UMA TROVOADA NUMA NOITE ESCURA

Crônicas

*Antonio Machado.

O dia fora quente e abafado, a noite caiu morna, o céu encarasmuou- se, nuvens grosas pareciam carregadas dágua. A cacimba do Gameleiro estava apinhada de gente, esperando água já fazia mais de seis meses que a seca brava e tirana cruciava aquela região sertaneja.
Os relâmpagos começaram a cortar os céus, e a água na cacimba aumentou na minação. Sia auta, velha feiteira de panelas de barro, residente naqueles arrabaldes, dissera: Hoje vai chover forte, porque a água tá mais frouxa aqui na cacimba. Era a voz da experiência que falava, todos foram enchendo seus potes e saindo às pressas. A noite estava escura que nem breu. Foi quando Antenor disse, hoje a boca da noite, a cauã estava cantando na serra do Pedrão, e quando ela canta, já tá chamando a trovoada.
Trovões fortes começaram e estrondar no pé da serra. Maria Preta chamou Badé e disse: Feche a porta, que a trovoada não tarda. O filho apressou-se, porém dado seu defeito físico, enganchou-se numa cadeira velha e levou uma queda da peste, a mãe acudiu o filho que se debatia no chão de terra batida. O vento soprava forte, que retorcia os pés de coração- de –negro de beira de riacho, onde mansinha estava amarrada, foi quando Maria Preta no clarão do relâmpago se lembrou do animal e disse: “eita Bandé e mansinha? Dacumpouca vai se enganchar, ou mesmo o riacho vai botar uma cheia e levá a bichina”. Mas mãe, num tá nem choveno, ainda”.
Era uma trovoada das brabas, que estava se avizinhando, foi quando um relâmpago acompanhado de um trovão forte, apagou o candeeiro que bruxuleava numa mesa desforrada na cozinha. Virge meu Padim Cirço, disse Maria Preta, aproximando-se do filho, que estava pasmo diante do susto que ambos levaram.
Aí a chuva caiu, e caiu forte e muita. A água descia da serra levando tudo de roldão, no clarão e nas chispadas dos relâmpagos, via-se tudo alagado mesmo na noite escura.
Rôla e Calistêro, vinham da feira, ambos bêbados como sempre, aparavam-se no telhado da casa de Terto. Mata Sete que era poeta e gostava de cachaça, chegou também, e pediu uma lapada de cana a Chôcha de Bacalhau, que tinha uma bodega. Rôla ao ver o poeta de quem não gostava, disse: “ou ome, vamos simbora, que esse peste ta aí, e você já sabe cuma ele é, mode mangá de nóis”. Mas Calistêro, fez ouvido de mercador e continuou onde estava, e depois acrescentou: “ponde nóis vamo cum simiante trovuada nessa noite escura? O jeito é ficá poraquí mermo, seja o que Deus quisé”.
Siá Auta, já em casa, rezava o tempo todo, pois era muito devota. Terto tomou um canjirão de misturada mais Bozô de Ora, aí se animaram. Mata Sete olhando bem prá Rôla improvissou: “Rôla, onde andava você” / que nunca mais lhe tinha visto/ lhe juro por Jesus Cristo/ você é meu bem- querer/ eu num sei nem prú quê/ meu coração em desespero/ respeito seu Calistêro/ que é homem de bem/ pois lhe amar não convém/ pruquê a senhora é casada”.
Ta vendo Calistêro, esse peste já começou, disse Rôla. Ao que o marido respondeu: faça de conta que num tá vendo. E ele tá até elogiano agente. É assim mesmo, ele sempre começa, você vai vê outro verso que ele vai fazê, que vê ispere.
A água da trovoada cobria a estrada e se alargava nos cercados. O riacho já descia levando tudo, foi quando Maria Preta Chamou Badé e foram ver Mansinha que estava amarrada na beira do riacho. E ao chegarem só acharam a corda, pois a vaca já tinha descido na correnteza da água, deixando a dona em desespero.
Mata Sete tomou outro gole de cana e saiu-se com mais está décima:“Eu perto de Rôla/Rôla tano perto deu/ eu dou um cheiro em Rôla/ Rôla da outro neu”/ aí agente se agarra/ Calistêro entra na farra/ e agente amanhece o dia/ tomando cerveja fria/ e a noite vai passando/ na mais perfeita alegria”.
Foi quando Calistêro disse você, Mata Sete, já ta puchando para um terreno deferente, faltando com respeito cá mia muié, dona Rôla, você sabe que ela é uma muié direita, no tempo de mais nova andou com uns salto de purga cum você mermo, Zé Mulata, Bozô e outros, mais sempre me respeitou, hoje é uma boa dona de casa, e você me vem tirá a terreno, e eu sou ome da paz, e vamos simbora Rôla, que onde esse cabra chega e incrontra nóis é só prá mangá.
Foi quando Mata Sete disse: Calistêro, e você vai levá Rôla agora nessa chuva?Deixe prá amanhã bem cedo. Enquanto isto o casal tomava a estrada para Pedrão debaixo de muita chuva e as gargalhadas dos presentes.
O dia amanheceu com o aspecto de mais chuva, o povo acordou mais cedo que os outros, outros dormiram pouco. Maria Preta e Badé fizeram uma promessa a São Lunguinha que se a vaca mansinha aparecesse, dariam três pulos e três peidos além de uma noite de novena ao santo.
Pela manhã, Sabonete foi cavar barro para Auta fazer panelas, e encontrou mansinha enganchada nuns cipós de cururu, dentro do riacho da lama, não podendo tirá-la do cipoal, foi avisar a Maria Preta que chamou mestre Né, e juntamente com Badé, levaram a vaca a sua verdadeira dona.
Maria Preta estava feliz e disse a Badé, agora meu fio, vamos pagar a promessa, você pula, e eu peido, e a novena nois só vamos fazê no fim do ano, quando eu vortá do Juazeiro do meu padim pade Cirço.
A Cacimba do Gameleiro amanheceu deserta, até as ribanceiras caíram ante a fúria das águas da trovoada da noite anterior. Os sapos fizeram a festa coaxaram a noite toda, os barreiros, tanques e cacimbas amanheceram cheios de espuma flutuando sobre as águas sujas das primeiras chuvadas, parecia flocos de algodão numa safra boa, comparou Mata Sete, que pensou até em faze um verso sobre a trovoada, porém lhe faltou a inspiração. A força da água dos riachos arrancaram as cercas, sendo necessários uns dois dias de serviço para poder se reparar as cercas que foram levadas pela correnteza da água.
A tarde o sol abriu forte, mas numa aragem fresca tomou conta do fim do dia, e os formigueiros se assanharam, aí a tanajura saiu dos buracos dos formigueiros, e a molecada de cuia na mão gritava “tanajura cai na minha gordura”, e iam apanhando estrada afora, concorrendo com os sapos e os benti-vis, que muito apreciam esse petisco, foi uma tarde gorda, a boca da noite a tanajura cheirou no caco, e negrada comeu com farinha. Pois no sertão é prato saboroso, fazendo parte também da culinária sertaneja.

Comentários