O DESENVOLVIMENTO ENTRE ´´CATENGAS`` E ´´CHUMBETAS``

Crônicas

Lenivaldo Manoel Melo

Sob um olhar sociológico é deveras importante conhecer e entender a cultura local, essa colcha de retalho que compõe toda sociedade, para potencializar o desenvolvimento da região. Aplica-se, neste sentido, a teoria da “peteca” que afirma que uma sociedade é capaz de ir mais longe quanto maior for sua capacidade de ir atrás a sua história, tal qual a borracha do estilingue que quanto mais retorna mais lança longe à pedra.

Quando cheguei ao sertão de Alagoas na metade da primeira década desse século fiquei maravilhado com a riqueza linguística e a simplicidade de seu uso nos diversos seguimentos da sociedade santanense. Aliás, me parece que a língua é a mais democrática das instituições vigentes, a ferramenta de maior mobilidade social no globo e onde o popular e o erudito se esmaniam em uma cortina tênue de trocas e modismos que, por vezes, perduram.

Vi e ouvi muitas coisas: vi uma “catenga” no lajedo, vi um “chumbeta” de cabelo “agastado” falar bem de um político em um “arruado”, Vi menina “chumbregando”, e menino cheio de “remela”, Vi gente com “gastura”, vi “jeringonça” de todo tipo, vi muita “bagaceira”, mas o que me deixou perplexo foi o tal do “na hora” pela constância de seu uso e seu caráter polissêmico, quase me atordoam. Vivi uma angustia inquietante de entendê-lo.

Usa-se “na hora” em resposta à gratidão: “Obrigado – na hora”; no sentido afirmativo: “Podes fazer? – na hora” / Tá gostando? – na hora/ Tudo bem? na hora”; Em resposta a cumprimentos: “ Bom dia –na hora / boa tarde – na hora / Boa noite – na hora”; Como consentimento: “ Farei assim – na hora”; e pasmem, até pra namorar: “Te amo – na hora” / “ Foi bom pra você meu bem? – na hora” , para minha supressa encontrei também um portal de notícias no estado com o nome de “Tudo Na Hora”.

Refleti sobre a gênese do termo e encontrei um vácuo histórico, possivelmente por minha limitação para tais pesquisas. O sentido denotativo de “algo imediato” me fez associá-lo ao caráter hierárquico do militarismo, na terra dos marechais esta seria uma possibilidade, todavia a cultura e história local tem no cangaço a organização mais perto do militarismo; A figura do jagunço, comum à região, e sua submissão em constante relação de mando do fazendeiro pode, por vezes, ter contribuído para o uso de tal termo no sentido do atendimento imediato; Entretanto, é na existência de características feudais e nas relações submissas do agricultor que vende sua mão de obra ao fazendeiro, que me parece estar a maior contribuição para popularização do termo. Sua polissemia, no entanto, deve ser fruto da limitação vocabular para alguns indivíduos, esses mesmos oriundos das classes trabalhadoras.

O desafio é puxar a borracha da “peteca” até o limite de entender o falar e o agir de um povo, sua constituição enquanto sociedade e todo processo de aculturação existente no percurso. Trata-se de pensar a sociedade santanense e potencializar seu desenvolvimento a partir dos diversos vieses da cultura local. Que a intelectualidade local não acertem apenas “catengas” e “chumbetas” com suas “petecas”, mais apontem no sentido do desenvolvimento.

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