Civitatis liderava a região densamente povoada. Os bares de bairro pareciam atravessar o tempo. Os operários ocupavam os balcões e trocavam um pouco de vida por mais uma dose de hedonismo. Alimentavam-se os contratados temporários na Tecelagem WuuB e em suas incontáveis associadas, com pequenos goles de Hedone, que eram o que lhes restavam de vida, só à procura de algum trivial prazer, como ocorriam nas biroscas entre um pingado e outro naquele distante século XX. Se a perda era inevitável aos contratados temporariamente pela tecelagem e as suas, eles próprios reconheciam que não deveriam mais acreditar na sorte da roleta. Só mais um pouco de Hedone, eles diziam, um pouco mais; e o que lhes restava de oxigênio puro ficava pelo caminho. Era como se todos sentissem prazer em mentir, mesmo quando reconheciam que maquiavam a verdade.
Havia um cheiro de mofo em toda a parte. Mais um dia nublado. Os olhos dela pareciam seguir os meus passos. É você? Não ouvi nenhuma resposta. Não ouvia mais a sua voz da maneira que costumava ouvi-la. Ela não existia mais nem na parede onde costumava estar. E tudo era tão rápido, e tudo era tão lindo, e tudo era tão silencioso. O universo era silencioso? O céu não era mais visto à noite, era apenas a massa cinza e escura. Mamãe não vivia mais. Até segunda-feira à noite, ela viveu. A sua cama agora era o necrotério. As universidades cheias de corpos. A inflação nas ruas. E tudo um piscar, um bocejo. Nada existirá, em breve, como hoje existe. Logo, nada mais existirá. Perdi o rosto do papai. Não reconheço mais o seu olhar e perdi o risco de seu riso. E saber que ontem ele estava aqui, aqui já não estava. Os passos e a respiração dele silenciaram. Parecia eterna a sua figura. Não. Nada existe aqui, disse Fortunato, senão uma fumaça.
Em cada esquina, um enganador profissional que vendia engodos como nova descoberta científica. As línguas estrangeiras em todas as ruas, as casas de câmbio substituídas por moedas digitais. A responsabilidade era em manter cada qual com a sua quota. Pedagogos com a incumbência em levarem crianças pelas mãos, pois se acreditava ser na infância onde o cereal se adequava às novas realidades nos estudos de Língua Brasileira e Matemática. Psicólogos, atolados em dúvidas, como base do saber, afundavam-se em perguntas à geopolítica do corpo e o redesenho dos continentes esta recente força da física. Os notáveis saberes determinados pela cartomante-mor.
Nas ruas ninguém via cabeça de gente, só guarda-chuva. Um ônibus especial levava os colaboradores da cartomante-mor, que enchiam as ruas. Chinelão, tremia, a peia sem misericórdia, diante da figura em todas as paredes de Von Wruund. Ele não conseguia ficar no canto dele, sossegado, depois de tantas mortes. Chinelão queria abraçá-lo. A vaidade era exaltada como em nenhuma época foi. Na capital administrativa ventava e chovia. Um formigamento, dizia Chinelão, e esfregava os braços movido pela alegria. A vida para ser vida, costumava falar Asioteia a Píndaro, antes de convencê-lo a morar em Santana, cuja força de megalópole passou a ser Civitatis, era cheia de vícios – não parava Chinelão de repetir – a vida, a vida, a vida era cheia. Falaria frente a frente com Von Wruund. Não desperdiçaria a ocasião. A vida, Von Wruund, era repleta de vícios e, por todos os lados, ela se cercava. Eram eles quem lhe sorriam. Eles quem, Fortunato? diria Von Wruund. Oxi, os vícios, Von Wruund, os vícios! responderia a Von Wruund com um sorriso que lhe ocuparia todo o corpo. Ficou repetindo a máxima de Asioteia sobre a vida ser um vício ou o vício ser a vida, ou ambos ou qualquer coisa parecida. A vida, Von Wruund. Quê! A vida, Von Wruund! repetiria. A vida é um mistério gozoso, Von Wruund. Não sabia! diria talvez Von Wruund. Como poderia dizer, quando ele sabia tudo, de tudo era informado pela cartomante-mor? Vinham os vícios desta vida feita comichão, Von Wruund. Aaah...! murmurava Von Wruund. E cada o aaah! Von Wruund suspirava em Chinelão, reverbera nos tique-taques em seu peito. Von Wruund, nada fazia sentido se não fosse algum vício preservado, reverenciado, idolatrado, vício de tão poderoso que ofuscasse as crenças no que lhe cercasse, Von Wruund. Chinelão não parava de repetir, sem saber que sairia da presença dele como apedeuta. Este, repleto de felicidade, com as características de um minerador que antevia deixar Von Wruund consciente de que ali havia ouro na mina, sendo ele tão crédulo, sairia rico dali. O repente fê-lo inchar o peito, fê-lo fazer versos ágeis com palavras ligeiras, noticiava de cordel em cordel e se balançava ao vento, balançava as suas folhas baratas, finas, transparentes, evitava a prosa, enfiava a cara na poesia, oral passou a ser a alegria. Vai-te embora, feio apedeuta de volta a Civitatis! diria Von Wruund, quando ele deixasse o espaço, se despedisse com abraços, acalorados apertos e a despedida rubricada com o reverenciado Hedone que não lhe abandonasse, e que lhe acompanhasse e protegesse. Apesar dos pesos e das medidas, as palavras não se calavam dentro de Chinelão, O Apedeuta. Estendida a vida em cordéis, cada dia por si dava o seu tom, em poesia, rima os versos, longe da prosa, a vida exposta nas mesas do mercado, qual carne barata, xilogravura impressa nos dias de chuva, que eram constantes, caminhava por estrofes de seis, oito, dez e doze versos em folhas de papel vulgar de formato folhetim. Eram temas de fé, de pessoas más, mas com a luz da esperança, e os temas de feira cujos corpos mercantilizados a preço de aventura. Veio e passou o ciclo do boi, que fazia rastro pelo qual seguia Chinelão o caminho. Não, quero ver não! dizia a mãe de Chinelão cada vez que ele aparecia com novidade. Homi, ó, homi, bote isso pra lá, pelo amor de meu deus! insistia. Não, não, quero ouvir, não; as tua conversa me apavora! dizia a velha senhora com medo de sucumbir.
A cidade administrativa taciturna.
A cartomante-mor inconformada; assessores em vão tentavam lhe controlar os nervos sob o efeito de remédios, conversa fiada, enquanto ela batia o queixo e chorava temendo pela vida de Von Wruund.
O clima era cinzento e o ar pesado.
Os habitantes viviam empombados. O Apedeuta de boca aberta na frente de Von Wruund, adorava a sua presença quão se fosse a personificação de Hedone.
Von Wruund abriu a boca, disse, A infância, com braços em cruz, foi terrível e protocolar, pois, toda vez que desobedecia aos pais, avós e aos tios, eu ficava de castigo numa biblioteca. Nela, ouvi a voz da morte. Quem está aí? Perguntei. Não tive medo das sombras, dos livros pesados, folhudos, cheio de pó, das capas e das letras, dos bichos miúdos, que corriam, das teias, que nublam, das pilhas e pilhas. E, não demorou, outra vez, eu perguntei. Era a morte quem veio me visitar, ela não me respondeu. Percebi palavras atrás das estantes. Era ela. A morte, ela cochichou. A morte tem seus enganos, e suas redes de intrigas, suas armadilhas e seus ardis, eu lhe disse, vive cheia dos seus disfarces, e caminha, e passeia, e viaja; vai com a sua foice nas costas, com o capuz de disfarce. A morte só não desconfia. Passo-lhe uma rasteira, derrubo-a, e passo por cima, e supero a sua história. Ela some e eu permaneço, ela morre e eu fico vivo. Desobedeci a tudo e a todos na maior parte do tempo. Se me perguntasse se gostei? Sim, eu gostei de ter vivido na desobediência. Von Wruund ficou olhando o ânimo na alma de Chinelão, assobiou à moda antiga e, em silêncio, glosa e versa o mote:
Com vivas aos versos decassílabos
Nos versos de cordel, que estão vivos,
A palavra ganha a devida forma
Como no rosto surgem os risos.
Enquanto Von Wruund assobiava a sua sessão nostalgia, vi, disse Chinelão, que havia algo de familiar na fisionomia da cartomante-mor. Era como se ela fosse uma parente sua distante; uma espécie perdida no tronco genealógico. Era só olhar o riso, essa boca, o cabelo, esses olhos. Ela lembrava quem? O jeito de passar as mãos no rosto, o tamanho das pernas, largura dos quadris. Quem, quem, lembrava quem? Asioteia. Ela lembrava Asioteia, sim. A cartomante-mor dava os traços dela.
E se na alma do cantor surge a viola,
E diante da casa surge a fogueira,
Surgem ligeiros sanfonas, pandeiros.
E em breve mais ruas ganham alegria.
Ressuscita o que parecia perdido.
Traz São João de antigamente poesia.
Não podemos aceitar tal desaforo.
Recorremos à Poesia de Cordel.
Nosso São João, hoje, pede socorro.
A tradição tolera a liberdade,
Mas não a ponto de dizer eu corro.
Poesia traz São João de antigamente.
Ressuscita o que parecia perdido.
Os versos lutam contra a corrente,
Como se possível fosse voltar
O acendedor de lampiões de Lima.
Mas na alma do cantor surge a viola,
Como no rosto surgem os risos.
E diante da casa surge a fogueira.
Poesia traz São João de antigamente.
Ressuscita o que parecia perdido.
Ficou, perdido, olhando nos seus olhos. A similitude vinha contar-lhe feito raio. Era Asioteia, sim. Asioteia jovem. Asioteia em sagacidade e beleza. Asioteia na sua frente; ao lado de Von Wruund, que continuava a assobiar algo incompreensível, a solfejar uma época do último milênio, que não se solfejava mais.
Não podemos aceitar tal desaforo.
Recorremos à Poesia de Cordel.
Nosso São João, hoje, pede socorro.
A tradição tolera a liberdade,
Mas não a ponto de dizer eu corro.
Era Asioteia diante dele. Asioteia o tempo todo ali. Os trejeitos de Asioteia. E o riso então! disse, enquanto Von Wruund assobiava as notas. E, rapidamente, lhe escorreram as lembranças, como se chorasse. Qual é o motivo do pranto? Asioteia. Não a conheceu menina, viu em imagens holográficas; quando a conheceu, ela era velhinha, porém em seus olhos permanecia a volúpia ardente. Era uma lembrança como quem morre. O fogo, em Asioteia, nunca ficou frio. Asioteia inquieta, Asioteia maravilhada com a vida. Ouviu Chinelão da boca dela sobre a época vivida em países estrangeiros com a mãe Temistocleia e o padrasto Eufemismo. O fogo, na voz de Asioteia, crepitava. Asioteia inquieta, Asioteia fogosa, Asioteia maravilhada com Píndaro; ele, alguns anos mais velhos do que ela. Asioteia atravessava a rua, onde moravam os seus pais, na Europa, Píndaro de um lado, Asioteia no outro lado da rua; era próximo à meia-noite, Asioteia gritava na porta de Píndaro, gritava nas janelas da sua casa, convidava-o a sair. Eles corriam e cantavam, bebiam por toda a noite.
Após assobiar a melodia, Von Wruund tamborilar demoradamente na velha mesa com os nós dos dedos, riu, gargalhou, comeu algumas aliterações, cochichou próximo ao rosto da cartomante-mor, usou abundantes muletas linguísticas, repetiu hum, né, ah, tipo, tá, sabe, repetiu tipo assim. Os castigos na biblioteca por pouco não me destruíram! disse Von Wruund; riu. Chinelão esboçou um desnutrido sorriso, desses de ocasião. O castigo, filho, numa biblioteca sem nenhum amigo, filho; a luz pouca, quase cega, o cheiro de livros velhos, sombra que lhe cercava com ameaças de devorá-lo, nos janelões altos se esparramava sobre os livros deitados uma cor alaranjada. Me aproximei, filho. Próximo, vi livro verde de capa azul, roxas páginas e outros de capa vermelha, filho. A infância medonha foi culpada por essa vida sem sal. Vida cheia de buracos, uma brochura que fedia a mofo.
Chinelão, nervoso, quis apertar-lhe a mão gorda; Von Wruund ignorou a ação do convidado. Chinelão avistou o espelho na sala e viu as heranças de Fulni-ô e de Angola, viu as características de Duarte Coelho Pereira e os últimos instantes do Bispo Sardinha em batalha contra os Caetés, e viu refletida no espelho a figura da nobreza alemã no corpo de Maurício de Nassau. Era uma história de quadrinhos; passou na frente de seus olhos quadrinhos de uma história; tudo era uma história quadro a quadro. Neste ponto, como se fosse uma criança na sala, tocou Chinelão no cabo da faca escondida sob a roupa; olhou nos olhos vivos de Von Wruund, fixou os seus aos dele. Chinelão viu estátuas de homens velhos barbudos trajados com lençóis brancos e esculpidos em mármores. Lesmava, e a janela fechou. Tu sabias, perguntou Von Wruund de braços abertos a Chinelão, filho, por que odeio artistas? O reflexo no espelho não abandonou as retinas de Chinelão. Tu sabes ou não, ó, Fortunato? Chinelão pareceu mergulhar num conflito sem fim, ignorando onde Von Wruund estrava ou aonde ia. Mastigou o nome V-o-n W-r-u-u-n-d. E, sem nenhum travessão, não encontrou o espaço necessário à sua manifestação oral. Os marcadores estavam em todas as partes. E por que Von Wruund emburacou por uma narrativa dessas e não daquelas? Talvez, talvez... fosse maluco! Era uma prova? E a cabeça parecia debaixo de uma chuva de interrogações. Onde ficou o mapa que pudesse me orientar a respondê-lo? Não sei. Se Von Wruund foi movido por uma causa, em alguma parte deve haver um efeito. Onde? Aonde eu vou, ainda não sei. Esse maranhão de detalhes me faz ver a vida de dentro de um labirinto. Nessa caverna escura, não me surpreendo se topar com Minotauro. Odeio, disse o Minotauro, porque me faz bem odiar a arte! Era, s-s-senhor? gaguejou Chinelão. Há coisas, senhor, meu senhor, que é como andar de triciclo. E correu entre os olhos de Chinelão a dúvida de qual era a armadilha mais comum – parecia um balão sobre a cabeça. Antes, Von Wruund assobiou canções, solfejou; logo depois, Von Wruund disse odiar artistas. Chinelão viu próximo a Von Wruund a sua estrutura, sem saber ler as estratégicas. Von Wruund cruzou os braços ao maranhão de detalhes que arrastou bruscamente Chinelão ao labirinto e à caverna escura, e lhe perguntou se ele sabia o que eram bajuladores? É simples que tu não saibas, ó, apedeuta. És um apedeuta. O Apedeuta, gente! anunciou. Ei-lo Apedeuta diante de mim. Eu amo este apedeuta. Quero dar-lhe, filho, boa posição social, quando chegarmos a Civitatis. Todos me lembrem disso! disse; olhou de lado e a cartomante-mor registrou em sua memória holográfica. Faremos apedeutas parte a parte em toda a parte. Um à parte! olhou se a cartomante-mor fazia as anotações devidas em sua ata holográfica. Perfeito! comentou Von Wruund. Quero deixá-los ricos, riquíssimos! riu. Mal sabia Chinelão que seria traído na próxima página. Ficou Fortunato calado; e olhava Von Wruund. S-s-sim, s-s-s-senhor, m-m-meu s-senhor! disse Chinelão em forma de agradecimento. Quanta honra, s-s-s-senhor. Me ajude, filho, a subir a montanha, ó, Fortunato, sem derrubar a pedra que levo na cabeça, e, lá em cima, eu lhe mostrarei a verdade. É a ética, filho, quem evita nas vacas os bezerros. S-s-sim, s-s-senhor.
A barriga de Von Wruund representava 63% de seu peso corporal. Nada há, filho, neste mundo que supere a amizade. E eu gostei de ti. Desde quando te vi, eu me afeiçoei. Mentiu o poeta ao dizer que só há amizade entre uma caveira e outra. Grossas baforadas de fumo deixavam a boca de Von Wruund em fatias. Tosse. Ri. Sacolejava-se-lhe uma das bochechas ao pigarrear. Logo ao recuperar-se daquela crise de tosse, Ó filho, ó filho, tu estás diante da virtude em pessoa. Von Wruund era um grande cutelo batendo os dentes, O que diferencia o ser humano, filho? Ó filho, modéstia, modéstia mesmo, filho, uma escorregadela parida de entranhas nos hipócritas. Com gestos cheios de avareza, o indicador e o polegar da cartomante-mor se mexiam, esfregavam-se violentamente. Não me olhe com uma cara dessas, filho. Nunca viu O Império dos Sentidos? quis Von Wruund se convencer; olhou em direção da cartomante-mor. Então é verdade, perguntou, que ninguém sabe o que é cinema? Uma lagartixa não podia entender o coração da águia. Uma águia podia entender o coração de uma lagartixa de parede? Chinelão o admirava pelos olhares de medo. À parte, ele saboreava as partes. Não me jogue na rua, ele disse, a rua é triste. E Von Wruund interrompeu Chinelão com estrondosa gargalhada; esta levou Chinelão a Civitatis. Não gostava de barulho de pés no assoalho de madeira, do barulho dos talheres nem do barulho dos pratos, das xícaras que se quebravam na cozinha, porque o pai era bruto. Não gostava do barulho dos dentes ao triturar o alimento, do barulho da janela ao abrir-se, do trinco, da porta ou da chave ao girar dentro da fechadura. Quando tudo voltava a ficar quieto, eu ouvia a voz dela; a voz dizia que tinha medo que o pai deitasse novamente em sua cama com o seu bafo de cigarro e de pinga e pedisse pra chegar pra lá e ser boazinha com ele. Ouvia as vozes das irmãs Líccia, Thrauuy e daquela outra que nem queria pronunciar o nome. Na manhã fria, o cheiro de café tomava conta da casa – o café e as bananas fritas. Papai deixava a igreja, na Rua dos Enforcados, e rumava à catedral, no Morro do Sovaco. No ofertório, ajudava; ajoelhava-se e lavava os pecados com as lágrimas na pia batismal; nas procissões, ele era o primeiro com o andor, com o pálio, com a vela. E a fábrica de s-s-s-sapatos, s-s-s-senhor? Não deixava Chinelão o barulho repetitivo e imaginário de máquinas de costura em sua hipotética fábrica de sapatos, o cheiro escapava pelas janelas e portas. Máquinas de costura viravam mulas sem cabeça, Chinelão perseguido por fogos corredores. O mundo próximo a guerrear de arco e flechas. Von Wruund era ou não um lobisomem? disse a si mesmo. Ou esse baiacu era só outro bruxo? A cartomante-mor garantiu que eu conseguiria a fábrica com Von Wruund. Ela mentiu? Não podia fazer isso comigo. Por que a cartomante-mor fazia isso na frente de Von Wruund? Percorria, com mão de veludo, as minhas pernas cabeludas e pousava sobre a minha maranduva que crescia e inchava a ponto de explodir. Chinelão não tirava os olhos de Von Wruund. E se ele perceber? Eles devem ter combinado toda essa farsa. Não lhe deixava o barulho de máquinas de costura em seu projeto de fábrica de sapatos. Chinelão ouvia o apito da fábrica exatamente no momento em que a cartomante-mor fechou a mão com toda a sua força. O apito da fábrica coincidia com o sinal da escola e da igreja. Papai tirava a mulher dos amigos pra dançar nas festas de igreja, fazia elas senti-lo, grudar-se em suas coxas. Mamãe não aprovava esse comportamento do pai. E ninguém, aqui dentro, soube dizer se outros mundos existiam dentro do mundo.
Ali, foi uma igreja, disse; depois, casa de massagens; hoje, é um restaurante. O que fazia a polícia, nessa hora, na calçada esburacada do restaurante? Chinelão não mais estranhava placas e placas que lembravam os antigos néons, no velho centro da cidade. Saiu do gabinete de Von Wruund com um gosto amargo na boca. E os olhos com aquela poeira alaranjada em toda a parte. Anoiteceu sobre o dia, e os dias não se diferenciavam das noites. Ainda se ouvia o barulho das bombas transportadas por drones. A chuva insistia; era como se o céu tivesse se transformado em imensa Lagoa Mundaú e Manguaba. O azul perdeu a sua majestade, e o céu alaranjou-se. Chinelão procurava, ali, em Pólis, um bar onde pudesse comprar amendoim torrado na casca. Durante o trajeto, na larga avenida iluminada por drones, os seus passos apressados não conseguiam levá-lo ao seu destino, e a fome não lhe deixava em paz; havia uma espécie de comichão, uma vontade inesperada daquelas que volta sem que você queira, sem que você a permita, mas ela insiste, ela força, ela quebra a barreira e reaparece; o desejo incontido, inconfessável de fazer tudo aquilo outra vez e outra vez e outra vez por infinitas vezes feito vício; era uma patologia inevitável e doce como uma manhã de sol num jardim de girassóis, onde se caminhava com a mão tocando as pétalas e, adiante, ouvia-se um canto de pássaro. E ainda havia pássaros? Era tudo tão estranho; ultimamente ficou estranho. Não quis mais voltar, não havia necessidade do retorno. Voltar por quê? Queria ir adiante; e foi. Naquela rua iluminada, naquela atmosfera laranja. A comichão não lhe dava sossego.
Um prato de grão-de-bico recém-saído do fogo. Um ovo frito. Uma xícara de café. O ovo sangra sobre o grão-de-bico. Acho que vou morrer amanhã. Acho que morrerei amanhã. Uma torrada, que eu mereço; eu mesmo torrei agora, agorinha mesmo. Fim do prato de grão-de-bico, fim do ovo que, até há pouco, sangrava sobre o grão-de-bico. Morrerei amanhã. Não há mais jeito. Caminho dentro da noite à procura de um bar onde possa grudar a barriga ao balcão e pedir uma porção de amendoim torrado na casca. É uma animação esse barzinho esquecido, essa passagem estreita, essa porta quase nesga espremida entre esses prédios altos. O céu promete derramar água durante a semana, água ininterrupta, uma chuva fina, uma poeira d’água. Desço degrau por degrau. Estou no porão do bar. Estou no balcão. Como amendoim torrado na casca, como os meus antepassados comiam à época em que Civitatis ainda não era Civitatis, semelhante a todo lugar; eram muitos nomes até ser chamado cidade. Um dia, Santana foi povoado, outro dia, foi aldeia, depois, passou a ser vila, de vila à ribeira, de ribeira à cidade de Santana. O que era? Civitatis. Mais um pacote desses, senhora; sim, esse, aí. Amendoim torrado. Obrigado, senhora. Ficarei naquela mesa ao lado das mulheres de rosa e flores no cabelo. Não, obrigado. Por hora, nada pra beber. Um prato de grão-de-bico recém-saído do fogo. Um ovo frito. Uma xícara de café. Vejo. O ovo sangra sobre o grão-de-bico. E assobiou, a exemplo de Von Wruund: Bombas estremecem coração das crianças/Como balançam casas, destrói a esperança/Nas redes miséria na rede balançando/E já é urgente que se encontre a mudança.
Ninguém se surpreendeu, na manhã seguinte, ao piscar as pálpebras e rever, nas redes, corpos retalhados e nus, cobertos por cascas de amendoim? E, na Pólis, as pessoas andavam curvadas com o peso da angústia; elas competiam, nos lixões, nos espaços desertos das ruas, disputavam um canto em um beco imundo ao lado de ratos. Via Chinelão, na janela do transporte que o levaria de volta a Civitatis. Via as praças, via os pés cansados levando vidas cobertas por uma pele estragada. Os bairros residenciais afastaram-se do centro da cidade desde o milênio anterior.
Eu observei, outro dia, um besouro que devia ter dez vezes o peso da aranha, mas, no instante em que o besouro ficou preso à teia, a aranha apareceu correndo de seu esconderijo e, rapidamente, imobilizou o alimento; as perninhas do besouro agitavam-se. O besouro sabia que ia morrer e aquele era o seu último sopro de vida. Por que eu não era filho de Von Wruund? A mãe dele, quando jovem, morou numa casa de enormes janelas; ela morava em cima de um morro debaixo de mangueiras balançadas por ventos extraordinários. Ao envelhecer, ela ficou com olhar perdido; e, nos dias de tensão, ficava sem saber o próprio nome nem onde estava. E papai tinha uma maneira diferente de vida, e viveu sozinho, descalço, em volta de casa, onde cultivava alface, brócolis, e atirava nos passarinhos com a baleadeira. A minha avó, na máquina de costura, noite e dia, dava conta da vontade de ficar rica, e nunca ficou. O passado passava na janela do transporte que devolvia Chinelão a Civitatis. O único bicho que sabia onde meter o bico era o urubu. Por que Von Wruund farpeia o povo? Eu não queria ser filho de Von Wruund. Não farpeio ninguém. Von Wruund, eu queria confessar um crime. Um crime? perguntou, pasmo. Confesse. O silêncio absoluto conduzia Chinelão a Civitatis. Confessasse. Minhas irmãs eram grandes, Von Wruund; elas, maiores do que mamãe, apanhavam na cozinha se surpreendias no meio da noite. Não havia mais fotos nem jornais. O alfabeto fenício não era mais usado; apagou-se o alfabeto etrusco, o alfabeto romano; vieram outros caracteres, o húngaro antes do árabe, logo o hanzi. A boca da mãe ficava um risco, e os punhos fechados, prontos pra quebrarem os dentes das filhas, Tu calas a tua boca, imunda! gritava. Calas tua boca imunda! Mamãe furiosa muito mais do que dez mil demônios ao arrecadarem almas ao reino. O texto, filho, é para ser melhorado, jamais jogado fora! disse Von Wruund, e Chinelão fitou os olhos dele, que se espremiam com a radiação da cor alaranjada. Os filhos de mamãe foram criados com pancadas na cabeça, Von Wruund, reduzidos a animais inúteis; ficaram todos desorientados. O texto, m-m-eu s-s-senhor Von Wruund, perdeu o contexto. E mamãe berrava, Sua sem-vergonha, me desculpe, mas não permito isso na minha cozinha. Mastigava o sem-vergonha, e cuspia. Cagava grosso. Me deu náusea. Sem-vergonha! gritava e corria atrás com uma barra de ferro. Êtanós! reclamava a nossa vizinha. Por fim, a mãe, Von Wruund, convenceu o pai a matar-se com uma taça de veneno. Só mais uma picada! ela disse, e ele aceitou. Agora, Inês também estava morta. Não queria dizer. O pai tava morto e o que eu sentia era a dor de ter-me separado dele. Eu me perdi no que se passou em mim desde aquele tempo. Eu vi o pai se passar. A mãe surpreendeu o pai e Bigodes-Vermelhos nus. Von Wruund continuava o fumo. O pai
antes de morrer emitia um som que lembrava um felino, uma fera acuada. Às vezes, a boca dele emitia um barulho lento e demorado igual a aqueles carros de boi, antigamente, ou falava uma língua que ainda não foi descoberta ou inventada.
Que cagaço! disse Von Wruund; dirigiu-se à cartomante-mor, Não me deixe esquecer o discurso que farei na Comissão. O debate da semana definiria quem iria continuar na categoria de humano e quem não seria mais reconhecido na referida espécie biológica. Isso tinha um preço? Não. Nada mais se media por valor; em seu lugar ficou a energia. Tu, Fortunato, viste buscar uma explicação sobre a mudança de conceito, direitos e obrigações à humanidade que ressignificaria, logo depois das Escolhas, quem poderia e quem não poderia ser considerado humano. Eu não tinha explicação nenhuma; e se acaso tivesse, também não te diria. S-s-sim, s-s-senhor. Tu querias uma vida mais perseguida do que a vida de uma reles barata? Ela sabia sobreviver. Aprendesse a sobreviver nesta outra humanidade, filho. Ó filho, tu nunca olhaste pelo buraco da fechadura? Tentasse uma vez. E o que é isso, s-s-s-senhor em suas mãos? Um livro! Foi a resposta óbvia de Von Wruund a Chinelão. E o que é isso, s-s-s-senhor? após esta pergunta, teve a impressão de ouvir uma gargalhada debochada a rasgar o ar dentro do transporte que o levava de volta à sua cidade, e a gargalhada ele a reconheceu como sendo da finada sua mãe. Se acaso houvesse alguma virtude em tudo isso, não me sonegasse. Hedone nos socorresse! disse ao descer do transporte. Ele estava de volta, mesmo em meio às cores alaranjadas. O céu não era mais azul. Chinelão estava em casa, reconheceu Civitatis.
O APEDEUTA
ContosPor Marcello Ricardo Almeida 22/06/2025 - 20h 09min
Comentários