planei vendê-la. E com o dinheiro abrir a fábrica de sapatos. Eu vou abrir comércio de sapatos ainda este ano. A casa velha de madeira eu ia jogá-la numa mesa de baralho com Bigodes-Vermelhos, que mamou em mamãe. Na porta de casa, eu vi, crianças, eu vi, máquinas e mais máquinas a nos mostrar a luz azul e cegar os nossos sonhos; elas nos espionavam, sabia o que falávamos, o que comíamos, o que o papai cochichava com mamãe, madrugada adentro, juntos, nos travesseiros. A impaciência do pai, Chinelão acompanhava-a com medo, de longe. A euforia da mãe, Chinelão acompanhava-a com olhos miúdos. Chinelão viu quando o pai tentou amuar-se no outro canto da sala. Fazia caretas, gestos obscenos. Acocorava-se. Levantava-se. Fumava, bebia, praguejava baixo. Vinha mais chuva, ora chuva! Caía uma água alaranjada das nuvens, lentas, ora ligeira ora poeirava com um sopro d’água que empapa a terra. Falava em prestações o pai, na cozinha, e tinha medo de sua língua. Impaciente. O pai com voz feia e baixa e fraca. Chinelão calculava o empreendimento no ramo de calçados. Onde deixar, onde levar a euforia de sua mãe, Pubhiccas, que ria, que dançava, que fazia graça, que divertia Bigodes-Vermelhos, rindo com aquelas brincadeiras do diabo que lhe dizia que couro de moça era duro e difícil de furar, mas quando se furava, de repente ficam dois a pendurar-se. O que era isso, D. Pubhiccas? Mãe ficava com os ovos nas mãos. O pano de louça jogado às costas. Mãe curvada, apressada; sequer via o pai amuado num canto da cozinha.
Chinelão acocorado naquele beco sujo, na cidade, igual a um sem-teto, e foi nisso que ele se transformou. As máquinas, repetiu, não sofriam de nostalgia nem adoeciam de melancolia, porque não guardam lembranças, só memórias em bancos de dados. O que elas queriam com esses dados? A intimidade oculta foi transformada em ganhos reais. O que fazer com tantos ganhos reais? disse chinelão agachado, com os braços cingindo os próprios joelhos. Via, do beco, as máquinas transitarem fora do beco. A vida era um beco, nada mais além de beco.
O pai autorizou a mãe. Mãe, disse, ríspida, não faça nunca mais isso que tu acabaste de fazer comigo, tufei. O pai não quis saber; continuou dizendo que, ali, atrás da parede dos fundos, hoje mesmo, eu vou rasgar porta e janela. A mãe olhou pra ele com medo. Aprendeu isso com as máquinas, foi, tufei?
Mãe, ali, bem ali mesmo, eu vou fazer minha sapataria. Que achas? Mãe! A mãe falou o quê? E o quê da mãe ficou sem quê. Ali, não, Fortunato. Ali, o pai vai abrir porta e janela. Mas logo ali, mãe! Ali, Chinelo. Não. Sim. Não dá pra ele abrir lá? Não. Como não! Já falei, e ele não me escuta. Mal-ouvido! Bandido pai, imundo velho, barrigudo, desgraçado, nojento...! Para, Fortunato, para! protestou a mãe ameaçando o filho com uma colher de metal. Te arrebento de cima abaixo agora, seu desgraçado. Devia ter abortado esse medonho! Desgraçada! Isso é comigo, Fortunato? silêncio. É comigo, infame? pausa. Eu te arrebento, agorinha mesmo, filho amado do inferno. Mãe! pôs Chinelão mãos ao alto. Não me mate, mãe, como você matou a Maria e o João. Eu não matei ninguém, infeliz. Maria e João meteram-se nessa capoeira e sumiram no meio do mato. Joãozinho era o xodó em nossa casa, Mariinha também. Mentira! Não me desafie, filho maldito! Perdão, mãe, perdão. Estás perdoado, querido, estás perdoado. Dê cá o abraço, e vai abraçar também teu pai. Ele te ama, filho do meu coração. É o jeito do pai ser como era o pai dele e o pai do pai dele. As máquinas, mãe, as máquinas nos trouxeram toda essa desgraça. Amaldiçoo o dia em que foi descoberta a química extraída da terra lagunar de Civitatis. O que desgraçou nossa gente foi a riqueza que chegou com a descoberta de quezão e quezinho. A primeira coisa que elas, as desgraçadas das máquinas, fizeram foi mudar o nome da cidade. E a cidade cresceu e engoliu todas as cidades próximas. O sapateiro, mãe, não vai além de suas alpargatas. Cala a boca, estúpido! ameaçou-lhe. E se desafiares, racho a tua cabeça em duas. O pai com aquele cara naïf de quem chupava limão se foi pelos cantos da casa e desapareceu. Eu sou capaz de formular uma denúncia imediata às máquinas! ameaçou a mãe de Chinelão erguendo a colher de metal sobre a sua cabeça. Não faça isso, mãe, por amor a Hedone. Não faça isso! debochou. Faço antes que anoiteça. Noticio às máquinas todas as tuas tramoias. Duvida? Eu te mato, mãe! correu da mãe. Mata nada! avançou sobre o filho. Mato você e o pai. Ambos ficaram mitigando; mitigou a mãe, mitigou outra vez. Mitigou o filho. Ambos, na cozinha, mitigaram.
Vizinho, dizia um ao outro, Cuidado, ela vai te delatar! Bigodes-vermelhos passou a ser presença constante na cozinha dos pais de Chinelão. Observava o pai sozinho, Nom me arependo de nada do que fiz no fida... – ele não conseguia convencer ninguém de que era um homem bom.
Irá? perguntou à mãe. Irei! respondeu-lhe. Tem coragem, mãe? Eu tenho. Tá sendo jocosa. Não tô. Você é anedótica, mãe. Anedótica? Eu? Nunca! Vou te denunciar às máquinas. Elas vão me agradecer com energia Qq. Maldita energia Qq, mãe. Maldita mãe, que tem coragem de denunciar o próprio filho às máquinas que pintam e bordam Civitatis. Talhadas a facão as linhas de expressões no rosto do pai; ele rodava uma colher na xícara enquanto enchia a boca de biscoitos de araruta, Sabia como eram as escolhaquele tempo? Desde ontem, optei, mãe, em ser inescrupuloso. Fale baixo; se teu pai te ouvir, ele vai te denunciar. A quem, mãe? Às máquinas. Desde quando as máquinas decidiam o destino dos homens, mãe? Desde o dia em que os donos dos algoritmos quiseram. Foram os donos dos algoritmos quem ensinaram às máquinas a estimular que gente se beijasse e, em seguida, se arrebentasse e se matasse. Minha persona nunca teve função narrativa, mãe. Oxi! espantou-se como se estivesse diante dum elogio à loucura. E o que tu querias dizer-me com isso, diacho? Oxi! Com esses víboras em casa; pressionante, o pai resmungava diante da xícara vazia. Tirou o canivete do bolso, no fundo da calça encardida. Saiu. De um galho seco, caído, quebrado da velha goiabeira, no terreno em volta, o pai, acocorado debaixo da árvore, começou a esculpir o pião, pois queria presenteá-lo a um neto inexistente. Um cara seboso que nem esse Chinelom Dodemoio, dizia o pai, só tinha merda no cabeça. O pai viu escorrer nas orquídeas olhos-de-bonecas o tempo perdido. Atirou gravetos na plantação de morangos e tangeu os pássaros. Riu dos espantalhos que não-eram-de-fritar-bolinhos. Sofreu sem jamais dar o pescoço a torcer. Saiu. E voltou a entalhar outro galho tosco e dele extraiu o brinquedo do neto imaginário. Com o nariz inchado, o pai costumava esfregá-lo, puxava-o com força, pinicava – era só ficar nervoso. Entrou outra vez em casa para mostrar a sua arte. Na cozinha, Pubhiccas continuava fazendo comida. O pai começou a queimar um cigarro na janela da cozinha. O olhar do pai estava no passado. O pai parecia ter vindo ao mundo com essa idade. Ele parecia ter nascido velho e cansado. Fumava. Viajou na fumaça do cigarro por horas. As máquinas comandavam os drones. A chuva molhava sem interrupção. Lá fora, um bêbado, à distância dum assovio, olhava as águas de Civitatis de cima da ponte. Na cozinha, Pubhiccas estava eufórica, porque planejava, em silêncio, entregar Chinelão às máquinas de Vun Wruund. Ela via, através da janela, na cozinha, as máquinas se aproximarem. Os drones cercavam a casa. Chinelão, que ia com frequência ao banheiro despejar o medo no bacio, não via a chegada de Bigodes-Vermelhos com boa vontade. Bigodes-Vermelhos na casa, protegido por máquinas, fazia Pubhiccas sentir-se a criatura mais generosa de Civitatis; ele derramava gratidão por ter-lhe amamentado. Ela jurava, calada, que entregaria o filho a Bigodes-Vermelhos, se ele não a matasse antes. Mas Bigodes-Vermelhos era amigo de infância de Chinelão. Von Wruund não autorizava que ninguém pusesse a mão em Chinelão. Ele parecia salvo dos males no mundo. Chinelão era protegido por santos e demônios, a mãe chegou próxima a Bigodes-Vermelhos, disse-lhe, saiu, disfarçou que houvesse dito isso. Bigodes-Vermelhos concordou com Pubhiccas. Sabujos de Von Wruund! acusou Chinelão, enquanto assisti o pai e a mãe fazerem sala a Bigodes-Vermelhos. Ei, amigo, Bigodes-Vermelhos atraiu a atenção de Chinelão, vai conseguir o objeto do desejo? Chinelão ficou em silêncio. O assunto deles, na sala, era sobre quem traía os parentescos e as velhas amizades – porque amizades velhas eram logo transformadas em parentes, e parentes em carne nos dentes do Sr. Von Wruund. Achava que eu podia trabalhar pra inteligência? Só se fosse artificial. Os dias de hoje, amigão, disse Bigodes-Vermelhos a Chinelão, o mar não estava pra peixe. Eu li, disse Chinelão a Bigodes-Vermelhos, quando visitei no São João passado, o Sr. Von Wruund, a máxima escrita em seu gabinete. Até hoje, velho amigo, não tive o privilégio de conhecer o gabinete do Sr. Von Wruund, triste, disse Bigodes-Vermelhos. O que está escrito, meu querido? O mal por si se destrói. Isso o que quer dizer? É o dizer da cartomante-mor. Na capital administrativa, a cartomante-mor programou máquinas a vigiarem e punirem. E as leis da cartomante-mor amedrontavam com legalismo, e a saúde com micróbios e microbactérias. E por decreto da cartomante-mor, vogais e numerais, além da supressão de letras em nome próprio, dos lugares e das coisas, estavam suspensos até a próxima orde. Von Wruund guiado por um seleto grupo de pensadores escolhidos pela cartomante-mor.
O espectro do doutor coronel ou do Cel. Dr. Bé do Algodão rondava a sua cidade. Fui vítima do poder do Qq. Chinelão esparramado no sofá da sala, cigarro fumegava e ele dizia que a vida ia ser diferente. Bigodes-vermelhos tinha acabado de sair da cozinha. A mãe, no quarto, com o pai, Nossa casamento foi santificada pela padre. Só existe o que eu digo que existe. A mulher deu um gemido e Chinelão ouviu o grito ai! O pai prosseguiu, Ó enquanto eu for chefe nesse família, ninguém vai me... Ai! foi um outro grito da mãe. Chinelão aumentou o som e abafou o ai da mãe e, assim, outros ais não foram ouvidos por Bigodes-Vermelhos. Chinelão acendia muitos cigarros por hora. Quase ninguém fumava tanto em Civitatis. Os dedos, indicador e médio, na parte da primeira falange, tinham acentuado amarelo-escuro. Todos queriam ser um pouco Dr. Moreau, disse Von Wruund a Chinelão durante a sua visita ao seu gabinete, em Polis, a capital administrativa. Era da capital que vinha a ordem da cartomante-mor e a programação das máquinas que controlavam o Qq, em Civititas. A primeira empresa que explorou Qq, em Civitatis, pertencia ao Cel. Dr. Bé do Algodão. Quando ele começou a exploração, ninguém acreditava haver, antes do fim da vida na Terra, uma nova energia para substituir todas as outras e com uma potência superior a todas elas. O carroceiro Bé do Algodão, que sonhou ser fabricante de sabão caseiro, apesar da incredulidade dos pais, produziu sabão de fundo de quintal, na Rua da Cadeia, tornou-se Bé Sonhador e chegou a Bé do Algodão. Caso o crime, em um descanso de pau, na caatinga, não lhe tivesse tirado o sopro da vida, o Cel. Dr. Bé do Algodão teria transformado a cidade maternal na próxima maravilha do mundo. Ele planejava misturar genes de seres humanos aos de bestas-feras. Investiu fortunas nas primeiras máquinas que trafegam e interferem livres, ultimamente, na vida do povo e das empresas.
Chinelão seguiu com assobio demorado, depois que Bigodes-Vermelhos saiu. Passou a mão no cabo da faca, olhou os pais, viu-os na cama, pareciam dormir, talvez sonhassem com uma vida longe das máquinas. Chinelão tirou a arma da bainha, passou na pedra de amolar. Era uma pedra ligada à eletricidade Qq – a energia mais barata no planeta, ela não produzia radiação nem poluição. Dia e noite, as máquinas nas pedras extraíam Qq. A energia liberada desse novo elemento químico alimentava máquinas por uma eternidade; as baterias foram substituídas há três décadas pelo elemento. Parado, na porta do quarto dos pais, Chinelão com a mão no cabo. Passava a mão no rosto, via no chão os sapatos, sonhava acordado com a sua fábrica de sapatos, via da janela aberta, na cozinha, os muros da tecelagem que deu origem à riqueza de Civitatis, rogava a Hedone chegar o dia de ter uma fábrica também.
Ao susto cabe o enfrentamento,
Nos mercados, as velhas patacas.
Às ameaças deixe esquecimento 
E às guerreiras deixe o invultado.
Estão próximos, elucubrando as forças das máquinas da cartomante-mor! gritava Chinelão nas ruas de Civitatis. Eles estão elucubrando as forças! Mordia as unhas e arrastava as mãos nos velhos muros da Tecelagem WuuB. E rogava: Por Hedone, por Hedone! voltou a dizer entre os dentes. Terei minha fábrica de sapatos.

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