
Foto feita por mim quando coloquei no túmulo do Padre Cícero os presentes para o amigo
Já ouvi muitas histórias sobre Juazeiro do Norte, a terra do Padre Cícero Romão Batista, mas nunca havia sentido a aura daquela terra.
O meu avô, Alfredo Rodrigues de Melo, “Alfredo Labareda”, fundador do município de Carneiros, terra em que vivi os meus primeiros anos de vida, ancião respeitado pela sua dureza, terminou os seus dias, na sua última existência, na condição de evangélico. No entanto, um fervoroso adepto e admirador dos milagres do fundador do Juazeiro. Não cabe aqui contar o porquê, pois a história é longa, mas quem sabe um dia contarei.
No período de 04 a 06 de junho de 2015, tive a oportunidade de visitar a terra do Padre Cícero, na companhia do Dr. José Arrais Onofre. Visita essa a trabalho, mas nela pude vivenciar diversas experiências que enriqueceram a minha vida. Uma, em especial, tratarei neste texto.
Quando resolvi a nossa viagem ao Juazeiro, e sabendo que um amigo devoto do Padre Cícero passava por certos problemas, comuniquei a ele que faria essa viagem. Então, pediu que um dia antes o encontrasse para que levasse um bilhete ao “Padim Ciço”, com o que prontamente concordei e ele ainda fez um pedido: já que era analfabeto, que fosse ao seu local de trabalho para que redigisse o tal bilhete.
Mas, por ironia do destino, esqueci da promessa e só me lembrei do amigo quando estava na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde está sepultado o corpo do Padre Cícero. Pedi licença ao meu companheiro de viagem e sai até um lugar em que pudesse me comunicar com o amigo que deixei em Santana do Ipanema. Fiz uma ligação telefônica e no diálogo perguntei se ele sabia onde eu estava e ele prontamente respondeu: - É você? Está no Juazeiro do “Padim Ciço” e se esqueceu de mim! Eu, prontamente, disse-lhe que havia esquecido de ir fazer com ele o bilhete, mas estava ali para cumprir a minha promessa. Peguei um pedaço de papel e pedi para que ele fizesse o pedido, escrevi e no dia seguinte coloquei no local destinado aos pedidos no Horto do Padre Cícero. Na ligação, informei que estava comprando um rosário, uma imagem do Padre Cícero e um pequeno adorno da lapela. E, também, que iria à Igreja do Socorro, colocaria essas compras no local onde foi sepultado o corpo do Padre Cícero e faria um pedido para o amigo. Ele agradeceu e aceitou a nossa indicação.
Assim o fiz, coloquei os presentes do amigo e, silenciosamente, a minha maneira, coloquei as intenções do romeiro que estava no Sertão Alagoano.
Continuei as atividades para a qual nos propomos, visitamos amigos, ganhei presentes que acredito ser tesouros e que há bastante tempo procurava. Dentre os presentes estava o livro PADRE CÍCERO – A sabedoria do Conselheiro do Sertão, de autoria do professor, historiador, jornalista e escritor Daniel Walker.
Assim que retornei à Santana do Ipanema comecei a ler essa obra e, para minha surpresa, encontrei um relato no texto, extraído de um livro do pai do autor que me deixou arrepiado, o qual transcrevo na íntegra:
Zeca Marques, meu pai, em seu livro Milagres e previsões de Padre Cícero, escreveu com base em depoimentos prestados por amigos:
No tempo do Padre Cícero, os comerciantes de artigos religiosos: Joaquim Mancinho, Pedro Magalhães, Dandão, Lourencinho e Beata Rita também eram proprietários de casas para hospedagem dos romeiros que chegavam a Juazeiro. Para os romeiros falarem com o Padre Cícero eram obrigados a fazer compras na loja do proprietário do rancho em que estavam hospedados.
Logo depois da morte do Padre Cícero, Joaquim Mancinho contou-me o seguinte fato: “Eu, disse ele, estava certo dia na sala de espera da casa do Padre Cícero, esperando chegar a minha vez para apresentar meus romeiros a ele, quando se deu uma discussão entre a Beata Rita e Manoel Lucas (sócio de Lourencinho). Cada qual queria apresentar primeiro seus romeiros ao Padre Cícero. Da sala vizinha, onde o Padre Cícero recebia os visitantes, ele ouviu a discussão e levantando-se da rede aproximou-se dos dois e disse: – Vocês vão logo se acostumando porque está bem próximo de meus romeiros chegarem a Juazeiro, podendo se hospedar onde melhor achar conveniente, fazer suas compras onde bem lhes convém, me visitar a qualquer hora e eu atendo suas preces, benzo suas imagens, seus terços e rosários sem ser preciso a interferência de vocês. Disse mais: “Isso acontecerá três anos e meio depois da minha morte. “Estarei aqui em espírito e verdade para velar por esta cidade que será perseguida, mas não vencida”.
Em 20 de dezembro de 1937, decorridos 3 anos e meio de sua morte, que ocorreu em 20 de julho de 1934, os devotos do Padre Cícero observando a má vontade de alguns sacerdotes em benzer as imagens que compravam, quando entre elas estava o retrato do Padre Cícero, daí em diante, por conta própria, passaram a se dirigir à Capela do Socorro, onde o corpo do Padre Cícero está sepultado e põem em cima da lápide do túmulo, seus objetos religiosos para serem bentos, fazem suas preces e saem contentes e satisfeitos como se ele ali estivesse. (WALKER Daniel 2009 p. 65 e 66).
Ao concluir essa leitura, parei um pouco e coloquei o meu senso crítico para funcionar, analisando todos os acontecimentos vividos. Serão coincidências as vivências de tantas pessoas que se repetem ano a ano?
Contei o acontecido por meio de um e-mail para uma amiga que muito estimo e que tem uma longa ligação com o Juazeiro do Norte, a antropóloga santanense Luitgarde Oliveira Cavalcanti de Barros, que me respondeu com a seguinte mensagem: “Muito bem, quando voltar ao Juazeiro dê lembranças ao Daniel Walker e reze muito na Igreja do Socorro, que o Padre Cícero abençoa a todos. Bendito seja quem vai ao Juazeiro. Abração, Luitgarde”.
Hoje, ao escrever essas linhas, posso assegurar com a batuta de pesquisador, que muito ainda teremos que conhecer daquela terra encravada no Vale do Cariri, mas que, na Aura do Juazeiro do Norte, a presença forte do Padre Cícero é algo notável, até para os céticos.
Santana dos meus Amores, junho de 2015
Comentários