Santana do Ipanema - quarta, 08 de setembro de 2010
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Crônicas
08/02/2010
O LEVADO DA FEIRINHA
Lúcia Nobre
Tornava-se impossível prosseguir a aula quando Elisiário chegava sempre atrasado. Parecia que seu objetivo era tumultuar a turma. De banca em banca, perturbava os colegas. A mesma cena era repetida todos os dias. Chegava quase na hora do recreio, suado, sem material escolar e com uma grande bagagem de rancor. Não dava para continuar naquela condição, as outras crianças eram tranquilas, ocupadas com suas atividades escolares; ele tomava o caderno de um, o lápis de outro, batia nas bancas e ignorava a professora. Era uma turma de alunos do segundo ano do ensino fundamental e a Escola da Rede Municipal de Maceió. Antiga FEMAC. Escola Antônio Brandão no Bairro do Tabuleiro.

Sabíamos da situação de todos os alunos da escola, mesmo assim, compareciam normalmente. A maioria dos pais não tinha como manter os filhos na escola, no entanto, eles estavam ali, alguns, com mais dificuldades que outros. O importante é que estavam na escola. Sempre houve deficiência na escola pública, fazíamos o possível para cumprirmos com nossa parte. Falo dos professores conscientes de sua profissão.

Deixei alguém tomando conta da turma e sai para conversar com o garoto, que, com dificuldade, aceitou acompanhar-me. De inicio, o menino esquivou-se, não mostrava vontade de conversar. Pouco a pouco, acalmou-se, contou o que o afligia. Sua mãe não queria que fosse à escola. Sua obrigação era trabalhar na feira. O menino tinha oito anos e ajudava os compradores da feirinha do Tabuleiro a carregar as compras. Sempre argumentava diante da mãe, que poderia estudar em um horário, o outro, cumpriria sua tarefa na feira. Não havia acordo para a mãe. Assim tornou-se um menino revoltado e ganhou o apelido de levado da feirinha.

Elisiário, com os olhos cheios de lágrimas, dizia-me que queria muito estudar. Tinha inveja dos meninos da escola, por isso, os maltratava. Estava ali escondido da mãe. Aquela era a razão de não estar arrumado para a escola e sem livros. Diante daquela situação e por que não dizer revelação, conversei com os professores e responsáveis pela educação na escola. A mãe de Elisiário atendeu ao nosso chamado e confirmou o relato do menino. Reafirmava mais ainda a necessidade do seu trabalho. Quem colocaria o alimento para os irmãos menores?

O pessoal da escola comprometeu-se em contribuir com o necessário para que Elisiário estudasse. Uma professora ofereceu trabalho em sua residência para sua mãe. As coisas foram mudando, o menino não mais trabalhou na feirinha em horário escolar. Alguns anos depois, encontrei o nome de Elisiário na minha caderneta do Instituto de Educação no CEAGB (Centro Educacional Antônio Gomes de Barros). Procurei entre os alunos e o reconheci. Aparentava um jovem de aspecto feliz. Em resposta a minha pergunta, cursava o pedagógico, rumo ao magistério, queria ser professor.

Passaram-se mais alguns anos e com surpresa encontrei novamente Elisiário. Estávamos os dois participando de um trabalho sobre educação. A surpresa para ambos foi gratificante. O jovem havia concluído a Universidade Federal e atuava como professor em uma Escola Estadual. Dizia ser uma pessoa que sempre procurava obter o melhor, mesmo com as dificuldades corriqueiras.
 
 
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