Sabe-se que o poeta alagoano Jorge de Lima encontra-se inserido no Contexto Universal da poesia. Invenção de Orfeu oferece valiosos subsídios para que se conheça um verdadeiro acervo cultural. Jorge de Lima não só se inspira no presente, vai muito além. Busca no passado histórico, mítico, religioso, literário, o motivo para o seu canto que nos faz entender que a poesia volta dialeticamente aos seus começos, que terão sido os próprios começos da linguagem, o homem descobrindo e abordando a natureza, marcando com o signo verbal a sua posse e guardando-a pela memória. Jorge de Lima fala de uma brasilidade complexa, concordando com Goethe quando afirma que a poesia é a linguagem do indizível. Como a poesia não se explica, o Brasil também nunca foi explicado. Compreende-se então o porquê de o Brasil e de a poesia andarem juntos. Os cantos de Invenção de Orfeu nos levam a um passado histórico e literário. O poeta fala dos nativos com sua beleza nua, desprovida de preocupação; da riqueza natural, da invasão, da cobiça dos estrangeiros, dos colonizadores, das fugas, da exploração dos escravos, das doenças, das revoltas e até mesmo das reclamações desses primeiros habitantes quando, nas cidades grandes sentem-se perdidos e sem rumo. Vejamos alguns trechos dos cantos de Invenção de Orfeu, que representam os primeiros habitantes do Brasil.
Vivo entrando em Lisboas babeladas /entre chins e japões pelas ruelas,
os domínios distantes me afogando, /cotovelado pelo Rei das quinas,
resgatados com fardos e tonéis, /descoberto de trajes e de galas.
O que há de refletir é a questão do titular que se torna outro. Nativos interados entre si, sem explicação, sentem-se ameaçados e acusados de intrusos. O invasor toma posse e o outro, assim classificado como o bruto, o selvagem, o animal, acata toda situação de cão acuado ou parte para o ataque, tornando-se o rebelde, o fugitivo, o procurado.
Sobretudo eu escravo de homem branco, /ó cunhãs, inocências e pobrezas,
curiosidades sobre meus amores, /visões de missionários, flor de peles,
narrativas de naus e manuscritos, /madeiras de Colombos e de Espanhas.
Tal qual Camões, Jorge de Lima fala de sua terra, exaltando-a com a mesma intensidade que o faz ver os desmandos cometidos por aqueles que de certa forma invadiram as terras de outros. Fala da beleza peculiar àquela terra ainda não explorada, ao mesmo tempo tão cheia de beleza.
Quero as índias! Ó mãe onde os caminhos? Elas se deixam confundir com a noite.
Pergunto-lhes de novo, elas se entreolham, /censuram-me a ambição, ficam perplexas,
esgueiram-se na noite recriada. /Finjo-me triste, busco direções./Elas estacam; ponho-me a chorar.
INVENÇÃO DE ORFEU DE JORGE DE LIMA
CrônicasLucia Nobre 05/06/2016 - 04h 43min
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