A HISTÓRIA AMOROSA DE DONA HANNAH

Poesias

Dr. Marcello Ricardo Almeida

Ó, horas tão lerdas. A estrada da Palmeira se vai

indo; surgindo vem Hannah: Ah, se os aguaceiros

das chuvas de sonhos viessem formar valadas,

e inundassem o vácuo e essa falta de vergonha

da cidade; que batesse a caçoleta e se afogasse

no buraco do desgosto. Mas tudo se perde no céu

da boca; ao povo lhe falta coragem, falta-lhe catarse

nas ruas de cururus, de cobiças matemáticas tantas.


Murmurava a velha Hannah a um conhecido velho broco,

distribuindo ambos suas doenças psicossomáticas,

e emoldurados nas janelas dum casarão de loucos.


As casas de D. Hannah em Santana têm eira,

as casas de Santana-Sem-Água-E-Sem-Luz;

onde seu Ninguém cria ódio e mata ovelhas

formando sombras eternas de mandacarus.

Santana-Sem-Água-E-Sem-Luz cidade,

cidade que o mapa esqueceu de desenhar,

cheira a feijão na panela colorida de carnes;


c’roas-de-frades de gibão nas telhas, e outros briguenetes

desocupados em tulhas, alcagüetes; cantores de pabulagens.

Um poeta de cacoetes e emboladas. Solta a voz um violeiro;

FM Cidade aboia: Acooorda, Santaaaaaaaaaaaaaaaaaaana!

É assim que anuncia os bichos da sumana

com prejuízos envoltos em trapos de panos;

o sangue brincante dos moradores é sangue

de caminhantes há mais de uns 3.000 anos;

Esta Santana de Hannah com suas cisternas

de aranhas, de calangos, de catengas, de rixas

em suas ruas presas; o mormaço sem saída.


O lunático foge de Hannah; foge do hospício.


Lá vai o tempo sacolejante em lombo de burro;

que marmota: um rio despenca ao precipício;

um carro, dois, três carros morrem afogados;

a mulher do quebra-queixo não perde a hora;

um amarelo corruto ao açougue toca o gado

ao balanço das escolas de samba do passado

Poesia publicada em 16/10/2006

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