Ó, horas tão lerdas. A estrada da Palmeira se vai
indo; surgindo vem Hannah: Ah, se os aguaceiros
das chuvas de sonhos viessem formar valadas,
e inundassem o vácuo e essa falta de vergonha
da cidade; que batesse a caçoleta e se afogasse
no buraco do desgosto. Mas tudo se perde no céu
da boca; ao povo lhe falta coragem, falta-lhe catarse
nas ruas de cururus, de cobiças matemáticas tantas.
Murmurava a velha Hannah a um conhecido velho broco,
distribuindo ambos suas doenças psicossomáticas,
e emoldurados nas janelas dum casarão de loucos.
As casas de D. Hannah em Santana têm eira,
as casas de Santana-Sem-Água-E-Sem-Luz;
onde seu Ninguém cria ódio e mata ovelhas
formando sombras eternas de mandacarus.
Santana-Sem-Água-E-Sem-Luz cidade,
cidade que o mapa esqueceu de desenhar,
cheira a feijão na panela colorida de carnes;
c’roas-de-frades de gibão nas telhas, e outros briguenetes
desocupados em tulhas, alcagüetes; cantores de pabulagens.
Um poeta de cacoetes e emboladas. Solta a voz um violeiro;
FM Cidade aboia: Acooorda, Santaaaaaaaaaaaaaaaaaaana!
É assim que anuncia os bichos da sumana
com prejuízos envoltos em trapos de panos;
o sangue brincante dos moradores é sangue
de caminhantes há mais de uns 3.000 anos;
Esta Santana de Hannah com suas cisternas
de aranhas, de calangos, de catengas, de rixas
em suas ruas presas; o mormaço sem saída.
O lunático foge de Hannah; foge do hospício.
Lá vai o tempo sacolejante em lombo de burro;
que marmota: um rio despenca ao precipício;
um carro, dois, três carros morrem afogados;
a mulher do quebra-queixo não perde a hora;
um amarelo corruto ao açougue toca o gado
ao balanço das escolas de samba do passado
Poesia publicada em 16/10/2006
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